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Questões de independência

Uma leitora que é educadora profissional conta que observa que muitos pais -mães, em especial- tomam atitudes em relação à vida escolar dos filhos que demonstram excesso de cobertura aos caprichos destes. Concordo com ela, que, bem-humorada, criou um discurso que ela chama de "pela independência das crias" -que não ganha boa repercussão entre os pais. Vamos, então, por meio de exemplos, pensar a respeito dessa boa questão.
Em tempos de Olimpíada, o número de pedidos de pais às escolas para que seus filhos saíssem mais cedo ou entrassem mais tarde para assistir aos jogos foi considerável. Sim, muita gente gosta de assistir às competições, crianças principalmente. O problema é a intervenção dos pais.
A vida escolar é a primeira responsabilidade que as crianças devem enfrentar por conta própria e isso resulta em crescimento. Além de estudar, elas adquirem o que podemos chamar de aprendizados colaterais, como administração do tempo, organização das rotinas, priorização de atividades, renúncias temporárias ao lazer.
Todo aluno tem direito a faltar na escola. Eles sabem disso, os pais também, e as faltas não precisam ser justificadas pelo aluno nem moralizadas pela escola. O aluno pode simplesmente faltar para assistir aos jogos, para namorar, para ficar dormindo, para ir ao médico, para se recuperar de uma gripe, para acompanhar os pais em uma viagem. Os motivos não são importantes, mas, para tanto, o aluno precisa aprender que deve regular suas faltas para poder usá-las quando necessário ou desejado e que precisa arcar com as conseqüências.
Quando os pais interferem e fazem esses pedidos à escola, atrapalham seus filhos no trajeto que precisam realizar para a conquista da autonomia e da responsabilidade porque resolvem, pelos filhos, questões que eles deveriam saber como solucionar -tanto em relação à ausência nas aulas quanto às conseqüências dela.A única coisa que os pais ensinam aos filhos quando agem assim é que fazem tudo para que eles não enfrentem a realidade.
Tenho vários outros exemplos que podem ser analisados à luz desse primeiro: atrasos que os pais assumem como responsabilidade sua, solicitação para que a escola não exija muito da criança por ela estar vulnerável ou sensível, justificativas pela não-realização de trabalhos, recusa em aceitar sanções aplicadas pela escola etc.
Sabemos que cabe aos pais o papel de proteger seus filhos, mas essas atitudes não são protetoras, são infantilizadoras.Como a segunda parte da infância tem como principal característica o crescimento da criança, os pais precisam permitir que seus filhos aproveitem as oportunidades que têm para crescer, e elas estão principalmente relacionadas com a vida escolar nos cinco primeiros anos do ensino fundamental.
Muitos pais ainda acham que, aos oito anos, é cedo para que os filhos aprendam isso, mas vale lembrar que, no mundo atual, eles têm aprendido muitas outras coisas da vida -essas sim, precocemente.Por isso, em vez de poupá-los de seus problemas, os pais precisam encorajá-los a encontrar as melhores soluções, levando em conta principalmente a realidade.
Escrito por Rosely Sayão às 19h36

O quadro negro da educação escolar brasileira
A Revista Veja publicou, na semana passada, uma reportagem a respeito da educação brasileira baseada em pesquisa que encomendou à CNT/Sensus. De modo bem resumido: o resultado aponta que o ensino escolar brasileiro é aprovado por professores, pais e alunos tanto da escola pública quanto da privada.
Qual o problema de tal parecer de todos os envolvidos na questão do ensino escolar? É que o resultado das avaliações das quais o alunado brasileiro participa mostra que o conhecimento que eles têm é de baixo, bem baixo nível, comparado ao de alunos de outros países. Só como exemplo: o Brasil está em 52º lugar em ciências e em 53º em matemática em uma lista de 57 países. Isso quer dizer que os melhores alunos brasileiros ficam nas últimas colocações em tais avaliações.
O que os pais podem fazer para ajudar a melhorar esse quadro? Em primeiro lugar, cobrar da escola que seus filhos freqüentam que esta ensine aos seus alunos - e exija a realização diária - os requisitos necessários ao trabalho intelectual. Atenção, concentração, persistência, esforço são, entre outras características, aspectos importantes do aprendizado. Disciplina para e pelo trabalho é o que deve ocorrer na escola.
Quando entro em uma sala de aula e vejo alunos fazendo lições ou assistindo à aula balançando constantemente a carteira, brincando com o material desnecessário que carrega consigo, sentados de qualquer maneira e conversando freneticamente, constato que a disciplina para o trabalho intelectual não faz parte da exigência dos professores. E isso não se pode esperar que o aluno aprenda em casa porque é na escola que ele se inicia nessa função.
Outra coisa que chama muito minha atenção é que, quando o professor faz alguma pergunta a respeito do que está ensinando e os alunos respondem, os argumentos usados por eles são muitas vezes vazios de sentido, a linguagem é rasa e, mesmo assim, os professores aceitam o que os alunos dizem sem observação alguma.
Por outro lado, os pais precisam de distanciamento da escola para ter uma visão crítica do trabalho que ela realiza. Hoje, o mais comum é que os pais desenvolvam uma afetividade pela escola muito estimulada pela proximidade com os profissionais que lá trabalham, que os alunos aprendam a gostar dos professores e, assim, a submissão aos afetos compromete a visão crítica do que lá acontece.
Precisamos e podemos mudar, mesmo que vagarosamente, esse quadro. As novas gerações brasileiras merecem um ensino melhor, praticado com seriedade e o rigor que o conhecimento exige. A hora de brincar na escola é a hora do recreio. Durante as aulas, é hora de trabalho, trabalho e mais trabalho.
Como eu já disse, as crianças não são de cristal: elas agüentam, sim, aprender e estudar sem que o clima da sala de aula seja parecido com o do recreio.
Escrito por Rosely Sayão às 10h32

Os desafios das novas famílias

Temos uma grande novidade no mundo contemporâneo: as novas famílias, construídas principalmente a partir de separações e novos casamentos, mas também de uniões que dão origem a famílias antes impensadas, como as que têm como matriz a união de um casal homossexual.
Homens e mulheres que um dia se uniram e tiveram filhos e depois estabeleceram novas relações -homossexuais após a primeira ter sido heterossexual, inclusive- criaram novos grupos familiares bem complexos. E as relações entre os integrantes desses grupos diversos têm sido um grande desafio.
Recebo com freqüência mensagens de leitores que falam a respeito dessas dificuldades: o relacionamento com ex-maridos e ex-mulheres dos primeiros casamentos tem sido o tema campeão, em pé de igualdade com a relação com enteados e com filhos, que agora convivem com pais que estabeleceram relações muito diferentes das originais.Além das uniões homossexuais, há os casais com diferenças de idade fora do padrão, ou seja, o homem mais novo que a mulher. Muitas mulheres com filhos adolescentes se uniram a homens bem mais novos, com idade próxima à de seus filhos.
Vale a pena lembrar, em primeiro lugar, que tudo o que estava implícito em uma união estabelecida por um casal agora não pode mais ser considerado como certo: tudo deve e precisa ser explicitado, acordado, pactuado pelas duas pessoas -quem sabe três?- que decidem se unir e compartilhar a vida presente e, se der tudo certo, futura. Trata-se, em suma, de um contrato sem precedentes entre pessoas que pretendem compartilhar a vida. O casamento -ou o relacionamento, como muitos têm chamado- precisa ser reinventado.
Desse modo, temas como fidelidade, respeito, companheirismo, tipo de relação a ser estabelecida com os ascendentes e descendentes -inclusive os da união anterior- precisam ser motivo de conversas, negociações, ajustes e combinações. E é bom saber, nessa hora, que conviver bem não significa, de modo nenhum, viver sem conflitos. Ao contrário: conviver bem supõe aprender a negociar os conflitos que surgem.
Também não têm mais sentido os papéis atribuídos por antecedência, que funcionavam bem nos casamentos anteriores. Como as funções do homem e da mulher se confundem cada vez mais no mundo contemporâneo, as pessoas precisam saber que compartilhar, colaborar, dialogar e compreender são palavras-chave na construção de um relacionamento. Tudo o mais são modelos a serem superados.
Finalmente, é preciso reconhecer que as novas famílias supõem a reunião de, no mínimo, duas famílias, e isso exige a organização de um novo grupo.Estereótipos que temos da relação entre ex-companheiros, de genros e noras com sogros, de enteados com seus respectivos padrastos são, atualmente, apenas chavões a serem revistos com a originalidade que as novas famílias pedem para que confirmem seu importante papel na contemporaneidade.
Escrito por Rosely Sayão às 11h02

Descoberta da sexualidade

Sexualidade é e sempre será um tema espinhoso. Combinada com a educação dos filhos, então, nem se fala! Pois é exatamente nessa situação delicada que estão muitas mães de garotas que já entraram na puberdade e vivem a adolescência ao modo contemporâneo.
Várias delas, muito comprometidas com a educação das filhas, inclusive na questão da formação dos valores, sempre encontram maneiras de se inteirarem dos costumes dos jovens para melhor orientá-las. E um fato as tem deixado bastante preocupadas.
É que muitas garotas têm curtido -como elas gostam de dizer- ficar com garotas, sem que isso signifique a descoberta de sua orientação sexual. Além disso, muitos jovens têm feito apologia da bissexualidade. Interessante é saber que eles associam isso à liberdade.
As mães acham que é um modismo, mas talvez possamos pensar melhor a respeito. Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que a descoberta da sexualidade adulta é um acontecimento importante na vida dos adolescentes. E essa descoberta ocorre, primeiramente, em relação às sensações.
A excitação física, o prazer, a satisfação dos impulsos e até o orgasmo são questões experimentadas com entusiasmo pelos jovens, e não sem razão. Ao lado disso, é importante lembrar que nosso contexto privilegia as sensações -portanto, essa questão, que já fazia parte da vida dos adolescentes, encontra-se potencializada. Eles são praticamente impelidos para essa busca. Ouvi uma frase interessantíssima de uma garota a esse respeito. Ela disse que se divertir com experiências sexuais tinha o mesmo sentido de ir a um parque de diversões e que viver tinha de ser divertido.
Outro ponto importante a considerar é a questão do corpo. Em fase de transformações nem sempre com resultados satisfatórios para eles, a aparência é o primeiro elo no que se refere à atração. Nesse momento da vida -e, pelo jeito, não mais apenas nesse período-, é a aparência que aproxima ou repele. E, como eles estão muito submetidos aos modelos de corpo impostos, têm grandes dificuldades em serem donos de seu próprio corpo.
Isso gera uma conseqüência: se o corpo não lhes pertence, não conseguem cuidar dele segundo seus pensamentos e princípios. É quase uma dissociação entre o que pensam querer para si na vida e o comportamento que praticam. Uma garota de 13 anos disse que é totalmente contrária ao aborto, mas que, caso precisasse, certamente iria utilizar esse recurso.
Diante de tal complexo panorama, os pais têm muitas possibilidades de orientar os filhos na questão da sexualidade, mas sem esquecer que eles são bastante permeáveis às ideologias do mundo em que vivem e que a educação dada, por melhor que seja, não é vacina contra nada.
Talvez o que mais funcione seja a formação coerente, que começa bem cedo, dos limites entre vida íntima e convívio social, da importância do respeito às diferenças e do ensinamento de que qualquer comportamento gera conseqüências.
Os pais precisam saber que a educação sexual de seus filhos não é uma questão separada da educação como um todo e que ela começa quando o filho nasce. Dedicar-se a ela quando os filhos são adolescentes pode ser tarde demais.
Escrito por Rosely Sayão às 11h39

A hora do recreio na escola
Um dos trabalhos que faço quando realizo assessorias para escolas é o de instituir assembléias de classe e essa é uma experiência muito enriquecedora para alunos e educadores. Ontem, tive a oportunidade de realizar duas dessas assembléias, com alunos de 4ª e 5ª série, e sempre fico impressionada com o que acontece nesse momento dedicado à reflexão da convivência.
Sabemos que as escolas enfrentam problemas complexos no que diz respeito à chamada disciplina dos alunos. Um dos problemas nesse sentido é o da violência entre eles e esse foi o tema escolhido pelos alunos para ser debatido.
A hora do recreio, tão querido por eles, tem sido um dos momentos mais difíceis nas escolas justamente pelas inúmeras brigas que ocorrem. Soube, inclusive, que muitas delas têm diminuído a duração do recreio por causa disso.
Os alunos são os que mais sofrem com tal situação já que quando querem brincar, conviver, espairecer, precisam enfrentar provocações, brigas de grupos – panelinhas, como eles dizem – disputas acirradas de espaços e de jogos, agressões.
O mais interessante é que os alunos sabem que o motivo principal que permite que tudo isso aconteça é a falta da presença de adultos responsáveis e com autoridade nessa hora para mediar as relações entre eles. E o que ouvi ontem dos alunos dessas salas foi um pedido de ajuda, de socorro. O que podemos fazer em relação a isso?
A hora do recreio precisa também ser considerada um momento educativo, e todo processo educativo com os mais novos exige a presença de educadores, não é verdade? Por isso, as escolas precisam se organizar para que, no recreio, os alunos sejam acompanhados de perto por professores – que podem fazer um rodízio para garantir seu momento de descanso – e outros adultos que trabalham na escola, como inspetores, por exemplo, que precisam de formação e treinamento constantes para realizar bem esse trabalho.
Você sabe como acontece o horário do recreio na escola que seu filho freqüenta? Já ouviu reclamações de seu filho a respeito do que acontece nessa hora? O espaço é organizado para promover uma boa convivência entre eles? Há adultos preparados acompanhando, mesmo que à distância, tudo o que acontece para intervir sempre que necessário?
Essas são questões importantes sobre o funcionamento escolar que os pais precisam ter conhecimento. Para muitos alunos, essa é a hora preferida deles na escola e, portanto, precisa ser bem cuidada. Afinal, uma boa convivência social - e nosso mundo está precisando muito disso - também exige um longo e difícil aprendizado.
Escrito por Rosely Sayão às 11h44

Perfil falso no Orkut

A mãe de duas adolescentes me escreveu contando que as filhas criaram perfis no Orkut em nome de atrizes famosas e que ela não sabia como reagir. Considerava estranho que as garotas falassem em nome de outra pessoa, mas, ao mesmo tempo, pensava que poderia ser apenas brincadeira -já que, segundo as filhas, os freqüentadores do site de relacionamento saberiam que se tratava de um perfil "fake" (como são denominados os falsos).
Como eu nunca ouvira falar dessa prática, deixei para conhecer melhor esse fenômeno comum entre os jovens antes de comentar. Coincidentemente, quase ao mesmo tempo, fui avisada por uma amiga de que ela encontrara, no mesmo site, um perfil "fake" em meu nome.
Resolvi, então, pesquisar para constatar que tipo de "brincadeira" era essa. Primeira dificuldade: não conseguia entrar no site porque não sou cadastrada. Isso dificulta sobremaneira que pessoas que têm a identidade roubada possam acompanhar o que se passa na página criada em seu nome. Segunda dificuldade: conseguir contatar os administradores do site para que apaguem o perfil.
Fiz isso, e eles pedem uma série de documentos para quem solicita que seu perfil seja apagado, mas não pedem para quem cria, não é insólito? Depois, eles simplesmente não respondem.Esperei mais de três semanas para ter a página em meu nome e com minha foto apagada.
Não se trata de brincadeira, e sim de enganação, de fraude. Um advogado me informou, inclusive, que tal fato pode ser enquadrado como crime de falsidade ideológica. Na página criada em meu nome, por exemplo, muitas pessoas acreditaram que realmente fosse eu e encaminharam mensagens solicitando ajuda. Essas pessoas foram enganadas e algumas até forneceram dados pessoais ao autor da página, que, pelo texto, parecia se tratar de adolescente. Considero isso grave.
Os pais de adolescentes que sabem que os filhos fazem isso precisam ensinar que não se trata de uma brincadeira, e sim de fraude -e esse é um aspecto importante na formação moral do filho, futuro cidadão. É bom que os pais saibam também que há uma grande diferença entre se fazer passar por uma pessoa que existe e criar um perfil falso de si mesmo -o que pode até ser uma atividade criativa, que permite autoconhecimento e que não prejudica ninguém.
A internet tem sido palco de práticas problemáticas entre adolescentes. Muitos deles a usam para ofender, caluniar, expor colegas em festas etc.O livro "Gossip Girl" e o seriado nele inspirado têm feito sucesso entre a garotada e narram a história de um grupo de adolescentes ricos que têm sua vida exposta na internet por uma blogueira anônima. O sucesso tem sentido porque diz respeito ao que acontece entre eles, provoca identificação.
Muitos pais acreditam que os adolescentes podem usar a internet sem supervisão. Engano: eles precisam de tutela -e não apenas do tempo de uso-, já que podem sofrer ou provocar constrangimentos e passar por experiências desastrosas. Aprender a usar bem a internet exige ensinamentos, afinal.
Escrito por Rosely Sayão às 11h42

Brinquedo de adulto
Uma notícia na internet me fez saber que uma jovem mãe de 23 anos foi presa porque portava em seu celular fotos de seu filho de dois anos e dois meses com um cigarro na boca e com um revólver calibre 38 nas mãos apontando para a câmera. Ela confirmou que as fotos estavam mesmo em seu aparelho e disse que viu quando as tiraram, mas que não se dera conta da gravidade do fato.
Ao ler essa notícia, lembrei-me das muitas mensagens que chegaram pedindo que eu comentasse uma reportagem, exibida no programa Fantástico, a respeito de mulheres, a maioria delas sem filhos, que colecionam um determinado tipo de bonecas. Ainda não assisti ao programa, que parece estar disponível em sites de vídeos, mas mesmo assim aproximei os dois fatos e muitos outros que ocorrem no mundo contemporâneo.
Ocorreu-me a idéia de que temos construído um lugar especial para as crianças neste mundo: o lugar de brinquedo. Muitos adultos têm filhos e querem brincar com ele: satisfazer a todas as vontades que manifestam, encher de mimos, deixar a criança com uma imagem moderna, arrumada sempre que possível em cabeleireiros, bonita e limpa, comprar um monte de acessórios para eles etc. A foto tirada dessa criança é um belo exemplo. Esse bebê não foi mesmo tratado como se fosse um brinquedinho que tem a finalidade de realizar os caprichos de seu dono?
Como brinquedo - que tem o objetivo principal dar prazer - a criança não pode atrapalhar a vida dos adultos: em festas eles precisam de gente para cuidar delas, em finais de semana precisam de babás folguistas, em férias precisam de monitores, e quando exigem a intervenção firme dos adultos, estes desertam já que não tinham esse plano quando decidiram ter filhos.
Este pensamento é apenas uma conjectura, exagerada eu sei, mas que deve servir de alerta porque um acontecimento radical sempre diz algo a respeito do nosso estilo de vida e o contexto em que vivemos tem tudo para que nós, adultos, nos coloquemos na posição infantil. Basta analisar rapidamente o mundo da publicidade. E, quando isso acontece, as crianças de verdade ficam sem lugar.
Tenho certeza que muitos de vocês conhecem pais e mães que se comportam desse modo em relação aos filhos. E a pergunta que devemos nos fazer é: que adultos serão essas crianças no futuro se são tratadas como brinquedos dos adultos do presente? E, a questão seguinte é: como será o futuro da humanidade?
Vale lembrar que essa tendência é global e não apenas nossa. Quem costuma assistir a vídeos em sites especializados, como o “youtube”, sabe que muitos pais, de diferentes nacionalidades, se divertem filmando seus filhos nas situações mais absurdas possíveis por pura diversão e entretenimento pessoal.
Escrito por Rosely Sayão às 11h45

A escola deve ser responsabilidade dos filhos
Na volta às aulas, os pais bem que poderiam fazer um acordo com os filhos: a vida escolar, com tudo o que ela implica, deve ser responsabilidade só destes.
Hoje em dia, tal acordo é bem difícil de ser feito já que o êxito escolar passou a ser meta buscada com todo esforço pelos pais. Isso dificulta muito que os filhos entendam que estudar, aprender, se esforçar para conseguir dar conta do que a escola cobra é problema deles e não dos pais.
Do jeito que muitos pais se comportam – seja indo continuamente à escola para tentar encontrar soluções para as dificuldades que os filhos lá encontram, seja sentando junto para fazer, muitas vezes por eles e não apenas com eles as tarefas passadas, seja estudando junto – os filhos apenas realizam tarefas e não assumem a vida escolar como compromisso e responsabilidade deles. É como se estudar e ter notas, no mínimo medianas, fosse algo que precisasse ser feito apenas para a satisfação dos pais.
Assim, fica bem mais difícil que as crianças e os adolescentes entendam cada vez um pouco mais que estudar é algo que tem a ver com eles, com a vida deles e não com a dos pais.
Claro que o acordo a que me refiro não significa dizer aos filhos que a vida escolar é uma batalha deles e esperar que eles façam sozinhos o que precisa ser feito. Isso seria abandonar os estudantes à sua própria sorte. É preciso lembrar que crianças e adolescentes ainda não conquistaram plenamente a autonomia, ou seja, a condição de autocontrole que possibilita, por exemplo, que a pessoa priorize suas responsabilidade e só depois use seu tempo para o lazer.
Para fazer tal acordo é preciso deixar claro ao filho o que se espera dele em relação à escola e, depois, cobrar, lembrar, tutelar a realização do que é necessário para que a responsabilidade escolar seja cumprida.
Muitos pais ficam tão ansiosos e aflitos com a vida escolar dos filhos que acabam por nem dar espaço para que estes assumam, do seu jeito, essa responsabilidade. E aprender a se conhecer na relação com o conhecimento e suas exigências é condição importante para saber como se comportar em relação a isso, não é verdade? Esse é o melhor caminho para que os mais novos se apropriem dos estudos.
É importante lembrar também que aprender é algo difícil: exige, em primeiro lugar, o reconhecimento de que não se sabe algo, de que envolve o risco de errar, de que é preciso perseverar frente às dificuldades que surgem e, principalmente, de que é necessário aprender a controlar a angústia que todo esse processo cria. Por isso, muitas vezes as crianças evitam encarar os estudos: para fugir desse difícil processo de crescimento.
Desse modo, em relação aos estudos, dos pais os filhos precisam principalmente é do encorajamento necessário para saber que têm potencial e capacidade para enfrentar com êxito todo esse processo.
Escrito por Rosely Sayão às 00h00

Sobre pais e avós

Temos tido efemérides em excesso. Quase todo dia é data para comemorar algo, mas, em geral, quem comemora é o comércio. Mas vou juntar duas dessas datas bem próximas para nossa conversa de hoje: o Dia da Vovó (final de julho) e o Dia dos Pais (início de agosto).
Por que juntar essas duas figuras, aparentemente tão distintas na formação da família? Ser pai e ser avô ou avó hoje tem sido uma experiência diferente daquela que conhecemos. Mas não deixa de ser curioso o fato de que o Dia dos Avós seja conhecido popularmente como Dia da Vovó, não é? Vamos considerar os avós em geral.
Até pouco tempo atrás, eles tinham uma função privilegiada na relação com os netos: o bom mesmo era desfrutar da relação com as crianças, o que é renovador para os velhos. Criança tem energia de sobra, é afetiva e, quando mimada, responde mais carinhosamente ainda no relacionamento. Já com os filhos que se tornaram pais, o papel dos avós era principalmente o de passar a experiência acumulada.
Não podemos esquecer que esse fato era de extrema importância, já que não existem cursos para se tornar mãe e pai, não é? Por isso, a lembrança da educação recebida, mesmo que fosse para ser usada como contra-exemplo, acrescida das dicas dos avós, constituía patrimônio importante na conduta dos jovens pais.
Agora, cabe a grande parte dos avós outras funções. Com os netos, parece que acabou a festa, e muitos avós precisam assumir o papel de mãe ou de pai substituto, respondendo pela função educativa. Isso tem ocorrido principalmente porque os jovens pais têm se dedicado intensamente à carreira, à profissão e à vida pessoal. Além disso, sabemos que muitos avós assumiram a responsabilidade de serem os principais provedores econômicos da família dos filhos.
Tal fato pode gerar conflitos entre as gerações: pela dependência econômica, os jovens pais se sentem dependentes e sem autonomia para exercer com autoridade e liberdade seu papel com os filhos. Um problema a ser superado.
Outra mudança importante na relação dos avós com seus filhos é justamente no que diz respeito à transmissão do conhecimento. Como o mundo se transformou radicalmente, muitos jovens recusam os conselhos e as dicas que seus pais poderiam dar na lida com os filhos. Nesse lugar, colocam os profissionais que, parece, são considerados mais competentes. E os avós ficam, portanto, relegados ao segundo plano nessa importante função.
E os pais? Eles têm construído uma relação de maior proximidade educativa com os filhos: acordam de madrugada, alimentam os filhos, colocam-nos para dormir, levam-nos para passear etc. E, para as mães, esse é um fato recebido de modo contraditório, incrivelmente. Por um lado, elas se sentem apoiadas na árdua missão materna, mas muitas hesitam em aceitar que os maridos façam as coisas a seu modo. Outro problema a ser superado.
Pais e avós têm um desafio em comum: construir um novo modo de exercer seus papéis na família contemporânea e contribuir para a formação das novas gerações.
Escrito por Rosely Sayão às 13h31

Confusões escolares inúteis e evitáveis
Muitas escolas já retomaram suas atividades. Fui a uma delas e, depois de um período longe, é possível enxergar melhor alguns fatos que já nos acostumamos a presenciar e considerar normal, mas que de modo algum favorecem um clima bom para os alunos.
A primeira coisa é a chegada. Os pais fazem tamanha confusão nessa hora que os alunos já entram de modo conturbado num ambiente que exige concentração, foco, esforço e tranqüilidade. Malas enormes guardadas no porta-malas do carro exigem que os pais gastem um tempo para deixar o filho e seu material – exagerado, como já comentamos aqui – e os que ficam esperando atrás já se estressam: pais e filhos. Isso sem falar que quase todos os pais querem parar exatamente em frente ao portão escolar e que muitos deixam os filhos bem antes do início do período da aula.
Depois de começar o ritual escolar já dessa maneira agitada, os alunos entram com verdadeiras malas de viagem com rodinhas, correndo, e nem toda escola tem pessoal para tutelar esse momento. Resultado: é nessa hora e no horário de saída que muitos incidentes desnecessários ocorrem.
Depois, ao chegarem à sala de aula, o que tem de material de consumo absolutamente desnecessário que as crianças levam é uma coisa incrível. Isso gera distração, disputa e até pequenos furtos. Caderno, lápis e canetas simples é o suficiente. Vocês nem imaginam o tamanho dos estojos que eles levam, que fica caindo da carteira, provocando confusão, e as malas enormes precisam ficar no fundo da sala – quando não fora – para que o espaço seja mais das crianças do que de material.
E tem mais: agora é moda as crianças levarem brinquedos para a escola. Não precisa: com estes, elas devem brincar em casa. Na escola, devem aprender a brincar em grupo, a conviver, a inventar e aprender novas brincadeiras. Os pais não deveriam permitir que os filhos levassem brinquedos para a escola, mesmo os menores já que a escola tem material suficiente para seus alunos.
No final das contas, só para organizar o material a ser usado em aula na carteira, mexer naquela mala enorme etc. e tal, já vai meia hora. Meia hora que deveria ser usada para estudo.
Na hora da saída, me chama a atenção o grande número de crianças que ficam esperando os pais por até uma hora para irem para casa. Terminado o trabalho escolar, a criança deveria ir logo para casa, não é verdade?
Tudo isso atrapalha a vida escolar do aluno e depende só dos pais melhorarem essa situação. Que tal um esforço nesse sentido?
PS: descansei bastante e senti saudade de nossa convivência aqui no blog.
Escrito por Rosely Sayão às 13h41

A abordagem profissional da infância
“Tenho uma filha de dois anos apenas e ela está há pouco tempo em uma escolinha de recreação infantil. Estou muito satisfeita com isso pois ela não tinha muita convivência com outras crianças e sinto que esse fator está ajudando-a a desenvolver a independência e a fala. Porém, sinto que minha filha continua muito tímida, principalmente quando estamos em locais públicos: ela nem sai do meu colo. Estou um pouco preocupada, dizem que é só uma fase, mas gostaria de alguma dica de como identificar se devo ou não procurar ajuda de um profissional.”
Quase todo mundo já ouviu a frase “os pais terceirizaram a educação dos filhos”, que tem um caráter crítico e de julgamento de muitos pais. A frase passa a idéia de que muitos não querem assumir a responsabilidade e o trabalho pela formação dos filhos, mas a mensagem de hoje de nossa leitora permite que pensemos melhor a esse respeito.
Nossa leitora está aflita com o comportamento de seu bebê, pensa que ele pode ter problemas e que ela não tem como ajudar. Aí está: no mundo contemporâneo, convivemos com a idéia de que é preciso ser especialista para criar os filhos. E os pais, caros leitores, são vítimas dessa idéia. Resultado: hoje, crianças com até dez a nos já contabilizam experiências de trabalho com psicólogo, fonoaudiólogo, fisioterapeuta, nutricionista etc. e tal.
Conseguimos, no mundo atual, colaborar para que os pais sintam uma boa dose de insegurança para realizar a tarefa que pode ser considerada a mais importante de suas vidas: criar os filhos para que realizem o potencial que têm, para que se tornem pessoas de bem e saibam conviver em sociedade, para que tenham valores e se desenvolvam da melhor maneira possível. E quem mais, senão os pais, para ter potência para tanto?
Acontece que, desde a década de 80, mais ou menos, introduzimos – e a escola tem boa parcela de responsabilidade nessa história – a necessidade de especialistas cuidarem de nossas vidas, e as crianças têm sido o maior alvo desse conceito. Desse modo, muitos pais, como nossa leitora, passam a acreditar que há problemas que exigem tratamento profissional. No caso dela, não há necessidade disso.
Um bebê de dois anos pode ser mesmo do modo como ela conta que a filha é, apegada à mãe e pessoas de contato próximo, mas isso não é indicativo de problema algum. Aliás, quem foi que disse que timidez é problema?
Claro que há casos de crianças que exigem um atendimento profissional em alguma área, não é disso que tratamos hoje, mas sim de pequenas dificuldades ou características que os próprios pais podem ajudar o filho a superar.
PS: estou em pequeno período de descanso, por isso atualizarei o blog apenas uma vez nesta e na próxima semana. Beijos a todos.
Escrito por Rosely Sayão às 13h32

Pais X escola
Nada melhor do que os pais aproveitarem as férias para pensar um pouco a respeito de como se relacionam com a escola. Afinal, esse distanciamento permite pensar com menos paixão em questões importantes dessa relação que, costumam dizem, é crucial para a educação dos filhos. Tanto é assim que esse relacionamento tem sido chamado de parceria por pais e mestres.
Por enquanto, tal designação soa mais como anseio, já que a realidade se mostra bem diferente. Há mais rivalidade e desconfiança entre pais e mestres do que associação. E, para pensar num dos aspectos desse assunto, tomo um exemplo, que deve ser muito parecido com centenas de outros que ocorrem aqui e acolá.
A porta de um banheiro feminino de uma escola apareceu toda rabiscada com textos pejorativos a respeito de uma aluna que foi claramente identificada nas frases. A escola, por meio de seus representantes, conversou com a classe envolvida e decidiu que todas as meninas da sala participariam de um mutirão para limpar a porta.
Abro neste momento um parêntese: não sei se os pais sabem, mas muitos alunos costumam ter atitudes extremamente nojentas -para não usar outros adjetivos- quando usam os banheiros das escolas. Os funcionários precisam, muitas vezes, sujeitar-se a situações humilhantes para colocar o local em condição de uso.
Cito alguns exemplos, que ouvi tanto de alunos quanto de funcionários e que ocorrem igualmente nos banheiros femininos e masculinos: latinhas de refrigerantes cheias de fezes jogadas dentro das privadas, fezes e urina sobre a tampa da privada abaixada (!), papel higiênico molhado com água ou urina jogado no teto e nas janelas, privadas entupidas com os mais variados objetos etc. Certamente, essas crianças e esses jovens não fazem isso em casa, sabem usar corretamente um banheiro, mas não se sentem no dever de aplicar o que sabem quando estão num espaço público. Por que será?
Voltemos ao exemplo ocorrido. Nele, a atitude que a escola tomou pode ser considerada adequada: não cabe a ela o papel de investigar os culpados por esta ou aquela transgressão, e sim o de ensinar aos alunos que o espaço de todos é responsabilidade de todos, que a vida em grupo exige dedicação e esforço e, principalmente, que, quando um dos integrantes do grupo erra, outros precisam tentar cobrir sua falha.
As alunas realizaram a tarefa, mas uma das mães ficou indignada porque não aceitou o fato de a filha, que se declarara inocente no ocorrido, ter participado da limpeza. E, para mostrar sua indignação, fez o registro da ocorrência contra a escola em uma delegacia de polícia. Quando chegamos ao ponto em que pais procuram a polícia para mediar sua relação com a escola -e essa atitude tem ganhado adeptos a cada mês- é sinal de que a situação atingiu um patamar lamentável.
A relação entre pais e escola é quase sempre tensa, principalmente porque os primeiros consideram o filho um ser único e a segunda o considera um aluno entre tantos outros. Nos tempos atuais, isso é sinônimo de conflito que poderia ser dialogado, explicitado, explicado.O problema é que o confronto e o embate têm sido as estratégias preferidas por muitos pais e por muitas escolas.
Isso não pode dar certo, já que a educação familiar e a escolar são complementares na formação dos mais novos. Talvez seja interessante que grupos de pais de cada comunidade escolar se formem para acompanhar, mediar e conciliar os conflitos que surgem entre os interesses dos pais e os da escola na busca de preservar os princípios da boa educação.
Escrito por Rosely Sayão às 11h10

A infância em duas cores: rosa e azul
Uma leitora escreveu: “Estive no Shopping Eldorado neste sábado e fiquei muito incomodada com a configuração da loja de brinquedos PBKids, dividida entre "brinquedos de menina", decorada com a cor rosa, e "brinquedos de menino", azul por toda parte. Sou professora de educação infantil e sempre defendi o direito dos meus alunos de brincarem com os objetos que mais lhes interessassem. Quando eu era criança, carrinhos eram apenas carrinhos e ferrinhos de passar apenas ferrinhos de passar. Porém, de tempos para cá, tanto as fábricas quanto as lojas de brinquedos têm buscado demarcar fortemente os territórios das atividades femininas e masculinas, antes por meio das escolhas das cores e personagens da mídia e agora nominalmente. O que está acontecendo?”
Compartilho com o espanto de nossa leitora: muitas vezes, ao observar lojas de brinquedos, programas de televisão dirigidos a crianças e inclusive a orientação que muitos pais dão a seus filhos quando estes brincam, imagino que passei por algum tipo de túnel do tempo e fui parar mais ou menos na segunda metade do século passado.
Sim: já tivemos o tempo da divisão rígida de brinquedos para meninos e para meninas e isso valeu como regra até o fim da década de 50. Depois disso, com a contribuição de novas teorias educacionais e principalmente com a emancipação da mulher, pouco a pouco abandonamos essa atitude e passamos a permitir que as crianças escolhessem seus brinquedos sem grandes preocupações.
E não é que agora parece que estamos em movimento de retrocesso nessa história? Por que será?
Tenho algumas hipóteses. Uma delas é a imensa preocupação de alguns pais com a orientação sexual dos filhos. Sim, caros, muitos pais atualmente pensam desde muito cedo na possibilidade de o filho ou filha ter orientação homossexual no futuro.
Percebo isso ao ouvir perguntas preocupadas de pais e de professores de educação infantil a respeito de comportamentos que consideram “feminino” em meninos ou “masculino” em meninas; além disso, muitos pais perguntam também se o número de pessoas homossexuais tem crescido; finalmente, é cada vez maior a crença de muitos pais de que eles podem – e devem – determinar o futuro dos filhos por meio de atitudes que tomam quando estes são ainda pequenos.
Resumo da ópera: muitos pais e professores querem saber como evitar que as crianças de hoje se tornem homossexuais na vida adulta e, claro, o mercado de consumo capta esse anseio e transforma em ação. Essa minha conjectura faz sentido, não faz?
O que considero curioso nessa história é que, justamente quando atingimos na vida em sociedade um patamar considerável de luta contra preconceitos, construímos um mundo que – pelo menos no discurso – respeita a diversidade e incentiva a convivência com a diferença e, principalmente, quando a informação de que a homossexualidade deixou de ser considerada desvio ou doença é amplamente difundida, surge essa reação.
O que mais podemos e devemos fazer para que as crianças brinquem em paz, sem a interferência de nossos medos e preconceitos? A questão está aberta e o convite para a reflexão e sugestões está feito. Participe!
Escrito por Rosely Sayão às 20h13

Ranking de pais

Muitas escolas comprometidas, que realizam um projeto de trabalho claro, em busca de uma prática mais coerente com suas propostas teóricas e de aprimoramento, estão pressionadas por causa do resultado do Enem.
Desde que há um ranking de escolas usando resultados de exames desse tipo, elas são avaliadas pela comunidade de acordo com a posição alcançada. As escolas consideradas de maior qualidade são as que estão pelo menos entre as 15 primeiras. E tem mais: agora se faz também a relação entre a mensalidade e o ranking, pode?
O resultado do exame não pode ser descartado por completo, é claro, mas também não deveria ser levado tão a sério quanto tem sido. Afinal, o trabalho escolar realizado por oito anos (agora nove) no ensino fundamental e, depois, no ensino médio não pode ser computado em uma prova. Por quê?
Ora, porque alguns alunos não produzem tudo o que sabem por ficarem tensos em situação de prova, outros por ainda não terem se acostumado a passar por avaliação de forma ritualística, outros porque não estão no melhor dia quando fazem a prova, outros ainda porque não dão valor à avaliação.
Claro que também há alunos que não apresentam resultados melhores porque a escola não realiza a contento seu papel. Mesmo assim, isso não pode ser deduzido apenas pela prova. A escola não é só instrutora de conteúdo, certo?
Uma colega educadora profissional, muito espirituosa, manifestou de forma bem-humorada sua crítica ao estardalhaço que se faz com o tal ranking de escolas. Ela disse que os pais só entenderiam o que significa isso se fizéssemos também um ranking de pais.
Adorei a idéia. Aliás, as escolas que faziam e ainda fazem, de forma velada, a malfadada prova para a entrada de novos alunos não deixam de agir assim, não é mesmo? Mas, poderíamos aprimorar o processo.
Para alunos da educação infantil, a avaliação seria tanto das crianças quanto dos pais. A estes, poderíamos fazer um questionário para avaliar, por exemplo, se contam histórias a seus filhos, se fazem ofertas culturais a eles, se praticam educação moral e ensinam virtudes, se têm disponibilidade para acompanhar de perto o trabalho da escola e se são modelos coerentes de pais. E, para as crianças, avaliaríamos o quanto é efetivo o trabalho realizado pelos pais, ou seja, veríamos se a criança demonstra curiosidade pelo mundo à sua volta, se sabe se comportar em situações diversas, se seu conhecimento prévio está de acordo com o esperado etc.
Para alunos do primeiro ciclo do ensino fundamental, o esquema ainda seria semelhante ao citado acima. A avaliação dos pais verificaria itens como disponibilidade para realizar parceria com a escola e comparecer às reuniões, capacidade de organizar o tempo do filho para estudo e para exigir dele compromisso e responsabilidade com o trabalho escolar, condição de delegar de forma respeitosa a educação escolar à instituição de ensino etc. Com os alunos, se poderia verificar se sabem acatar limites e conviver respeitosamente com os colegas, se assimilam bem as lições dadas, se sabem respeitar os adultos etc. A combinação dos dois resultados permitiria elaborar o ranking de famílias, e as escolas disputariam os primeiros colocados e dispensariam os outros.
Com alunos do ciclo final do ensino fundamental e os de ensino médio, os pais poderiam ser dispensados do exame porque, afinal, os filhos já deveriam ter incorporado o trabalho educativo, não é?
Essa brincadeira serve para mostrar a falta de bom senso que é avaliar o trabalho das escolas apenas pelo resultado dos exames de seus alunos. Os pais não precisam levar tão a sério os tais ranking escolares.
Escrito por Rosely Sayão às 00h11

O peso do resultado escolar dos filhos
Vamos atender ao pedido do André enviado no post abaixo, que transcrevo:
“Precisamos tomar uma decisão urgente sobre nosso filho de 15 anos. É um adolescente adorável, mas vai muito mal na escola - uma das mais tradicionais de SP e que pagamos com dificuldade. Ele ADORA a escola, mas não estuda. Não alcançou 17 dos 20 objetivos da 1ª série do Ensino Médio no primeiro trimestre, mesmo após provas de recuperação. Pelo que analisamos, isso é um misto de formação fundamental deficiente (optamos por colocá-lo em um colégio menor naquele estágio e a escola fechou quando ele estava na 5ª série), falta de estímulo e disciplina em casa (sempre o deixamos livre achando que ele deveria aprender a ser responsável), mudança para um colégio mais "forte" (passando raspando), pressão doméstica por resultados diante do preço do colégio e, principalmente, imaturidade emocional, cultural e intelectual. E agora: mudamos para uma escola mais "fraca" ou insistimos? Facilitamos para ele ou devemos mesmo expô-lo ao desafio? É o futuro dele em jogo.”
O que a vida escolar dos filhos é capaz de provocar nos pais, não é verdade? O mundo atual inflacionou o valor do resultado do estudo na vida de crianças e jovens e isso mais atrapalha do que ajuda os mais novos a enfrentarem as dificuldades próprias dessa tarefa. Então, talvez a melhor coisa seja começar por aliviar esse peso.
Quando jovens como o filho do André ou crianças vão mal na escola, não é o futuro deles que está em jogo. É apenas o jogo da vida que faz com que eles tenham outras prioridades nesse período: ora é o futebol, ora o videogame, o interesse pela sexualidade e por relacionamento afetivo com pares, aparência etc. Por isso, nada de se desesperar: eles terão tempo para recuperar o que, num ano e/ou outro, perdem. A angústia dos pais pressiona os filhos que, por sua vez, não conseguem encontrar seu caminho para dar conta dessa primeira batalha que enfrentam na vida.
A compreensão desse fato não libera os pais, é claro, de exigir um mínimo de produção dos filhos em sua responsabilidade escolar que, certamente, estes conseguem realizar. Mas, para que isso ocorra, os pais precisam ajudar, agir.
Algo que chama a atenção na mensagem de André é justamente o fato de ele esperar que o filho aprenda a ser responsável por si mesmo. Isso não deu certo, então os pais precisam mudar de atitude. Administrar o tempo do filho, mesmo que temporariamente, para que ele a prenda a colocar no mesmo dia diversão, lazer e ócio e o cumprimento de suas responsabilidades é uma dica. Deixar claro direitos e deveres também, tanto quanto o fato de que o filho será responsável por garantir seus direitos ao cumprir seus deveres.
Uma coisa que quase nunca dá certo é usar argumentos como o valor da mensalidade e o sacrifício que os pais fazem para pagar uma boa escola ao filho. Isso não ajuda o jovem ou a criança a entender que a escola é problema dele e não dos pais. Por isso, se o valor for muito alto, melhor transferir para uma escola com mensalidade menor, mais compatível com o orçamento familiar. Afinal, caros pais, as escolas são muito mais parecidas entre si do que imaginamos.
Caso haja deficiência na formação básica, os pais podem ajudar o filho a localizar as mesmas e buscar superá-las. Imaturidade cultural e intelectual – desconfio de tal diagnóstico, entretanto – podem ser facilmente resolvidas com literatura das boas, por exemplo. Mas sem objetivo pedagógico: nada além de ler por gosto, para melhor entender o mundo, a humanidade e a si mesmo. Imaturidade emocional se resolve com os pais precipitando o filho no processo de amadurecimento, Eles precisam crescer e amadurecer na adolescência e, isso sim, é que coloca o futuro deles em jogo.
Por fim: trocar ou não de escola? Os adolescentes já podem opinar nessa questão e, de acordo com o posicionamento deles, os pais podem fazer alguns acordos. Caso o filho do André queira permanecer na escola – aliás, os jovens adoram a escola mesmo e não os estudos – precisará dar conta de tantos objetivos no primeiro tempo do semestre a seguir, outros tantos no próximo e assim por diante. Mas o melhor é que a decisão seja tomada pelos pais, de acordo com que pensam ser o melhor para o filho. Uma ressalva: nem sempre acertamos nisso.
Finalmente: férias, por pior que tenha sido a produção dos filhos no semestre que passou, é tempo de trégua na questão escolar, ok?
Quem mais pode ajudar o André e outros tantos pais que passam pelas mesmas dúvidas, angústias e ansiedades? Está aberto o espaço de colaboração solidária, troca de experiências e tudo o mais. Vamos lá!
Escrito por Rosely Sayão às 14h15
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