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Agressividade sem controle

Quando tragédias acontecem, em geral ficamos comovidos e emocionados, solidários aos parentes das vítimas. Lamentamos o fato, procuramos entender suas causas etc. Não deixa de ser uma maneira de a sociedade exorcizar os demônios da angústia e do medo que surgem com a constatação de que "eu ou os meus poderíamos estar envolvidos em situação semelhante".

Na semana passada, testemunhamos duas tragédias: o seqüestro, fruto de um rompimento amoroso entre um jovem e uma garota, que acabou na morte desta, e o confronto das polícias civil e militar. Por associação, esses fatos tão nefastos podem dar origem a reflexões bem diversas. Por exemplo: o que a educação dos mais novos pode absorver de tudo o que aconteceu?

Em primeiro lugar, já deu para perceber que os adultos se encontram, de modo geral, com a agressividade descontrolada.Vemos isso nas brigas no trânsito, entre vizinhos, nas filas etc. Passou a ser "normal" receber ou dar cotoveladas, no sentido literal ou figurado, quando freqüentamos o espaço público. Ora, tal atitude inviabiliza a convivência social!

É claro que o estado da convivência pública contamina e afeta os mais novos, que o reproduzem: onde há grupos de crianças e adolescentes, a agressividade se transforma em violência entre os pares e contra o patrimônio. Tal e qual os adultos, eles não se envergonham dos atos que praticam contra os outros, o que significa que pouco se importam com sua imagem perante o outro. O problema é que a vergonha moral é um sentimento importante na formação e na ação moral em sociedade.

Relembrando as tragédias citadas, percebemos que nem os policiais nem o seqüestrador demostraram sentir vergonha de seus atos. Isso é preocupante e deve nos fazer pensar se damos valor aos ensinamentos do agir moral e da convivência em sociedade. Parece que preferimos eleger a competição como o mais importante, não é?

Em segundo lugar: os sentimentos têm merecido nossa atenção na educação? Quando uma criança explode por raiva ou se descontrola por ciúme, ela precisa conhecer o sentimento que a assaltou e saber que ele é legítimo, mas que sua expressão precisa ser controlada porque incide sobre o outro.

Finalmente, que valor e sentidos temos dado às leis? Para que cumpram o papel de nos proteger, é necessário ensinar a obediência a elas. Não a obediência cega e passiva, é claro. É preciso, também, aprender a se rebelar contra algumas leis e a analisá-las criticamente, mas a transgressão pura ou o confronto truculento e irresponsável não costumam ser os melhores caminhos para isso. Temos tratado sobre isso, nas escolas, principalmente?

A educação não pode ser considerada a única condição para mudar a sociedade, mas é de grande importância no processo de manutenção da vida democrática. Precisamos honrar tal compromisso quando educamos filhos e alunos.


 

Escrito por Rosely Sayão às 10h42

Pressa na educação infantil

Nesta época do ano, muitos pais tomam atitudes práticas em relação à matrícula do filho para o próximo ano e, para os que têm filhos na primeira infância, isso pode gerar uma série de dúvidas. Quem tem filho com idade entre quatro e cinco anos pode se atrapalhar: afinal, em qual série a criança deve ser matriculada no formato do ensino fundamental com a duração de nove anos? É bom notar que algumas escolas, com suas orientações, só aumentam a confusão.

Em primeiro lugar, é preciso entender que a educação infantil não é uma preparação para o ensino fundamental. A nomenclatura das escolas (G1, G2 etc.) aponta, em geral, a idade base para a formação do grupo. Assim, G4 diz respeito apenas ao grupo de crianças que iniciam o ano letivo com quatro anos completos ou a completar.

Não há seriação na educação infantil a não ser a de idade. Que, por sinal, poderia não existir. Afinal, por que agrupar crianças de mesma idade? Sabemos que os ritmos delas são muito diferentes na primeira infância. A convivência e o aprendizado conjunto independem da homogeneidade.Tenho convicção de que o agrupamento por idade empobrece os aprendizados com brincadeiras na primeira infância.

Considerado isso, é importante concluir que nenhuma criança "repete" o ano ou fica "retida" em educação infantil.Uma criança é considerada imatura perante seus pares? Ora, isso é um julgamento com base em teorias do desenvolvimento que desconsideram a criança em sua individualidade e em seu ritmo pessoal.

O problema é que há uma data de corte para a matrícula no primeiro ano: a criança deve ter seis anos completos ou a completar até o final de junho para iniciar o ensino fundamental. Essa é uma decisão meramente formal e legal, ressalto.

Assim, pais com filhos que cursaram o G4, mas completaram quatro anos em setembro, por exemplo, são informados pela escola de que o filho irá "repetir" o ano a fim de estar na idade certa na época de iniciar o fundamental. Orientação e informação incorreta, já que, como vimos, não há nem deve haver seriação em educação infantil. A criança com menos de seis anos pode freqüentar a escola por dois, três anos ou até mais que sempre aprenderá coisas novas. Não há criança adiantada ou atrasada na escola nessa idade, está claro?

Agora, é preciso considerar que muitos pais estão ansiosos por apressar a entrada do filho no primeiro ano. Por quê? Essa pressa é fruto, principalmente, do receio de que o filho se "atrase" em relação a outras crianças da mesma idade. Num mundo tão competitivo, muitos pais entendem que a vida escolar será decisiva para o êxito futuro do filho. Nem sempre, apontam as pesquisas.

Conclusão: alguns meses de diferença entre crianças de seis anos podem não significar nada. Um ano a mais ou um ano a menos de vida escolar no ensino básico também podem ter pouco ou nenhum efeito. O mais importante é checar o projeto da escola para a educação infantil e para o primeiro ano do fundamental.


 

Escrito por Rosely Sayão às 11h19