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Folha Equilíbrio

Olho por olho

Uma notícia parece que puxa outra: nos últimos tempos, o tema da violência entre crianças e adolescentes, geralmente ligados entre si pela escola, está em diversas reportagens. Agressões físicas com conseqüências sérias entre grupos ou de um grupo contra um aluno e intimidações das mais variadas estão em maior evidência. E não importa a idade das crianças, tampouco a classe social a que pertencem: a violência está presente em todos os segmentos.

Tal fato exige que foquemos nossa atenção, em primeiro lugar, no mundo adulto. Devemos resistir à tentação de demonizar as gerações mais novas. Se elas se relacionam de tal maneira é porque, primeiramente, vivem em uma sociedade bastante tolerante com a violência e que até a estimula.

Um exemplo: na prática, a maioria dos pais tem boa intenção e ensina aos filhos que não devem fazer uso da violência de nenhum tipo. A não ser, é claro, se forem agredidos. A orientação dada, nesses casos, costuma ser que reajam com violência. Desse modo, o ato violento reativo é incentivado. Mas violência é violência, ativa ou reativa, e sabemos que gera mais violência ainda.

Do mesmo modo, a escola também faz diferença entre as duas modalidades: alunos que praticam um ato violento em primeiro lugar costumam ser penalizados mais duramente do que os que reagem com violência. Como resultado, crianças e jovens criam a idéia de que quem agride é corajoso e quem não revida é covarde.

Parece que esse fenômeno de disseminação de relacionamentos violentos entre os mais novos tem como principal causa a ausência de relações reais entre os adultos e eles. Em nome da liberdade das crianças, de sua autonomia e do exercício de sua criatividade, entre outras coisas, nos retiramos de seu mundo e permitimos a construção de uma "república de crianças e de jovens".

O que não consideramos é que, na ausência da autoridade dos adultos, eles ficam submetidos à ditadura de seus pares ou do grupo em que convivem. E quem conhece crianças e adolescentes sabe que eles são muito mais tirânicos e rígidos do que os adultos. Eles não suportam as diferenças se não aprendem a conviver com elas, por isso excluem e intimidam; seguem a lei do mais forte, por isso agridem; querem de qualquer maneira submeter seus pares a um único ponto de vista. Ficam, portanto -como refere Hannah Arendt-, submetidos à tirania da maioria.

Muitos atos violentos praticados são aceitos como "coisa de criança ou de adolescente". Claro que desavenças sempre existirão, mas é preciso diferenciar a experimentação para aprender a conviver em grupo das relações baseadas em violência descontrolada. E é bom ressaltar que todas as crianças, principalmente na escola, participam desse tipo de relação: tanto as que estão envolvidas diretamente em situações de violência quanto as que observam. Estas últimas também são atingidas diretamente.

Toda essa violência nas relações entre os mais novos talvez seja apenas a maneira que eles têm para mostrar que precisam da autoridade dos adultos para não ficar à mercê de seus próprios caprichos e impulsos e os dos outros.


 

Escrito por Rosely Sayão às 10h54

Estudo do meio

Hélio tem quatro anos e freqüenta uma escola de educação infantil particular cuja mensalidade é menos de R$ 200; João Pedro, 9, estuda em uma escola pública; Mariana, 10, estuda em uma escola privada cuja mensalidade está perto dos R$ 300; os pais de Vitor, 11, pagam R$ 600 pela mensalidade e os de Beatriz e Gustavo, em torno de R$1.500.

Há semelhanças e diferenças entre essas escolas, mas pelo menos uma atividade comum: o estudo do meio, que é coqueluche educacional. Vale a pena refletir sobre essa atividade que interfere de diversas maneiras na vida das famílias.

Esse método de ensino não é uma inovação: na década de 80 já era utilizado, mas foi a partir dos anos 90, quando oficialmente indicado pelos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais), que ganhou maior investimento das escolas e, portanto, maior visibilidade social.

O primeiro problema é que qualquer atividade que envolva a saída dos alunos da escola pode ganhar status de estudo do meio. Os pais precisam saber que um passeio, uma excursão, um acampamento ou mesmo a saída da classe para uma atividade cultural não constituem propriamente estudo do meio.

Para ter tal designação, a saída precisa fazer parte de um processo com metodologia própria, que envolve várias etapas de trabalho com objetivos pedagógicos claramente definidos e integrados tanto ao currículo escolar quanto ao projeto pedagógico da escola.

Um outro problema importante é a terceirização desse serviço. Hoje já existe uma modalidade conhecida como "turismo pedagógico ou educacional", que rende um lucro considerável e que, por exemplo, permite a uma escola que compre um pacote completo, com transporte, monitores especializados em conhecimentos específicos e em recreação, sem que a equipe da escola tenha de se dedicar ao trabalho nem que os alunos sejam co-responsáveis. Aliás, alguns desses locais até oferecem acomodações que permitem aos professores que fiquem sem contato com os alunos. Isso não pode ser chamado de estudo do meio.

Muitas escolas justificam as saídas pela socialização entre os alunos e com os professores. Não: o estudo do meio tem a ver com o ensino do espírito investigativo e metodológico.

Também são problemas importantes o custo da saída e a escolha do local do estudo. Qualquer saída precisa permitir a todos os alunos que participem. Essa é uma questão que interfere não apenas no orçamento familiar mas também na cultura das famílias. Por isso, o ideal seria que as saídas da escola fossem decididas em parceria -já que o estudo é da competência da escola, e o estilo de vida fora do horário escolar é da competência dos pais. E é bom lembrar que meio é qualquer lugar: pode-se estudar a própria escola como meio, seu entorno etc. Não é preciso ir muito longe para isso, inclusive porque as salas de aula são, por excelência, espaços de ensino do espírito pesquisador.

Para finalizar a reflexão, um pouco de Clarice Lispector: "Eu sei de muita coisa que não vi. E vocês também, eu sei.".

 

Escrito por Rosely Sayão às 13h13