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Pais X escola

Nada melhor do que os pais aproveitarem as férias para pensar um pouco a respeito de como se relacionam com a escola. Afinal, esse distanciamento permite pensar com menos paixão em questões importantes dessa relação que, costumam dizem, é crucial para a educação dos filhos. Tanto é assim que esse relacionamento tem sido chamado de parceria por pais e mestres.

Por enquanto, tal designação soa mais como anseio, já que a realidade se mostra bem diferente. Há mais rivalidade e desconfiança entre pais e mestres do que associação. E, para pensar num dos aspectos desse assunto, tomo um exemplo, que deve ser muito parecido com centenas de outros que ocorrem aqui e acolá.

A porta de um banheiro feminino de uma escola apareceu toda rabiscada com textos pejorativos a respeito de uma aluna que foi claramente identificada nas frases. A escola, por meio de seus representantes, conversou com a classe envolvida e decidiu que todas as meninas da sala participariam de um mutirão para limpar a porta.

Abro neste momento um parêntese: não sei se os pais sabem, mas muitos alunos costumam ter atitudes extremamente nojentas -para não usar outros adjetivos- quando usam os banheiros das escolas. Os funcionários precisam, muitas vezes, sujeitar-se a situações humilhantes para colocar o local em condição de uso.

Cito alguns exemplos, que ouvi tanto de alunos quanto de funcionários e que ocorrem igualmente nos banheiros femininos e masculinos: latinhas de refrigerantes cheias de fezes jogadas dentro das privadas, fezes e urina sobre a tampa da privada abaixada (!), papel higiênico molhado com água ou urina jogado no teto e nas janelas, privadas entupidas com os mais variados objetos etc. Certamente, essas crianças e esses jovens não fazem isso em casa, sabem usar corretamente um banheiro, mas não se sentem no dever de aplicar o que sabem quando estão num espaço público. Por que será?

Voltemos ao exemplo ocorrido. Nele, a atitude que a escola tomou pode ser considerada adequada: não cabe a ela o papel de investigar os culpados por esta ou aquela transgressão, e sim o de ensinar aos alunos que o espaço de todos é responsabilidade de todos, que a vida em grupo exige dedicação e esforço e, principalmente, que, quando um dos integrantes do grupo erra, outros precisam tentar cobrir sua falha.

As alunas realizaram a tarefa, mas uma das mães ficou indignada porque não aceitou o fato de a filha, que se declarara inocente no ocorrido, ter participado da limpeza. E, para mostrar sua indignação, fez o registro da ocorrência contra a escola em uma delegacia de polícia.
Quando chegamos ao ponto em que pais procuram a polícia para mediar sua relação com a escola -e essa atitude tem ganhado adeptos a cada mês- é sinal de que a situação atingiu um patamar lamentável.

A relação entre pais e escola é quase sempre tensa, principalmente porque os primeiros consideram o filho um ser único e a segunda o considera um aluno entre tantos outros. Nos tempos atuais, isso é sinônimo de conflito que poderia ser dialogado, explicitado, explicado.O problema é que o confronto e o embate têm sido as estratégias preferidas por muitos pais e por muitas escolas.

Isso não pode dar certo, já que a educação familiar e a escolar são complementares na formação dos mais novos. Talvez seja interessante que grupos de pais de cada comunidade escolar se formem para acompanhar, mediar e conciliar os conflitos que surgem entre os interesses dos pais e os da escola na busca de preservar os princípios da boa educação.


 

Escrito por Rosely Sayão às 11h10

Ranking de pais

Muitas escolas comprometidas, que realizam um projeto de trabalho claro, em busca de uma prática mais coerente com suas propostas teóricas e de aprimoramento, estão pressionadas por causa do resultado do Enem.

Desde que há um ranking de escolas usando resultados de exames desse tipo, elas são avaliadas pela comunidade de acordo com a posição alcançada. As escolas consideradas de maior qualidade são as que estão pelo menos entre as 15 primeiras. E tem mais: agora se faz também a relação entre a mensalidade e o ranking, pode?

O resultado do exame não pode ser descartado por completo, é claro, mas também não deveria ser levado tão a sério quanto tem sido. Afinal, o trabalho escolar realizado por oito anos (agora nove) no ensino fundamental e, depois, no ensino médio não pode ser computado em uma prova. Por quê?

Ora, porque alguns alunos não produzem tudo o que sabem por ficarem tensos em situação de prova, outros por ainda não terem se acostumado a passar por avaliação de forma ritualística, outros porque não estão no melhor dia quando fazem a prova, outros ainda porque não dão valor à avaliação.

Claro que também há alunos que não apresentam resultados melhores porque a escola não realiza a contento seu papel. Mesmo assim, isso não pode ser deduzido apenas pela prova. A escola não é só instrutora de conteúdo, certo?

Uma colega educadora profissional, muito espirituosa, manifestou de forma bem-humorada sua crítica ao estardalhaço que se faz com o tal ranking de escolas. Ela disse que os pais só entenderiam o que significa isso se fizéssemos também um ranking de pais.

Adorei a idéia. Aliás, as escolas que faziam e ainda fazem, de forma velada, a malfadada prova para a entrada de novos alunos não deixam de agir assim, não é mesmo? Mas, poderíamos aprimorar o processo.

Para alunos da educação infantil, a avaliação seria tanto das crianças quanto dos pais. A estes, poderíamos fazer um questionário para avaliar, por exemplo, se contam histórias a seus filhos, se fazem ofertas culturais a eles, se praticam educação moral e ensinam virtudes, se têm disponibilidade para acompanhar de perto o trabalho da escola e se são modelos coerentes de pais. E, para as crianças, avaliaríamos o quanto é efetivo o trabalho realizado pelos pais, ou seja, veríamos se a criança demonstra curiosidade pelo mundo à sua volta, se sabe se comportar em situações diversas, se seu conhecimento prévio está de acordo com o esperado etc.

Para alunos do primeiro ciclo do ensino fundamental, o esquema ainda seria semelhante ao citado acima. A avaliação dos pais verificaria itens como disponibilidade para realizar parceria com a escola e comparecer às reuniões, capacidade de organizar o tempo do filho para estudo e para exigir dele compromisso e responsabilidade com o trabalho escolar, condição de delegar de forma respeitosa a educação escolar à instituição de ensino etc. Com os alunos, se poderia verificar se sabem acatar limites e conviver respeitosamente com os colegas, se assimilam bem as lições dadas, se sabem respeitar os adultos etc. A combinação dos dois resultados permitiria elaborar o ranking de famílias, e as escolas disputariam os primeiros colocados e dispensariam os outros.

Com alunos do ciclo final do ensino fundamental e os de ensino médio, os pais poderiam ser dispensados do exame porque, afinal, os filhos já deveriam ter incorporado o trabalho educativo, não é?

Essa brincadeira serve para mostrar a falta de bom senso que é avaliar o trabalho das escolas apenas pelo resultado dos exames de seus alunos. Os pais não precisam levar tão a sério os tais ranking escolares.


 

Escrito por Rosely Sayão às 00h11