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Folha Equilíbrio

As contradições do casamento

A família mudou bastante nas últimas décadas e o casamento também. De fato, mudaram muito as relações amorosas entre pessoas unidas por laços de sangue ou por aliança. No Dia dos Namorados, vale a pena pensar a respeito.

Descobri, num canal pago de TV, um programa chamado "Ou Eu ou o Cachorro". Aparentemente, o objetivo é mostrar que cães que infernizam a vida da família por não serem bem treinados podem mudar com adestramento de uma profissional que também orienta a família -mas o programa diz mais a respeito de como anda o relacionamento dos casais.

Maridos são expulsos da cama com mordidas do cão que não quer dividir sua dona, e mulheres são atacadas pelo cachorro assim que o marido sai.Com variações sobre o tema, o que o programa mostra é a fragilidade das relações conjugais: até um cachorro pode interferir decisivamente na vida do casal.

Em tempos de ideais individualistas, vivemos uma contradição: priorizamos nossa autonomia, mas queremos compartilhar nossa vida com um outro.Valorizamos o relacionamento conjugal porque, ao se tornar a base das relações íntimas entre pessoas da mesma geração, pode ser um antídoto para a solidão típica do nosso tempo. Podemos dizer que o casamento ganha importância cada vez maior na vida dos adultos.O número de separações é grande, mas o de recasamentos também. O problema é que não sabemos muito bem como conduzir essa relação tão peculiar.

Em primeiro lugar, não temos mais um modelo a seguir: cada casal precisa construir seu modelo de casamento. E isso torna o relacionamento conjugal algo complexo, pois obriga a escolhas diárias e pessoais. Cada casamento é único, então.

Em segundo lugar, estabelecer relações íntimas em tempos de "reality shows" tornou-se um desafio. Nos EUA, duas publicações contam a história de dois casais com uma decisão em comum: praticar sexo diariamente por um período de tempo. O que ambos pretendiam e conseguiram era melhorar o casamento e a intimidade emocional. O romance está, então, dependente dos sentidos.

Em terceiro lugar, temos um inflacionamento da idéia de casamento. É exigência em demasia, pois, ao se unirem, as pessoas esperam encontrar realização sexual, afetiva, segurança, dedicação exclusiva, educação dos filhos de modo partilhado, segurança econômica etc.! Não é à toa que a união está sempre por um fio, ou melhor, embaraçada em muitos fios.

Por fim, dois conceitos que sempre foram fundamentais para o relacionamento -fidelidade e compromisso- colocam em risco os de individualidade e liberdade pessoal, tão caros hoje. Como superar situações tão complicadas?

Muitos casais têm encontrado soluções ousadas; outros têm sucumbido por não saberem como negociar conflitos. Outros, ainda, estão sempre dispostos a dissolver o laço, já que é possível construir outro em seqüência: as uniões já nascem com a possibilidade de rompimento. O grande desafio atual talvez seja aprender a conciliar individualidade com interdependência.

 

Escrito por Rosely Sayão às 00h16

A guerra do trânsito

Quase todo mundo conhece a expressão que diz que "enfrentamos uma batalha por dia" na vida. Pois bem: hoje, ela deixou de ser simbólica e passou a ter significado assustadoramente real. Enfrentamos não uma, mas várias batalhas nessa guerra em que se transformou o trânsito. E isso diz respeito a todos os que freqüentam as ruas das cidades: motoristas e pedestres.

Nas últimas semanas, acompanhamos várias notícias de acidentes de trânsito que mostraram o nível a que chegou essa guerra. É um festival de incivilidade: transgressões de normas de direção são a regra agora. Motorista que usa celular ao dirigir, ingere álcool antes de usar o carro ou desrespeita acintosamente a sinalização, direção perigosa e violência descontrolada são exemplos. É um deus-nos-acuda.

Além disso, as cidades estão cada vez mais congestionadas, não apenas pelo excesso de veículos, mas também porque o ideal de consumo nos faz comprar veículos cada vez maiores. Quando vejo um desses modelos esportivos com tração nas quatro rodas, imensos, ou carros possantes, com todo tipo de recurso, penso que os veículos deixaram de ter sua função original, que é a de transportar uma pessoa de um lugar a outro, e passaram a ser objetos de desejo. E aí não há racionalidade alguma na aquisição.

A União Européia, atenta a essas questões, pretende restringir as propagandas de carros -quer banir referências à rapidez do veículo ou ao "prazer de dirigir" que ele proporciona e propõe a presença de informações como o consumo de gasolina e o volume de dióxido de carbono produzido.

Essa confusão no trânsito prejudica todos os que usam o espaço público e, principalmente, os mais novos. Os jovens são diretamente atingidos por esses conceitos sobre o significado de dirigir. O número de acidentes provocados e sofridos por eles porque dirigem alcoolizados é assustador. E testemunhamos essas tragédias regulares com impotência.

Mas as crianças talvez sejam as maiores vítimas desse trânsito caótico. Segundo dados do Ministério da Saúde, ele é a maior causa de morte de crianças com até 12 anos, e estudos realizados pela ONG Criança Segura apontam que grande parte dos acidentes que envolvem crianças ocorre perto de casa e na volta da escola.

E, por falar em escola, os pais que cometem infrações nos arredores da escola talvez não percebam o quanto contribuem para a insegurança do próprio filho. Vale lembrar ainda o transporte escolar: já vi peruas escolares cometendo irregularidades bem sérias.

Não é à toa que o Conselho Nacional de Trânsito definiu como tema da Semana Nacional de Trânsito de 2008 "A criança e o trânsito". E nós, adultos que dirigimos, pais e educadores profissionais: que ações podemos tomar para que o trânsito deixe de ser um espaço de barbárie e se torne mais seguro para crianças e jovens?

Escrito por Rosely Sayão às 13h14