UOL Estilo UOL Estilo





BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Mulher, de 56 a 65 anos, Portuguese

Quem é Rosely Sayão

Neste blog Na Web

e-mail
Sugestão
 Visitas  
 

Folha Equilíbrio

Castigo e impunidade

Que consideramos a impunidade um grande mal é fato; que creditamos a ela uma boa parte dos problemas de violência, também. Pensando nisso, como os pais ensinam aos filhos que seus atos produzem conseqüências?

Uma educadora me contou um fato interessante: um aluno cometeu uma transgressão e recebeu uma penalidade. No dia seguinte, o pai foi solicitar uma conversa com a orientadora. Quando isso ocorre, os educadores sabem o que esperar porque muitos pais não aceitam que o filho arque com as conseqüências de seus atos no espaço escolar ou não concordam com a sanção, que costumam achar severa demais.

Pois, para o espanto dessa educadora, o que o pai queria era manifestar apoio à atitude da escola para que o filho tivesse a oportunidade de aprender que os atos têm conseqüências. Vale dizer que o pai estava bastante sensibilizado com o tema por causa das notícias sobre comportamentos violentos praticados por jovens. Este é, portanto, um bom momento para refletir sobre o castigo.

De largada, vamos pensar a respeito do castigo corporal, amplamente usado por pais de todas as classes sociais. Ele costuma parecer eficaz porque produz efeitos imediatos, ou seja, o filho deixa de fazer o que não deve ou faz o que deve rapidamente. Mas tal efeito é efêmero, como os próprios pais podem constatar. Além disso, o castigo físico tem mais a ver com o humor dos pais ou com seu descontrole do que com o comportamento do filho. De qualquer forma, um castigo corporal é uma violência física contra os mais novos e, portanto, não pode ser educativo.

As punições exageradas e as que são aplicadas e não honradas pelos pais também ocorrem com muita freqüência. Um garoto que não fez a lição de casa antes de a mãe voltar do trabalho não pode assistir a seu programa de TV favorito por três dias. Muita coisa, não? Uma adolescente que não cumpriu o horário de retorno de uma festa foi proibida de ir à próxima, mas tanto reclamou e fez cara feia que ganhou dos pais a permissão.

Afinal, o castigo deve ser usado na educação e funciona? A resposta é sim para as duas perguntas. O castigo consistente pode ser uma boa estratégia para fazer frente às transgressões cometidas pelos filhos e para responsabilizá-los pelo que fazem. Para isso, é preciso que os pais, antes de aplicar uma punição, tenham uma atitude educativa firme e coerente.
 
Castigo em criança pequena não faz muito sentido. A contenção -que já é uma sanção- usada para que o filho deixe de fazer algo que não deve e a tutela constante para que faça o que deve já são atitudes suficientes. Colocar a criança pequena para "pensar" não se sustenta, já que ela nem sequer tem autonomia para tanto. Os pais de filhos nessa idade devem ter muita paciência e disponibilidade: não podem ficar bravos sempre que eles não se comportam de acordo com as normas nem podem achar graça nisso.

Para os maiores de seis anos, o castigo é educativo desde que precedido de regras claras e justificadas. A repetição das orientações, independentemente de elas serem ou não seguidas, não revela autoridade. E é bom lembrar que o castigo aponta sempre o que não deve ser feito. Por isso, é insuficiente como estratégia educativa, já que queremos que os mais novos aprendam o que deve ser feito, o que é bom, o que é certo.

Tanto as atitudes educativas quanto a aplicação de castigos exigem que os pais usem bem a autoridade e as palavras dirigidas aos filhos, conversem praticando o olho-no-olho, escutem os filhos de maneira interessada e sejam coerentes.

Escrito por Rosely Sayão às 23h17

Jovens protegidos

Já comentei que os pais podem deixar de se preocupar com o malfadado vestibular porque a oferta de vagas no ensino universitário tem sido maior do que a demanda. Agora, a preocupação avançou para um pouco além dessa etapa: como o filho irá se comportar na faculdade a fim de conseguir concluir o curso que escolheu.

Aliás, escolher um curso tem sido um problema para esses jovens, já que programas de orientação vocacional -mesmo os mais competentes- não têm sido suficientes para que eles escolham com convicção. Por isso, já temos até desenvolvido a hipótese de que escolher um curso nessa idade talvez seja precoce. Por conta dessa conjectura, muitos pais estimulam o filho a retardar a decisão para não exigir demais dele.

Não é tão difícil os jovens distinguirem alguns interesses para que consigam visualizar um curso a fazer. O mais difícil, parece, é mesmo renunciar a tantas opções e possibilidades de futuro e, assim, restringir a vida ou a liberdade -imaginam eles. Pois é, renunciar exige mesmo maturidade e coragem, e os jovens têm chegado à idade quase adulta bem imaturos e infantilizados. Não aprenderam sequer o significado da palavra liberdade, o que é absolutamente necessário para desfrutá-la.

Constatamos esse fenômeno em várias situações, inclusive ao ler as palavras do pai de um dos jovens -de 19 anos- que agrediram uma mulher no Rio de Janeiro. Ele se referiu ao filho e aos amigos envolvidos como "crianças", lembram?

O fato é que muitos professores universitários já não sabem mais o que fazer diante dessa criançada, que chega ao curso de graduação com comportamento digno de alunos de curso fundamental. Eles precisam de tutela (e assim a demandam) para tudo, menos para transgredir e testar os limites da instituição, claro.

Os pais, por sua vez, ficam perdidos quando os filhos expressam insatisfação com alguns professores ou com algumas disciplinas que são obrigados a cursar ou com a exigência e o rigor da nova empreitada e passam a abandonar as obrigações e a desejar mudar de curso e fazer novo vestibular, entre outras possibilidades.

E não vamos cair na tentação de pensar que a juventude atual -estamos nos referindo especialmente à classe média- é inconseqüente, irresponsável, não tem limites, só quer desafiar etc. Mais responsável é a atitude de reconhecer que, talvez, eles não tenham estado em boas mãos no período de sua formação, por mais difícil que isso seja. Vamos nos colocar em causa nessa questão.

Já faz tempo que estamos comprometidos com nossa jovialidade e isso tem respingado na maneira como educamos os mais novos. A questão é que, por conta dessa nossa jovialidade, não temos conjugado contenção e rigor, por exemplo, com busca de prazer e satisfação. Queremos tudo no presente imediato. Isso resulta na desvalorização da obstinação e da tenacidade, entre outras coisas.

Do mesmo modo, temos escolhido proteger os mais novos de atitudes que exigem concentração e conexão com a realidade e temos elogiado o resultado em vez do esforço. Conseguimos, sem pretender, fazer com que os jovens acreditem que quase tudo o que fazemos bem é resultado mais de inspiração e sorte do que de transpiração e perseverança.

Muitos jovens conseguem usar a coragem que têm potencialmente para praticar um esporte radical, para transgredir leis que existem para protegê-los -basta lembrar o número de mortes de jovens entre 19 e 25 anos no trânsito-, para desafiar normas da convivência civil e para competir e tentar ser o melhor. Entretanto, não sabem dedicar a mesma coragem para se relacionarem com a diferença, para ir até o final de uma atividade iniciada por mais maçante que seja, para aprender o que não sabem, para controlar impulsos imediatistas e para renunciar quando devem fazer escolhas, por exemplo.

Pelo jeito, colocamos nossos jovens em maus lençóis.

 

Escrito por Rosely Sayão às 23h31