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Tempo e falta de tempo

Cada vez mais ouço pessoas reclamarem do tempo ou da falta de tempo para conseguir dar conta de todas as responsabilidades e realizar as aspirações diárias e projetadas para curto e médio prazos. Parecemos os coelhos brancos do país de Alice, sempre atrasados e a dizer "É tarde, é tarde!". Talvez não seja o tempo. Pode ser excesso de atividades distribuídas no tempo disponível, por exemplo. Queremos fazer de tudo e não nos contentamos mais em fazer um pouco de tudo: queremos muito de tudo.

Trabalho, por exemplo, não ocorre mais só no local de trabalho. Não há mais horário de trabalho, principalmente com o advento do telefone celular. Qualquer hora é hora para resolver algo, responder a uma dúvida, fazer uma indagação, gravar um memorando, marcar uma reunião, ter uma idéia, checar a correspondência eletrônica profissional. Parece mesmo que tudo é urgente. Aliás, a expressão "é para ontem" é cada vez mais usada no campo profissional. Ironia que aponta o paradoxo que vivemos em relação ao tempo: afinal, o que era para ontem já está atrasado ou não pode mais ser realizado, não é?

Do mesmo modo, as relações familiares, principalmente a com os filhos, não ocorrem apenas no lar ou quando pais estão reunidos com os rebentos: o mesmo telefone móvel leva os filhos com os pais a todos os lugares e, assim, todo o tempo fica dividido com eles. Nas casas de espetáculos, por exemplo, todos ouvem um aviso para que desliguem o celular. Muitos optam por deixá-lo no modo silencioso: assim não perturbam o ambiente, mas, ao mesmo tempo, não perdem um chamado que, garantem os que são pais, pode ser dos filhos. Isso sem falar das constantes ligações dos filhos quando os pais estão no trabalho.

Talvez não seja o tempo escasso nosso problema, mas a dificuldade de administrá-lo. Não tem sido fácil, por exemplo, diferenciar o que é urgente do que é importante, tanto na vida profissional quanto na pessoal. E tem mais: não raramente desconhecemos o nosso próprio ritmo. E quem não tem intimidade com seu ritmo na vida aceita assumir mais -ou menos- coisas do que poderia realizar num determinado espaço de tempo. E será que temos colaborado para que os mais novos aprendam a conhecer o seu ritmo e a administrar o seu tempo?

Pelo jeito, a resposta é um sonoro e forte não! Na escola, por exemplo, os alunos aprendem muito pouco a esse respeito. Eles devem fazer suas atividades e aprender no tempo determinado pelo modo de funcionamento da escola, pela duração das aulas ou pelo comando do professor. Em geral, os alunos saem da escola -inclusive a de terceiro grau- sem saber efetivamente avaliar o tempo que precisam para realizar bem um projeto.

De modo similar, os pais costumam impor aos filhos a sua própria noção de ritmo para usar o tempo disponível. Desse modo, muitos filhos são caracterizados como rápidos ou lerdos de acordo com a velocidade dos pais para comer, para falar, para tomar banho etc. Ajudar o filho a aprender a administrar seu tempo não é cobrar que façam as coisas mais rapidamente e sim exigir que realizem as obrigações do dia sem ficar sem tempo para se dedicar ao que gostam e querem fazer. Agora, lotar o tempo dos filhos com atividades é uma péssima maneira de ajudá-los a se apropriarem de seu tempo e de seu ritmo.

Pais e escolas têm imposto o uso de agenda como estratégia para ensinar aos mais novos a administração do tempo. Ora, esse recurso só funciona para quem já aprendeu a se organizar no tempo por conhecer bem seu ritmo e ser capaz de distinguir prioridades, o que não é o caso crianças e adolescentes e, muitas vezes, nem de adultos, não é verdade?

Escrito por Rosely Sayão às 19h09

Agir coletivamente

Na sala de professores de um colégio, na hora do intervalo, os mestres conversam sobre os alunos de uma turma. Na verdade, eles reclamam: o grupo é agitado, disperso, não respeita os prazos para a entrega dos trabalhos, não cumpre com os deveres de casa, são desrespeitosos na convivência barulhenta que travam entre si e com os educadores etc.

Um professor afirma que decidiu tomar providências extremas: conversou com o coordenador do ciclo e vai passar a enviar os alunos que considera os "cabeças" da desorganização da sala para uma conversa e, possivelmente, uma exemplar punição. Outro diz que decidiu apertar os alunos no conteúdo e endurecer nas provas. Uma professora, mais tranqüila, informa que consegue ter a atenção deles e que, nos momentos de agitação, tenta acalmá-los com uma atividade diferente. Um colega reage com ironia e, assim que esta sai da sala, comenta que a aula dela é a mais barulhenta do corredor.

Cada mestre busca uma saída para enfrentar o caos da sala de aula, mas cada um deles pensa e age solitariamente: nenhuma proposta de ação coletiva e solidária é considerada. Uma outra cena, parecida em sua estrutura com essa primeira, ocorre diariamente nas ruas da cidade: num cruzamento em que o trânsito pára por minutos, um grupo aproveita para assaltar carros. Os assaltantes têm tempo até para escolher as vítimas, e quase todos os que estão presos nos veículos sabem o que está para acontecer.

Por alguns instantes, aqueles carros e seus condutores formam um grupo, mas, novamente, a resposta que têm é individualizada: um assegura que as portas estão trancadas, outro se tranqüiliza porque está num carro blindado e todos ficam impotentes, torcendo apenas para que o trânsito flua. Não passa pela cabeça de ninguém uma reação coletiva. Numa conversa com uma amiga, ela se perguntava se, no recente massacre ocorrido em uma universidade dos Estados Unidos, não teria sido possível salvar algumas vidas se professores e alunos tivessem tentado uma ação coletiva. Talvez sim, talvez não, mas o fato é que não pensamos nessa possibilidade simplesmente porque cada indivíduo se responsabiliza só por gerenciar a própria vida.

É: em tempos de individualismo, quem não pensa só em si pode se transformar em herói em raras situações -caso do professor que protegeu alunos no massacre citado e de alguns trabalhadores que devolveram dinheiro encontrado no espaço público- ou, mais freqüentemente, em ameaça, já que muitos sentem que quem busca proteger o bem comum fere a liberdade individual. Um grupo de pais que conheço fez uma campanha pelo respeito às leis do trânsito nos arredores da escola dos filhos. Foram muito mal recebidos pelos pais que param em fila dupla e estacionam em local proibido. Cada um julga ter um bom motivo pessoal para agir assim.

O problema é que, ao vivermos na lei do "cada um por si". deixamos de ter o sentimento de pertença, esquecemos que somos interdependentes e perdemos a noção de que buscar o bem comum resulta em benefícios para cada indivíduo.

 

Escrito por Rosely Sayão às 14h05