UOL Estilo UOL Estilo





BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Mulher, de 56 a 65 anos, Portuguese

Quem é Rosely Sayão

e-mail
Dúvida
Neste blog Na Web

 Visitas  
 

Folha Equilíbrio

Autorização para sair

Uma filha que, aos 12, apaixona-se por um colega da escola e informa aos pais que irá namorar deve receber que tipo de resposta deles? Um filho de 14 anos deve receber autorização para sair à noite? Se uma filha de 16 anos quer viajar com a turma de amigos nas férias, os pais devem deixar? E se um filho de 17 quer passar o final de semana com a namorada, os pais devem autorizar? E uma filha de 20 que quer sair com as amigas de madrugada?

Com a multiplicação das configurações familiares, com a mudança rápida de costumes e com o desvanecimento das tradições familiares, todas as perguntas acima têm seus adeptos, tanto para o sim quanto para o não. Pais com filhos em torno dos 12 anos permitem que eles namorem, inclusive na própria casa, e pais com filhos -filhas, principalmente- acima dos 18 ainda proíbem quase tudo.

Formações tão diversas têm produzido efeitos inusitados em aspectos importantes vivenciados nesse período. Alguns exemplos: a maturidade, a autonomia, a relação consigo mesmo, com os pares e com o mundo, a aquisição de identidade e, principalmente, a entrada na vida adulta. Assim, encontramos jovens que, a partir dos 14 anos, já são articulados em relação a assuntos públicos, desenvoltos no ato intelectual de aprender, que já demonstram ter autocuidado, que conseguem argumentar solidamente sobre seus pontos de vista, que encaminham suas emoções da melhor maneira possível e que aprendem com suas experiências.

Por outro lado, vemos também um bom número de jovens que, a partir dos 17 anos, ainda não conseguem viver sem a intervenção dos pais ou tomar pulso para se opor a eles, que não têm autonomia a não ser para a diversão, que não conseguem usar os conhecimentos adquiridos, que apresentam argumentos vazios quando discursam, que não conseguem controlar suas emoções e que não têm disponibilidade para aprender com a vida.

Não é a simples entrada precoce ou tardia na vida social que leva a tais resultados tão diversos, e sim o modo como a permissão ou a proibição dos pais é contextualizada na vida do filho. Vejamos dois exemplos de incoerência que podem levar à produção da maturidade ou da infantilização. Tomemos um fato corriqueiro na vida dos filhos, já a partir dos 10 anos: o convite para festas de aniversário de colegas sem a companhia dos pais.

Quando os pais permitem, é preciso tomar algumas decisões paralelas que ajudem o filho a se responsabilizar pela questão. Alguns pais dizem sim ao filho e acreditam que a grande questão é a segurança no trajeto de ida e volta. Não! Há muito mais a ser feito. Por exemplo: a compra do presente deve ser feita pelo filho ou, no mínimo, ele deve acompanhar a mãe na compra, sugerir o mimo, arcar com parte do valor com sua mesada etc.

Os pais devem fazer o filho participar da conversa sobre como ele chegará ao local e como voltará para casa e sobre o horário a ser cumprido. E ele deve também saber que toda festa tem suas repercussões, positivas ou não, e que ele terá papel nisso. Desse modo, o filho aprende que a diversão tem também uma parte árdua e pode amadurecer com as experiências. Os pais com filhos de mais de 17 anos precisam considerar o que proíbem. Nessa idade, só tem sentido vetar o que, de fato, vai contra as tradições da família. Não se pode impedir que eles assumam a própria vida, não é? A mãe de uma universitária chegou a informar à direção da faculdade que a filha não iria participar de um determinado trabalho porque ele seria realizado no centro da cidade.

Atitudes desse tipo infantilizam o jovem e tiram dele a oportunidade de aprender a viver. A pergunta que fica nesse caso é: não estamos criando uma geração frágil demais?

Texto publicado originalmente no Folha Equilíbrio

Escrito por Rosely Sayão às 12h51

A responsabilidade dos pais

O mundo tem tornado cada vez mais complexo o relacionamento dos pais com os filhos adolescentes e, conseqüentemente, com a educação deles. No período de transição pelo qual passamos, em que o início e o fim da adolescência não são mais facilmente identificados, os pais ficaram sem referências sólidas sobre essa passagem para a vida adulta. Paralelamente, temos outro fenômeno que diz respeito aos adultos. Devido ao nosso contexto cultural, cada vez mais os adultos focam sua vida nos próprios interesses e menos na tarefa de educar os filhos.

A reportagem "Jovens acusam seguranças de agredi-los em festa na Daslu", que saiu na Folha de domingo, ilustra de modo exemplar a conversa de hoje. Em resumo: 1.200 pessoas foram convidadas para uma festa de debutante, entre elas cerca de 800 jovens. Na festa, o ambiente destinado aos adultos era protegido por seguranças, já que lá serviam-se bebidas alcoólicas.
Por um motivo até agora desconhecido, perto das 3h um grupo de seguranças levava para fora da festa um adolescente e, nesse momento, seus amigos vieram em seu socorro. Resultado: cerca de 50 jovens se chocaram com 30 seguranças.

A questão, agora, é atribuir a responsabilidade pelo ocorrido: seria da firma que promoveu o evento, da organizadora da cerimônia, dos jovens intrusos na festa, das rixas entre alunos de colégios diferentes ou da empresa contratada para a segurança da festa?

Duas questões chamaram minha atenção, e a primeira foi justamente essa. Em nenhum momento, os convidados adultos foram considerados responsáveis. E muitos deles deveriam ser pais dos jovens que se divertiam no outro ambiente.Essa imagem de adultos presentes no mesmo espaço que seus filhos, mas sem nenhuma implicação com eles, tem sido muito comum. Cada vez mais, os pais transferem para outras pessoas -em geral, algum trabalhador contratado- a responsabilidade pelos filhos, porque só assim conseguem se dedicar a eles mesmos. E isso desde muito cedo.

As babás são as primeiras trabalhadoras que recebem esse encargo dos pais. Quem já não teve a oportunidade de observar famílias passeando no fim de semana com os filhos e suas respectivas babás? Um olhar atento constata que a família, na verdade, não se relaciona como um grupo. São os pais de um lado e os filhos de outro. Mas, como estes precisam dos adultos, são as babás que cumprem esse papel.Em festas infantis, são os animadores que assumem esse lugar, já que os pais costumam ficar conversando entre si. A caminho da escola, são empregadas e motoristas os responsáveis. E foi assim que funcionou a festa descrita na reportagem.

A segunda questão que me chamou a atenção foi a forte imagem de um local reservado aos adultos na festa, protegido por seguranças. A justificativa foi a da bebida alcoólica servida. Coloco em dúvida tal fato. Na verdade, os adultos ficam mais à vontade quando estão só entre seus pares porque não querem ocupar o difícil lugar de vetar aos mais novos aquilo de que eles ainda não podem participar. A bebida alcoólica é só um desses elementos.

Fui, recentemente, a uma festa de casamento em que velhos, adultos, adolescentes e crianças se relacionaram, conversaram e se divertiram no mesmo espaço. Bebida alcoólica foi servida e vetada aos mais novos, sem drama algum. Sim, é possível que a convivência entre várias gerações seja agradável e educativa. Mas, para tanto, o adulto deve estar disponível e não abdicar de seu lugar em relação aos mais novos. E mais novos não são só os próprios filhos, é bom lembrar.

* Publicado originalmente no Folha Equilíbrio

Escrito por Rosely Sayão às 11h41

Educação para a cidadania

Uma professora contou um fato muito interessante. Dias antes do Dia da Consciência Negra, um aluno de sua turma, formada por crianças com idade entre oito e nove anos, fez uma pergunta: "O que é Dia da Consciência Negra?". Um colega respondeu de pronto, antes que a professora desse a explicação: "É o dia em que você só tem pensamentos ruins". Depois da explicação da professora, um outro aluno fez outra pergunta igualmente interessante. Ele queria saber se só nesse dia as pessoas deveriam ter essa consciência.

Vivemos em uma sociedade bastante intolerante com as diferenças, notadamente a racial e a social. Em tempos em que o discurso exalta a diversidade como rica e as relações sociais democráticas como ideal a ser buscado, a prática se mostra muito diferente, principalmente em relação à educação.

Vamos considerar, de início, uma razão muito usada pelos pais para justificar concessões feitas aos filhos. Quando eles demandam algo que os pais relutam em aceitar, o argumento mais eficaz é justamente o mal-estar que a diferença provoca.Assim, quando o filho diz "todo mundo vai" ou "todos os meus colegas têm", os pais se sentem acuados. Afinal, não querem que o filho seja diferente dos colegas nem isolado do grupo.

Da mesma maneira, os pais procuram que o círculo de relacionamento dos filhos seja composto por pessoas parecidas com eles: que freqüentem a mesma escola, que vivam em famílias com o mesmo nível socioeconômico, que tenham a idade e a aparência similares etc. Foi por isso, entre outros motivos, que a classe média retirou seus filhos das escolas públicas e optou pelas privadas.

Que resultados conseguimos com atitudes desse tipo? Vejamos um deles. Na raiz de muitas atitudes de intimidação entre colegas -o fenômeno chamado de "bullying"-, estão presentes a intolerância em relação à diferença e o preconceito. Crianças e jovens que se destacam no grupo por apresentarem uma característica ou um comportamento diferente são, em geral, os candidatos preferenciais do "bullying".

Mas não é apenas na família que se ensina a rejeitar a diferença em vez de ensinar a conviver com ela. A escola não tem colaborado como deveria e poderia para desenvolver o respeito às diferenças. Em seu discurso, a instituição escolar expressa a intenção de oferecer o aprendizado, desde a educação infantil, do respeito à diferença, da subordinação dos interesses pessoais ao interesse geral, da cooperação e da solidariedade. Isso é o que se chama educação para a cidadania. E na prática, o que a escola faz?

Muito pouco, podemos constatar. Em geral, ela acirra a competição em vez de promover a cooperação, seleciona e julga as diferenças, não proporciona discussões interdisciplinares cotidianas a respeito dos vários tipos de preconceito presentes em nossa sociedade e no próprio espaço escolar. Além disso, confunde direitos com privilégios e não valoriza as virtudes democráticas, entre tantas outras questões.

A educação que busca a convivência respeitosa com a diferença é, certamente, um processo muito lento, o que não combina com o anseio educativo atual que busca resultados imediatos. Por isso, é preciso que os educadores estejam atentos para manter seus ensinamentos com consistência e regularidade e, ao mesmo tempo, que criem sempre novas estratégias para tal educação.

Neste ano tivemos, em São Paulo, uma passeata no Dia da Consciência Negra. No próximo ano, as escolas que educam para a cidadania poderiam, por exemplo, estimular a participação de seus alunos nessa manifestação. Tal atividade seria muito mais pertinente ao trabalho da escola do que os passeios que ela promove para a diversão de seus alunos.

Texto publicado originalmente no Folha Equilíbrio

Escrito por Rosely Sayão às 16h55