UOL Estilo UOL Estilo





BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Mulher, de 56 a 65 anos, Portuguese

Quem é Rosely Sayão

Neste blog Na Web

e-mail
Sugestão
 Visitas  
 

Folha Equilíbrio

Ensinar a fazer perguntas certas

Uma escola passou uma tarefa importante aos alunos da segunda série do ensino fundamental: elaborar a prova que eles mesmos fariam. A criançada ficou excitadíssima. A classe foi dividida em pequenos grupos, a professora apresentou as regras e colocou os alunos para trabalhar. As surpresas com que se defrontaram no processo foram muitas.

A primeira foi que eles não sabiam que, para fazer perguntas sobre um conteúdo, é preciso estudá-lo -e muito bem. Ponto para a escola, que soube dar mais valor às perguntas do que às respostas. Afinal, é exatamente isso que sustenta o aprendizado: ensinar a fazer perguntas certas. Além disso, a escola livrou os alunos da tradicional situação que costuma deixá-los estressados e não colabora com o processo de aprendizagem: as avaliações.

A segunda surpresa dos alunos foi descobrir que, para elaborar um trabalho, é preciso dedicação e paciência, pois é necessário fazer rascunhos, reavaliar o que foi feito, reconhecer as falhas do projeto e refazê-lo inúmeras vezes. E, de novo, a escola encontrou uma ótima maneira de ensinar isso. Convidou pais para que contassem como faziam seu trabalho.

Terceira descoberta dos alunos: os adultos, profissionais que são e que já passaram pela escola, também fazem rascunhos, despendem tempo e energia ao elaborar um trabalho e pesquisam, assim como erram e mudam muitas vezes o que já fizeram. E é sobre isso que vamos refletir.

Que conceito a respeito do conhecimento temos transmitido aos mais novos se eles se surpreendem quando percebem que estudar é uma tarefa que não termina nunca? Talvez seja necessário pensarmos melhor nisso, principalmente porque essa geração usa recursos tecnológicos diversos com muita facilidade. Assim é com o videogame, com o computador, com o telefone celular etc. Pode ser que estejamos permitindo que crianças e jovens tenham essa idéia do que seja aprender: um processo rápido, que começa e termina com uma brevidade incrível e que não exige dedicação, esforço, concentração, pesquisa e estudo constantes.

Os pais e professores sabem o tamanho da dificuldade que tem sido cobrar dos alunos e dos filhos uma atitude de apreço ao conhecimento. Eles, de modo geral, têm sido displicentes com tudo o que se refere aos estudos. Precisamos considerar a possibilidade de que isso possa ser resultado de uma grande falha nossa na formação intelectual deles. Mas a hipótese de que falta motivação para o estudo tem sido forte o suficiente para impedir que novas conjecturas sejam construídas. Uma possível é a de que o mundo adulto está tão indiferenciado do mundo infantil e jovem que permite aos mais novos se compararem aos adultos e acreditarem que estão no mesmo patamar no processo de aquisição do conhecimento.

Vejam a história que uma professora me contou. Em uma conversa com um aluno da quinta série que enfrenta dificuldades com a língua portuguesa, ela ouviu dele uma confissão: a de que estava desanimado com o estudo porque achava que nunca conseguiria escrever tão bem quanto ela. Ao explicar que para chegar a escrever como ela seria preciso muito exercício e muito tempo, ele perguntou, espantado, se não se aprendia a escrever bem de uma vez só. Não é interessante a pista que esse aluno nos dá? É a mesma dos que se surpreenderam com o trabalho de um profissional experiente ao executar sua função.

Mais importante do que cobrar êxito na vida escolar dos filhos é ensinar que estudo exige dedicação, esforço, concentração, organização e, principalmente, paciência e sacrifício também. Por que não?

*Texto publicado originalmente no Folha Equilíbrio

Escrito por Rosely Sayão às 10h39

A importância de dizer não

A mãe de duas crianças pequenas fez, outro dia, um comentário bem interessante. Ao contar a aventura que é tomar conta de dois filhos menores de seis anos e educá-los, a bem-humorada mulher disse que conseguiria levar a cabo sua árdua tarefa sem a maioria dos recursos que tem, com exceção de dois: as grades de proteção das janelas do seu apartamento e as travas das portas traseiras do carro. Considerei muito perspicaz a maneira como ela condensou nesses dois elementos de segurança a idéia de proteção que tem dominado a relação entre pais e filhos.

Já sabemos que os pais têm tentado proteger os filhos -e isso começa logo na primeira infância- desse mundo que eles julgam perigoso e violento. E, nessa fase em que os filhos devem estar sempre sob a tutela dos pais ou de outros adultos, são consideradas perigosas as características dos ambientes que as crianças freqüentam. Basta dar uma olhada nas escolas de educação infantil para constatar o grau que esse zelo atingiu. Ausência de escadas e de obstáculos, cantos arredondados, chão almofadado e areia tratada são algumas características que os pais gostam de encontrar.

Os cuidados com as crianças pequenas são fundamentais. Entretanto, eles têm sentido duplo: além de proteger, têm também o objetivo de ensinar que elas devem começar a se proteger. O autocuidado, tão necessário na adolescência, precisa ser ensinado desde os primeiros anos. Mas, nesse afã de evitar incidentes, os adultos têm se esquecido desse detalhe tão importante. É que, ao andar, correr e brincar em ambientes tão limpos de pequenos riscos, a criança apreende que ela mesma não precisa se cuidar e que o mundo é livre de qualquer ameaça. Assim, em vez de perceber que precisa se desviar de um canto de mesa, por exemplo, ela corre em linha reta considerando exclusivamente o seu objetivo.

Mas há uma outra questão, ainda mais contundente, embutida na fala da jovem mãe. A trava no carro, que evita que a criança tente abrir a porta com o veículo em movimento, e as grades de proteção nas janelas e sacadas, que impedem que a criança, acidental ou intencionalmente, se debruce e corra sérios riscos, apontam para a fragilidade das negativas que os adultos colocam à criança. Por que os pais dependem desses artefatos de segurança para garantir a integridade das crianças? Porque não acreditam que o "não" seja respeitado pelos filhos. E por que isso ocorre?

Vejamos o funcionamento da trava do carro. A criança curiosa certamente irá tentar abrir a porta mexendo no mecanismo. Ao se defrontar com o não-funcionamento, ela poderá tentar mais algumas vezes, mas irá desistir por um único motivo: porque aprende que ali não há alternativa. E quando são os pais que dizem ao filho que ele não deve mexer em determinado objeto? Frente à insistência das crianças, os pais desistem de impedir que elas façam o que, inicialmente, ouviram que não deveriam fazer. Ao contrário das travas das portas dos carros, os pais não funcionam até que a criança entenda que não haverá alternativa possível. Os pais não se dão conta de que, ao relevar o comportamento da criança de fazer algo que foi proibido pelo menos temporariamente, é a palavra "não" que perde seu valor. E isso é sério na formação da criança. Por esse motivo é que os pais realmente precisam de artefatos de segurança.

Não se trata, de modo nenhum, de prescindir desses dispositivos, e sim de revisar as condutas tomadas com os filhos. São poucas as situações que merecem um "não" categórico dos pais. Nesses casos, a negativa precisa ser honrada. E isso cabe aos pais.

 

*Texto originalmente publicado no Folha Equilíbrio.


 

Escrito por Rosely Sayão às 19h36