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Folha Equilíbrio

Participação em sala de aula

Várias mães têm me consultado sobre o que fazer com algumas informações que a escola dá sobre seus filhos. Escolhi refletir sobre um tipo de comunicação que a escola tem feito cada vez com mais freqüência. Trata-se de, na avaliação dos alunos, analisar o item participação em sala de aula. E é bom ressaltar que a escola costuma acentuar que a participação dos alunos nas aulas é algo a ser incentivado.

Uma coisa não fica clara: o que a escola entende por participação do aluno nas aulas? Os pais não sabem ao certo, mas têm lá suas hipóteses. Fazer perguntas sobre o conteúdo das aulas, adiantar algumas respostas resultantes de raciocínio, estudo ou conhecimento prévio ou apresentar um trabalho frente aos colegas são as alternativas que ocorrem com mais freqüência. Participar de debates e apresentar propostas também. Será que é assim que os professores entendem o conceito de participação? Pode ser que sim, o que resulta em algo bem complicado.

É bom notar que todas essas possibilidades levantadas têm um ponto em comum: a fala pública. Isso é um problema para muitos alunos, notadamente para os que se sentem embaraçados porque se identificam como tímidos e para aqueles que têm medo de errar publicamente. Já para os alunos extrovertidos, que têm traquejo no trato com os colegas e gostam de exibir seus conhecimentos, isso é um prato cheio.

Um ponto muito importante é que nem sempre os professores consideram o ato de participar em toda a sua complexidade. Pudera: em um mundo em que agir parece ser mais importante do que pensar, em que ser o centro das atenções é considerado fundamental e em que ser popular é um sinônimo de ser social, a questão foi simplificada em demasia. Vamos considerar os alunos tímidos. Sim, eles existem. A timidez não é, necessariamente, patológica. Pode ser um traço, uma característica, um modo de ser. Apenas a timidez exagerada, que atrapalha as relações interpessoais, deve ser considerada prejudicial. Hoje, entretanto, a timidez virou defeito.

Como pode? Afinal, vivemos (ou dizemos viver) no mundo da diversidade e do respeito à diferença, não é? Mas o fato é que os tímidos estão sem lugar. Se o aluno não participa como seus professores esperam por ser tímido, isso quer dizer que ele não aprende? Ora, temos inúmeros exemplos de pessoas extremamente tímidas que tiveram produção intelectual ou artística notáveis. E, se a escola contemplar, de fato, as diferenças pessoais de seus alunos, terá recursos que possibilitem aos alunos tímidos comunicar seu aprendizado. Os professores devem lembrar que muitos deles não se pronunciam em reuniões pedagógicas por timidez, e que isso não quer dizer que delas não participam.

Outro ponto importante é que alguns alunos participam, mas de um modo bem diferente daqueles que se encaixam no conceito atual de participação. Se a escola entender que participar é fazer parte da aula, por exemplo, isso pode ocorrer com o aluno em silêncio. Ouvir e observar são, também, maneiras de participar. Quando uma criança com menos de seis anos olha atentamente dois colegas brincando, ela participa da brincadeira mesmo que à distância e em silêncio. Quando um aluno não faz perguntas ou não se pronuncia, isso não quer dizer que não está presente.

Por outro lado, muitos alunos que falam em todas as oportunidades nem sempre o fazem com o sentido de participar. Finalmente, quanto ao aluno que não participa por medo de errar, a escola deve reconhecer que é responsável por esse comportamento. Afinal, ela valoriza o acerto e reprova o erro no processo de aprendizagem.

*Texto originalmente publicado no Folha Equilíbrio.

Escrito por Rosely Sayão às 18h14

Contra o que os jovens podem se rebelar?

Quem tem filhos adolescentes e leu a notícia sobre um acidente de carro ocorrido recentemente em que estavam cinco jovens de 14 a 15 anos -um deles ao volante- e em que três garotas morreram certamente imaginou o sofrimento e a dor que uma tragédia assim deve provocar nos familiares. Pois bem: já está na hora de pararmos de olhar para tais cenas como se assistíssemos a um filme de terror. Não podemos fechar os olhos quando há indícios de que o pior está para acontecer. É preciso reconhecer que estamos todos nessas cenas. E não só como espectadores: estamos envolvidos nelas até os ossos.

Sempre que uma tragédia que envolve jovens da classe média acontece surgem discursos oportunistas e moralizantes que repetem que os jovens não têm limites, não têm objetivo na vida, são "aborrescentes", sua rebeldia é vazia, não respeitam nada etc. Essa lengalenga precisa acabar. Basta de demonizar crianças e jovens. Em vez disso, talvez seja mais proveitoso lembrar o verso de uma música interpretada pela banda Legião Urbana: "Desde pequenos nós comemos lixo/ Comercial e Industrial/ Mas agora chegou nossa vez/ Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês".

Os jovens de hoje, como os de todas as épocas, precisam lutar contra algo, porque é negando o que querem que eles sejam que eles começam a caminhar em direção a saber quem, de fato, são. Mas eles têm agora poucos motivos para lutar contra os adultos. Estes têm preferido ser companheiros legais, confidentes, defensores da liberdade que eles deveriam desfrutar, bravos guerreiros contra o desprazer que, porventura, pudesse atrapalhar a vida dos jovens; têm compartilhado com eles estilos de vida e anseios. Não funcionam mais como alvo de confronto, já que quase não provocam restrições à vida dos jovens. Foi o tédio que se tornou o inimigo mortal, é contra ele que precisam lutar.

Fomos nós, adultos, que instalamos o tédio na vida dos jovens. Tudo eles têm e não precisam se esforçar para conseguir o que -julgam- desejam ter. São prisioneiros da ideologia de consumo, peça tão importante no mundo contemporâneo. Além disso, fazem o que acreditam que gostam e devem fazer nessa etapa da vida. Aí incluem-se festas, sexo, consumo, drogas e farras. Na verdade, eles não têm escolha.

É com profundo desprezo que olham para as normas da vida social e é com desdém que tratam os outros. Querem ser independentes. Mas tudo o que conseguem é serem pessoas desgarradas de qualquer grupo. Nem o que chamam de grupo pode ser considerado como tal. Trata-se mais de um agrupamento de jovens que giram em torno de interesses oportunistas e temporariamente comuns.

Contra o tédio resultante de uma existência tão vazia eles lançam a ousadia, a impulsividade e a bravura que, potencialmente, têm. Por isso os esportes radicais -tanto os lícitos e formais quanto os ilícitos e informais- fazem tanto sucesso entre eles. É a morte que eles desafiam porque esta parece ser a única autoridade que pode lhes restringir a vida. Parece que é apenas nessas práticas que eles conseguem vislumbrar alguma possibilidade de realizar feitos heróicos. Em nenhuma outra atividade da vida que levam se exige que ele expressem coragem, tenacidade, perseverança, dedicação e concentração, por exemplo. Os adultos responsáveis por eles não querem exigir quase nada. Apenas que passem no vestibular. E isso tem tão pouca importância para uma vida... E nós, adultos, temos assistido quase impassíveis à situação de vida que eles experimentam atualmente. Uma vez ou outra nos comovemos, nos indignamos. Mas a reação pára por aí. Não conseguimos, ainda, assumir que a infância e a juventude são questões que dizem respeito a todos nós, e não só aos pais e aos professores. Não demos conta, ainda, de tornar essa uma questão coletiva, de interesse comum.

Cenas trágicas como a do acidente referido devem servir para colocarmos esse debate em dia. Afinal, o que temos feito pelos jovens além de deixá-los abandonados com seus próprios recursos e vivermos como se fôssemos nós os adolescentes?

*Texto originalmente publicado no Folha Equilíbrio.

Escrito por Rosely Sayão às 18h12