UOL Estilo UOL Estilo





BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Mulher, de 56 a 65 anos, Portuguese

Quem é Rosely Sayão

e-mail
Dúvida
Neste blog Na Web

 Visitas  
 

Folha Equilíbrio

 
 

Outros maus-tratos

A PROCURADORA aposentada Vera Lucia Gomes, acusada de maltratar severamente uma criança de dois anos que pretendia adotar, já foi condenada por todos nós. Quem é que não culpa um adulto que humilha, impõe castigos físicos torturantes, destrata e agride uma criança indefesa? Por isso, nos permitimos dar à procuradora adjetivos como louca, bruxa, psicopata.

Em entrevistas, a acusada reconheceu que exagerou algumas vezes no tratamento dado à garota, mas por um bom motivo: dar educação a ela. E Vera Lucia fez mais. Declarou que agiu mal porque perdeu a paciência com uma impertinência da menina, como acontece com quase todas as mães quando estas ficam nervosas, irritadas ou estão num mau dia.

Essa declaração da acusada revela um incômodo: por trás da tragédia que ela protagoniza se escondem milhares de dramas cotidianos vividos por crianças de todas as idades, inclusive por aquelas que vivem em famílias de classe média.

Decidimos colocar as crianças sob intensa pressão: elas precisam aprender a se comportar assim que os pais ensinam, elas precisam gostar de estudar e ter êxito na escola, elas devem aproveitar bem o que os pais lhe oferecem e demonstrar gratidão por isso e, principalmente, corresponder à expectativa de sua família.

Mas criança não aprende de primeira e, mesmo depois que aprende algo, irá transgredir e desafiar; criança gosta mesmo é de brincar, e não de estudar; criança acha que os pais têm obrigação de lhe dar tudo o que ela quer; criança não tem autocontrole e gosta de experimentar.

Num mundo em que a infância está desaparecendo e em que os adultos teimam em parecer juvenis, é quase uma impertinência a criança se comportar como tal, dar trabalho, exigir paciência e persistência dos adultos que a educam.

E é por essa razão que, todos os dias, muitas crianças sofrem: apenas porque são crianças e os adultos se impacientam com isso. Hoje, alguns comportamentos delas são considerados síndromes, doenças, desajustes que exigem cuidados especializados e medicação.

Há muitas maneiras de se maltratar uma criança. Uma delas é não suportar que ela se comporte como criança.

PARA LER
Como Amar uma Criança
Janusz Korczak
EDITORA Paz e Terra
QUANTO R$ 59, em média

Vale a leitura do livro de Janusz Korczak, que compreendeu de verdade a criança e buscou maneiras dignas de educá-la.

Escrito por Rosely Sayão às 11h10
 
 

Juventude e maturidade

O relacionamento dos pais com os filhos adolescentes não tem sido fácil. Além da fase complexa pela qual os jovens passam e que os leva a agir de modo diferente do que seus pais estavam acostumados -e que deixa os adultos um pouco perplexos e sem ação-, a situação está ainda mais difícil por causa de nossa cultura em relação à juventude.

Ser jovem deixou de ser uma etapa da vida para se transformar em um estilo de viver. Isso significa que, quando a criança entra na adolescência, ela passa a se relacionar com adultos iguais a ela, ou seja, tão jovens quanto ela. Na questão educativa, esse é um fato complicador. A adolescência é o tempo de amadurecer, mas, se os pais não ajudarem o filho a entrar na maturidade, ele continuará a agir de modo infantilizado.

Todos conhecem jovens que estudam e... só. No restante do tempo da vida, eles consomem, frequentam festas, namoram e desfrutam da sexualidade, jogam, ficam na internet. Em resumo: eles estudam sob uma enorme pressão de êxito não apenas por parte da família como de toda a sociedade e permanecem prisioneiros de seus caprichos impulsivos.

Para muitos, esse é o momento de buscar desafios para evitar o tédio que se instala nesse tipo de vida. Alguns encontram as drogas, outros desafiam a morte por meio de, por exemplo, esportes radicais, outros se dedicam exaustivamente ao culto do corpo perfeito e muitos outros ficam doentes.O índice de suicídio entre jovens tem crescido no mundo todo, inclusive no Brasil. Aqui, tem aumentado a taxa que envolve a população entre 15 e 29 anos de idade.

Isso significa que eles precisam muito dos pais nesse momento da vida. E o que seus pais podem fazer?

Em primeiro lugar, podem bancar o lugar de adultos perante o filho adolescente, não esmorecer nem tampouco desistir, por mais árdua que a tarefa educativa pareça.É preciso lembrar que pode ser difícil, mas impossível não é, como tenho ouvido muitos pais declararem.

O filho precisa da ajuda dos pais, por exemplo, para aprender a retardar e mesmo suspender o prazer que busca, para saber dividir seu tempo entre várias atividades e obrigações, para se abrir para as outras pessoas e buscar modos de viver bem com elas. Precisa de auxílio também para colaborar com o grupo familiar e para dar conta de várias outras responsabilidades consigo mesmo e com os outros, para desenvolver virtudes e para, sempre que conjugar o verbo "querer", aliar a ele outros dois: o "dever" e o "poder".

Para tanto, os pais precisam aprender a ceder algumas vezes e a ouvir o que seu filho diz -seja por meio de palavras, seja por atitudes. Ouvir não significa atender, mas considerar a dialogar e a negociar. E essa talvez seja a palavra chave do relacionamento entre pais e filhos dessa faixa etária.

Negociar conflitos e demandas com o filho é uma maneira de os pais o ajudarem a perceber que ele pertence a um grupo que segue alguns valores e princípios que são inegociáveis, mas que, ao mesmo tempo, reconhecem o crescimento do filho e, por isso, valorizam sua busca de autonomia. Mas essa negociação deve priorizar a exigência do desenvolvimento de sua maturidade.

A responsabilidade dos pais é grande nesse momento da vida do filho e não apenas com a família e com ele próprio. Afinal, são esses jovens adolescentes que serão os responsáveis por nosso futuro bem próximo.

Escrito por Rosely Sayão às 10h09
 
 

Cozinha para desfrutar

Conversei com um garoto de seis anos e ele me contou que, quando o pai cozinha, ele vai jantar e dormir na casa da avó -o que, por sinal, ele disse adorar. Perguntei se ele não gosta da comida que o pai prepara e ele respondeu que é sempre uma "comida muito estranha". Na casa da avó ele gosta de jantar arroz, feijão, picadinho e salada.

A arte culinária -ou gastronomia- está mesmo na moda. Homens e mulheres têm se dedicado a comprar livros e pesquisar receitas, conhecer ingredientes novos e locais onde se vendem produtos de qualidade, comprar utensílios dos mais variados tipos -que vão do sofisticado ao antigo com novo desenho etc. Até as escolas têm usado a cozinha como laboratório de ensino para as crianças.

Há quem nunca tenha se interessado pela cozinha e agora se deleita com essa nova descoberta. Jantar em restaurantes de chefs aclamados, assistir a programas de televisão com esse tema, frequentar sites e blogs que exploram o universo da gastronomia e promover jantares em casa para os amigos têm sido bons programas para essas pessoas.
A cozinha e a sala de jantar transformaram-se, para muita gente, em locais de jogo de adulto, e nem sempre as crianças desfrutam dessa brincadeira de gente grande. Sim: o jogo é importante na vida de todos, mas, num mundo em que as crianças foram invadidas pelo mundo adulto, parece que esse espaço lúdico ficou reservado aos adultos.

Cozinhar é um ato generoso e de amor. O primeiro contato da criança com esse mundo dá-se por meio da alimentação: é pela amamentação que o bebê estreita seu vínculo com sua mãe, aconchega-se a ela, sente seu cheiro, o calor de seu corpo e se acalma. Entretanto, num mundo em que a oferta de alimentos industrializados é intensa e sedutora, logo as crianças são apresentadas às guloseimas vendidas e muitas famílias passam a acreditar que é disso que elas mais gostam.

Uma pesquisa recente, realizada com famílias de todas as classes sociais, apontou que bebês a partir de quatro meses já comem bolachas, massas congeladas etc. Nas escolas, podemos constatar esse costume pelo conteúdo das lancheiras das crianças pequenas: salgadinhos, biscoitos recheados, bolos e sucos industrializados ganham longe dos lanches feitos em casa. E vale dizer que, além de as crianças gostarem, a praticidade de montar um lanche desse tipo conta muito para as mães.

O interessante é que é justamente na cozinha e na sala de jantar, de onde muitas crianças foram banidas, que elas poderiam conhecer, na prática, as tradições, as histórias e a cultura de sua família, experimentar o sentimento de pertencer a um grupo, ser alimentada com amor, atualizar os afetos familiares e perceber o quanto o mundo é vasto e diverso. Mas, em vez disso, ficam sabendo das mazelas do mundo adulto enquanto comem as mesmas coisas de sempre em frente à televisão.

O estilo de vida urbano parece impedir a reunião familiar, incluindo as crianças, nos horários de alimentação. Mesmo assim, é possível fazer isso acontecer com regularidade. Para tanto, insisto, é preciso encarar o ato de comer como um fato social acima de tudo.

Os pais, hoje principalmente as mães, usam e abusam da frase "eu te amo" com os filhos. Talvez isso seja necessário porque faltem atos que expressem esse amor, entre eles o de cozinhar amorosamente para eles e o de desfrutarem juntos do resultado obtido.

Escrito por Rosely Sayão às 12h04
 
 

Perdão às mães

Como a data em que se comemora o Dia das Mães está próxima, quero aproveitar e, em nome de muitas escolas, pedir perdão a mulheres que têm filhos que frequentam todos os níveis do ensino básico e da educação infantil.

Senhoras mães: perdão por reclamarmos de seus filhos, por muitas vezes sugerirmos que eles possam ter algum problema emocional, físico ou intelectual e até solicitarmos que eles sejam levados a algum especialista.

É que nossa tradição é a de lidar com alunos exemplares ou medianos, os quais não nos convocam a pensar, refletir ou agir de modo diferente do que estamos acostumados. Então, para evitar que eles revelem as nossas falhas e os nossos limites, adotamos essa postura de creditar a nossos alunos -os seus filhos- alguns defeitos que precisariam ou deveriam ser consertados.

Senhoras mães: perdão por invadirmos tanto a privacidade de sua família, por fazermos tantas perguntas com a finalidade de ter informações que nem usaremos em benefício de seus filhos no exercício de nossa função.

Afinal, saber se nosso aluno foi desejado como filho, como vivem seus pais e quais os problemas que enfrentam e conhecer alguns segredos familiares, por exemplo, não facilita nosso trabalho pedagógico com os alunos, por mais que digamos que sim.

Senhoras mães: perdão por julgarmos e criticarmos a maneira como cuidam de seus filhos e os educam. Demos para acreditar e nem sabemos ao certo o porquê que sabemos mais do que vocês a respeito da educação familiar e nem nos damos conta de que, com os nossos próprios filhos, muitas vezes nos comportamos do mesmo jeito que vocês. Temos nos confundido no exercício de nosso papel e não raras vezes queremos educar vocês em vez de ajudarmos os nossos alunos.

Senhoras mães: perdão por enviarmos tantos bilhetinhos e correspondências na agenda a respeito do que se passa com seu filho na escola, convocarmos sua presença para tantas reuniões coletivas e algumas pessoais e, inclusive, solicitarmos sua intervenção em assuntos que, na verdade, são entre seu filho e a escola.

O problema é que não sabemos mais ao certo como lidar com crianças e adolescentes, não conseguimos encontrar estratégias para resolver as situações problemáticas diretamente com eles aqui no espaço escolar e, por isso, apelamos para sua intervenção na esperança de que as coisas se resolvam dessa forma.

Senhoras mães: perdão por fazermos vocês pensarem que a vida escolar de seus filhos é a coisa mais importante da vida e, assim, contribuirmos para que a função materna fique tão parecida com a função docente.

Por fim, perdão por insistirmos nessa história de comemoração do Dia das Mães e, assim, colocarmos tantas mulheres em situações difíceis perante seus filhos.

Esquecemos que muitas delas não podem por razões que nem nos interessam -ou não querem- comparecer às festas que programamos com o intuito de agradar as mães de nossos alunos. E nessa hora -devemos reconhecer- nem nos lembramos de que não faz parte de nossas funções promover esse tipo de atividade.

Sabemos que pedir perdão é pouco, senhoras mães. Por isso, nos comprometemos a fazer uma reflexão crítica de nosso trabalho.

Escrito por Rosely Sayão às 11h34
 
 

Bruxas, monstros e morte

A mãe de uma garotinha de quase quatro anos escreveu para contar que estava considerando a possibilidade de tirar a filha da escola. O motivo? A professora conta histórias para as crianças que tratam de morte, falam de monstros, bruxas e de todo tipo de ser imaginário. Para essa mãe, isso gera medo e angústia na filha e, por isso, ela tem pesadelos frequentes. Como nossa leitora não está sozinha nesse tipo de pensamento, vamos conversar a respeito.

Temos feito de tudo para evitar que a criança sofra, não é? Ou, pelo menos, tentamos evitar que elas tenham contato com tudo o que julgamos que pode gerar dor, ansiedade, angústia e outros sentimentos semelhantes. O tema emblemático nesse sentido é a morte. Escondemos a morte das crianças: esse não é mais um tema de conversa entre pais e filhos, elas não mais participam de velórios e funerais, evitamos que assistam a filmes ou ouçam histórias que trazem a ideia de morte à tona.

Conheço uma mãe de duas crianças pequenas que assiste a cada filme infantil antes de seus filhos para averiguar se não há cenas que assustam ou trazem a presença da morte. Ela não deixou os filhos assistirem à animação "Procurando Nemo" porque a mãe do peixinho morre e ela não achou adequado que as crianças fizessem perguntas sobre isso. Consideramos esse assunto muito pesado para elas e, por isso, procuramos poupá-las dele, como se isso fosse possível. É preciso saber que não é.

Não são as histórias com seus enredos e personagens que criam para a criança conflitos, medos e angústias e tampouco apresentam a ela o tema da morte. Essas são questões humanas e, ao contrário do que alguns pensam, os personagens fantásticos e as tramas dessas histórias ajudam a criança a encontrar caminhos para entender e superar, pelo menos temporariamente, o que sente.

A atitude chamada "politicamente correta" de transformar histórias e lendas infantis de modo a subtrair delas o que consideramos que possa fazer mal à criança ou sugerir o que consideramos "maus exemplos" não faz o menor sentido. Será que esquecemos que o que pode fazer mal a elas é o que está presente na realidade do mundo adulto, agora totalmente acessível a elas?

Não é hipócrita não mais cantar "Atirei um pau no gato", mas permitir que as crianças assistam a campeonatos de futebol em que jogadores intencionalmente se agridem para levar vantagem? Não é curioso evitar que elas ouçam histórias de bruxas que perseguem crianças, mas permitir que assistam a noticiários que mencionam assassinatos e abusos sexuais de crianças?

Que as bruxas, os duendes e os monstros, as madrastas malvadas e as crianças órfãs habitem o imaginário de nossas crianças é tudo o que podemos desejar. É que nesse mundo, diferentemente do mundo adulto, elas contam com as fadas e suas varinhas de condão, com os príncipes que salvam as princesas do sono eterno e, principalmente, com um final em que o bem vence o mal.

Escrito por Rosely Sayão às 13h57
 
 

Sexo para consumo

Nos últimos dias, toda a imprensa noticiou e comentou casos de violência sexual que envolveram adolescentes e jovens e estavam ligados às chamadas "pulseirinhas do sexo". São pulseiras de plásticos de todas as cores, bem baratas, que passaram a funcionar como um código ligado à vida sexual.

Cada cor tem o objetivo de enviar um tipo de mensagem erótica a quem tem a chave para decifrar o segredo. Assim, quem usa a pulseira amarela pede ou está disposta a um beijo, quem usa a roxa já avisa que o beijo é de língua e assim sucessivamente.Entretanto, nem todos os que usam as pulseiras fazem parte do grupo que conhece e usa o código. Crianças dos dois sexos foram seduzidas pelo enfeite acessível e elas estão nos braços de um número enorme de crianças e adolescentes só para sinalizar que eles estão atentos à moda.

Muitos adultos já conheciam esse código e passaram a vetar o uso das pulseiras aos seus filhos ou alunos. Agora, depois dos incidentes violentos noticiados, já há até políticos com propostas para tornar lei a proibição do comércio das tais pulseiras.

Mas será que isso resolve o problema, ou melhor, será que as pulseiras é que são o problema?

Para pensar a respeito, vamos considerar uma reportagem publicada no Folhateen com o título "Faturando com sensualidade". Num suplemento dirigido ao jovem, a reportagem informa que mulheres de 19 a 26 anos usam o sexo para ganhar dinheiro.Bem, então a questão não são as pulseiras nem a internet, usada como veículo por várias dessas mulheres. Precisamos pensar é nos conceitos que envolvem a sexualidade que temos passado aos mais novos.

Não temos tido cuidado algum quando se trata de educação ou orientação sexual aos mais novos. A própria reportagem citada pode ser lida por adolescentes como uma boa dica para ganhar dinheiro.

Desde que o tema sexo deixou de ser tabu, parece que deixou de ser tarefa dos pais e da escola a formação educativa dos mais novos em relação ao tema. Mas o que não nos lembramos é que essa formação ocorre de qualquer maneira e, na ausência de uma prática educativa responsável e crítica, os jovens se formam com o que está disponível a eles: material na internet, peças publicitárias, exploração do tema em revistas e programas de TV etc.

Muitos pais não querem ser vistos como "caretas" pelos filhos e, por conta disso, deixam de moralizar a questão, mesmo quando pensam que deveriam fazer isso. Escolas não assumem a responsabilidade, principalmente porque não sabem como elaborar e colocar em prática um projeto responsável de educação sexual.

E por causa de nossa omissão o sexo passou a ser visto pelos jovens e por muitas crianças apenas como mais um item de consumo na vida. Vejam só: pais permitem que seus filhos, considerados "pré-adolescentes", mas que ainda são crianças, namorem, por exemplo.

Vamos proibir o uso de pulseiras ou encarar nossa responsabilidade com a educação sexual de crianças e jovens?

Escrito por Rosely Sayão às 21h30
 
 

Compaixão pelas crianças

 

Muitas crianças sofrem quando se descontrolam, quando fazem o que não poderiam nem deveriam fazer, quando expressam explosivamente seus caprichos, quando se debatem com uma tarefa difícil que precisam cumprir e se perdem no abismo do "eu não vou conseguir, eu não sou capaz", quando transgridem um princípio conhecido e sabem que a consequência de seu ato prejudica alguém.

O sofrimento delas fica estampado com tanta clareza que é difícil um adulto não perceber o que ocorre nesse momento.Mesmo assim, a reação de muitos deles tem sido insensível. Já faz um tempo que adotamos a postura de reclamar de comportamentos das crianças, de nos sentirmos vítimas de suas atitudes, de nos fazermos impotentes frente a elas.

"Eu não aguento mais esse menino!", "Eu já fiz de tudo para ensinar a ela que não pode fazer isso", "Ela não tem jeito", "Essa criança precisa de um castigo muito sério" são frases que ouço pais e professores dizerem com frequência. Pois elas expressam a falta de compaixão e de empatia dos adultos para com as crianças, o que talvez seja uma marca importante de nosso tempo.

É preciso buscar novos caminhos para reagir às crianças que experimentam as situações acima, já que, mais do que acusações e reclamações, elas precisam é de nossa ajuda, de nossa intervenção educativa.

Em primeiro lugar, é bom lembrar que, como nos ensinou Françoise Dolto -psicanalista que se dedicou a compreender a infância e a adolescência-, quando uma criança reage com violência a uma pessoa ou a uma situação, é porque ela tem lá suas razões, mesmo que não seja possível perceber os motivos que a levaram a se comportar dessa forma.

Isso não significa, é claro, que pais e professores não tenham que fazer com que ela arque com as consequências de seus atos e que não a levem a reparar o que fez. Mas ter essa compreensão é fundamental para que seja possível manter a calma e o equilíbrio a fim de não se relacionar com a criança de modo simétrico e, desse modo, perder o lugar de educador.

Reclamar de, acusar, julgar e condenar são atos que, em geral, praticamos com quem ocupa posição simétrica à nossa. Fazer isso com crianças mostra que, diante delas, deixamos vago o lugar de adultos.

É possível ensinar às crianças o respeito às normas importantes para a convivência sem que isso signifique formar um batalhão de obedientes. Igualmente, podemos ensinar a elas que podem e devem sentir orgulho de si mesmas por conseguir ter controle sobre seus atos.

As crianças sofrem quando não conseguem dominar seus impulsos violentos e de momento. Para que tenham êxito no árduo aprendizado do autocontrole, precisam de nós, adultos, agindo como tal. Elas também sofrem quando se afogam no mar da insegurança que as impede de se esforçarem para aprender. Também nesse momento precisam de nosso apoio e encorajamento.

As crianças precisam contar conosco para transformar em ato seu potencial.

 

Escrito por Rosely Sayão às 12h16

Pais estudantes

 

 

As escolas trabalham com seus alunos há mais ou menos dois meses. É de se esperar que, a esta altura, muitos estudantes já tenham percebido que têm obstáculos a enfrentar, dificuldades a superar, conflitos a resolver. Frequentar escola traz lá os seus problemas, todos sabem. No entanto, o que não sabíamos é que boa parte desses problemas acaba nas mãos dos pais. Da educação infantil à faculdade, eles têm assumido muitos dos contratempos escolares dos filhos.

Pais de universitários tentam negociar prazos de entrega de trabalho com professores e comparecem à faculdade para resolver problemas dos alunos com a secretaria. Muitos também são chamados pelas faculdades para reuniões e até recebem boletim de frequência e avaliação do filho -isso sem falar de mestrandos e doutorandos em situação semelhante.

Não há dúvida de que esses jovens, de classe média, estão infantilizados, e nem sequer se envergonham da situação. Ao contrário: é de muitos deles que parte o pedido de ajuda aos pais. Justamente quando finalizam o processo de amadurecimento iniciado na adolescência e estão prestes a entrar na vida adulta, são seduzidos a estacionar, quando não a regredir.

Quem tem filhos cursando o ensino médio ou o pré-vestibular carrega uma carga bem pesada. Pressionados pela sociedade, pressionam seus filhos para que deem conta da enorme quantidade de conteúdo passado pela escola e tirem boas notas, para que não percam aulas, para que entrem em uma faculdade reconhecida etc. Contratam professores particulares -muitas vezes indicados pela escola que o filho frequenta!-, dão prêmios e castigos, controlam horários de estudos, tudo em função do rendimento escolar. Mas para quem é importante, afinal, cursar uma faculdade?

Já quem tem filhos no ensino fundamental acaba por ter de atender a pedidos das escolas para que resolvam questões de indisciplina, de desatenção, de comportamentos inadequados ao espaço escolar, de recusa da autoridade do professor etc. No final, o aluno está lá na escola e os pais, aqui fora, tentam interferir no comportamento dele lá. Será que é possível? Tenho dúvidas, já que, quando mudam o papel social e o contexto, pode mudar muita coisa na maneira de se portar da criança.

Nem mesmo os pais das que frequentam a educação infantil ficam livres de arcar com questões da vida escolar dos filhos. São pesquisas e lições para serem feita em casa, reuniões para ouvir análises que a escola faz, ora do comportamento ora do desenvolvimento de seus filhos e até receber algumas orientações, inclusive de encaminhamentos.

Em resumo: hoje, quem tem filhos na escola quase se torna um repetente, já que precisa dar conta de questões que lá atrás, em sua infância, já foram vividas. E quase sempre sem contar com a ajuda dos pais, é bom ressaltar.

Talvez uma boa parceria da família com a escola pudesse ser a de que ambas conseguissem ensinar aos filhos e alunos que o compromisso escolar é deles, e apenas deles.

 

Escrito por Rosely Sayão às 11h21
 
 

Amor confuso

A mãe de uma menina de 11 anos está muito preocupada com o namoro da filha, que já dura meses. É que a garota contou a ela que o relacionamento com o namorado, de 15 anos, está "esquentando". Essa mãe não sabe mais o que fazer porque já conversou com o casal, aconselhou, falou de todos os riscos de uma gravidez fora de hora. Mesmo assim, parece que eles não se dão conta da gravidade da situação, já que responderam a ela que "o que tiver de acontecer acontecerá".

Em outra ponta, a mãe de um jovem de 21 anos encontra-se em uma situação parecida. O filho é financeiramente autônomo e decidiu casar-se com sua namorada, que é a primeira garota com quem se relacionou.Essa mãe é contra a decisão do rapaz porque acha que ele deveria ter outras experiências amorosas e sexuais antes de se comprometer. Por causa desse conflito, mãe e filho estão com a relação bem desgastada.

Essas situações nos mostram que muitos pais estão confusos na relação que estabelecem com os filhos. Por isso pode ser bem interessante pensar sobre esse vínculo tão especial.

Os filhos não vêm ao mundo por vontade própria. Os pais -ou um deles- quiseram isso, mesmo que esse querer tenha sido repleto de contradições.Uma vez aqui, cabe aos pais, por causa do amor que a ele dedicam, formar o filho para que ele possa andar com suas próprias pernas, ser autônomo.

A questão fundamental no mundo contemporâneo talvez seja a de que o amor de muitos pais pelos filhos tornou-se a única coisa (ou pelo menos a mais importante) que conta nessa relação. E isso muda tudo na formação dos mais novos.

Quando uma criança pequena, à mercê de seus caprichos, quer ou não quer qualquer coisa, os pais cedem, mesmo sabendo em tese que não deveriam, porque o amor que sentem pelo filho não permite vê-lo sofrer. Mais crescido, mas criança ainda, ele quer se comportar como adulto, como a filha de nosso primeiro exemplo. Os pais cedem porque se sensibilizam com a situação e acabam por acreditar que as coisas são assim mesmo hoje em dia.

Já com o filho crescido e amadurecido, prestes a colocar o pé na vida adulta e pronto para assumir todos os ônus e bônus desse caminho, alguns pais hesitam em sair de cena porque isso significa ter de suportar o afastamento. O amor imenso que sentem acaba por aprisionar todos nesse laço.

Dessa maneira, o amor desses pais pelos filhos, como se configura e se materializa na atualidade, acaba impedindo que estes reconheçam sua intimidade já que os pais imiscuem-se nela; atrapalha o processo de construção de autonomia deles porque os pais ofertam conforto, em todos os sentidos, em troca de sua proximidade; permite às crianças que se comportem como adultos e a jovens adultos que vivam como crianças porque os pais não suportam a ideia de que seus filhos vivam fora dos contextos sociais do momento.

Será que o amor dos pais pelos filhos está fora de controle justamente porque as relações afetivas entre adultos se tornaram descartáveis e frágeis?

Escrito por Rosely Sayão às 13h34
 
 

Regras coletivas

A mãe de um garoto de nove anos escreveu reclamando de uma regra que a escola que seu filho frequenta adota. Ela marcou uma visita do menino ao pediatra e queria buscá-lo antes do fim das aulas. Só que a escola não permite essa prática e, mesmo com a insistência dela, não cedeu. Resultado: o garoto precisou faltar nesse dia.

Nossa leitora tem dois argumentos para contestar a posição da escola: considera melhor o aluno assistir a uma parte da aula do que faltar o dia todo e acha que a rigidez e o apego às regras não contempla a diversidade da necessidade dos alunos. Creio que essa questão merece uma boa reflexão.

Antes de tudo, vamos lembrar que à escola cabe a transmissão do conhecimento em uma situação específica: no coletivo. Os alunos devem aprender com seus colegas, e isso leva a uma série de outros aprendizados. Um deles é o respeito às leis da instituição escolar, um espaço de convívio público.

Muitas das leis que existem na escola são resultantes de princípios que servem de base ao bom convívio. Está certo que muitas escolas se importam mais com as regras do que com os princípios por trás delas e, por isso, exageram nas medidas que tomam. É o caso do uso do uniforme, por exemplo. Sei de alunos que foram impedidos de entrar na escola porque usavam meias brancas com pequenos enfeites coloridos.

Mas, à parte esses equívocos, os pais deveriam acatar as leis escolares e incentivar os filhos a respeitá-las porque, assim, ensinam também o que significa ser cidadão, viver em comunidade. Imagine, leitor, uma escola com centenas de alunos tendo de administrar entradas e saídas fora do horário. As aulas ficam confusas, os alunos, dispersos, e o espaço, desorganizado. E isso influencia o aprendizado de todos.

É por isso que o trânsito, por exemplo, tem suas leis: para proteger a todos os que caminham ou dirigem seus carros nas ruas. As transgressões a essas leis colocam em risco muita coisa, inclusive a segurança de todos nós. E, como o trânsito é caótico porque cada um pensa apenas em suas necessidades, sabemos que o resultado não é bom para ninguém.

Lembro-me de uma época em que o ator Antonio Fagundes decidiu ser rigoroso no horário de uma peça que encenava. Quem chegasse após o início era impedido de entrar. Isso gerou polêmica. Por quê? Porque, no modo de vida individualista que adotamos, pouco nos importa o outro, já que tudo o que interessa é o que "eu quero agora" ou de que "eu preciso".

Pois é, estamos mais para a televisão do que para o cinema ou o teatro. Enquanto assistimos à TV, comemos, conversamos, atendemos ao telefone, "zapeamos" etc. Não há ritual necessário. Já no cinema ou no teatro, devemos seguir alguns rituais, e isso tem incomodado muito. Mas uma sociedade desritualizada leva a dificuldades de convívio.

Por isso, senhores pais, é bom ensinar aos filhos o respeito às leis escolares. Quando a escola demonstrar rigidez, e não rigor, aí é hora de dialogar em busca dos princípios de base das leis que aplicam.

Escrito por Rosely Sayão às 10h08
 
 

Presente obrigatório

A mãe de uma garota de cinco anos narrou uma situação que a deixou muito constrangida. Ela levou a filha à festa de aniversário de uma colega de escola. Ao saírem, a mãe da colega deu uma lembrancinha -essa moda pegou mesmo- para a menina como agradecimento por ela ter comparecido à comemoração. A filha olhou para o que recebeu e, rapidamente, disse: "Só isso?!".

Outra mãe, cujo filho tem quatro anos, contou uma história parecida: no Natal, uma amiga dela levou um presente para seu filho que, ao recebê-lo, jogou longe e começou a chorar dizendo que não era isso o que queria ganhar.

Para complementar, um caso que considerei absurdo. Um casal processou uma loja de presentes porque ela não apresentou aos convidados todos os itens que eles haviam escolhido para sua lista e, por causa disso, eles ficaram sem alguns objetos que queriam ganhar.

Os presentes de casamento, aniversário, Natal e outras comemorações em que temos o hábito de presentear tornaram-se mais importantes do que a data, do que as pessoas e seus vínculos, do que a vontade de mimar alguém e manifestar seu carinho e tudo o mais que envolvia o ato.

Presentes, como bem ilustram os casos citados, transformaram-se em obrigação, encomenda, em expectativa que não pode ser frustrada. Abdicamos da surpresa de receber ou de dar um presente, da sensação gostosa ou do desagrado que se tem ao descobrir o que ganhamos em nome da praticidade.

Afinal, dá trabalho, custa tempo procurar um presente que tenha algum significado para a pessoa que iremos presentear, não é mesmo? E, depois de tudo, ainda correr o risco de não agradar? Não queremos riscos nem tampouco compromisso.

Por isso surgiram as listas: de Natal, de casamento, de aniversário, de chá de bebê... E quem faz a festa, afinal, é o comércio, que inventou até o vale-presente. Por que alguém iria se preocupar com o que dar de presente se a própria pessoa pode escolher o que quer?

Do jeito que a coisa está, acho que ganhar presentes pode até se transformar em um meio de sobrevivência. Assisti a um filme, que nem era muito bom, mas cujo roteiro era exatamente esse: dois jovens que se conhecem decidem simular um casamento somente para ganhar presentes e ter, com isso, uma renda extra.

Os mais novos talvez nem conheçam o sentido original do presente. E, já que temos reclamado tanto do consumismo exagerado que ensinamos a eles e também da nossa falta de tempo para tudo -inclusive e principalmente para o convívio familiar e com os amigos-, pode ser essa a hora de começar a retirar o caráter utilitarista e impessoal do presente e dar a ele o valor afetivo que merece.

Uma atitude desse tipo gera consequências, é bom saber: dedicação, tempo e, acima de tudo, compromisso com as pessoas com quem temos e cultivamos um vínculo amoroso. E, ao contrário do que aprendemos a pensar, viver bem tem tudo a ver com esse tipo de presença, não é verdade?

Escrito por Rosely Sayão às 09h53
 
 

Liberdade feminina

Conversei com a mãe de uma garotinha que completa três anos neste semestre e que foi matriculada na escola pela primeira vez no início do ano. O problema, segundo a mãe, é que a menina fica desesperada na hora de ir para a escola e chora o tempo todo que lá fica.

Durante nossa conversa, essa jovem mulher disse que está esgotada porque preferiria não levar a filha para a escola, mas não tem escolha por causa do horário de trabalho e da indisponibilidade de sua mãe, que, até então, dera conta de ficar com a neta. Essa mãe não está sozinha ao viver esse dilema, não é verdade?

Uma pesquisa recente apontou que bebês de até quatro meses têm sido alimentados com comida industrializada com frequência. Que tal uma lasanha congelada no almoço e umas bolachas recheadas para o lanche dessas crianças? Mães de todas as classes sociais têm feito isso e um dos motivos é que não sabem cozinhar.

Um número enorme de mães reclama do cansaço que provoca a dedicação ao trabalho e o cuidado com os filhos. Elas querem férias deles também, como têm no trabalho. Babás trabalham diuturnamente para muitas mulheres que não dispensam folguistas nem nos feriados. Alguns pediatras informam que muitos bebês e crianças vão ao consultório acompanhados apenas de suas babás.

Em salões de beleza, é comum encontrar mulheres acompanhadas das filhas pequenas que se inquietam, choram, fazem birra. O mesmo ocorre em restaurantes, shoppings, aeroportos etc.

Com a proximidade do Dia Internacional da Mulher, esses dados e outros devem nos fazer refletir sobre a liberdade da mulher no mundo atual.

Em tempos em que a mulher pode marcar presença em quase todos os segmentos profissionais, pode ter filhos casada ou não, com parceiro ou não, pode estabelecer e romper relações amorosas quando quiser, pode cultivar sua aparência de acordo com seus anseios e disponibilidade financeira, ter autonomia econômica etc., parece que desfruta de uma liberdade sem fronteiras.

O problema é que nem sempre a mulher reconhece que muito do que faz não é por escolha. Sim. Na atualidade, ela está submetida às mais variadas pressões, muitas delas tão sutis que se travestem de seus propósitos pessoais. Conhece o ditado popular "o que não tem remédio, remediado está"? Podemos transformar em "o que não tem escolha, escolhido está" no caso das mulheres.

Como liberdade é poder escolher, conseguir realizar sua opção e abdicar das outras, podemos dizer que a liberdade feminina anda plena de restrições. E, depois da fase "mulher maravilha", o cansaço bateu.

O que fazer com os filhos que precisam da disponibilidade (não da presença física) em tempo integral da mãe, com os anos que passam e com a aparência física que perde o frescor, com os embates competitivos no campo profissional que desgastam e sugam energia, com as obrigações sociais, com a solidão habitada por multidões de "amigos"?

E agora, Maria?

Escrito por Rosely Sayão às 10h12
 
 

Ensino público

Recebi duas correspondências de mães de dois jovens que se dedicaram com afinco, no ano passado, a estudar para o vestibular. Uma delas anunciou que, após dois anos de preparação, seu filho finalmente conseguiu classificação para matricular-se em uma universidade pública reconhecida, que ele tanto almejava.Agora ela quer saber o que pode fazer para ajudar o filho nessa nova fase da vida.

A outra mãe não sabe como agir porque seu filho não atingiu classificação para a universidade pública, mas passou em uma universidade privada que ela considera boa e cuja mensalidade a família pode pagar. No entanto, o jovem se recusa a fazer a matrícula porque considera humilhante obter um diploma de graduação nessa universidade depois de cursar o ensino médio em uma escola muito bem avaliada. Essa mãe quer convencer seu filho a mudar de opinião para não desperdiçar um ano de estudos.

Creio que esses dois depoimentos juntos nos dão um retrato de como nossos equívocos a respeito da avaliação que fazemos sobre o ensino público e o ensino privado têm reflexo nos mais novos. Criamos uma verdadeira contradição nesse sentido, não é verdade?

De um modo geral, a classe média optou por colocar seus filhos durante o ensino básico em escolas particulares: desde as famílias mais abastadas, que conseguem pagar as caríssimas mensalidades de algumas escolas consideradas "as melhores" por diversos motivos, até famílias mais simples, que vivem com orçamento apertado e que conseguem escolas particulares com mensalidades bem mais em conta. Para ter uma ideia, encontrei pais que pagam desde R$ 330 por mês pela escola dos filhos até os que arcam com perto de R$ 2.000. Ou seja, há escolas privadas para todos os bolsos.

O que importa é que, independentemente do projeto pedagógico da escola, do empenho e do compromisso de seus docentes, da didática utilizada etc., decidimos valorizar o ensino básico privado e, consequentemente, desvalorizar o público, com raras exceções. Pode não parecer, mas tal atitude gera muitas consequências para a educação do país: a classe média não se importa com as políticas públicas em educação, a imprensa se ocupa muito mais com o que acontece nas escolas privadas e ressalta as mazelas das públicas, e a boa educação escolar segue como privilégio de classe.

O curioso é que a lógica aplicada se inverte no ensino universitário: a mesma classe média passa a valorizar o ensino público e a desvalorizar a maioria do privado.Que raciocínio é esse? Com ele, criamos distorções importantes. Famílias enfrentando problemas financeiros que poderiam transferir os filhos para escolas públicas escolhem continuar nas particulares mesmo inadimplentes, por exemplo, sem falar da imagem que passamos aos mais novos, como no caso do filho da leitora citada.

Até quando vamos sustentar a complexidade que é a educação escolar com essa equação tão simplista?

Escrito por Rosely Sayão às 10h45
 
 

Cuidado ao falar


"Os ouvidos não têm pálpebras, por isso não podemos nos proteger dos barulhos que não queremos ouvir." Essa frase, dita por uma professora de música em uma reunião de pais, me fez pensar muito na vida das crianças na atualidade.


Você já observou uma delas assistindo a um filme? Quando surge uma cena que ela não quer ver, fecha os olhos. Até adultos fazem isso. As pálpebras são uma espécie de proteção do sentido da visão: acionadas intencionalmente, nos protegem de visões que nos causam asco, medo ou repulsa, por exemplo. Desde cedo, a criança aprende a usar esse recurso.

Já do que se fala em seu entorno as crianças não podem se proteger. Hoje, os adultos não têm tomado muito cuidado quando conversam entre si perto de crianças e isso acontece por vários motivos. Um dos principais é que a presença da criança no mundo adulto foi quase naturalizada. De modo geral, não consideramos mais nocivo que ela participe de acontecimentos próprios da vida adulta. Para não sonegar informações que ela solicita ou que acreditamos que ela deva ter, lhe dizemos quase tudo.

O segundo motivo é que nós, adultos, estamos muito centrados em nossas próprias vidas.Quando queremos desabafar, tecer comentários diversos, contar segredos, tecer julgamentos de pessoas próximas ou com as quais mantemos relações impessoais, fazemos isso sem antes observar se há crianças por perto que estariam expostas ao que dizemos.

E, além de a criança absorver tudo sem ter maturidade suficiente para dar um sentido apropriado ao que ouve, ela fica sempre pronta a expressar o que ouviu, a qualquer hora e na frente de qualquer um, já que não é capaz de guardar segredos -o que coloca seus pais em situações constrangedoras.

Uma mãe me contou que, ao entrar no elevador com a filha de cinco anos, encontrou-se com uma vizinha. De pronto, a menina disse em alto e bom som: "Mãe, é dessa mulher que você não gosta?" Nem é preciso dizer o clima que se instalou entre as duas, que convivem no mesmo prédio.

Em uma escola de educação infantil, a professora acabara de contar uma história que falava em pesadelos e sonhos. Uma criança disse que a mãe sempre tinha pesadelos porque gemia à noite e, na sequência, outras crianças comentaram o mesmo a respeito dos pais.

Nossa preocupação deve ser com o que a criança ouve e passa a fazer parte de sua formação ou deformação, em alguns casos moral, tanto quanto com aquilo a que ela dá um sentido que interfere radicalmente em sua vida psíquica e emocional. Um garoto de nove anos entrou em estado de apatia porque ouviu seus pais tratarem de sua transferência de escola. A mãe disse que talvez fosse melhor uma escola mais fácil porque ele não era tão inteligente quanto o irmão mais velho.

Já que não conseguimos controlar tudo o que a criança ouve, podemos ao menos poupá-la dos ruídos indesejáveis a ela. Para tanto, precisamos ser mais cuidadosos na presença dos mais novos.

Escrito por Rosely Sayão às 10h47
 
 

Coragem para crescer

Muitas crianças com menos de seis anos vão à escola pela primeira vez neste início de ano e, em muitos casos, sofrem mais os pais do que elas. Nessa idade, ficar sem a mãe e fora de sua casa -ambiente acolhedor que transmite segurança- é difícil, por isso tantas choram nos primeiros dias. O chamado período de adaptação permite que a criança se acomode mais facilmente à sua nova realidade.

Para muitos pais, o processo pode ser difícil porque, além de suportarem a dor da separação, ainda têm de aguentar sem esmorecer o choro e os gritos do filho, que implora para não ser "abandonado". Como os pais sabem que criança precisa de outras crianças para crescer bem, a maioria deles consegue resistir e logo tudo fica bem para todos. Mas hoje nossa conversa é a respeito da adaptação de pais de crianças maiores, que já estão nos anos iniciais do ciclo fundamental.

Entre cinco e sete anos, mais ou menos, as crianças passam por um período crítico na vida.Elas precisam deixar o mundo mágico, fantástico e lúdico da primeira infância porque precisam crescer, em todos os sentidos. Deixam de acreditar nas fantasias da primeira infância (Papai Noel, fada dos dentes e similares) e se encontram com a necessidade de aprender os códigos do mundo adulto. É hora de começar a trabalhar com letras, números e problemas.

O período é crítico porque é complexo para a criança deixar uma fase que esbanja segurança e estabilidade e iniciar um ciclo desconhecido. Essa passagem gera insegurança, desequilíbrio e ansiedade principalmente porque ela percebe que crescer significa perder um pouco seus pais. E cada criança enfrenta isso à sua maneira.

Perder os pais significa aqui perder a segurança, mesmo que ilusória, de que eles têm o poder de resolver tudo em sua vida. Agora, cada vez mais a criança percebe que alguns problemas cabem a ela, e só a ela, resolver. É o caso das aprendizagens escolares, da convivência na escola etc. É na escola que a criança começa a dar os primeiros passos com suas próprias pernas.

Os pais, nesse momento, podem contribuir para que o filho inicie esse seu novo trajeto com coragem e, para tanto, precisam acreditar que seu filho é capaz e que precisa enfrentar isso sozinho. Alguns, entretanto, resistem a deixar que o filho enfrente seu tempo de crescer porque vivem, eles mesmos, sua própria crise: a de perder um pouco o filho para a vida.

Podemos observar, nas escolas, mães de crianças que estão no segundo ou terceiro ano do ensino fundamental que agem do mesmo modo que agiam quando o filho frequentava a educação infantil: querem levá-lo até a sala e lá ficar até a aula começar, conversar com a professora diariamente, pedir transferência de classe etc.

Para a criança, isso pode significar que seus pais não querem ou não aceitam seu crescimento ou, então, que não confiam que ela seja capaz de resolver sozinha seus problemas. Por isso, além de encorajar o filho a crescer, os pais precisam também ter coragem para permitir que ele cresça.

Escrito por Rosely Sayão às 11h31