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Folha Equilíbrio

Ranking de pais

Muitas escolas comprometidas, que realizam um projeto de trabalho claro, em busca de uma prática mais coerente com suas propostas teóricas e de aprimoramento, estão pressionadas por causa do resultado do Enem.

Desde que há um ranking de escolas usando resultados de exames desse tipo, elas são avaliadas pela comunidade de acordo com a posição alcançada. As escolas consideradas de maior qualidade são as que estão pelo menos entre as 15 primeiras. E tem mais: agora se faz também a relação entre a mensalidade e o ranking, pode?

O resultado do exame não pode ser descartado por completo, é claro, mas também não deveria ser levado tão a sério quanto tem sido. Afinal, o trabalho escolar realizado por oito anos (agora nove) no ensino fundamental e, depois, no ensino médio não pode ser computado em uma prova. Por quê?

Ora, porque alguns alunos não produzem tudo o que sabem por ficarem tensos em situação de prova, outros por ainda não terem se acostumado a passar por avaliação de forma ritualística, outros porque não estão no melhor dia quando fazem a prova, outros ainda porque não dão valor à avaliação.

Claro que também há alunos que não apresentam resultados melhores porque a escola não realiza a contento seu papel. Mesmo assim, isso não pode ser deduzido apenas pela prova. A escola não é só instrutora de conteúdo, certo?

Uma colega educadora profissional, muito espirituosa, manifestou de forma bem-humorada sua crítica ao estardalhaço que se faz com o tal ranking de escolas. Ela disse que os pais só entenderiam o que significa isso se fizéssemos também um ranking de pais.

Adorei a idéia. Aliás, as escolas que faziam e ainda fazem, de forma velada, a malfadada prova para a entrada de novos alunos não deixam de agir assim, não é mesmo? Mas, poderíamos aprimorar o processo.

Para alunos da educação infantil, a avaliação seria tanto das crianças quanto dos pais. A estes, poderíamos fazer um questionário para avaliar, por exemplo, se contam histórias a seus filhos, se fazem ofertas culturais a eles, se praticam educação moral e ensinam virtudes, se têm disponibilidade para acompanhar de perto o trabalho da escola e se são modelos coerentes de pais. E, para as crianças, avaliaríamos o quanto é efetivo o trabalho realizado pelos pais, ou seja, veríamos se a criança demonstra curiosidade pelo mundo à sua volta, se sabe se comportar em situações diversas, se seu conhecimento prévio está de acordo com o esperado etc.

Para alunos do primeiro ciclo do ensino fundamental, o esquema ainda seria semelhante ao citado acima. A avaliação dos pais verificaria itens como disponibilidade para realizar parceria com a escola e comparecer às reuniões, capacidade de organizar o tempo do filho para estudo e para exigir dele compromisso e responsabilidade com o trabalho escolar, condição de delegar de forma respeitosa a educação escolar à instituição de ensino etc. Com os alunos, se poderia verificar se sabem acatar limites e conviver respeitosamente com os colegas, se assimilam bem as lições dadas, se sabem respeitar os adultos etc. A combinação dos dois resultados permitiria elaborar o ranking de famílias, e as escolas disputariam os primeiros colocados e dispensariam os outros.

Com alunos do ciclo final do ensino fundamental e os de ensino médio, os pais poderiam ser dispensados do exame porque, afinal, os filhos já deveriam ter incorporado o trabalho educativo, não é?

Essa brincadeira serve para mostrar a falta de bom senso que é avaliar o trabalho das escolas apenas pelo resultado dos exames de seus alunos. Os pais não precisam levar tão a sério os tais ranking escolares.


 

Escrito por Rosely Sayão às 00h11

Aprender brincando

Um pai dedicado escreveu contando que, na reunião de final de semestre letivo na escola que o filho de cinco anos freqüenta, descobriu que ele passa o período todo brincando. Pelo jeito, o pai não sabia do projeto da escola ou pensou que este deveria mudar com o crescimento da criança.

Já tratei desse assunto várias vezes aqui, mas sempre é preciso retornar para considerar outras perspectivas. Hoje vamos falar dessa pressão que muitos pais, pensando no futuro, exercem sobre o filho e sobre as escolas de educação infantil.

A criança aprende brincando. Aliás, ela aprende a brincar brincando também. Drummond escreveu que "amar se aprende amando" e o mesmo se aplica às crianças em relação ao ato de brincar.E atenção: isso ela aprende sozinha ou com outras crianças, não precisa que um adulto a ensine a brincar. Muitos pais que contratam babás para cuidar de seus filhos pequenos orientam a auxiliar a dedicar boa parte de seu tempo brincando com a criança. Essa atitude não é adequada porque a criança ficará dependente de um adulto para exercer uma das únicas atividades para a qual tem autonomia: brincar.

As escolas que compreendem bem o papel do ensino infantil na vida das crianças com menos de seis anos organizam seus espaços e suas atividades de modo a oferecer aos alunos tempo para conviver com os colegas e, portanto, se socializar. Também disponibilizam material não estruturado e sem finalidade visível, para a criança criar e colocar em ato sua imaginação, leituras de histórias de vários tipos, para a criança ter contato com vários tipos de linguagens e gêneros literários, e espaço para pesquisa.

Tais pesquisas não devem ter finalidade científica e sim criar e manter a atitude curiosa do aluno que tem perguntas e também tem condições, com o auxílio do professor, de encontrar caminhos para obter algumas respostas ou, melhor ainda, elaborar novas perguntas.Esse é um processo de iniciação científica, sim, mas sem o rigor que será exigido mais tarde, no ensino fundamental.

Além disso, a criança precisa ter contato com elementos da natureza, como a água, o fogo ou os pequenos seres que habitam nosso meio. Precisa de tempo livre e de tempo organizado. Precisa aprender as primeiras regras da convivência nas atividades em grupo e as primeiras regras da vida por meio dos jogos. Precisa ter contato com a cultura e as artes em suas diferentes expressões.Todas as atividades são brincadeiras, mas, ao mesmo tempo, uma séria preparação para o futuro.

Não se pode pensar no ensino infantil nos mesmos moldes que pensamos o ensino fundamental. Aliás, é bom saber que a criança que vive sua primeira infância bem de acordo com sua idade tem mais facilidade de se adaptar às novas exigências que encontrará no ensino fundamental.
O problema atual é que, como muitos pais pensam como nosso leitor, muitas escolas têm instituído um ensino infantil mais voltado aos anseios dos pais do que aos das crianças.

E quem perde com isso, caros pais, são seus filhos.


 

Escrito por Rosely Sayão às 18h36

Conflitos da adolescência

Quando uma família tem um filho, a chegada desse novo integrante muda bastante a estruturação e a dinâmica do grupo. O crescimento da criança, com a conseqüente passagem para diferentes etapas da vida, impõe novas mudanças aos pais e ao grupo familiar, e tal processo entra em sua fase de desfecho quando o filho chega à adolescência.

Muita gente já ouviu dizer que, quando os filhos adolescem, os pais adolescem junto. Pois isso só faz sentido se a fase da adolescência for tomada como tempo de amadurecer.É nesse período que, ao deixar de ser criança, o filho começa sua trajetória rumo à autonomia. O amadurecimento é múltiplo: sexual, social, afetivo e cultural, entre outros, e possibilitará que, num futuro bem próximo, o filho conquiste sua liberdade em relação à sua família de origem.

Do mesmo modo, os pais também participam de tal processo, já que o amadurecimento do filho resultará em mudanças e reorganizações pessoais e do grupo: um de seus integrantes partirá e, fatalmente, os pais deverão voltar a olhar para sua vida pessoal e/ou de casal -e, novamente, reorganizá-la. Esse é um momento difícil para pais e filhos porque exige a busca de um novo equilíbrio para cada um deles e para o grupo que formam. Pais e filhos enfrentam seus próprios conflitos e, ao mesmo tempo, os que surgem entre si.

Acontece que a família é um grupo social permeável e, portanto, sofre as influências do contexto cultural em que vive. E, aí, o processo de transformação da família, que já é delicado, hoje ganha contornos de grande complexidade.

Por um lado, os adultos estão submetidos a alguns ideais -entre eles o da busca desesperada da felicidade e da eterna juventude- que interferem decisivamente na posição que assumem perante os filhos. Estabelecer relações mais de amizade e cumplicidade do que de autoridade, evitar conflitos, escapar do movimento contínuo de ora apertar, ora soltar os limites que os filhos ainda têm são atitudes que muitos pais assumem hoje em dia. Isso sem falar do abandono precoce que muitos pais praticam por conta da impotência que sentem perante um filho questionador e em busca de confrontos.

De outro lado, os jovens se tornaram o principal alvo do mercado publicitário e isso faz com que adquiram novas necessidades, interesses e anseios: a busca de aventura, o "fazer para acontecer", a recusa do cotidiano maçante etc. Vale lembrar também o esforço que muitos pais realizam para que os filhos atinjam um superávit de satisfação, o que provoca jovens enfastiados: pouco ou nada desejam porque tudo ou quase tudo têm.

A presença educativa dos pais na vida dos filhos na adolescência é tão necessária quanto na infância. É o desencontro dessas duas gerações que tem, muitas vezes, possibilitado ocorrências desastrosas. Acidentes provocados por direção perigosa combinada com bebida alcoólica, brigas violentas e fugas inconseqüentes são exemplos disso. Sinal de que eles precisam da retaguarda familiar ainda.

 

 

Escrito por Rosely Sayão às 18h44

As contradições do casamento

A família mudou bastante nas últimas décadas e o casamento também. De fato, mudaram muito as relações amorosas entre pessoas unidas por laços de sangue ou por aliança. No Dia dos Namorados, vale a pena pensar a respeito.

Descobri, num canal pago de TV, um programa chamado "Ou Eu ou o Cachorro". Aparentemente, o objetivo é mostrar que cães que infernizam a vida da família por não serem bem treinados podem mudar com adestramento de uma profissional que também orienta a família -mas o programa diz mais a respeito de como anda o relacionamento dos casais.

Maridos são expulsos da cama com mordidas do cão que não quer dividir sua dona, e mulheres são atacadas pelo cachorro assim que o marido sai.Com variações sobre o tema, o que o programa mostra é a fragilidade das relações conjugais: até um cachorro pode interferir decisivamente na vida do casal.

Em tempos de ideais individualistas, vivemos uma contradição: priorizamos nossa autonomia, mas queremos compartilhar nossa vida com um outro.Valorizamos o relacionamento conjugal porque, ao se tornar a base das relações íntimas entre pessoas da mesma geração, pode ser um antídoto para a solidão típica do nosso tempo. Podemos dizer que o casamento ganha importância cada vez maior na vida dos adultos.O número de separações é grande, mas o de recasamentos também. O problema é que não sabemos muito bem como conduzir essa relação tão peculiar.

Em primeiro lugar, não temos mais um modelo a seguir: cada casal precisa construir seu modelo de casamento. E isso torna o relacionamento conjugal algo complexo, pois obriga a escolhas diárias e pessoais. Cada casamento é único, então.

Em segundo lugar, estabelecer relações íntimas em tempos de "reality shows" tornou-se um desafio. Nos EUA, duas publicações contam a história de dois casais com uma decisão em comum: praticar sexo diariamente por um período de tempo. O que ambos pretendiam e conseguiram era melhorar o casamento e a intimidade emocional. O romance está, então, dependente dos sentidos.

Em terceiro lugar, temos um inflacionamento da idéia de casamento. É exigência em demasia, pois, ao se unirem, as pessoas esperam encontrar realização sexual, afetiva, segurança, dedicação exclusiva, educação dos filhos de modo partilhado, segurança econômica etc.! Não é à toa que a união está sempre por um fio, ou melhor, embaraçada em muitos fios.

Por fim, dois conceitos que sempre foram fundamentais para o relacionamento -fidelidade e compromisso- colocam em risco os de individualidade e liberdade pessoal, tão caros hoje. Como superar situações tão complicadas?

Muitos casais têm encontrado soluções ousadas; outros têm sucumbido por não saberem como negociar conflitos. Outros, ainda, estão sempre dispostos a dissolver o laço, já que é possível construir outro em seqüência: as uniões já nascem com a possibilidade de rompimento. O grande desafio atual talvez seja aprender a conciliar individualidade com interdependência.

 

Escrito por Rosely Sayão às 00h16

A guerra do trânsito

Quase todo mundo conhece a expressão que diz que "enfrentamos uma batalha por dia" na vida. Pois bem: hoje, ela deixou de ser simbólica e passou a ter significado assustadoramente real. Enfrentamos não uma, mas várias batalhas nessa guerra em que se transformou o trânsito. E isso diz respeito a todos os que freqüentam as ruas das cidades: motoristas e pedestres.

Nas últimas semanas, acompanhamos várias notícias de acidentes de trânsito que mostraram o nível a que chegou essa guerra. É um festival de incivilidade: transgressões de normas de direção são a regra agora. Motorista que usa celular ao dirigir, ingere álcool antes de usar o carro ou desrespeita acintosamente a sinalização, direção perigosa e violência descontrolada são exemplos. É um deus-nos-acuda.

Além disso, as cidades estão cada vez mais congestionadas, não apenas pelo excesso de veículos, mas também porque o ideal de consumo nos faz comprar veículos cada vez maiores. Quando vejo um desses modelos esportivos com tração nas quatro rodas, imensos, ou carros possantes, com todo tipo de recurso, penso que os veículos deixaram de ter sua função original, que é a de transportar uma pessoa de um lugar a outro, e passaram a ser objetos de desejo. E aí não há racionalidade alguma na aquisição.

A União Européia, atenta a essas questões, pretende restringir as propagandas de carros -quer banir referências à rapidez do veículo ou ao "prazer de dirigir" que ele proporciona e propõe a presença de informações como o consumo de gasolina e o volume de dióxido de carbono produzido.

Essa confusão no trânsito prejudica todos os que usam o espaço público e, principalmente, os mais novos. Os jovens são diretamente atingidos por esses conceitos sobre o significado de dirigir. O número de acidentes provocados e sofridos por eles porque dirigem alcoolizados é assustador. E testemunhamos essas tragédias regulares com impotência.

Mas as crianças talvez sejam as maiores vítimas desse trânsito caótico. Segundo dados do Ministério da Saúde, ele é a maior causa de morte de crianças com até 12 anos, e estudos realizados pela ONG Criança Segura apontam que grande parte dos acidentes que envolvem crianças ocorre perto de casa e na volta da escola.

E, por falar em escola, os pais que cometem infrações nos arredores da escola talvez não percebam o quanto contribuem para a insegurança do próprio filho. Vale lembrar ainda o transporte escolar: já vi peruas escolares cometendo irregularidades bem sérias.

Não é à toa que o Conselho Nacional de Trânsito definiu como tema da Semana Nacional de Trânsito de 2008 "A criança e o trânsito". E nós, adultos que dirigimos, pais e educadores profissionais: que ações podemos tomar para que o trânsito deixe de ser um espaço de barbárie e se torne mais seguro para crianças e jovens?

Escrito por Rosely Sayão às 13h14

A guarda compartilhada


Um projeto de lei a respeito da guarda compartilhada foi aprovado pela Câmara dos Deputados e só depende da sanção do presidente para fazer parte do Código Civil. Quer dizer, só depende disso para ganhar o valor de lei, mas para se tornar realidade depende de muitas coisas mais.

A partir dos anos 60, a família entrou em processo de mudança. Está ainda em uma transição que, dizem os estudiosos, não terminou. Entretanto, por maiores que sejam as mudanças que já presenciamos e vivemos, persiste no pensamento de muitos um ideal de modelo familiar já superado.

As conseqüências desse apego a tal ideal surgem, principalmente, quando um casal que tem filhos se separa. Em primeiro lugar, a idéia de que o homem era o responsável pela provisão das necessidades materiais: discussões infindáveis por valores de pensão alimentícia solicitados pelo representante legal da mulher e contestados pelo do homem ocorrem diariamente na Justiça.

O mesmo acontece com a guarda dos filhos: como a mulher foi, no modelo tradicional, a responsável pela educação deles, hoje muitos homens que querem continuar a participar do convívio e da educação dos filhos enfrentam dificuldades, como serem restringidos pelos horários de visitas rigidamente estipulados.

Superar o ideário de família que herdamos e que provoca tantos descompassos após a separação é, entretanto, apenas um dos passos necessários para tornarmos a guarda compartilhada uma realidade.

Vivemos, também, uma época em que é bem difícil para o adulto retardar ou suspender a busca de satisfação de algumas vontades ou impulsos em nome de um bem maior que, no caso, são os filhos. Em muitos confrontos pela guarda das crianças, os pais consideram apenas o próprio bem-estar e a própria realização e, em nome disso, às vezes prejudicam os filhos.

Toda criança tem o direito de crescer em companhia de seus pais. Se o casal se separou, ela não precisa nem deve arcar com a conta de tal decisão. Sua existência exige dos pais, juntos ou separadamente, dedicação plena. Isso significa, pelo menos quando a questão for a vida dos filhos, que cada um dos pais busque se livrar de mágoas e ressentimentos que sempre restam após uma separação e solucionar conflitos por meio de diálogo pacífico.

Em resumo, as pessoas que se separam precisam ter consciência de que irão compartilhar, pelo resto da vida, a coisa mais importante que produziram enquanto estiveram juntos: os filhos. E que, para levar a cabo a missão, precisam exercer a maturidade, condição essencial de quem tem filhos.

Se hoje precisamos de uma lei que torne a guarda compartilhada uma realidade, é porque ainda estamos muito aquém de nossa responsabilidade com os filhos, não é verdade? Em nome das novas gerações, devemos evitar que essa não seja mais uma lei que "não pegue".

 

Escrito por Rosely Sayão às 17h23

Educar para a diversidade

Uma leitora, educadora profissional de uma escola privada, escreveu manifestando preocupação com o fato de muitos pais recusarem o convívio do filho com colegas cujas famílias professam religião diferente da sua. Ela conta que a escola, laica, sempre respeitou alunos que não participavam de festas juninas, autos de Natal e outras comemorações religiosas, mas que, de um tempo para cá, a situação está mais para a intolerância.

O tema pode ser ampliado: muitos pais têm evitado que seus filhos entrem em contato com conceitos, idéias e comportamentos, não só religiosos, porque estes não são aceitos pelas famílias. A máxima de que família e escola devem falar a mesma língua para que a educação seja coerente ganha contornos perigosos dessa forma.

Sabemos que os iguais procuram proximidade, e é seguindo tal princípio que clubes formam seu quadro de associados, que torcidas se constituem, que tribos aparecem, que surgem bairros e sociedades. Afinal, o elo que liga pessoas diferentes entre si, mas com algo parecido ou igual, é a base de todos os agrupamentos humanos. É também o que fornece e mantém a identidade das pessoas.

A família é o agrupamento que dá a identidade primeira para os mais novos, e o sobrenome familiar aponta para a origem de cada um. Em tempos de multiplicidade de referências socioculturais, a educação familiar ganha importância principalmente para garantir referências e valores sólidos. Entretanto, as referências se constituem apenas em um norte. Não podem se transformar no único caminho a ser seguido. Afinal, a liberdade deve ser meta prioritária em todo tipo de educação.

É na escola que os mais novos entram em contato com a diversidade sociocultural existente. É a escola a responsável por iniciar o processo de separação das crianças dos pais. Tal afastamento é necessário para que a autonomia seja conquistada, para que a criança possa dar seus próprios passos e, mais tarde, conviver em qualquer lugar, com qualquer tipo de pessoa e de qualquer maneira. Aliás, tal afastamento também propicia o livre acesso ao conhecimento e, logo, à formação do espírito crítico. Em casa, as crianças aprendem a acreditar em algumas idéias; na escola, aprendem a conhecê-las.

Quando os pais proíbem ou dificultam o acesso dos filhos a idéias e hábitos diferentes dos seus, buscam inseri-lo em um grupo homogêneo. Ora, nada mais autoritário e arriscado, pois isso possibilita que se crie a idéia de propriedade da verdade e, consequentemente, da intolerância e do desrespeito. Aliás, temos vivido esse problema: o outro tem sido considerado um estranho e olhado com desconfiança. Tal atitude compromete a vida pública e temos sentido isso na pele.

Manter os filhos apenas "dentro da família" não deixa de ser um ato incestuoso, já que impossibilita as trocas laterais. E não queremos aprisionar nossos filhos, não é? Ao contrário, queremos que sejam pessoas livres, autônomas, conscientes do que significa ser cidadão, podendo, desse modo, construir um mundo melhor.


 

Escrito por Rosely Sayão às 13h53

Heranças de família

Recentemente, li um artigo sobre o caráter descartável de quase tudo na sociedade que enfatiza o consumo. Um trecho me chamou a atenção, porque o autor ressaltou uma perda significativa. Cada vez menos as pessoas deixam de herança aos filhos algum objeto de uso doméstico. Isso ocorre porque quase todos têm pouca durabilidade e também porque a moda é muito transitória.

Ele usou exemplos interessantes: até há pouco tempo, quase todas as famílias tinham algum móvel antigo que pertencera a algum antepassado -ou uma batedeira de bolo, uma máquina manual de moer carne etc. Lembrei-me de que tenho, em minha sala, um móvel antigo comprado por meu pai antes de eu nascer. Toda vez que passo por ele, lembro-me com carinho de meu pai, da minha infância e de seus ensinamentos. Sempre me emociono.

Mais do que decorar a casa, a função desses objetos é a de corporificar a história da família, lembrar às pessoas as suas origens. Pelo visto, as novas gerações não terão essa sorte.

Tal pensamento me fez associar a um outro: assim como os objetos de uso geral têm se tornado descartáveis, as tradições familiares têm se perdido. Corremos o risco de nos tornarmos uma geração de famílias anônimas: sem identidade própria, sem tradições nem costumes.
Desse modo, tanto faz ter este ou aquele sobrenome.

Muitos pais têm desistido de transmitir aos filhos o que receberam de seus pais no convívio familiar: certos costumes de reuniões com parentes, de estilo de comemorar datas e presentear, de maneiras de encarar as dificuldades da vida e, principalmente, o valor de algumas atitudes. Tudo isso em nome da mudança dos tempos.

Um fato é verdadeiro: o mundo hoje é diferente do mundo em que esses pais foram criados, por isso parece que nada do que aprenderam com seus pais serve para a educação de seus filhos. Mas essa idéia tem um problema: o de que a história pode ser ignorada.

Isso significa, como um amigo gosta de dizer, que os pais precisam, a cada dia, na relação com os filhos, "inventar a roda, começar do zero". Isso torna tudo mais difícil, pois exige que os novos pais façam várias escolhas diariamente, e escolher é um processo complexo.

Tomemos um exemplo banal: a vida escolar dos filhos. Recebo, com regularidade, dúvidas dos pais sobre como proceder: acompanhar ou não as lições de casa, estudar ou não com os filhos, comparecer ou não às reuniões da escola, impor a leitura de tantos livros por mês ou não etc. O mais interessante é que, em quase todas as correspondências, eles dizem que, quando freqüentaram a escola, não tiveram esse tipo de ajuda dos pais.

A tradição de muitas famílias de delegar a responsabilidade escolar aos filhos tem se perdido, portanto. Por quê? Porque o êxito escolar hoje em dia tem sido muito mais valorizado.

Temos feito de tudo para dar aos filhos o que nossos pais não puderam nos dar, mas, ao mesmo tempo, temos negado ofertar a eles coisas importantes que herdamos. Talvez seja possível encontrar um equilíbrio nessa relação.

 

Escrito por Rosely Sayão às 13h48

Ser mãe hoje

Por que tantas mulheres desejaram ou desejam ser mãe? Afinal, essa tarefa é hoje bem mais do que complexa. Seu exercício exige um tanto de delicadeza que chega a provocar irritação e embaraço. É de difícil desenredo porque no exercício dela a mulher erra sempre, o que torna a tarefa um lance arriscado que faz suar. "Ser mãe é um osso duro de roer", disse-me certa vez uma jovem mulher, atrapalhada com seus dois filhos que não se cansavam de lhe causar cansaço.

A mulher que tem filhos, atualmente, tem de estar disposta a praticar um ato de quase heroísmo. É que não mais se trata de criar os filhos, educá-los e deixá-los viver. Há muitos percalços a enfrentar e superar.

Primeiro, é preciso assumir a vida pessoal com todo o rigor que a vida profissional impõe.
Parece óbvio isso, mas é que a mulher passou tanto tempo como coadjuvante nos mundos social, econômico e do trabalho que, agora que alcançou condição de ser também personagem principal, deixa-se engolir por esses papéis facilmente. Ela faz de tudo para dar conta de afazeres profissionais: viaja, faz horas extras, leva trabalho para casa, participa de reuniões que avançam na madrugada, atende a chamados profissionais no celular a qualquer hora etc.

Tanta dedicação, cuja finalidade não é só a de sobreviver no mundo profissional tão competitivo mas também a de fazer carreira, suga a energia da mulher, que fica exausta ao fazer a passagem para sua vida pessoal. Além disso, como a linha divisória entre privacidade e vida pública tornou-se tênue, fica cada vez mais difícil resguardar a vida pessoal, ter prazer ao dedicar-se a ela. Os filhos, que são parte importante da vida pessoal, são mais facilmente confundidos com o trabalho que eles dão do que com condição de resgate de energia, conforto.

O antes chamado lar cada vez mais é só a casa para a mulher. Talvez ela tenha se ressentido de ser a "rainha do lar" por tanto tempo, por isso prefira casa. Acontece que, na casa, as pessoas moram juntas, mas é no lar que elas consolidam seus vínculos afetivos, protegem-se mutuamente e constroem um grupo de pertencimento.

Quando a mulher consegue harmonizar vida pessoal e profissional ainda precisa, ao se tornar mãe, rebelar-se contra ideais contemporâneos importantes. Deve, por exemplo, lutar contra a idéia de se manter jovem permanentemente. É que ser jovem não combina com ser mãe, porque cuidar de um outro exige maturidade. A mulher jovem não renuncia a um passeio, por exemplo -já a mãe, sim. Ela deve, igualmente, resistir com bravura a pensar de modo individualista, a priorizar seus impulsos.

Mesmo assim, muitas mulheres desejam ser mãe. Por quê? Talvez porque esse seja um modo de driblar a finitude da vida e os limites do tempo cronológico. Ao ter filhos, a mulher garante sua intervenção no futuro, colabora com sua construção e ainda garante vínculos afetivos duradouros, coisa rara hoje em dia.

Por isso, as mulheres que escolheram ter ou adotar filhos sabem que vale a pena ser mãe, no sentido mais exato da expressão


 

Escrito por Rosely Sayão às 14h32

O excesso nas festas infantis

O ideal de consumo tem sido tão intenso em nossas vidas que, em alguns aspectos, pelo menos, ele supera nossa capacidade de análise crítica e até mesmo de bom senso. Vou hoje tomar um exemplo: as festas de aniversário dos filhos.

A esse respeito, uma amiga contou uma experiência bem interessante. O filho e a nora estavam planejando uma festa grandiosa para a neta que faria sete anos e, para tanto, pediram a ajuda financeira dela. Os pais queriam contratar um bufê infantil, convidar todos os colegas de série da escola, contratar um ônibus para levar as crianças para o local da festa e, ainda por cima, comprar um saco de quinquilharias para cada convidado. Isso sem falar do aluguel de alguns brinquedos.

Essa amiga, uma pessoa sensata, madura e que tem com a família uma relação de muita intimidade, recusou-se a participar do plano. Claro que ela gerou um enorme conflito com os familiares, mas, depois de muita discussão, conseguiu que seu filho e sua nora entendessem seu ponto de vista. Resultado: os pais da garota desistiram da festa e fizeram uma reunião familiar com a presença de poucos colegas de escola da menina -que, por sinal, adorou a comemoração. E é bom ressaltar que o plano inicial dos pais estava -garantiam eles- ancorado num pedido da filha e mirava à "felicidade" dela.

Ao ouvir a história, lembrei-me de ter lido uma reportagem publicada na Folha, no início de março, justamente a respeito dessas megafestas infantis que têm ocorrido com muita freqüência. O tom da reportagem era claramente crítico ao fazer referências aos excessivos valores pagos para transformar as festas em um grande espetáculo com direito a todo tipo de recurso possível, inclusive a presença de atores famosos, produções dignas de filmes e novelas etc. Em um canal pago de TV, assisti também a um programa feito nos EUA, chamado "Party Mamas", que mostrou, no mesmo tom crítico, todo tipo de excesso cometido por mães quando organizam festas para os filhos. Mas parece que os pais não se dão conta de seus exageros.

O pior é que até as escolas se tornam cúmplices nessa história: a maioria delas aceita trabalhar como auxiliar dos pais na empreitada e colabora organizando os alunos para que compareçam ao evento na saída da escola. Isso inclui distribuir os convites em horário de aula, receber as autorizações dos pais para a saída em transporte especial, acompanhar e verificar tudo até que a caravana siga para seu destino. Muito tempo e energia de educadores profissionais gastos de forma absolutamente inadequada. E não seria justamente a escola a instituição mais apropriada para discutir com os alunos o consumo consciente e cultivar valores humanos?

Esse tipo de celebração nada tem a ver com a criança, é bom saber. Ela até pode pedir e tentar seduzir os pais porque é vítima indefesa da indústria de consumo e porque costuma saber o que quer. Mas, como sempre digo, se o que ela quer faz bem ou não a ela, são os pais que devem saber. Que tipo de bem uma festa nesses moldes pode oferecer a uma criança?


 

Escrito por Rosely Sayão às 19h43

De olho no pódio

Os Jogos Olímpicos se aproximam e, por meio da imprensa, já temos notícias de atletas em fase final de preparação para alcançar medalhas, subir no pódio, quebrar recordes. Isso me fez lembrar de que, sempre que assisto a alguma competição esportiva, reconheço que esse é o lugar legítimo e adequado da competição.

Ao considerar nosso modo de vida atual, faço uma analogia: transformamos a vida em uma olimpíada permanente. A competição transpôs a fronteira do ramo esportivo e se instalou no nosso cotidiano.

Não é à toa que muitos esportistas ou treinadores bem-sucedidos são chamados para dar palestras em empresas. Afinal, eles são os maiores especialistas em competição, não é? Do mesmo modo, os atletas que triunfam são escolhidos para ser garotos-propaganda de muitas empresas, das quais poucas produzem artigos ligados ao ramo esportivo. "Use nosso produto e você será um vencedor!" é a mensagem.

Hoje, exigem-se um preparo técnico acurado e um treinamento contínuo, tanto na vida profissional quanto na pessoal. E não se trata apenas de conhecer e estudar seu ramo de atividade ou de se cuidar, e sim de se empenhar em estratégias que permitam, ou pelo menos prometam, sair na frente e chegar em primeiro lugar ou, pelo menos, entre os primeiros.

Competimos contra tudo e todos. Contra o tempo -e ainda acreditamos ser possível ganhar dele. Contra nossa constituição física, contra nossos pares, contra nossa vida coletiva, contra qualquer outro que se coloque à nossa frente em qualquer situação. Iniciamos nossos filhos precocemente nessa competição acirrada e acreditamos que tal iniciativa é absolutamente necessária para a sua sobrevivência no futuro. Não valorizamos mais a aprendizagem do jogo que é a vida desde a largada, e sim seu resultado, que só pode ser um: ganhar.

As escolas se apropriaram desse anseio dos pais e incrementam ainda mais a concorrência entre seus alunos. Os anunciados rankings de escolas baseados nos mais diferentes exames, os primeiros lugares conquistados nos vestibulares e as avaliações dos alunos, sempre comparativas, são exemplos dessa apropriação da competição pelo espaço escolar.

O sucesso, hoje, é definido principalmente pela competição, o que faz com que o processo de identificação com o outro ocorra de modo negativo. Ser melhor do que o outro, ganhar do outro ou então se resignar a ser inferior a ele. Desse modo, fica mais fácil entender o motivo de o outro ser quase sempre percebido como ameaça.

É preciso saber que essa olimpíada permanente tem seu preço. Sabemos o custo que os atletas pagam na busca da superação: contusões sérias, cirurgias precoces, interrupção da vida profissional muito cedo. Isso sem falar das conseqüências emocionais e sociais quando eles enfrentam a derrota ou saem do pódio. Arcamos com conseqüências análogas em nossas vidas quando transformadas nessa competição sem trégua: tédio, depressão, estresse, agressividade descontrolada, pânico etc.

 

Escrito por Rosely Sayão às 00h22

A violência mora ao lado

Vivemos na cultura da violência, e tal fato afeta profundamente a formação dos mais novos. Todos os pais tomam medidas que miram à segurança dos filhos e transmitem, nas entrelinhas, lições nem sempre benéficas sobre a vida em comum. Muitos, por exemplo, não permitem que os filhos andem ou usem transporte público até a escola. Do mesmo modo, só deixam que eles freqüentem locais que consideram seguros, como clubes, festas em casa de colegas, shoppings etc.

O que os mais novos aprendem com isso? Que as pessoas que freqüentam esses locais são ou ameaçadoras, no caso dos impedimentos, ou amigáveis, no caso das autorizações. Pois um acontecimento que envolveu um grupo de adolescentes de classe média é exemplar para mostrar os equívocos cometidos com boas intenções -como quase sempre, é claro.

Um grupo de amigos, todos por volta dos 14 anos, encontrou-se num shopping de uma região nobre da cidade. Muitos pais autorizam que seus filhos façam tal programa por achar que lá eles estão seguros. Por quê? Porque os shoppings têm um serviço de segurança e porque os freqüentadores costumam ter o mesmo estilo de vida, pois pertencem ao mesmo grupo social.

Grande engano.

Em certo momento, o grupo foi abordado por outro grupo composto por jovens um pouco mais velhos. No confronto público, garotas e garotos foram humilhados, agredidos moral e fisicamente e obrigados a fazer coisas que não queriam.

O confronto tinha o objetivo de criar uma hierarquia social pelo uso da violência, ou seja, identificar quais eram os fortes e os fracos entre os que compartilhavam o mesmo espaço público. E atenção para um detalhe sério: muitos adultos estavam no entorno e nenhum deles tomou uma única atitude.

Que reflexões esse lamentável caso pode provocar? De largada, que a violência está tão banalizada que nem sempre percebemos que ela está instalada também no grupo social que freqüentamos e inclusive em nosso próprio comportamento. É a isso que chamamos cultura da violência, e cada um de nós tem suas responsabilidades em relação a ela.

Precisamos considerar, na educação familiar e na escolar, a importância da valorização da paz. Aliás, educar para a cidadania e para a paz são expressões muito utilizadas por pais e por educadores profissionais, mas carecem de sentido na prática.

Se hoje temos crianças e jovens que praticam violências cotidianamente é porque temos falhado nesse tipo de educação. A educação para a cidadania começa com alguns valores: os de justiça, solidariedade e respeito; a negociação pacífica de conflitos também deve ter lugar de realce. A escola do seu filho contempla, na prática cotidiana, essas questões? E na família, como agimos em relação a elas? Precisamos lembrar que é participando da vida familiar e escolar que os mais novos apreendem os princípios que norteiam nossa prática de vida.

E é por isso que repetem, a seu modo, certos comportamentos aprendidos ou não contidos.


 

Escrito por Rosely Sayão às 13h41

Tragédias na mídia

Nas últimas semanas, temos sido bombardeados, por todas as mídias, por notícias que revelam violências contra crianças praticadas possivelmente por adultos próximos a elas. É uma criança torturada aqui, outra ali, outra que morre lá e assim por diante. E não podemos esquecer que as crianças, hoje, têm acesso a todos os veículos de comunicação e recebem essas informações.

Que sentidos elas dão a esses fatos? Tomemos dois exemplos que chegaram a mim. Uma criança, de oito anos, perguntou à mãe se o pai poderia matá-la quando ficasse muito bravo. Outra, um pouco mais nova, perguntou se iria ficar de mãos amarradas quando fosse ao castigo. Certamente, muitos leitores devem ter passado por experiências semelhantes com seus filhos e seus alunos.

As crianças estão angustiadas com tais notícias porque identificam nelas que os adultos próximos, ao invés de de protetores, podem ser ameaçadores. Justamente aqueles em quem elas depositam a maior confiança se revelam, nas notícias, suspeitos de agir de modo contrário. E agora?

Agora, mais uma parte da infância de nossas crianças fica comprometida, fato cada vez mais banal. Mas será que não se pode fazer nada? Sim, podemos e devemos fazer algo por elas, que, sozinhas, não conseguem entender e expressar toda a angústia que as invade.

A maioria das escolas costuma ignorar o fato de que seus alunos sabem dessas notícias e continuam seus trabalhos como se nada de excepcional ocorresse. Pois todas elas têm recursos para, de alguma maneira, tratar dessas questões. É um bom momento, por exemplo, para oferecer aos alunos, nas aulas de expressão artística, estratégias para dar forma ao que eles imaginam, sentem e pensam sobre tais fatos.

O simples fato de colocar de modo simbólico sentimentos e angústias já aponta pistas sobre outras formas de trabalhar o tema. Depois, é importante que se fale a respeito, sem psicologismos nem interpretações leigas, para que, coletivamente, eles se sintam acolhidos em suas preocupações e aprendam sobre os direitos das crianças e dos adolescentes e os valores sociais da justiça e da responsabilidade com o bem comum.

Para os pais, esse é um bom momento para oferecer aos filhos mais segurança em relação aos vínculos familiares e dar maior relevância aos valores morais e éticos. É muito importante, por exemplo, afirmar que a família ama e respeita a vida, que nenhuma violência deve ser aceita pelos integrantes do grupo familiar, que casos como os noticiados são exceções -apesar de tanto alarde-, que os impulsos agressivos podem ser controlados e, também, estabelecer um diálogo a respeito das opiniões dos pais e dos filhos sobre esses fatos.

Todas as tragédias servem para nos fazer refletir sobre a humanidade e o nosso cotidiano. Por isso, é importante que os adultos pensem a respeito das pequenas violências, simbólicas ou reais, que o mundo adulto comete contra os mais novos. Afinal: nossas posições demonstram que somos a fim deles ou que estamos mais para ser o fim deles?


 

Escrito por Rosely Sayão às 13h21

Comunicação com os filhos

Um fenômeno bem interessante tem ocorrido nas relações entre pais e filhos. Trata-se da dificuldade que muitos pais experimentam para conversar com os filhos sobre alguns fatos da vida deles -fenômeno que ocorre principalmente a partir da adolescência.

Primeiro, vamos entender como essa comunicação ocorre no início da vida das crianças. Alguns pais conversam com seus filhos pequenos como se eles já fossem adultos. Isso significa ignorar que eles têm uma visão especial do mundo, que é fantástica e imaginativa. A fala dos adultos, racional e objetiva, é mais um fator a arrancar a infância das crianças.
 
Assim, muitas crianças pequenas são obrigadas a enfrentar conversas cheias de detalhes do universo adulto que não entendem ou entendem de modo muito peculiar. Só para exemplificar: pais que se separam, cheios de boas intenções, tentam explicar os motivos do rompimento e terminam por expor detalhes do relacionamento que a criança não deveria saber. Um garoto de quatro anos, ao ouvir uma história de fadas, comentou que o pai não morava mais com a mãe porque este havia sido enfeitiçado por uma bruxa e era prisioneiro dela. Esse é o mundo infantil, é assim que a criança tenta entender o que ocorre à sua volta.

Bem, os filhos crescem e, aos poucos, passam a se relacionar com o mundo como adultos. É uma aprendizagem, por isso precisam da orientação dos pais. É aí que a coisa pega, porque muitos pais criam um conflito: deixam que os filhos tenham vida de gente grande, mas se comunicam com eles como se eles fossem crianças.

Vejamos alguns exemplos. Uma mãe soube, pela amiga da filha, que ela havia experimentado maconha e não teve coragem de abordar o assunto com a garota. Outra mãe constatou que o filho trazia da escola objetos que não eram dele e optou por levar o menino, de 13 anos, para um tratamento psicológico porque não conseguiu falar com ele sobre o tema. Um casal viu, num site de relacionamentos, que o filho se referia às mulheres de modo preconceituoso e ofensivo, mas preferiu não dizer nada ao filho.

Nos casos citados, os pais ficaram melindrados para conversar com os filhos. E, em todos eles, os adolescentes já tinham condições de enfrentar um diálogo franco e arcar com as conseqüências de seus atos.

Aliás, todos eles precisavam da orientação dos pais, não é? Os filhos têm o direito de saber o que os pais sabem sobre a vida deles e também o de ouvir a opinião dos pais sobre o que fazem e como vivem. Só tendo uma relação transparente com seus responsáveis eles aprenderão a agir da mesma maneira na própria vida. Afinal, o que se opõe à conversa franca e aberta com o maior interessado, que é quem toma determinada atitude, é a fofoca, não é?


 

Escrito por Rosely Sayão às 11h51

Princípios e valores

Uma mãe quer saber se deve ou não permitir que sua filha, de nove anos, viaje com a família de uma colega num fim de semana. Ela diz que a garota nunca fez isso antes e que ela considera precoce esse passeio mais longo sem a família, mas que está em dúvida porque muitas crianças da mesma idade já fazem isso. Outra leitora indaga a melhor idade para colocar o filho, de cinco anos, em aulas de outro idioma e conta que ela mesma, fluente em inglês, começou a estudar depois dos 12 anos, mas que agora percebe que a criançada já começa bem mais cedo.

Um pai diz que o filho de 15 anos leva a namorada para dormir em casa e que ele fica constrangido com a situação, mas acredita que, se impedir, vai se afastar do filho. Finalmente, um outro leitor afirma que quer ensinar valores aos filhos, mas, ao mesmo tempo, considerando o clima competitivo de nosso tempo, quer saber como ensinar que há momentos em que é preciso abrir mão desses valores para não ser ingênuo.

O mundo contemporâneo tornou a educação uma tarefa muito mais complexa. Até o final da década de 50, a maioria não enfrentava questões como as citadas e tampouco tinha de tomar diariamente decisões sobre o tipo de educação a praticar com os filhos. A educação era uma só, os rumos faziam parte de um grande consenso social e assim caminhavam os pais, sem grandes conflitos. Vale dizer que pais e filhos sofriam muito mais, já que eram tão diferentes e tinham de se ajustar a um rumo comum.

Hoje, os pais ganharam a liberdade da escolha sobre como educar seus filhos e, por outro lado, assumiram também uma responsabilidade muito maior por eles. Afinal, cada escolha feita produz efeitos significativos na vida dos filhos, já que estes estão em formação.

Vale refletir a respeito das dúvidas dos pais. À primeira vista, todas parecem questões práticas sobre como agir. Mas cada uma delas guarda em si conteúdos bem mais amplos, que tratam de moral, ética, conceito de infância, limites entre privacidade e convívio social e relação entre pais e filhos.

E talvez esse seja o nó da questão da educação contemporânea que os pais podem desatar ou, ao menos, afrouxar: ao educar os filhos, precisam ter clareza de alguns princípios dos quais não abrem mão e, a partir desse norte, tomar as decisões sem se importar tanto com as decisões dos outros pais. Afinal, já que temos a oportunidade hoje de ter a riqueza da diversidade em educação, há que se aprender a conviver com ela, não?

Pensando assim, a mãe cuja filha pede para viajar sem a família precisa é pensar no conceito de infância que quer garantir para a filha, tanto quanto a mãe que se preocupa com o ensino de línguas; o pai que se sente constrangido com a intimidade do filho em casa precisa considerar como colaborar para fazer a passagem do filho para a maturidade e, finalmente, o que se preocupa com os valores precisa refletir se quer dar uma educação moral de ocasião ao filho ou se quer mesmo é ensinar que os valores fazem parte de um ideal de vida e que, portanto, exigem fidelidade.

"O que quero ensinar aos meus filhos, priorizar na educação deles?" Essa é a questão que os pais devem se fazer quando enfrentam situações que demandam decisões. Afinal: de festas, namoros, aprendizados diversos etc. eles terão muitas chances para desfrutar, mas da educação familiar, só enquanto estiverem sob a tutela dos pais. E esse tempo é curto, acreditem.


 

Escrito por Rosely Sayão às 10h57