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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Mulher, de 56 a 65 anos, Portuguese

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Entrevista

Quando os filhos mentem - Parte 1

No final de semana em que se comemora o dia das mães, um presente para elas e para os pais também: uma entrevista com o professor Yves de La Taille. O trabalho dele eu já conhecia pela leitura de seus livros e artigos e admirava há tempos. Pessoalmente, tive a sorte de encontrá-lo uma vez em um debate e, depois, por pura coincidência, num vôo de ida e volta a um congresso em que ambos participamos. Foi lá que tive a chance de conhecê-lo um pouco e de, inclusive, fazer o convite para esta entrevista, que ele prontamente aceitou. Considero um privilégio ter a palavra do Yves aqui entre nós. Yves, obrigada.
(Entrevista originalmente publicada em 12/05/2006)

O professor Yves é docente e pesquisador no Instituto de Psicologia da USP e especialista em moralidade. Os pais que tiverem interesse em aprender mais com o trabalho dele podem – e devem – consultar os seguintes livros:

LIMITES: TRÊS DIMENSÕES EDUCACIONAIS –  Yves de La Taille - Editora Ática

NOS LABIRINTOS DA MORAL – Mario Sergio Cortella e Yves de La Taille – Editora Papirus


Rosely Sayão: Yves, não há mãe e pai que não se defronte, mais cedo ou mais tarde, com mentiras dos filhos. O que eles devem considerar, de fato, como mentira?

Yves de La Taille: Vamos definir a mentira. Tecnicamente falando, ela consiste em dizer, intencionalmente, algo que se sabe não ser verdadeiro. A mentira se distingue, portanto, do erro e da ilusão. Vejamos agora o lado moral. A moral costuma condenar a mentira porque, quase sempre, ela corresponde a uma vontade de prejudicar outra pessoa, de privá-la de uma verdade à qual ela tem direito. Nem sempre é o caso. Por exemplo, se um pai ou uma mãe procuram invadir a vida privada dos filhos – e eles não têm esse direito, a não ser que esteja dramaticamente em jogo a saúde física ou mental deles, fato raro – estes não têm outra saída a não ser escondê-la pelo silêncio e até pela mentira. Mas, casos desse tipo são raros.  Como eu disse, quase sempre a mentira traduz um problema moral, pois representa alguma violência dirigida a quem se mente. Logo, temos um tema de educação moral.

Rosely: E como os pais precisam reagir frente a essa situação, já que é um tema delicado da educação?

Yves: Em primeiro lugar, os pais devem, eles mesmos, serem exemplos de pessoas que não mentem. Ora, nem sempre é o caso, até mesmo em casa. Alguns falam abertamente em sonegar impostos – sonegação implica mentir. Outros aconselham os filhos a dizer aos professores que não ‘conseguiram’ fazer a lição de casa porque estavam passando mal, quando na verdade foi pura preguiça – é mentira deslavada! Outros ainda valorizam em alto e bom som jogadores de futebol que cavam pênaltis – outra forma de enganação. Um último exemplo: há pais – e não são raros nesse caso – que, ao invés de dizer a seus filhos que não querem participar de tal ou tal atividade com eles, lhes dizem que ‘não podem’. Ora é, mentira, e as crianças rapidamente percebem o engodo. Em resumo, se elas percebem que a mentira é vista como fazendo parte do jogo normal das relações sociais, as crianças terão a tendência em tolerá-la e, elas mesmas, empregá-la.
Em segundo lugar, é preciso lembrar que a moral é, antes de mais nada, uma empreitada humana para valorizar o bem.  Ora, não raramente ela é apresentada apenas como algo que combate o mal. É um erro filosófico e pedagógico. Não é tanto a mentira que deve ser condenada, é a verdade que deve ser claramente valorizada. Logo, de nada adianta esperar que a criança minta para falar no valor da verdade. Tal valor deve ser apresentado antes e sempre. Moral é vacina, não remédio.
Em terceiro lugar, eu diria que a firmeza dos educadores em defender os valores morais, entre os quais a verdade, é condição necessária a uma formação ética bem sucedida. Assim como a criança compreende, - bem cedo no caso – que a lei da gravidade faz os objetos inapelavelmente caírem, ela deve perceber que as leis morais têm a mesma força e consistência. Não se trata de castigar a toda hora, trata-se de nunca deixar de falar que a verdade é um bem e, logo, a mentira um mal.
Em último lugar, lembraria que não há relação social pacífica e rica sem confiança mútua. Ora, a mentira quebra justamente os laços de confiança. Ela é uma via de rápido acesso à violência. É preciso explicar isto à criança. E também aos adolescentes que, por ventura e estranhamente (mas certamente em razão de um processo educacional falho) ainda não tenham tomado consciência deste fato.

Escrito por Rosely Sayão às 17h10

Quando os filhos mentem - Parte 2

Rosely: O pai de um garoto de 5 anos ficou bravo porque o filho contou, na escola, a respeito de uma viagem com a família que eles não fizeram e a mãe de uma criança da mesma idade castigou-a porque ela trouxe um brinquedo emprestado da escola quando, de fato, trouxera sem pedir ou ser autorizada. A mãe de uma menina de 10 anos descobriu que a filha usava o dinheiro do lanche para comprar cards. Um adolescente de 16 anos perdeu a licença para sair por um mês porque foi a um lugar diferente do que havia dito aos pais. Todas essas situações podem ser consideradas mentiras e, portanto, exigem uma atitude educativa dos pais?

Yves: A primeira situação é mais ambígua, uma vez que se trata de uma criança bem pequena; é que, nesta idade, além das crianças fantasiarem muito (notadamente movidas por desejos que gostariam que se realizassem ou que se tivessem realizado), elas ainda não têm clareza a respeito das dimensões morais da mentira. Penso que não se trata de ficar bravo. Trata-se de falar com a criança sobre a verdade e seu valor, e isto de forma paciente, generosa e firme.
Os outros casos representam claramente a vontade de enganar. Vale para elas o que disse anteriormente: mostrar o valor da verdade, o direito das pessoas a acesso a ela e a violência decorrente da falta de confiança. O caso do adolescente é mais grave, não somente pela idade (16 anos) como pelo conteúdo da mentira: negou a seus pais a condição de responsáveis pelo seu sustento e educação, arriscou-se (vai saber que outro lugar é este – lembram da tragédia dos dois alunos do Colégio São Luis?) e certamente preparou, de longa data, a sua enganação. Foi uma quebra de confiança pesada. Não sei, evidentemente, de quem se trata. Seria preciso ver se tal episódio não é conseqüência de uma longa série de quebras de confiança de parte a parte.

Rosely: Você disse que os pais devem ser exemplos de pessoas que não mentem e cita algumas situações. Vou citar outro exemplo: pessoas que ligam para falar de trabalho em horário impróprio e os pais mandam dizer que não estão. Sem dúvida é uma mentira, mas ela não ajuda a sustentar as relações sociais e a preservar a vida privada? E como se portar com o filho que testemunha esse tipo de situação?

Yves: Como eu disse anteriormente, nem toda mentira, no sentido técnico da palavra – ou seja, dizer intencionalmente algo que se sabe não ser verdade – apresenta problema moral. Às vezes a moral até exige que se minta. Por exemplo, se escondo, na minha casa, um homem procurado por algum esquadrão da morte e se um membro desse esquadrão me pergunta se conheço tal homem, certamente mentirei ao responder que não, a fim de protegê-lo. No exemplo que você deu, trata-se de avaliar se, por um lado, a pessoa que telefona tem o direito de saber que o pai está em casa e, por outro, se a mentira visa algum bem. Salvo casos excepcionais, penso que a casa deve ser um lugar protegido, notadamente do trabalho (embora aconteça cada vez menos, notadamente por causa do celular que transforma seu pobre proprietário numa presa fácil, em casa ou em qualquer lugar), logo, penso que a mentira, nesse caso, se justifica. Mas é preciso explicar tudo isso ao filho. Se ele for pequeno, apenas notará que se empregam mentiras.

Rosely: Como construir pactos de confiança entre pais e filhos já que eles ocupam lugares bem diferentes e assimétricos?

Yves: Nas relações assimétricas, portanto naquelas nas quais alguém depende de outro, esse outro deve ser altamente merecedor de confiança. Por exemplo, se viajo de avião, estou, literalmente, nas mãos do piloto (eis a assimetria na relação). Logo, só me resta confiar nele. Nas relações entre pais e filhos, algo semelhante acontece: o filho depende, para inúmeras coisas, dos pais e estes, portanto devem imperativamente mostrar-se dignos de confiança. Porém, a recíproca deve paulatinamente valer. À medida que a criança cresce, ela vai adquirindo mais liberdade, e, logo, mais responsabilidade. Esse ponto deve ser sublinhado: merecer confiança é a contrapartida da liberdade. Alguém que eu vigio o tempo todo, alguém que somente pode fazer, sob meus olhos, o que eu mando, para esse alguém não se coloca tanto a questão da confiança, pois o próprio fato de ser vigiado incessantemente mostra que é a desconfiança que vale. Merecer confiança se coloca para as pessoas livres. Ora, voltando às crianças, a educação visa justamente dar-lhes condições de viver de forma livre e autônoma. Nesse caso, merecer confiança dos pais (e de todo mundo, aliás) é condição necessária. E os pais devem dizê-lo claramente, e cobrá-lo.
Mas quero insistir num ponto: no início do desenvolvimento moral – quando a criança tem apenas 4 ou 5 anos – a situação não é simétrica, e se ela não confiar nos adultos, tal desenvolvimento fica prejudicado. A criança precisa primeiramente confiar para, depois, compreender que também deve ser digna de confiança. Por essa razão é tão importante os pais não prometerem sem cumprir, não falarem uma coisa e fazerem outra, não valorizarem pequenas e grandes enganações. Enfim, é importante os pais darem valor às palavras, notadamente às palavras empenhadas.

Escrito por Rosely Sayão às 17h09