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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Mulher, de 56 a 65 anos, Portuguese

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Reflexões – Parte 2

Eu passei a adolescência e a juventude sob o regime da ditadura e isso significou, entre outras coisas, a censura. Não havia liberdade de expressão naquela época. Jornais e revistas tinham trechos cortados, diversos filmes não puderam ser exibidos por um longo período e alguns livros não podiam ser vendidos livremente. Tudo em nome da segurança nacional. Para quem estava no poder durante a ditadura, pensar de modo diferente colocava em risco o modelo de sociedade que eles idealizavam.

Aliás, a liberdade de expressão foi um dos componentes da liberdade que foi suprimida. A liberdade estava comprometida como um todo. E por falar nisso, o que é liberdade?

Esse é um conceito difícil de definir já que, como foi e é muito influenciado por ideologias e interesses dos mais diversos, está bastante distorcido. Em uma pesquisa feita com jovens, o conceito de liberdade para eles é bem simples: fazer o que quer, quando e como quer. Dá para perceber como essa noção, para eles, está influenciada pela ideologia do individualismo.

Para Hannah Arendt, esse conceito restrito de liberdade (de ir e vir e de agir conforme a própria vontade, por exemplo) surge quando o sujeito perde a liberdade no espaço público, ou seja, perde o contato com seus pares e o livre debate de idéias com base no pensamento plural e em um ambiente público organizado. Para essa pensadora, o conceito de liberdade tem, portanto, um caráter essencialmente político.

Eu me lembro de que um amigo da juventude teve de sair do país porque aqui era perseguido por suas ideias. De vez em quando ele retornava por curtos períodos e tínhamos a oportunidade de conversar. Minha maior curiosidade era a de saber da experiência dele de viver em um país em que os livros – sem restrição - estavam todos disponíveis. Nunca me esqueço da resposta que ele me deu. Ele disse que no país em que vivia na época a situação era muito pior porque as pessoas não queriam ler muitos dos livros aqui proibidos porque estavam convencidas de que não valia a pena, ou seja, o pensamento estava massificado.

Algumas vezes penso que o mundo contemporâneo, que nos contempla com tanta diversidade em todos os campos – estilos de vida, correntes de pensamento, comportamento, ciências etc. -  retirou de muitos de nós o pensamento crítico e, portanto, a liberdade de pensar e de agir.

Vejamos alguns exemplos. Atualmente temos todo tipo de calçados e roupas e em todos os tamanhos, mas a maioria se veste de modo muito semelhante e, pelo menos as mulheres, querem usar apenas os manequins 38 ou 40. Temos uma diversidade enorme de maneira de ser, mas todos querem ser iguais: no comportamento, na aparência do corpo, nas preferências, no ritmo do pensar, entre outras coisas.  Temos lugar para todo tipo de gente, mas acreditamos que precisamos ser extrovertidos, alegres, jovens e ter uma imensa rede social de “amigos”. E por aí vai... O que buscamos? Ausência de conflitos, anular as diferenças, aceitação social...

Liberdade de expressão combina sempre com conflitos de ideias. E nada mais salutar para o crescimento do que travar contato com pensamentos diversos. Hoje não temos quase (quase!) censura institucional talvez porque a tenhamos internalizado. Estamos submetidos a pensamentos quase (quase!) totalitários.

Já observaram como é comum a postura de, ao travar contato com livros, textos, análises etc., concluir que concordamos ou não concordamos? Essa talvez seja a melhor garantia de nada mudar. Quando concordamos é sinal de que já pensávamos assim; quando discordamos, recusamos o diálogo e o conflito que poderia – quem sabe? – inaugurar outros pensamentos diferentes dos dois anteriores.

Este blog teve, em sua origem, uma intenção: a de estimular o livre debate, o diálogo e o embate de ideias a respeito da educação informal e formal neste mundo tão complexo. Mas isso ficou bem difícil, não é verdade? 

Ate logo mais e bom início de semana a todos.

Escrito por Rosely Sayão às 18h05
Reflexões – Parte 1

Gosto muito da expressão “livro de cabeceira”, mas prefiro usá-la sempre no plural. Não conheço ninguém que tenha UM único livro de cabeceira; o mais usual é ter vários deles – ou algumas vezes muitos deles – que se alternam de acordo com a necessidade, com as reflexões do momento, com o humor, com os acontecimentos do mundo, com os sentimentos experimentados etc.

Desde o primeiro dia em que publico este blog, tenho retomado com frequência um dos meus livros de cabeceira: o “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”, de André Comte-Sponville. Por quê? Principalmente pelo teor de muitos comentários aqui postados por diversos frequentadores deste blog que chamo de nosso.

Logo no meu primeiro post, depois que verifiquei as reações ao meu texto, li e reli o capítulo a respeito da polidez. E, com o decorrer do tempo, voltei aos capítulos sobre a tolerância, sobre a coragem e a compaixão e, depois, sobre a doçura. Claro que o que me motivou a leitura desses capítulos do livro foi o aparecimento do que considerei seus contrários em muitos comentários enviados.

Quem lê as reações dos leitores do blog constatou que, muitas vezes, fui profissional e pessoalmente ofendida pela posição que assumi em meus textos e isso aconteceu principalmente quando o tema era a escola e seu relacionamento com as famílias de seus alunos e/ou sua responsabilidade social no mundo contemporâneo.

Perdi a conta de comentários de leitores que se identificaram como professores que anulavam moralmente meus textos com o argumento de que eu nunca fui ou não sou professora e de que ignoro o que se passa em sala de aula - principalmente na escola pública – e, por isso, não teria autoridade para escrever a respeito do assunto. Esse argumento é frágil. 

Um médico especializado em tratar qualquer tipo de patologia não tem autoridade e competência profissional por ter sofrido do mal que trata e sim por dedicar seu tempo a muito estudo, averiguação, pesquisa bibliográfica e sua prática. E sua prática não é ter a doença e sim relacionar-se com quem a tem. Por que seria diferente com quem se dedica a estudar a educação?

Também perdi a conta de comentários que simplesmente desqualificavam teoricamente alguns de meus textos ou mesmo de alguns de meus convidados – que apareceram nas entrevistas.

Em relação a isso, tenho a obrigação de dar dois esclarecimentos.

Primeiro: eu não crio conhecimento a respeito da educação. Eu apenas o recrio. Nada do que eu disse aqui já não está presente em bibliografia especializada, disponível para quem quiser encontrar.  O problema é que a educação, sua filosofia, sua metodologia e compreensão teórica, suas relações com outras disciplinas humanas têm muitas vertentes, vários caminhos interpretativos. Meus textos apenas revelam as escolhas teóricas que faço.

Preciso esclarecer também que desativei as entrevistas porque um de meus convidados foi muito agredido pelas declarações que deu aqui a respeito do tema “a violência na escola”. Na época, até mesmo uma comunidade no site Orkut foi criada para criticar a entrevista que ele nos deu. Para não provocar constrangimentos desse tipo a profissionais sérios, decidi não mais trazer convidados ao blog.

O próximo capítulo de minhas reflexões fica para um próximo post e é a respeito da liberdade de expressão e do conflito de ideias.

Até logo mais e um bom final de semana a todos.

Escrito por Rosely Sayão às 16h27
Outros formatos de família

    Já faz tempo que nossa sociedade discute as mudanças que têm ocorrido nas famílias. Primeiramente a separação, depois o divórcio e na sequência os recasamentos que surgiram como consequência provocaram uma grande modificação no grupo que, tradicionalmente, era chamado de família e cuja estrutura era formada por um homem e uma mulher que se uniam até que a morte os separasse e tinham filhos. Agora, há pelo menos duas décadas, uma nova discussão entrou nessa pauta: a formação de grupos familiares que têm como base um casal formado por duas pessoas do mesmo sexo.

    A partir da década de 1960, quando surgiram as primeiras mudanças significativas na configuração familiar , não faltaram análises preconceituosas que defendiam a permanência da configuração familiar tradicional em nome do desenvolvimento “sadio” das crianças. Na época em que casais começaram a se separar não faltaram teorias e conjecturas que afirmavam que filhos de casais separados tinham todas as possibilidades de serem “crianças problemáticas”. Hoje, com uma geração de adultos que foram criados por pais separados vivendo como qualquer outro adulto, constatamos que tal profecia não se realizou.  A separação não se mostrou, ela mesma, um fator responsável por gerar problemas aos filhos.

    Atualmente, mesmo com a visibilidade social da condição homossexual de um grande número de pessoas que lutam por uma vida digna e com os mesmos direitos civis e sociais de todos, dá para perceber que ainda há muito preconceito tanto em relação às novas configurações familiares em geral quanto especificamente àquelas que têm sua base formada por uma união homossexual. E, como não poderia deixar de ser, as crianças têm sido novamente usadas como o fiel da balança aos que são contrários a essa formação familiar. Isso nos permite concluir que os casais homossexuais trilham, atualmente, o mesmo caminho que casais heterossexuais que se separaram já trilharam na busca da legitimidade de sua condição. Agora é a hora, portanto, de refletirmos a respeito das crianças em seu contexto familiar. 

    O que é importante para uma criança para que ela tenha condições favoráveis ao seu desenvolvimento? Que ela seja amada, primeiramente. E não se trata de um tipo de amor pegajoso que enche a criança de abraços, beijos e declarações sem fim. Trata-se, sim, de um amor que se expressa em cuidados, na proteção necessária – sem exagero – e na presença adulta para a introdução da criança no mundo das relações com os outros.

    Ora, qualquer pessoa pode, potencialmente, oferecer isso a uma criança seja ela homossexual ou não, separada ou não. Da mesma maneira, qualquer pessoa pode também não ter disponibilidade pessoal para oferecer esse contexto a um filho, seja ela unida a uma pessoa do sexo oposto, do mesmo sexo ou sozinha, não é verdade? Então, para a criança, pouco importa o tipo de configuração familiar a que pertence. Para ela, importa mesmo é que sua família, tenha ela a configuração que tiver, lhe ofereça o sentimento de pertencimento e que funcione como guia adulto seguro na introdução à vida em  grupo.

    Todo adulto, tenha ou não filhos, tem compromissos humanos e éticos com todas as crianças já que elas é que serão responsáveis por nosso futuro. Isso implica em muitas responsabilidades e, especialmente, em uma das mais árduas: a de superar preconceitos, sejam estes de raça, de religião, de classe social ou de gênero e sexualidade, entre outros. Por isso, temos obrigação de olhar para os novos contextos familiares em que vivem muitas crianças sob a ótica da paternidade e/ou maternidade responsáveis tão somente.

Escrito por Rosely Sayão às 12h49