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Ensino público

Recebi duas correspondências de mães de dois jovens que se dedicaram com afinco, no ano passado, a estudar para o vestibular. Uma delas anunciou que, após dois anos de preparação, seu filho finalmente conseguiu classificação para matricular-se em uma universidade pública reconhecida, que ele tanto almejava.Agora ela quer saber o que pode fazer para ajudar o filho nessa nova fase da vida.

A outra mãe não sabe como agir porque seu filho não atingiu classificação para a universidade pública, mas passou em uma universidade privada que ela considera boa e cuja mensalidade a família pode pagar. No entanto, o jovem se recusa a fazer a matrícula porque considera humilhante obter um diploma de graduação nessa universidade depois de cursar o ensino médio em uma escola muito bem avaliada. Essa mãe quer convencer seu filho a mudar de opinião para não desperdiçar um ano de estudos.

Creio que esses dois depoimentos juntos nos dão um retrato de como nossos equívocos a respeito da avaliação que fazemos sobre o ensino público e o ensino privado têm reflexo nos mais novos. Criamos uma verdadeira contradição nesse sentido, não é verdade?

De um modo geral, a classe média optou por colocar seus filhos durante o ensino básico em escolas particulares: desde as famílias mais abastadas, que conseguem pagar as caríssimas mensalidades de algumas escolas consideradas "as melhores" por diversos motivos, até famílias mais simples, que vivem com orçamento apertado e que conseguem escolas particulares com mensalidades bem mais em conta. Para ter uma ideia, encontrei pais que pagam desde R$ 330 por mês pela escola dos filhos até os que arcam com perto de R$ 2.000. Ou seja, há escolas privadas para todos os bolsos.

O que importa é que, independentemente do projeto pedagógico da escola, do empenho e do compromisso de seus docentes, da didática utilizada etc., decidimos valorizar o ensino básico privado e, consequentemente, desvalorizar o público, com raras exceções. Pode não parecer, mas tal atitude gera muitas consequências para a educação do país: a classe média não se importa com as políticas públicas em educação, a imprensa se ocupa muito mais com o que acontece nas escolas privadas e ressalta as mazelas das públicas, e a boa educação escolar segue como privilégio de classe.

O curioso é que a lógica aplicada se inverte no ensino universitário: a mesma classe média passa a valorizar o ensino público e a desvalorizar a maioria do privado.Que raciocínio é esse? Com ele, criamos distorções importantes. Famílias enfrentando problemas financeiros que poderiam transferir os filhos para escolas públicas escolhem continuar nas particulares mesmo inadimplentes, por exemplo, sem falar da imagem que passamos aos mais novos, como no caso do filho da leitora citada.

Até quando vamos sustentar a complexidade que é a educação escolar com essa equação tão simplista?

Escrito por Rosely Sayão às 10h45
As Crianças e as Novas Famílias

O tema de nossa conversa de hoje foi motivado pela mensagem que recebi de um leitor do nosso blog. Ele escreveu: “Eu sou separado e casei-me novamente, só que minha filha não se dá com minha atual mulher. O que eu faço para que as duas se entendam? Quando minha filha chega para passar o final de semana comigo, minha esposa me enche de recomendações para não deixar a garota fazer isto ou aquilo. E assim a confusão está feita. Como posso conversar com minha esposa para que esse tipo de problema não ocorra mais?”.

Pois é: a dissolução da união de casais com filhos e os recasamentos posteriores, novidade das últimas décadas, têm gerado uma série de situações para todos os envolvidos, direta ou indiretamente, com os protagonistas centrais dessas histórias. Entretanto, são especialmente as crianças as que mais arcam com nossa falta de experiência e tradição para lidar com os acontecimentos gerados por tais fenômenos. O drama vivido por nosso leitor é exemplar nesse sentido e vivido por milhares de pessoas.

Quem tem filhos sabe que acompanhar o crescimento e a formação de uma criança exige muito – muito mesmo – dos pais e dos adultos que com ela convivem. O motivo principal é que todos do entorno da criança precisam descartar, pelo menos temporariamente, muitos de seus anseios, hábitos etc. para ter disponibilidade de estabelecer e manter o vínculo com a criança. Desse modo, lá se vão casa arrumada, o tempo sob controle, horas de sono e de descanso, despreocupação com os outros, só para lembrar alguns exemplos. Se isso já é difícil para os pais imagine, caro leitor, para quem pega o trem já no meio de sua viagem.

E isso tem acontecido bastante já que muitas pessoas sem filhos têm se unido a outras que começam a relação trazendo filhos de casamentos anteriores. Pois para que a viagem siga em boas condições para todos, é preciso que o novo casal construa e reconstrua diariamente seu pacto conjugal, que deve contemplar explicitamente em que base ocorrerá o relacionamento de ambos com as crianças e com a mãe – ou o pai - delas.

Para continuar com a metáfora da viagem de trem, é bom lembrar que o novo passageiro não pode se colocar apenas como mero acompanhante: terá de se envolver e se responsabilizar com todos os detalhes da viagem, que sempre apresenta percalços e imprevistos.

Madrastas e padrastos podem vir a ter uma função importante e decisiva na vida de crianças e adolescentes, mas para que isso ocorra é preciso – repito – muito diálogo e negociação com seus companheiros e muita tolerância com os mais novos, já que estes nem sempre aceitam facilmente um novo personagem em sua viagem já que esta começou de outra maneira.

Escrito por Rosely Sayão às 16h49
 
 

Cuidado ao falar


"Os ouvidos não têm pálpebras, por isso não podemos nos proteger dos barulhos que não queremos ouvir." Essa frase, dita por uma professora de música em uma reunião de pais, me fez pensar muito na vida das crianças na atualidade.


Você já observou uma delas assistindo a um filme? Quando surge uma cena que ela não quer ver, fecha os olhos. Até adultos fazem isso. As pálpebras são uma espécie de proteção do sentido da visão: acionadas intencionalmente, nos protegem de visões que nos causam asco, medo ou repulsa, por exemplo. Desde cedo, a criança aprende a usar esse recurso.

Já do que se fala em seu entorno as crianças não podem se proteger. Hoje, os adultos não têm tomado muito cuidado quando conversam entre si perto de crianças e isso acontece por vários motivos. Um dos principais é que a presença da criança no mundo adulto foi quase naturalizada. De modo geral, não consideramos mais nocivo que ela participe de acontecimentos próprios da vida adulta. Para não sonegar informações que ela solicita ou que acreditamos que ela deva ter, lhe dizemos quase tudo.

O segundo motivo é que nós, adultos, estamos muito centrados em nossas próprias vidas.Quando queremos desabafar, tecer comentários diversos, contar segredos, tecer julgamentos de pessoas próximas ou com as quais mantemos relações impessoais, fazemos isso sem antes observar se há crianças por perto que estariam expostas ao que dizemos.

E, além de a criança absorver tudo sem ter maturidade suficiente para dar um sentido apropriado ao que ouve, ela fica sempre pronta a expressar o que ouviu, a qualquer hora e na frente de qualquer um, já que não é capaz de guardar segredos -o que coloca seus pais em situações constrangedoras.

Uma mãe me contou que, ao entrar no elevador com a filha de cinco anos, encontrou-se com uma vizinha. De pronto, a menina disse em alto e bom som: "Mãe, é dessa mulher que você não gosta?" Nem é preciso dizer o clima que se instalou entre as duas, que convivem no mesmo prédio.

Em uma escola de educação infantil, a professora acabara de contar uma história que falava em pesadelos e sonhos. Uma criança disse que a mãe sempre tinha pesadelos porque gemia à noite e, na sequência, outras crianças comentaram o mesmo a respeito dos pais.

Nossa preocupação deve ser com o que a criança ouve e passa a fazer parte de sua formação ou deformação, em alguns casos moral, tanto quanto com aquilo a que ela dá um sentido que interfere radicalmente em sua vida psíquica e emocional. Um garoto de nove anos entrou em estado de apatia porque ouviu seus pais tratarem de sua transferência de escola. A mãe disse que talvez fosse melhor uma escola mais fácil porque ele não era tão inteligente quanto o irmão mais velho.

Já que não conseguimos controlar tudo o que a criança ouve, podemos ao menos poupá-la dos ruídos indesejáveis a ela. Para tanto, precisamos ser mais cuidadosos na presença dos mais novos.

Escrito por Rosely Sayão às 10h47
Lição de casa na Educação Infantil

Uma leitora do nosso blog pediu uma reflexão a respeito do dever de casa na Educação Infantil. Então, vamos pensar a esse respeito.

O primeiro ponto que devemos considerar é sobre a função do dever de casa. Qual é ela, afinal? Na verdade, a tarefa escolar para ser feita em casa pode não ter função alguma, pode ter uma boa função ou pode, inclusive, atrapalhar a vida do estudante. Tudo depende de como a escola trabalha com essa questão.

Ela não tem função alguma quando se transforma em uma atividade burocrática. A escola passa a lição e o único objetivo é esse mesmo: o aluno ter atividade escolar em casa. Ele não aprende nada com isso – nem em relação ao conteúdo tampouco à responsabilidade escolar – e se cansa de ter de cumprir uma obrigação sem sentido. É bom lembrar que muitas escolas enviam a lição para ser feita em casa apenas por pressão dos pais, que querem um tempo do filho ocupado quando ele está em casa.

Ela tem uma função positiva quando desafia o aluno, ou seja, não é mera repetição do que ele já faz na escola. Além disso, também quando aprende que precisa dar conta disso sozinho, sem a ajuda dos pais. Claro que estes precisam lembrar ao filho a sua responsabilidade e ajudá-lo a administrar seu tempo, mas o restante devem deixar com ele mesmo.

Finalmente, a função se torna negativa quando a lição de casa faz o aluno construir uma relação de dependência de sua vida escolar com seus pais. Isso ocorre quando a criança não consegue dar conta sozinha de sua tarefa e seus pais precisam ajudar. Além disso, quando a lição é feita e não corrigida na escola e/ou quando não realizada não acarreta nenhuma diferença no aprendizado do aluno, torna-se algo absolutamente negativo.

Agora, vamos pensar na função da escola de Educação Infantil. Nesse período, a criança precisa brincar. Esse segmento da escola é o único diferente de todos os outros porque os alunos dessa idade são totalmente dependentes dos adultos. Desse modo, o que se consegue ao enviar lição de casa para crianças com menos de seis anos é que ela entenda que sua vida escolar depende da atuação de seus pais.

É bom lembrar que criança pequena pode gostar muito de brincar de escolinha em casa. Mas, para isso, não precisa de lição de casa.

As crianças que trazem lição de casa na Educação Infantil podem ter, futuramente, uma visão distorcida dessa responsabilidade escolar?  Pode ser que sim, pode ser que não. Como não conseguimos fazer previsões, pagamos para ver.

Escrito por Rosely Sayão às 13h22