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Violência e virtude

Uma leitora que tem filhos de oito e nove anos está preocupada, como muitos outros pais, com o impacto que a violência urbana e a falta de ética pública têm sobre a formação e o comportamento das crianças e quer saber como tratar a questão.

Ela diz que não há como escapar: mesmo acidentalmente, os filhos assistem a noticiários que mostram cenas de violência e ouvem colegas contarem histórias de assaltos sofridos pelos pais. Além disso, diz que percebe que exemplos negativos expostos pela mídia, como policiais e políticos envolvidos em corrupção, são absorvidos pelas crianças.

Ela cita exemplos para mostrar que sua preocupação faz sentido. Um dos filhos fez uma redação na escola em que o desfecho da história é a polícia ser dominada por ladrões; o outro contou que uma das brincadeiras prediletas no recreio é a busca de um tesouro imaginário, e os colegas que atrapalham a descoberta são amarrados -imaginariamente, é claro. E tem mais: os filhos brincam de pegar dinheiro e esconder nas meias, por exemplo.

Isso me lembrou uma conversa que tive com um pai. Ele me disse que considerava até salutar que brincadeiras infantis colocassem o bem contra o mal, mesmo que dramatizassem a violência. O maior problema, para ele, era que percebia ser cada vez mais comum o mal vencer o bem no fim.

Uma constatação que já fiz é a de que muitas crianças se orgulham de serem maus alunos ou de terem comportamentos agressivos mesmo quando penalizados por isso, e de que outros se constrangem pela dedicação ao estudo porque são tachados de "nerds".

Não é de hoje que as crianças têm maus exemplos dos adultos. Aliás, é no mundo adulto que se localizam as mazelas do mundo. Neste, a violência sempre esteve presente, tanto quanto a corrupção. Hoje, talvez sejam mais expostas publicamente, e, como as crianças estão mais expostas ao mundo adulto, de fato estão mais vulneráveis a esses eventos. A questão de nossa leitora é como tratar isso com as crianças.

Em primeiro lugar, é importante que, sempre que os filhos se refiram ou tenham contato com fatos desse tipo, os pais manifestem sua opinião sobre eles. Para muitos, parece óbvio que as crianças entenderão como fato negativo. Pode ser, mas, para que não o absorvam, precisam das palavras orientadoras de seus pais.

Os pais também podem apontar as pessoas envolvidas em situações de violência e corrupção como exemplos a não serem seguidos porque, afinal, a vida deve ser vivida com ética e respeito.

Mas o mais importante é que os pais ensinem e cultivem em seus filhos as virtudes. Num mundo individualista, competitivo e de grande anseio de consumo, qualidades como compromisso, justiça, generosidade, compaixão, gratidão, humildade, simplicidade, tolerância e doçura, entre outras, parece que perderam sentido. Não: são as virtudes que possibilitam uma vida boa com os outros e isso é essencial para uma boa vida pessoal.

Escrito por Rosely Sayão às 11h22
 
 

Intolerância e exclusão

A diretora de uma escola me contou um fato interessante. No segundo semestre do ano, muitos pais visitam escolas porque terão de matricular ou transferir o filho no próximo ano. Ela disse que ouviu uma pergunta inédita de vários deles: "Qual o perfil dos pais que matriculam seus filhos aqui?"

Qual o intuito desses pais? Pensei que, talvez, eles buscassem identificação, ou seja, procuravam saber se fariam parte do grupo, se as outras famílias seriam parecidas pelo menos em alguns pontos com eles.

Essa tem sido uma característica de nosso tempo: com tanta diversidade, buscamos o parecido, o semelhante, o quase igual para nos juntarmos. Vemos isso pelas vestimentas, pelos modelos de carros e celulares, pelo uso da linguagem de grupos que têm afinidades entre si, seja pela condição econômica, seja pelo bairro ou cidade em que moram, seja pelos locais que frequentam etc. Ora, a escola dos filhos não iria escapar desse modo de se agrupar.

Quando ouvi o relato dessa diretora, lembrei-me de outro fato contado por uma mãe. Sua filha, de 12 anos, tivera de trocar de escola e enfrentava dificuldades para fazer parte do grupo de meninas de sua sala. Sabe como é, leitor: as crianças rejeitam e excluem seus pares com facilidade, já que ainda se relacionam de acordo com seus interesses sempre temporários e por temer a diferença.

Um dia, a filha dessa leitora chegou em casa com alguns pedidos bem diferentes: queria trocar de relógio, cortar o cabelo, comprar pulseiras e, inclusive, trocar os óculos de grau que usava por lentes de contato. Depois de conversar com a filha, a mãe descobriu que ela havia recebido das colegas de classe essas e outras instruções, que vieram, inclusive, por escrito, que ela teria de seguir para ser aceita pelo grupo. Para sorte dessa garota, a sua família não levou a sério o fato e até brincou com ele, de modo que ela teve a chance de não se sentir pressionada pelo evento.

Os dois fatos, e outros que observamos ou vivemos diariamente, me fizeram pensar no filme "A Onda", que relata uma experiência escolar em que um professor de história implanta em sua sala um clima inspirado no nazismo para demonstrar que ainda seria possível isso acontecer. O problema é que ele perde o controle da situação porque os alunos ficam absolutamente fascinados com a disciplina, com a homogeneização e com o sentido de fraternidade que se constrói no grupo. Com isso, os diferentes são excluídos e ignorados. Por sinal, vale a pena assistir ao filme. Ele nos alerta principalmente a respeito do autoritarismo dos grupos em detrimento do pensamento crítico pessoal, dos comportamentos e atitudes diferentes da maioria e, portanto, das liberdades individuais. Já vivemos isso na atualidade, não?

A filha de nossa leitora sentiu isso na pele com apenas 12 anos. A protagonista daquele lamentável evento ocasionado por um vestido curto e vermelho ocorrido em uma universidade também. Hoje, os gordos -e não me refiro à obesidade mórbida-, os que fumam, os que não praticam exercícios físicos e que gostam de comer bem sem se preocupar com calorias e gorduras nem com a saúde perfeita, os que não competem, os chamados "perdedores", são excluídos dos grupos -muitas vezes, de maneira humilhante. A intolerância ganha cada vez mais terreno.

Precisamos pensar se queremos manter esse clima de servidão voluntária ao grupo entre os mais novos ou se vamos intervir para evitá-lo.

Escrito por Rosely Sayão às 11h00