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Pedir ou mandar

Recentemente, em uma reunião de pais, uma mãe fez uma intervenção bem-humorada, mas igualmente desanimada. Seus dois filhos -um de cinco anos e o outro de nove- não atendiam às suas ordens de jeito nenhum. Ela contou que precisava repetir a mesma coisa muitas vezes, subir o tom de voz, às vezes até gritar, parar de fazer o que estava fazendo, colocá-los de castigo e discutir com eles até que eles fizessem o que precisavam. E eles ainda respondiam de modo pouco respeitoso ou fugiam dela.

Para essa mãe, fazer os filhos obedecerem era uma mágica que ela não conhecia e, por isso, assistia ao programa "Super Nanny" para tentar apreender o segredo da protagonista. Mas, até então, não tivera êxito.

Essa mãe representou um bom número de pessoas que agem como ela com os filhos e sentem a mesma impotência perante a falta de resultados. Por isso, vamos conversar sobre obediência.

Os pais, em geral, colocam na criança a responsabilidade pela desobediência, mas é quase sempre neles que está a questão. Para ilustrar essa tese, uma história que um pai me contou.

Ele instituíra com sua filha de seis anos um ritual para dormir que terminava com uma história. O problema é que a menina nunca ficava satisfeita com uma só história: pedia outra e mais outra. O pai atendia aos pedidos da garota até o limite de perder a paciência e, então, dizia, bravo: "Agora chega!". Só aí a filha se aquietava e se despedia para dormir.

Aí está: os filhos logo aprendem quando precisam obedecer aos pais e quando há espaço para jogar. Quando uma criança ouve sua mãe pedir que é hora do banho, ela distingue pelo tom de voz, pelas palavras, pelo olhar ou por outro sinal qualquer se é uma ordem ou apenas um pedido. Ela sabe que um pedido pode ser negado e uma ordem deve ser obedecida.

Os pais desenvolvem com cada um dos filhos as pistas para a obediência, já que as crianças são diferentes umas das outras e se relacionam diferentemente com seus pais também. E elas aprendem rapidamente a distinguir o modo como cada um de seus pais dá as pistas.

Mas, para que a criança aprenda a entender e a acatar a pista, é preciso que seus pais lhe ensinem desde cedo o princípio da obediência -e, para tanto, é preciso mandar. Sim, senhores pais: os filhos não obedecerão nunca se os pais não mandarem, e hoje muitos pais querem que seus filhos obedeçam sem terem de impor. Impossível.

Aprender a obedecer é pura prática, por isso é desde cedo que os pais precisam dar oportunidades para que seus filhos aprendam. Nos primeiros anos de vida, a tarefa é simples, mas árdua: os pais precisam dar a ordem e fazer com que os filhos a atendam. Isso significa saber a hora de agir. Ao dizer ao filho "não faça isso", por exemplo, é preciso impedir que a criança faça porque é dessa maneira que ela aprenderá o sentido do impedimento e da obediência.

Criança que sabe a quem e quando obedecer é mais tranquila, estabelece boa convivência e, por isso, cresce melhor, mas depende totalmente dos pais para esse aprendizado.

Escrito por Rosely Sayão às 08h34
 
 

Avaliação de pais

Conversei com um jovem universitário que queria abandonar a faculdade. Ele está no segundo ano de um dos cursos mais procurados de uma universidade pública reconhecida.Sua vida escolar até então havia sido plena de êxitos: dedicado, cumpria todas as obrigações escolares sem dificuldade.

Por que queria desistir agora? Seus pais estavam chocados. Ele não tinha resposta para tal questão. Pela conversa que tivemos, percebi que seus estudos não faziam parte de sua vida, ou seja, ele não se apropriara deles, tampouco desfrutara de suas conquistas. Estudar não fazia sentido para ele.

Esse jovem me fez pensar em muitas coisas, entre elas nessa ânsia dos pais para que seus filhos tenham êxito escolar. E é nesta época do ano que as consequências desse anseio explodem. As crianças que terão de fazer a recuperação no final do ano estão em maus lençóis.

Muitas já estão com a agenda ocupada com aulas particulares. Nas férias, lá vão elas para estudos dirigidos e aulas de variadas disciplinas. E sob intensa pressão, já que professores regulares, particulares e pais afirmam que elas têm pouco tempo para aprender muito conteúdo. E todos trabalham em conjunto para que essas crianças encham a cabeça de informações em pouco tempo.

Outras estão em situação pior ainda: já receberam dos pais a ameaça ou o aviso da perda de viagens de férias, presentes de fim de ano e outras gostosuras porque não se dedicaram aos estudos durante o ano.

E há também aquelas cujos pais quase se conformaram com o resultado escolar do filho porque conseguiram dar um nome a isso. Hoje temos uma infinidade de crianças com diagnósticos como dislexia, discalculia, transtorno de deficit de atenção etc. As crianças padecem com o excesso de diagnósticos e de tratamentos.

Por que decidimos exigir tanto de crianças e de adolescentes na escola? Por que achamos que eles devem se interessar mais pelo estudo do que pelas brincadeiras, festas, namoros e tudo o mais que realmente importa nessas fases da vida? Talvez porque a vida escolar deles sirva atualmente de índice de avaliação da paternidade.

O filho recebe ajuda em casa com os estudos? Tem bons pais. A criança tem bom rendimento escolar? Tem pais dedicados. Os pais dos alunos comparecem sempre às reuniões? São presentes na vida dos filhos. O adolescente tem bons resultados no Enem ou boa classificação no vestibular? Seus pais são bem avaliados.

É por isso, provavelmente, que os estudos e a escola se transformaram, hoje, em assuntos que dizem mais respeito aos pais do que aos estudantes. Não é de se estranhar, portanto, que tantas crianças e jovens aprendam bem menos do que poderiam na escola: porque não são exigidos nem cobrados por eles mesmos, e sim para atender às expectativas de pais e professores. Poderia ser bem diferente, não poderia?

Escrito por Rosely Sayão às 11h07