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O turista e o peregrino

O mundo em que vivemos afeta profundamente a maneira de ser e de viver de cada um de nós e nem sempre nos damos conta disso. As decisões que tomamos diariamente, as escolhas que fazemos, as interpretações que damos aos acontecimentos são influenciadas pelo contexto social e cultural.

Isso quer dizer que os estilos de vida que adotamos também estão marcados pela maneira como o mundo se constitui.
As metáforas ajudam a compreender melhor as transformações que ocorreram e que estão em curso no nosso modo de viver. Zygmunt Bauman, pensador contemporâneo, construiu uma que ajuda a dar sentido e a interpretar a diferença entre o modo de estar no mundo décadas atrás e agora. Para isso, ele contrapõe as imagens do peregrino e do turista.

O peregrino, figura característica de um mundo em extinção, é quem escolhe viajar em busca de algo para melhorar ou dar sentido à sua vida. Em sua árdua e longa jornada, que não tem prazo para terminar, ele não tem pressa e seu trajeto importa mais do que sua chegada, que ele não sabe quando nem onde ocorrerá.

Já o turista -figura marcante dos tempos atuais- viaja por diversão e com data marcada para voltar, escolhe seu destino por curiosidade ou influência do mercado de consumo do lazer e seu trajeto é apenas o modo de chegar a seu destino. Qualquer contratempo nos planos do turista é vivido de forma dramática. Vou usar essa metáfora para compreender um pouco as mudanças dos papéis de mãe e de pai na atualidade.

Hoje, mal um filho nasce e os pais já se preocupam com o fim de sua jornada, que equivale a entregar o filho ao mundo para que ele viva por conta própria e com autonomia. Desse modo, pais de crianças muito pequenas procuram escolas que as preparem para o vestibular e o Enem, enchem seus filhos de atividades que os ajudem a enfrentar o futuro mercado de trabalho, programam com antecedência e em pormenores sua vida para realizar tudo o que planejaram para o filho.

Pais de crianças que resistem -por seu modo de ser- a tais planos frustram-se, sentem-se fracassados, usam de muitos artifícios para tentar resgatar o caminho originalmente traçado ou desistem precocemente de sua viagem. Preparar o filho para o futuro tornou-se, por força das pressões externas, missão mais importante do que conhecer e ouvir o filho, estar com ele, construir um vínculo afetivo. Essa imagem é muito parecida com a do turista, não?

Há pais que não pensam no fim de sua jornada a não ser quando constatam que ela terminou. Sabem que seu trajeto será longo e árduo, não têm pressa, encaram as vicissitudes como parte da caminhada, ligam-se mais ao filho que têm do que àquele que ele será. Esse modo de se relacionar com a paternidade tem mais relação com a imagem do peregrino, portanto.

É possível escolher ser mais peregrino na vida com os filhos do que turista, mesmo com as influências que sofremos. Para isso, entretanto, é preciso refletir e resistir a muitas pressões do mundo em que vivemos.

Escrito por Rosely Sayão às 13h38
 
 

Caso de polícia

Na semana passada, soubemos, por meio da imprensa, que uma garota de sete anos acabou na delegacia por causa de uma briga na escola que começou, parece, por causa de um doce. As notícias divulgadas afirmam que a garota agrediu educadores e até policiais que foram chamados pela própria escola para ajudar (?) a resolver a situação.

A mãe da menina disse que ela faz tratamento e que a escola está ciente da situação, mas não vou considerar essa informação porque muitas crianças dessa idade ainda podem se descontrolar fisicamente mesmo sem ter problema nenhum. E é bom lembrar que a criança, quando perde o controle ainda escasso e em desenvolvimento que tem sobre seu corpo, dificilmente consegue parar a crise de birra sem ajuda.

Não estamos sozinhos nessa atitude de colocar a criança como inteiramente responsável por suas atitudes. Na Inglaterra, uma garota de dois anos está sendo acusada por um vizinho de ter cometido atos de vandalismo. A polícia também foi chamada nesse caso e está investigando o fato de a menina ter batido com uma varinha no carro de propriedade do vizinho que a acusou.

Imagine, caro leitor, a cena: uma criança que vive num mundo habitado por fadas, bruxas e crianças com poderes mágicos -vale lembrar que Harry Potter tem origem britânica- decide usar uma varinha para transformar um carro em carruagem, veículo voador, abóbora ou coisa que o valha. E tudo o que consegue é ser empurrada violentamente para o mundo adulto: vai parar na polícia. No caso brasileiro, tudo o que a menina queria era um doce pelo qual resolveu batalhar com os recursos de que dispunha, mas o que conseguiu foi o mesmo que sua companheira britânica de infância: polícia.

Os adultos estão totalmente impotentes perante as travessuras, estratégias usadas para atender a impulsos e comportamentos desgovernados das crianças. Aliás, não só impotentes como também ausentes. Não havia um adulto por perto disposto a tirar a "varinha de condão" da mão da menina de dois anos ao perceber que, em vez de mágica, ela estava provocando estrago no carro do vizinho. Não havia, na escola que a garota de sete anos frequenta em Campinas (cidade em que ocorreu a história citada), um adulto capaz de conter fisicamente o descontrole corporal da garota de sete anos.

Muitos dizem que o Estatuto da Criança e do Adolescente é responsável pela omissão dos adultos perante comportamentos inadequados dos mais novos. Será que não sabemos mais intervir para conter uma criança sem usar violência, sem humilhar, sem desrespeitar sua dignidade? Será que não sabemos mais a diferença entre ação firme e ação violenta?

Vamos lembrar que a criança e o velho são os que precisam, em nosso país, da existência de estatutos que os defendam e garantam os seus direitos, o que não é bom sinal. Mas agora parece que, além de não defendermos nem respeitarmos por vontade própria nossas crianças, passamos a sentir medo delas. O que há de vir depois?

Escrito por Rosely Sayão às 10h18