UOL Estilo UOL Estilo





BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Mulher, de 56 a 65 anos, Portuguese

Quem é Rosely Sayão

e-mail
Dúvida
Neste blog Na Web

 Visitas  
 
 
 

Apressando a vida

O avião em que viajo finalmente pousa. Cautelosa, espero que a aeronave pare totalmente para relaxar por saber que cheguei sã e salva. Estou sentada numa poltrona do corredor e prefiro esperar as portas se abrirem para levantar. Não consigo: sou atropelada por um senhor, com terno de corte fino, que estava sentado ao lado da janela e tem pressa.

Ele nem sequer pede licença para passar ou espera que eu me levante: simplesmente passa por cima de minhas pernas. Aguardo um pouco e, quando a fila caminha em direção à saída, tento sair. Dura empreitada essa: ninguém está disposto a dar passagem porque isso significa chegar atrás, mais tarde. Segundos apenas, mas mais tarde. Encontro-me com quase todos os companheiros de viagem no ônibus que nos leva até o saguão do aeroporto e enfrento a mesma dificuldade para dele descer e chegar à esteira onde pegarei minha bagagem. Estão lá, os apressados, e vão esperar comigo a mala chegar.

A pressa tomou conta de nossas vidas. Corremos desde que acordamos. O banho é rápido -além de tudo, é preciso economizar água e energia-, o café da manhã é tomado com a leitura do jornal ou outra atividade qualquer, os filhos são empurrados para o carro e, com toda a velocidade, enfrentamos o trânsito emperrado para chegar ao nosso destino. É no trânsito, principalmente, que constatamos a pressa de quase todos: é difícil sair da garagem, já que poucos se dispõem a esperar alguns segundos para dar passagem. Passar de uma pista para outra é tarefa para piloto de Fórmula 1: poucos deixam ser ultrapassados.

As crianças percebem desde cedo a nossa correria e a adotam. Quando bebês, os primeiros passos são dados apressadamente para garantir um equilíbrio ainda em desenvolvimento. Daí em diante, é difícil ver crianças andando: correm sem motivo nenhum. E nós, em nossa pressa, achamos natural que corram dentro de casa, na escola, onde as levamos.

Incentivamos a corrida sem fim dos mais novos: queremos que aprendam tudo rapidamente e cedo, de preferência sem exigir muito de nossa parte para que não atrapalhem a nossa própria corrida. É no futuro deles que pensamos? A justificativa que assumimos foi essa. Mas, pensando bem, ela pode ser uma desculpa que construímos para adequar o papel educativo ao estilo de vida corrido que adotamos. Afinal, estimulando e empurrando os mais novos para essa corrida, tantas vezes desrespeitamos etapas de suas vidas, ritmos pessoais etc.

Aonde precisamos chegar com tanta pressa? Ao pensar nessas questões, ocorre-me o personagem do filme "Forrest Gump", que, em determinado momento de sua vida, decide correr. Ele simplesmente corre: sem motivo, sem destino.

Para que não façamos o mesmo, precisamos nos perguntar diariamente: "Por que estou correndo? Será que poderia realizar a mesma coisa com mais calma e melhor?". Desse modo, certamente poderíamos diminuir nosso alto grau de estresse, dedicar mais tempo aos filhos e, assim, ter uma vida melhor com e para eles.

Escrito por Rosely Sayão às 10h47
 
 

Extremidades da vida

O dia 1º de outubro foi dedicado ao idoso e o próximo dia 12 é a data das crianças. A proximidade das duas comemorações não foi planejada: o Dia da Criança é comemorado há quase 50 anos e lembra uma promoção de duas empresas que fabricam mercadorias para o público infantil e que criaram, dessa maneira, uma boa circunstância para o aumento de seu lucro. Aliás, é bom dizer que o índice de vendas para esse dia só é menor que o de outras duas datas exploradas comercialmente: o Natal e o Dia das Mães.

O Dia do Idoso, por sua vez, é comemorado no dia 1º há pouco tempo, e a data foi escolhida porque lembra a criação do Estatuto do Idoso. Ainda não há exploração, tampouco efeito comercial, mas creio que não demorará para que isso ocorra.

Esse fato não planejado, entretanto, nos dá a oportunidade de pensarmos a respeito das duas fases da vida que são extremidades de um percurso. O que há em comum entre elas?

Em primeiro lugar, a negação de ambas. A infância, tanto quanto a velhice, tem perdido seu lugar neste mundo. Já nascemos jovens e continuamos assim até o fim de nossa vida. É interessante perceber que adaptamos até a linguagem coloquial de modo a esconder essas condições da vida.

Em relação às crianças, passamos a nos referir a elas como "baixinhos", "pequenos" e seus correlatos, inclusive em textos jornalísticos, que usam e abusam de tais substitutos. Por certo você já ouviu a frase que afirma que a criança não é a miniatura de um adulto, não é? Mas essas palavras, que são usadas para suprimir a outra criança, apenas confirmam a tese negada na frase.

Para o velho, reservamos a palavra idoso para situações formais -avisos de atendimento preferencial, por exemplo-, mas elegemos expressões como terceira idade ou melhor idade para ocultar a velhice. Aliás, li um texto escrito por um advogado recentemente que afirmou que ser chamado de velho hoje permite até processo por reparação de dano moral. Isso quer dizer que a palavra velho transformou-se em xingamento grave, veja só!

Nossas cidades são hostis a crianças e velhos. O tempo dos semáforos privilegia jovens e carros, capazes de ter velocidade sem nenhuma dificuldade.As calçadas são irregulares, para não falar dos buracos não consertados e dos consertos mal feitos -e o corre-corre dos jovens intimida os que podem perder o equilíbrio com um pequeno esbarrão. Os espaços públicos, de um modo geral, não são ambientes acolhedores a crianças e velhos.

Aliás, os jovens de todas as idades costumam lançar olhares de julgamento a ambos quando se encontram nos mesmos locais. Achamos melhor que crianças e velhos fiquem confinados em locais próprios a eles e só entre eles: escolas, creches, bailes e clubes da "terceira idade" etc. Por que, afinal, temos de conviver com eles, que nos lembram que já fomos criança um dia e seremos velhos logo mais?

Temos orgulho de crianças que se comportam como jovens e de velhos com "espírito jovem". Deveríamos é ter empatia e respeito com nossa infância e nossa velhice, isso sim.

Por tudo isso, e por tudo aquilo que não coube neste texto dizer, poderíamos transformar as duas datas em uma, apenas: o dia dos excluídos.

Escrito por Rosely Sayão às 09h07
 
 

Filho ideal x filho real

Sara é casada com Brian e tem dois filhos: Kate e Jesse. Aos dois anos, Kate é diagnosticada com leucemia e, a partir de então, sua mãe dedica a vida a salvá-la. Recorre até à fertilização assistida para dar à luz um filho que possa doar-lhe sangue, líquido de medula e órgãos.

É assim que nasce Anna, a caçula, que passa sua vida em hospitais ao lado de Kate, pelo menos até os 11 anos. Na entrada da adolescência, decide ter o controle sobre seu corpo e recorre a um advogado para obter o que chama de emancipação médica em relação a seus pais. Passa, assim, a travar uma batalha contra sua mãe. Essa é a trama central do filme "Prova de Amor", em cartaz nos cinemas.

Esse filme pode ser visto de formas diferentes. Podemos ver, por exemplo, em meio aos inúmeros dramas familiares, o acontecimento de uma tragédia que transforma a vida de todos os envolvidos e do grupo. Mas também é possível vê-lo como uma narrativa que conta parte da história de todos nós.

Quando uma mulher engravida, gera dentro de si um filho que, no entanto, já é gerado há muito mais tempo em sua imaginação. Assim que o filho real nasce, mãe e pai passam a travar uma dura batalha entre seus dois filhos: o real e o ideal.

Tal batalha é cotidiana porque é preciso renunciar ao filho ideal para que possam exercer o papel de mãe e de pai do filho que nasceu. Nem sempre é possível perceber o quanto a imagem acalentada do filho ideal impede que os pais enxerguem o filho real com suas características e dificuldades, seus limites e suas potencialidades, suas demandas e necessidades, mas isso acontece muito.

Sara não consegue ouvir Kate porque está totalmente empenhada em fazer com que a filha que tem sobreviva à doença, mas Kate não é essa filha. Sara não consegue conviver com o problema que Jesse apresenta na escola, por isso o envia por um ano para uma escola especializada para que lá encontrem uma solução. Sara não percebe que exige demais de Anna. Sara nem sequer percebe a relação intensamente fraterna que há entre os três irmãos, tão mergulhada que está em si mesma.

Brian, por sua vez, é capaz de, muitas vezes, ver e ouvir cada um de seus filhos. Ele poderia intervir para colocar sua mulher em seu lugar para ceder espaço às vidas das crianças, mas escolhe se omitir perante a força de luta da mulher para evitar conflitos, para tentar manter sua família "equilibrada". Mas tudo o que consegue é se ausentar de seu papel de pai.

Há muito de Sara, por exemplo, nas mães que não aceitam que seus filhos tirem nota baixa na escola e que, para evitar isso, recorrem a toda sorte de estratégias -de contratar especialistas a estudar e fazer os deveres diariamente com o filho. Há muito de Brian nos pais que justificam a forte presença da mãe na vida dos filhos como impedimento para o exercício responsável da paternidade.

Temos pressionado em demasia nossas crianças e nossos jovens e ouvido e olhado pouco para eles. Precisamos inverter essa equação para que possamos nos tornar pais e mães melhores do que temos sido.

Escrito por Rosely Sayão às 16h35