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Privacidade escancarada

A frase "criança precisa de limites" escorre pela boca de muita gente. Tenha você filhos ou não, conviva com crianças ou viva bem longe delas, certamente já ouviu alguém pronunciá-la com ar de sabedoria ou teve vontade de dizê-la. Espero que tenha se contido porque ela não significa boa coisa. Dita assim, parece que consideramos os limites algo importante para os mais novos, mas que, infelizmente, não tivemos como lhes oferecer.

Pois essa pode ser uma parte da nossa realidade. Consideremos, por exemplo, a fronteira -o limite!- entre o público e o privado, entre o que é da ordem da intimidade e o que pode ser partilhado no convívio social. No mundo adulto, essa fronteira parece ter quase se dissipado e o modo como usamos o telefone celular evidencia isso.

Todo assunto é conversado na presença de qualquer pessoa e o tom de nossa voz não demonstra que queremos deixar nossos assuntos protegidos de estranhos. Brigas com cônjuges, comentários sobre um amigo, nossos percalços financeiros, tudo é tratado no trabalho, no restaurante, no bar. Além disso, não há distinção entre vida profissional e pessoal, já que ambas estão sempre se atravessando: fala-se com os filhos no trabalho, trata-se de trabalho no convívio familiar.

Pois bem: as crianças têm reproduzido muito bem essa falta de limites. Na escola, que é onde começam a aprender a viver a vida pública, consideram amigos os colegas com quem mais têm afinidade -sempre temporária, é bom lembrar. E toda sorte do que consideram segredo de suas vidas compartilham com os mesmos. Fatos que acontecem com os pais, o que pensam e sentem, atos que cometeram, eles contam tudo.

Na primeira oportunidade, arrependem-se fortemente do que fizeram porque os segredos passam a ser usados como moedas de troca para pequenas chantagens, são divulgados em atos de represália, servem de motivo para chacotas etc. Mesmo assim, sozinhas, as crianças não conseguem aprender a distinguir colega de amigo, assunto íntimo de assunto social.

Outra evidência de que não sabem nem conseguem proteger sua intimidade de estranhos é quando usam a internet. Confiam rapidamente nas pessoas com quem conversam, publicam experiências muito pessoais na ingênua crença de que apenas quem eles conhecem e querem bem terão acesso, distribuem comentários que deveriam ser feitos a poucos, escrevem seu diário, expõem-se.

Em geral, quando a criança usa a internet, sente-se segura e protegida porque está em sua casa, e isso ajuda a perder a noção de que um pequeno artefato tecnológico a conecta ao mundo todo. Assim, ela constrói a ilusão de que nada do que escreve ou nenhuma imagem que publica será acessada por quem não gosta ou mesmo para ser usada contra ela. Muitas já sofreram experiências dolorosas e pouco aprenderam. É principalmente por isso que as crianças precisam de tutela adulta quando usam a rede.

Se queremos que os mais novos tenham uma vida melhor do que a nossa, precisamos lhes ensinar que é possível e desejável construir uma intimidade e que amigos temos poucos, enquanto os colegas são muitos.

Escrito por Rosely Sayão às 12h01
 
 

Paciência em falta

A ideia de ter filhos hoje é absolutamente sedutora. Tornar-se mãe ou pai é um fato que nunca pareceu tão importante porque é visto como modo de se realizar, de se completar, de cumprir uma missão importante. Não é à toa que tantas mulheres recorrem a procedimentos médicos diversos para conseguir engravidar. Definitivamente, consumimos a ideia de que ter filhos é fundamental.

O período de gestação é cercado de acontecimentos que se parecem com pequenas festas para os futuros pais. Compras dos mais variados tipos, durante meses consecutivos, são consideradas indispensáveis: além do enxoval para o bebê, há as vestimentas para a futura mãe, que, em geral, não vê a hora de exibir sua condição. Aliás, um bom exemplo de como exibir a gravidez é tão importante quanto estar grávida são as entrevistas, as fotos e o modo de se apresentar de artistas que esperam um filho. Além das compras, são contratados vários prestadores de serviços e um aparato médico-hospitalar que inclui muitos exames -e não me refiro aqui ao essencial, que constitui o pré-natal.

Depois do nascimento, a cortina desce progressiva e vagarosamente e o clima de festividade cede espaço à realidade: ter filhos, o que exige cuidar deles e educá-los, dá trabalho. Um trabalhão, por sinal. Nos primeiros anos, são noites maldormidas, trabalho braçal árduo, atenção constante e o contato com um universo radicalmente diferente do nosso: o mundo da imaginação e da fantasia. Além disso, ensinar a criança a estar com os outros não é tarefa simples porque os pequenos não se controlam e, portanto, por mais que entendam as ordens e orientações dos pais, precisam ser seguidos de perto e contidos sempre.

Na segunda parte da infância, os pais precisam começar a exercitar o desprendimento em relação aos filhos, já que eles precisam crescer e a vida escolar é o campo onde isso ocorre de modo privilegiado. Na adolescência, os pais são testados continuamente e não podem abandonar seu papel até que o filho amadureça, de preferência como uma pessoa de bem, para viver por conta própria.

Todo esse processo exige, mais do que qualquer outra coisa, muita paciência. Aliás, creio que essa seja a virtude mais necessária a quem tem filhos. E, do mesmo modo, a que tem estado mais em falta atualmente.

Os pais têm tido pouca paciência com as manifestações próprias da criança pequena, com o crescimento do filho -que tem um ritmo próprio-, com as contestações dos adolescentes. Acreditam que os filhos os fazem insistir demais nas mesmas coisas.

Pois os pais precisam saber que, por mais ou menos 18 anos, irão repetir as mesmas coisas. "Ainda não" e "agora chega" condensam as mais importantes repetições; mudam apenas os conteúdos delas, de acordo com a idade dos filhos.

Os pais não podem dizer que não têm paciência no exercício de seu papel. Quem tem filhos precisa desenvolver essa virtude a qualquer preço. Sem ela, os mais novos ficam na situação de órfãos de pais vivos.

Escrito por Rosely Sayão às 13h36