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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Mulher, de 56 a 65 anos, Portuguese

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Para que serve mesmo esse ranking?

Um casal, ao escolher a escola para suas filhas que iniciariam o ensino fundamental, optou por priorizar alguns critérios em sua decisão. Entre eles, a qualidade das relações interpessoais dos alunos entre si e destes com seus professores e a proximidade com a residência da família para poupar as crianças de um longo período no trânsito.

Depois de uma exaustiva procura, encontraram uma escola que satisfazia às suas demandas.Essa família constatou, no decorrer de alguns anos, que a escolha fora acertada: as crianças gostavam, na medida do possível, de frequentar a escola e aprendiam, os professores realizavam bem sua tarefa, o convívio no espaço escolar era salutar.

Tudo foi bem até que a escola passou a frequentar os primeiros lugares no ranking do Enem. Na visão dessa família, tudo mudou a partir de então, e a escola perdeu suas principais e melhores características porque trabalhava quase que exclusivamente para manter sua classificação no ranking: os alunos foram colocados sob constante pressão, os professores passaram a focar seu trabalho nos melhores alunos, a escola inchou. A última notícia que tive desses pais foi a de que estavam considerando a mudança de escola para suas filhas.

Outro casal fez um percurso totalmente diferente. Depois de estudar com dedicação o ranking de escolas, decidiu matricular o filho no ensino médio de uma das escolas que figuravam entre os primeiros lugares. Tentaram várias delas e se frustraram.

Não conseguiram vaga para o filho pelos mais diversos motivos: em uma, foram informados de que o filho não tinha perfil para lá estudar; em outra, que o filho não tivera boa formação básica; em uma terceira, que o filho até era bom estudante, mas que a competição era acirrada e que outros candidatos haviam se saído muito melhor. Esse casal guarda, até hoje, uma culpa: a de não ter conseguido oferecer ao filho uma boa escola segundo os parâmetros do ranking.

Para que serve mesmo esse ranking? O que ele revela? O que ele esconde? O que ele distorce?

Para considerar o tal ranking é preciso lembrar, em primeiro lugar, que o Enem é feito para avaliar o ALUNO, e não a escola que ele frequenta, e isso faz toda a diferença quando analisamos os resultados comparativos colocados em forma de classificação.

Um excelente resultado da escola pode ser indicativo, por exemplo, de uma instituição que não admite alunos medianos na relação com os estudos. E, caros pais, a maioria dos filhos são alunos medianos. Como a maioria de nós foi.

Em segundo lugar, é preciso lembrar também que a amostragem de alunos por escola que fazem o Enem não segue padrão nenhum. Isso significa, na prática, que a média de escolas com menos de 200 alunos é equiparada à de outras com mais de mil, por exemplo. Significa também que apenas bons alunos de algumas escolas podem prestar o exame e, desse modo, colocar a escola nos primeiros lugares. E devo dizer que, para algumas escolas, vale tudo -tudo mesmo- para alcançar os primeiros lugares e, desse modo, ter visibilidade e procura de alunos.

Conversei com um aluno que não prestou o Enem porque a escola que ele frequenta -fora de São Paulo- ofereceu um churrasco para alguns alunos no mesmo dia do exame e ele preferiu comparecer a esse evento, é claro. Que incrível coincidência, não é mesmo?

Em terceiro lugar, esse ranking provoca a falsa ideia nos pais de que a responsabilidade de oferecer uma boa educação escolar aos filhos é deles, ou seja: quem pode pagar altos valores de mensalidade, consegue vaga nas escolas colocadas nos primeiros lugares e reside nos bairros próximos a essas escolas, entre outros fatores, consegue oferecer boa formação escolar ao filho. Falso: a responsabilidade de dar educação escolar de qualidade às crianças e aos jovens é das escolas. De todas elas. Não é dos pais, de suas escolhas e de suas possibilidades na vida.

O ranking do Enem -aliás, de qualquer tipo- é um bom negócio para algumas poucas escolas e sempre será assim porque sempre teremos apenas 20 nos primeiros lugares, um bom negócio para a mídia, um bom negócio para o ensino privado. E, enquanto apostarmos no ensino privado e não cobrarmos um bom ensino público frequentado pela maioria de nossos estudantes, continuaremos a ter problemas em educação e, consequentemente, em outras áreas em curto e médio prazo.

O ranking não é bom para os alunos -muitos deles podem cursar seu ensino médio com sentimento de derrota antecipada-, não serve para a melhoria de qualidade da educação em nosso país, não é uma boa referência para os pais.

Por que insistimos tanto em usar o ranking, mesmo? Ah! Ficamos apegados à ideia de vencedores e campeões. Pena que isso não valha nada para a maioria que vive a vida como ela de fato é.

Escrito por Rosely Sayão às 00h36
 
 

Pílula do sexo

Um jovem de 19 anos reclama de um comportamento que considera quase uma dependência medicamentosa. Há dois anos, toda vez que tem um encontro que pode resultar em um relacionamento íntimo, ele toma pílula para ereção. E, cada vez mais, não se arrisca a deixar de tomar.

A história dele deve nos fazer refletir sobre o quanto contribuímos para que os jovens construam uma visão da sexualidade estreitamente ligada ao desempenho corporal. Veja: ele teve sua primeira experiência sexual pouco antes de completar 16 anos. Muito tarde, em sua própria avaliação.

Os colegas o incentivaram a tomar a pílula em sua primeira vez para evitar que a ansiedade e o nervosismo atrapalhassem o processo de excitação. Um pouco relutante, ele aceitou a sugestão, tomou e não se arrependeu. Segundo ele, o uso não provocou nenhum efeito colateral e o resultado foi o que esperava: não falhou e conseguiu manter a ereção por um período que considerou muito bom.

Depois disso, namorou uma garota e, durante o tempo em que esteve com ela, nem se lembrou do remédio porque não precisou. O namoro acabou e, desde então, ele tem encontros ocasionais com garotas que conhece em baladas ou bares. E foi a partir daí que passou a usar e abusar da pílula.

O caso desse rapaz não é exceção. Uma pesquisa realizada na Argentina mostrou que a cada dez medicamentos para ereção vendidos no país, três foram consumidos por menores de idade. Segundo informações de médicos que trabalham na capital argentina, o consumo desse tipo de medicamento está crescendo entre adolescentes de 15 e 16 anos em todas as classes sociais.

O que leva jovens plenos de energia a acreditar que precisam desse tipo de remédio? Em primeiro lugar, a oferta e a propaganda. Por que precisamos ter celular e não sabemos mais viver sem esse aparelho se por tanto tempo o fizemos muito bem? Porque há uma oferta generosa dele e porque seu uso é associado a um estilo. "O mundo é de quem faz e acontece" é um dos slogans atuais. Não ter celular é um fato que hoje inferioriza um jovem e até mesmo uma criança. Falhar no momento decisivo é um evento que deprecia o jovem, portanto, ele não pode correr tal risco.

Em segundo lugar, temos promovido a ideia da perfeição do corpo, da saúde, da aparência. Para estar bem é preciso mostrar-se bem, não aceitar limites, superar os obstáculos, evitar contrariedades. Ocorre que essa ideia, levada ao extremo, retira do jovem o conhecimento de sua humanidade, seu contato com ela. Ser humano significa ter e reconhecer limites e defeitos para, inclusive, tentar superá-los.

Nessa questão do desempenho sexual, os jovens têm tido medo e talvez seja isso que os leve a tomar a pílula para ereção. Eles têm medo de falhar, de serem julgados e rejeitados, medo de decepcionar. Talvez possamos colaborar para que aprendam que é mais humano buscar coragem para lutar contra o medo do que tomar medicamentos.

Escrito por Rosely Sayão às 10h48
 
 

A difícil arte de ser criança

Um colega, professor universitário, disse que não gostaria de ser jovem no mundo de hoje. Penso sempre nisso e concordo com ele. Agora, tenho a mesma maneira de pensar a respeito da criança. Como é difícil ser criança no mundo em que vivemos!

Nos primeiros anos de vida, quando deveria ser livre para brincar, para se relacionar com outras crianças -não necessariamente da mesma idade-, para explorar o mundo com liberdade, sem hora marcada e roteiro preestabelecido, ela precisa bancar uma vida ao modo do adulto e do que ela deverá se tornar no futuro.

Menores de seis anos têm agenda apertada a cumprir, obrigações dos mais variados tipos, preocupações dignas de adultos, escolarização precoce e tudo o mais. Pouco resta de tempo que possa ser usado para a coisa mais importante desse período: brincar sem compromisso. Não há espaço na vida delas para o ócio, veja só.

Depois dos seis anos, mais ou menos, a criança deveria se desenvolver: passar, progressivamente, a se responsabilizar por suas coisas, assumir compromissos, encontrar soluções para situações problemáticas próprias de sua vida, aprender. É o tempo de crescer, que coincide com o início do árduo aprendizado da leitura, da escrita e da aritmética. A vida na escola, que nesse momento representa o mundo para a criança, é, portanto, a situação privilegiada para que ela cresça. E não é que muitos pais têm atrapalhado os filhos em seu crescimento e, portanto, não têm deixado que isso ocorra?

Esses pais têm o que julgam ser um bom motivo: protegê-los de injustiças, sofrimentos, frustrações e problemas. Na verdade, impedem que eles cresçam. Crescer dói e, portanto, certos sofrimentos são inevitáveis.

Há pais que reclamam dos professores de seus filhos, por exemplo. Ora são considerados bravos em demasia, ora injustos em suas atitudes, ora rigorosos ou exigentes além da conta. Acontece que a criança dessa idade precisa aprender a lidar com as incompreensões do mundo, com as pequenas injustiças, com as exigências e cobranças a ela dirigidas, entre outras coisas. Crescer supõe construir mecanismos para fazer frente a essas situações.

Lembro-me de um trecho de um livro de Françoise Dolto -transcrição de um programa de rádio em que respondia a pais aflitos- em que a psicanalista sugeriu que a mãe, cujo filho se recusava a ir para a escola porque a professora era muito brava, dissesse a ele que, se a professora ensinava, não tinha importância se era brava. Esse é um modo de dizer que o filho não pode se recusar a crescer, que esse é seu destino.

Há pais que não querem que filhos dessa idade enfrentem dissabores e arquem com as consequências de seus atos. Permitem que drible os colegas ou a escola quando precisam prestar contas de alguma atitude ou dever. Há os que aceitam desculpas esfarrapadas para os mesmos erros repetidas vezes.

Precisamos ajudar essas crianças a crescer, a seguir em frente. Caso contrário, estaremos plantando um futuro infantilizado em suas vidas.

Escrito por Rosely Sayão às 12h28