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Educação Sexual

Em um domingo, uma família conversava animadamente. Avós, tios, pais e crianças trocavam ideias e contavam histórias. De repente, um garoto de oito anos diz: "Vó, você faz sexo oral no vô?" Os adultos congelaram, tentaram disfarçar, não souberam reagir.

A mãe de uma menina de cinco anos, ao dar banho na filha, ouviu a garota dizer que ela "chupava a chupeta" do primo de sete anos sempre que brincavam juntos. Desconfiada, perguntou se o primo ainda usava chupeta. A filha respondeu que ele tinha uma chupeta, que era o "pipi" dele.

Em uma escola, professores surpreenderam alunos do 3º ano -com oito ou nove anos-, na hora do recreio, explorando genitais uns dos outros. Em outra, alunos do 2º ano contaram à professora que brincavam de "transar" no recreio.

Os adultos estão perdidos diante de tais manifestações de sexualidade de crianças de sete a dez anos, mais ou menos. As crianças mudaram. Nessa idade, tais expressões eram raras anos atrás. Eram comuns em crianças com até seis anos. Depois disso, a sexualidade "adormecia" até explodir na forma adulta com a chegada da puberdade e o início da adolescência.

Hoje, as referências mudaram. A adolescência, que é um fenômeno sociocultural, não mais se inicia depois da puberdade: se antecipa a ela. Crianças com nove, dez anos não mais querem ser crianças, e sim "pré-adolescentes". Na prática, isso significa ter comportamento adolescente: ir a festas à noite sem os adultos, conversar horas na internet ou pelo celular, consumir com certa autonomia, namorar.

Sabemos que nossas crianças estão expostas a todo o tipo de informação do mundo adulto e, como consequência, estão eroticamente hiperestimuladas e não sabem diferenciar o que é do âmbito do relacionamento social daquilo que deveria fazer parte da intimidade. Não sabemos ainda como lidar com isso. Não dá mais para dizer apenas, para essa garotada, que "esse não é assunto de criança" por um motivo óbvio: não as tratamos mais como crianças.Precisamos, portanto, criar soluções alternativas.

Talvez uma possibilidade seja a de oferecermos uma educação sexual mais cuidadosa, planejada desde a educação infantil, nas escolas e em casa. E não podemos entender educação sexual como conversas sobre sexo. Precisamos ensinar às crianças, desde cedo, o que entendemos ser importante em relação à sexualidade: atitudes e cuidados com o próprio corpo e com o do outro, os conceitos de intimidade, de gênero, a moral familiar e a social sobre o assunto, por exemplo.

Outra possibilidade é a de não colaborar com a estimulação precoce. Poupar as crianças de frequentar reuniões sem adultos atentos, evitar detalhes desnecessários sobre o assunto e o acesso a sites e publicações de conteúdo erótico são atitudes responsáveis dos que convivem com essas crianças.

O mundo mudou e, por isso, as crianças mudaram. Isso exige que a educação mude também, por isso voltaremos a tratar do assunto outras vezes.

Escrito por Rosely Sayão às 15h28

Família sustentável

 

De vez em quando, surgem palavras ou expressões que viram mania nacional, e muitas delas carregam um complexo conceito teórico de alguma disciplina do conhecimento. Assim foi, por exemplo, com a expressão "quebra de paradigmas", lembra-se dela? Cansei de ouvi-la em escolas.

Muitos professores queriam quebrar paradigmas diariamente -não havia uma reunião em que a expressão não fosse utilizada. Logo percebi que muitos docentes haviam se apropriado apenas do sentido linguístico da expressão e a usavam só para mostrar que estavam devidamente conectados com os estudos da época.

Depois disso, tivemos a época da qualidade total, da resiliência, da sinergia e de muitas outras. Agora, a palavra da vez é sustentabilidade, que tem sido usada das mais diversas maneiras para justificar qualquer tipo de ação, projeto, ideologia etc.

E não é que, recentemente, após uma reunião com pais de uma escola em que o tema foi a importância da transmissão dos valores, dos costumes, das virtudes e da moral familiar na educação dos filhos, uma mãe veio me contar que associara a nossa conversa com o conceito de sustentabilidade?

Devo dizer que, de início, ouvi com preconceito a ideia dela, já que não gosto muito desses modismos conceituais e linguísticos. Mas admito que ela construiu seu pensamento com muita propriedade.

O conceito de sustentabilidade é complexo: diz respeito à continuidade de aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais das diferentes sociedades humanas. Sustentabilidade tem estreita relação, portanto, com preservação.

Quando uma nova família se constitui, um grupo familiar original passa a ser construído.Entretanto, essa nova família não começa sua missão do zero. Cada adulto que se propõe a formar esse novo agrupamento leva sua herança familiar e a usa como referência. Gosto muito da imagem construída por um colega: quando uma pessoa recebe uma casa de herança, ou ela reforma ou vende para comprar outra. O mesmo ocorre com a herança familiar.

Quando duas pessoas vindas de famílias diferentes começam uma nova, negociam, combinam, fazem sínteses do que trouxeram e, claro, inovam também. Além disso, mantêm contato com suas famílias de origem, e é desse modo que as novas gerações se reconhecerão na questão familiar.

Se os pais não transmitem suas tradições e as de suas famílias de origem aos filhos -estimulando o contato entre eles, contando suas histórias, comparecendo aos rituais existentes-, criam uma geração órfã de família. É como se a existência do sobrenome não fizesse sentido, pois não há diferenciação nem características próprias do grupo familiar.

É preciso lembrar que família e sociedade são agrupamentos interdependentes: se um vai mal, o outro também vai. Desse modo, educar os filhos considerando a preservação da família, sua continuidade e manutenção, é trabalhar também a favor da sustentabilidade da sociedade.

 

Escrito por Rosely Sayão às 15h19
Do que as crianças precisam nesta volta às aulas?

Desde hoje, muitas crianças e jovens deixaram de desfrutar as férias prolongadas. Muitos voltaram animadíssimos para a escola porque não agüentavam mais o ócio e sentiam falta do convívio com os colegas. Outros voltaram contrariados porque, afinal das contas, não ter obrigações nem responsabilidades é bem mais fácil do que dar conta dos compromissos.

A questão é que, dentre tantos alunos, muitos deles voltarão fragilizados, vulneráveis, receosos. Foi muita falação a respeito da gripe, formas de contágio, mortes provocadas por ela, recomendações de prevenção etc. que à algumas crianças,  indefesas perante tantas informações do mundo adulto com as quais não sabem lidar,  só resta a alternativa de sofrer. Sofrer inutilmente, diga-se de passagem, já que nada podem fazer.

Outros, diferentes, irão tentar se aproveitar do temor e da impotência dos adultos para “deitar e rolar”: a todo instante pedirão para ir ao banheiro lavar as mãos e, assim, se ausentar do duro aprendizado em sala de aula; vão tossir com frequência para tirar risos dos colegas, dizer à professora que não deu tempo de fazer a lição porque teve febre etc. Essas são apenas outras maneiras de a criança mostrar a fragilidade que tomou conta dela. Outros, ainda, poderão, de fato, sentir os sintomas de uma doença que não têm.

Quando crianças ficam fragilizadas, doentes, em geral os adultos têm alguns recursos compensatórios: doces, guloseimas, mimos dos mais variados tipos, carinhos acolhedores etc. Mas, desta vez, não será disso que elas irão precisar.

Lembrei-me de um trecho do filme “Nanny McPhee”. As crianças, que não queriam sair da cama pela manhã, decidem enganar a babá encantada e dizer que estão doentes. A cozinheira, ao saber do fato, se desespera porque sabe que, em caso de doença das crianças, precisa  dedicar horas na cozinha para fazer todo o tipo de doces que elas gostam. Entretanto, a babá muda o roteiro e pede que ela faça uma sopa com todos os restos de alimentos disponíveis. Uma sopa forte e substanciosa, porém de sabor e cheiro pouco agradáveis.

Pensando bem, é dessa sopa que as crianças que voltarem fragilizadas para as aulas precisarão. Se os professores ficarem penalizados com o estado dessas crianças e acolherem todo o seu sofrimento, estas perderão a grande chance de uma grande lição. Qual lição?

A de que, mesmo em situações difíceis, penosas e complexas, é possível usar todo o potencial que têm para seguir em frente na vida, superar os problemas, se descolar deles.

É dessa maneira que pais e professores podem colaborar com as crianças neste momento: exigindo que façam o que podem e devem fazer, sendo rigorosos e firmes para que não fiquem perdidos perante a ameaça que sentem e, desse modo, possam voltar a ter as preocupações que lhes são pertinentes.

Que as crianças tenham um bom retorno às aulas!

Escrito por Rosely Sayão às 19h25