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Festa do Farol

Semana passada a mãe de uma garota de 12 anos me ligou e perguntou se eu tinha conhecimento de uma festa chamada “Festa do Farol”. Ela me explicou que a filha pedira para ir a com amigas de mesma idade a uma festa desse tipo em um clube, dedicada a adolescentes, mas que teria de comprar uma roupa vermelha para ir. A cor da roupa, segundo a garota explicou à mãe, tinha relação com a disponibilidade ou indisponibilidade para ficar com garotos, vejam só!

Fui pesquisar e entendi que tal tipo de festa começou com a distribuição de pulseirinhas na entrada: quem colocava pulseira verde se colocava disponível para encontrar companhia e quem colocava vermelha sinalizava que já era comprometido. Só que essas festas eram destinadas a jovens maiores, claro. O nome “farol” tem relação com o semáforo e suas cores. Coisa de paulistano, não é mesmo?

A história foi ficando cada vez mais sofisticadas e as cores aumentando: agora, já tem cor para sinalizar quem quer ficar sem nenhuma restrição, quem quer ficar, mas com algumas condições etc. e nem sempre há pulseirinha e sim roupa, como no caso da festa no clube que a garota queria ir.

Entrei então no site do clube e a única referência era a de uma festa para adolescentes de 12 a 18 anos. O restante, ou tinha caráter informal ou era invenção da garotada mesmo.

Bem: depois de entender a história liguei de volta para a mãe que, precavida, já havia ligado no clube para obter maiores informações e estava indignada. Primeiro, porque quem atendeu informou que se o adolescente tivesse 11 ou 10 anos mas fosse grande, eles deixariam entrar. Segundo, porque o horário seria até as 24h. Além disso, ela ligara também para outras mães das amigas da filha que, incautas, simplesmente deram permissão para as filhas irem à tal festa, desde que alguma mãe levasse e buscasse, claro. Resultado: a mãe não deixou a filha ir à festa.

Essa história me fez pensar em duas coisas.

Primeira: será que ir a uma festa desse tipo, aos 12, 13 ou mesmo 14 anos, não é um risco? Explico: no início da adolescência tudo o que a garotada procura é estar em um grupo e ainda é difícil se relacionar com as diferenças. Desse modo, muitos deles – delas, principalmente - podem fazer coisas que, mais tarde, pode provocar arrependimento numa festa dessas.

Segunda: nosso tempo estimula o agir pelo impulso e o descartável e até mesmo as relações pessoais ganharam esse caráter.  Para quem já nasceu nessa cultura e vai iniciar uma aproximação mais íntima com seus pares, esse tipo de festa só serve para acentuar ainda mais tais valores.

Não tenho nada contra a idéia de “ficar” dos adolescentes. Considero adequado que as primeiras aproximações aconteçam assim mesmo. O que me incomoda é institucionalizar isso – o que esse tipo de festa faz – e estender até a vida adulta esse modo de estar com o outro e, ao mesmo tempo, não estar com ninguém. Aliás, um trecho de música diz assim mesmo: “...eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também...”.

O problema é que eles não sabem – não aprendem a - namorar... Que solidão!

Escrito por Rosely Sayão às 17h17
 
 

Autoridade e medo

Uma notícia publicada em jornais chamou a atenção de uma leitora. O Tribunal de Justiça do Rio decidiu que uma menina receberá aproximadamente    R$ 7.000 de indenização por ter sido retirada da sala de aula em dia de prova. O motivo? Estava sem uniforme. O que a leitora questiona é se a Justiça não está desqualificando a autoridade da escola e, dessa maneira, acentuando ainda mais as já existentes atitudes de desrespeito ao espaço escolar.

Ela tem uma filha que cursa a 6ª série em uma escola em que o diretor vai implantar o uso do uniforme. O problema é que os alunos não aceitam a ideia e o diretor aguarda a adesão deles à proposta, já que não quer fazer uma imposição. E nossa leitora reclama porque, para ela, algumas coisas devem ser, simplesmente, acatadas.

Para ela, o uso do uniforme é um desses casos, já que os alunos realizam um verdadeiro desfile de moda na escola por conta do consumismo. A reflexão de nossa leitora é a respeito do enfraquecimento da autoridade da família e da escola.

Em primeiro lugar, vamos lembrar que muitas atitudes de transgressão que os alunos cometem na escola são provocadas pela própria instituição. No caso da aluna que receberá a indenização, por exemplo, a explicação dada para não usar o uniforme é que não havia um disponível no tamanho dela.

No caso da escola que a filha de nossa leitora frequenta, apesar de o uso ser obrigatório segundo o caderno de normas e procedimentos distribuído no início do ano, a própria escola abriu o precedente, já que não havia uniforme para todos. Depois de um tempo indo às aulas com roupas casuais, os alunos não aceitam a mudança.

Pode haver ou não uma boa justificativa para o uso do uniforme. Uma delas é a citada pela leitora: evitar que os alunos usem e abusem das roupas para excluir colegas, zombar deles, fazer desfiles de grifes. Mas não basta decretar o uso e esperar que todos respeitem a norma. É preciso trabalhar para que ela seja cumprida.

Acontece que as escolas guardam a ideia obsoleta de que a punição é a melhor medida em educação. Quando alunos comparecem sem uniforme, são impedidos de frequentar as aulas. Mas, se o objetivo da escola é que o aluno aprenda e se, para tanto, precisa estar nas aulas, tal medida é equivocada. Por que não deixar algumas peças na secretaria e emprestá-las aos que vão sem uniforme? Essa e outras medidas podem ter caráter educativo.

Muitas escolas evitam, também, desagradar a seus alunos. Ora, mas educar não implica, necessariamente, desagradar? A criança quer brincar, mas precisa estudar; quer se distrair, mas precisa aprender a se concentrar; quer atenção exclusiva, mas precisa conviver e compartilhar; quer dormir, mas precisa acordar etc.

Inicialmente, a criança permite ser educada por medo de deixar de ser amada pelos pais. Mas, pelo jeito, hoje o medo é dos adultos: os pais temem perder o amor dos filhos, as escolas temem perder seus alunos...

Com medo, não dá mesmo para exercer a autoridade e, sem ela, não dá para educar.

Escrito por Rosely Sayão às 13h58
 
 

Conflito em casa

Conversei com a mãe de um adolescente que está se sentindo rejeitada pelo filho. Aos 16 anos, ele não aceita mais o que ela diz, sempre acha que sabe mais do que ela, que as opiniões dela são ultrapassadas e/ou ignorantes e demonstra intolerância pela maneira como ela se porta, se veste etc. O filho também não acata as normas da casa: não respeita horários, se recusa a dizer aonde vai, não contribui com nada. No confronto, ela sente que sempre sai perdendo. Essa mãe está à beira de desistir do final da jornada que começou quando o filho nasceu.

Conversei também com um adolescente que, aos 15 anos, reclamou muito da falta dos pais em sua vida. Ele contou que os pais dão a ele total liberdade, que não perguntam nada, que não se interessam pelas coisas que faz, que sempre elogiam sua vida escolar etc. Ele acha que a responsabilidade de decidir tudo sozinho é muito grande e disse que preferiria ter alguns conflitos porque, assim, saberia que seus pais se interessam verdadeiramente por ele.

Duas visões muito diferentes a respeito de uma mesma relação: a que ocorre entre pais e filhos quando chega a adolescência. A relação entre ambos muda bastante nesse período. Na infância, os pais são idealizados pelos filhos. São vistos como adultos que sabem e podem tudo, principalmente protegê-los e satisfazê-los.

Na adolescência, os filhos percebem que os pais não sabem tudo, que não podem protegê-los nem satisfazê-los e que também são pessoas com conflitos, problemas e necessidades. Nessa transição, ocorre o tal conflito de gerações.

Hoje, muitos pais se recusam a enfrentar esse período. Alguns delegam ao filho, repentinamente, todas as responsabilidades. Para eles, é como se os filhos passassem diretamente da infância para a vida adulta.

Outros se sentem impotentes e fragilizados para enfrentar os questionamentos que os filhos fazem a respeito de tudo. Para eles, é como se perdessem, de largada, a autoridade que ocupavam perante o filho. Por último, há os que se recusam a aceitar seu amadurecimento.

Em todos os casos, as consequências não são boas para os filhos. Eles podem recusar qualquer instrução, aviso ou orientação ou se sentirem abandonados ou infantilizados. Para quem está em processo de aquisição de autonomia e de formação da identidade adulta, a falta de contraponto entre a visão dos pais e a própria e a ausência de certas normas firmes impostas pela família impedem a segurança da transição.

Os conflitos entre filhos adolescentes e seus pais é saudável. É por meio deles que o jovem cresce, amadurece, avalia suas convicções e a legitimidade delas para, então, usá-las em sua vida. Para tanto, os pais precisam ser potentes para reconhecer quando o filho ainda precisa da atuação deles e quando é preciso negociar, ceder.

É certo que os pais errarão na medida, em algum momento. Mas devem, a todo custo, evitar errar pela ausência.

 

Escrito por Rosely Sayão às 14h07