UOL Estilo UOL Estilo





BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Mulher, de 56 a 65 anos, Portuguese

Quem é Rosely Sayão

e-mail
Dúvida
Neste blog Na Web

 Visitas  
 
 
 

Reflexões sobre a autonomia

Recebo muitas mensagens de pais às voltas com a educação dos filhos, e um fenômeno tem me chamado a atenção: a correspondência de pais cujos filhos fazem cursinho ou estão na faculdade tem crescido bastante. O ditado popular "filho criado, trabalho dobrado" agora parece ter aplicação literal.

São várias as questões com as quais os pais têm dificuldades de lidar: um jovem não quer estudar nem trabalhar, outro já prestou vestibular três vezes e quer fazer mais um ano de cursinho porque não desiste de tal universidade, uma jovem que acredita ter feito uma escolha equivocada de curso e agora quer largar tudo, outro que exige um carro porque não quer usar transporte coletivo etc.

Apesar da diversidade de situações, podemos arriscar uma hipótese abrangente: muitos jovens hesitam em entrar na vida adulta. Essa adolescência estendida tem sido construída com o apoio das instituições mais importantes na formação deles: a família e a escola.

Nunca falamos tanto em autonomia quando tratamos da educação dos mais novos. Pais de crianças com menos de cinco anos já autorizam o filho a passar a noite em casa de conhecidos, permitem que escolha suas roupas, brinquedos e até a escola que frequentará. Um pouco mais tarde, em nome da autonomia, muitas crianças são abandonadas à mercê de seus parcos recursos de autocontrole.Isso quer dizer que damos autonomia às crianças e aos adolescentes quando ainda não têm competência para usá-la.

Aliás, nunca é demais lembrar que o processo de construção da autonomia passa, necessariamente, pela heteronomia, ou seja, por um período de submissão a alguns adultos. Parece que essa autonomia significa sair de cena para que o jovem "protagonize" sua vida. Mas é preciso entender que a passagem da heteronomia à autonomia ocorre a partir da adolescência, jamais na infância, e com a devida tutela dos pais e da escola, que devem acompanhar como o jovem administra a liberdade pela qual terá de se responsabilizar.

Tal atitude faz parceria com outra assumida por muitos pais. Eles fazem de tudo para evitar que os filhos sofram, enfrentem as dificuldades da vida, se frustrem, arquem com as responsabilidades sobre seus atos. Ao mesmo tempo, tentam oferecer-lhes a melhor vida social possível.

Isso faz com que os jovens cheguem ao final da adolescência sem autoconfiança, sem orgulho de seus feitos, com enorme dificuldade para perseverar diante das dificuldades e com medo do futuro. Aí dá para entender sua falta de resistência diante da adversidade, dos obstáculos e das exigências do final da adolescência. A opção que surge, então, é estender esse período, evitar a responsabilidade de ser adulto, viver por sua própria conta e risco.

Os pais que querem ajudar esses jovens precisam sair de cena, ainda que tardiamente, para que eles finalmente tenham oportunidade de realizar o potencial que têm.

 

Escrito por Rosely Sayão às 13h15
 
 

Idealização da vida

Quem nunca ouviu críticas sobre pais que decidiram terceirizar a educação de seus filhos? Pois bem. Mas essa constatação não pode se restringir a quem tem filhos, já que os pais que agem assim estão apenas se conformando a um estilo de vida adotado por muita gente, principalmente na classe média. Vivemos um tempo em que virou moda repassar as responsabilidades sobre nossa própria vida para outros.

Quando alguém quer melhorar a alimentação, a qualidade de vida e a saúde, contrata um nutricionista e um "personal trainer". Eles avaliam o grau de atividade da pessoa, os tipos e as quantidades de alimentos que consome e elaboram uma grade de exercícios físicos e um cardápio balanceado que deverão ser seguidos. Aliás, a maioria acompanha o cliente nos exercícios para garantir que sejam cumpridos.

Quem não tem tempo para deixar a casa bem organizada, mas quer viver em um local com aparência de casa de revista, não tem com o que se preocupar. Profissionais podem organizar gavetas, armários de roupas e de utensílios, estantes, catalogar tudo e deixar pronto para o uso do feliz proprietário, que, dessa forma, apenas segue as instruções.

Não podemos nos esquecer também do "personal stylist", que dá as dicas necessárias sobre a maneira de se vestir e de comprar roupas e acessórios e indica os melhores trajes para o trabalho, reuniões informais e jantares. Tudo devidamente combinando com o estilo da pessoa, seu corpo etc. Que tranquilidade não ter de tomar tais decisões, não precisar gastar tempo com isso, não é?

E agora podemos respirar mais aliviados ainda, pois já existe um profissional com campo de atuação mais amplo para quando nos deparamos com alguma dificuldade: o "life coach" ou "personal coach".

Após uma análise das questões e dos anseios trazidos pelo cliente, o "life coach" elabora um programa de treinamento para capacitar a pessoa a criar um plano e estratégias para alcançá-lo, a focar em seus objetivos, a ter mais confiança e segurança ao tomar decisões, a se comunicar com eficiência...

Por que precisamos gastar energia e tempo para resolver detalhes de nossa vida se podemos repassar essa responsabilidade a outros que consideramos mais preparados? Essa parece ser a máxima por trás desse costume que vem se disseminando. Precisamos refletir sobre uma questão importante: o que está em jogo é nossa liberdade, nossa autonomia, nossa responsabilidade com a vida.

No mundo de hoje, a vida tornou-se mais complexa: diariamente precisamos tomar decisões, fazer escolhas, renunciar, estabelecer hierarquias. A vida é isso, é por esses caminhos que ela se constitui. E tudo isso tem um custo, é claro.

Mas será possível creditar esse custo na conta de outros? É isso o que estamos tentando fazer na crença de que nosso custo a pagar será apenas monetário. Pode ser nessa grande ilusão que embarcamos. O fato é que estamos pagando para ver a vida materializar-se de forma idealizada. E isso, sim, costuma ter um custo bem alto.

 

Escrito por Rosely Sayão às 00h30
Dia da Mentira

Todo mundo sabe que hoje é o dia dedicado à mentira e que as crianças adoram planejar brincadeiras e pegadinhas para aplicar nos colegas nesse dia. Tudo bem: isso é saudável e lúdico já que há um contexto para tanto. Porém, hoje quero falar da importância de se ensinar o amor à verdade aos filhos.

Em tempos em que os pais estão ocupadíssimos em preparar os filhos para o futuro no sentido prático e instrumental, um grande número deles se esquece de que a base da educação familiar reside em outro foco: na transmissão das tradições familiares e na educação moral.

Desde pequenas as crianças já podem aprender a importância que devemos dar à verdade. Mas, vamos reconhecer: tem sido muito difícil ensinar o valor da verdade no mundo contemporâneo. Vou tomar a Internet como um dos elementos que torna isso ainda mais difícil.

Não há dúvida alguma de que a ampla divulgação de todo o tipo de informação que ocorre na internet é importante. Entretanto, como qualquer pessoa pode publicar qualquer coisa na internet, como saber se as informações encontradas correspondem à verdade?

Vamos considerar um aluno que busca na internet conteúdos para realizar um trabalho escolar. Para saber se o que encontrou é digno de confiança em relação ao conhecimento, é preciso ter uma bagagem teórica muito sólida, o que os estudantes ainda não têm porque estão em formação para ter. Por isso, podem valorizar conteúdos sem nenhum rigor científico. O mais sensato seria incentivar os alunos a pesquisarem o conhecimento em publicações fidedignas, como os livros, por exemplo.

Voltemos è educação moral. Uma criança pequena depende dos pais para viver, por isso precisa confiar neles. Se ela percebe que os pais mentem a ela – e as crianças percebem isso rapidamente e com clareza – perde a confiança nos pais e, como conseqüência, tem seu desenvolvimento prejudicado, além de passar a dar valor à mentira.

No cotidiano, os adultos cometem pequenas mentiras para preservar sua intimidade, sua privacidade. Um exemplo: mandar dizer que não está para evitar um telefonema de trabalho em horário de descanso. Mas isso precisa ser explicado à criança para que ela não passe a valorizar a mentira.

Algumas atitudes dos pais, que são observados atentamente pelos filhos, podem ensinar a mentira aos filhos. Arrumar atestado médico para justificar a falta em dia de prova quando ele não esteve doente; orientar o filho a dizer que o pneu do carro do pai furou para explicar o atraso na chegada da escola; encontrar para o filho alguma desculpa que justifique sua falha na escola. Todos esses exemplos são reais e apontam a direção contrária à de uma boa educação moral.

Por isso, o dia da mentira até tem seu valor: o de indicar que a mentira intencional, desde que não prejudique nem desrespeite ninguém, é aceitável. Mas apenas nesse dia.

 

Escrito por Rosely Sayão às 12h08