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A nova paternidade

Creio que todos estão informados sobre a disputa pela guarda do garoto, filho de mãe brasileira e pai estadunidense, que já foi divulgada amplamente pela imprensa. O caso do garoto é complexo por envolver, entre várias questões, a dupla nacionalidade do menino e a morte de sua mãe. Não vamos conversar a respeito disso, mas sobre um tema que ele suscita: a paternidade no mundo contemporâneo.

O perfil clássico do pai conhecemos bem e sabemos que permaneceu estável pelo menos até os anos 60. Até então, cabia ao homem o papel de fundador do grupo familiar. Era ele o responsável por tomar a iniciativa de construir uma família composta pela união dele a uma mulher pelos laços do casamento, união que durava até o fim da vida de um deles. Nesse tipo de organização familiar, os filhos recebiam os cuidados necessários principalmente da mãe, que, além disso, também era quem mantinha com eles o vínculo afetivo acolhedor.

Ao pai cabia principalmente o papel de provedor de todo o grupo. Analisando hoje, percebemos que o pano de fundo da família, que é tudo o que envolve a vida doméstica e a lida com os filhos, não oferecia um lugar ao pai, sempre ausente desse enredo. Não é à toa que hoje, quando queremos fazer referência à falta do pai na vida dos filhos, usamos a expressão "pai ausente". Essa ausência foi forjada num determinado tipo de organização familiar em que o poder da mulher se restringia aos filhos e à vida familiar.

Pois, a partir do momento em que a família deixou de ter essa configuração estável e entrou em um período de transição e mudanças significativas, começou a ser construída a figura do "pai presente". Interessante rever o percurso que o homem fez para se fazer presente como pai. Apresentou-se na sala de parto para testemunhar o nascimento do filho. Logo depois, passou a exercer em alternância com a mãe do bebê o que chamamos de maternagem: acordar nas madrugadas para atender ao chamado do filho e acalmá-lo, trocar fraldas, dar banho, embalar para o sono, contar histórias antes de dormir etc.

Com o crescimento da criança, passou também a participar dos diálogos familiares que envolviam a vida doméstica com os filhos -espaço anteriormente exclusivo da mãe-, a discutir sobre a escolha da escola e muito mais. Muitos interpretaram essa entrada do pai na vida dos filhos como uma maneira de evitar a chamada segunda jornada de trabalho só da mulher. Entretanto, foi mais do que isso, já que outros fatos se sucederam.

Um deles, em especial, chama a atenção: em caso de separação, muitos pais deixaram de aceitar a decisão, antes quase unânime, de deixar os filhos com a mãe. Muitos passaram a pedir mais espaço com os filhos, já que fins de semana ou férias escolares passaram a ser insuficientes para quem almejava conviver com os filhos e se fazer presente na vida deles.
 
Aliás, a aprovação, em 2008, da lei sobre a guarda compartilhada comprovou a mudança social a esse respeito. Entretanto, homens e mulheres ainda transitam entre esse novo conceito de paternidade e o antigo. A justiça, por exemplo, ainda enfrenta diariamente casos de disputa pela guarda dos filhos. Muitas mulheres hesitam em compartilhar ou alternar a guarda dos filhos com o ex-parceiro e outras ainda insistem em atrapalhar informalmente essa relação.

As crianças têm o direito de saber quem são seus pais e de conviver com ambos. Os homens têm o direito de exercer essa nova paternidade e de não se conformarem em ser apenas reprodutores ou visitantes dos filhos. Lutar por esses direitos é dever de todos nós.

 

 

Escrito por Rosely Sayão às 04h16
Disbicicléticos

Dia 21 de março, sábado passado, foi o Dia Internacional da Síndrome de Down. Lembrei-me de um texto que recebi há algum tempo escrito pelo psicólogo Emilio Ruiz Rodriguez, que trabalha na Fundação Down Cantabria, na Espanha.

Encontrei uma versão já em português, que reproduzo. O texto é muito interessante para todos porque nos faz refletir a respeito desse costume que adotamos de procurar um diagnóstico para tudo o que diz respeito às crianças e jovens.

Quem quiser ver o texto original em espanhol, o endereço é http://www.downcantabria.com/revistapdf/85/73-74.pdf

Boa leitura a todos.

                                                                                                       Disbicicléticos


Dani é uma criança que não sabe andar de bicicleta. Todas as outras crianças do seu bairro já andam de bicicleta; os da sua escola já andam de bicicleta; os da sua idade já andam de bicicleta. Foi chamado um psicólogo para que estude seu caso. Fez uma investigação, realizou alguns testes (coordenação motora, força, equilíbrio e muitos outros; falou com seus pais, com seus professores, com seus vizinhos e com seus colegas de classe) e chegou a uma conclusão: esta criança tem um problema, tem dificuldades para andar de bicicleta. Dani é disbiciclético.

Agora podemos ficar tranqüilos, pois já temos um diagnóstico. Agora temos a explicação: o garoto não anda de bicicleta porque é disbiciclético e é disbiciclético porque não anda de bicicleta. Um círculo vicioso tranqüilizador. Pesquisando no dicionário, diríamos que estamos diante de uma tautologia, uma definição circular. “Por qué la adormidera duerme? La adormidera duerme porque tiene poder dormitivo”. Pouco importa, porque o diagnóstico, a classificação, exime de responsabilidade aqueles que rodeiam Dani. Todo o peso passa para as costas da criança. Pouco podemos fazer. O garoto é disbiciclético! O problema é dele. A culpa é dele. Nasceu assim. O que podemos fazer?

Pouco importa se na casa de Dani seus pais não tivessem tempo para compartilhar com ele, ensinando-o a andar de bicicleta. Porque para aprender a andar de bicicleta é necessário tempo e auxílio de outras pessoas.

Pouco importa que não tenham colocado rodinhas auxiliares ao começar a andar de bicicleta. Porque é preciso ajuda e adaptações quando se está começando. Pouco importa que não haja, nas redondezas de sua casa, clubes esportivos com ciclistas com quem ele pudesse se relacionar, ou amigos ciclistas no bairro que o motivassem. Porque, para aprender a andar de bicicleta não pode faltar motivação e vontade de aprender. E pessoas que incentivem!

Pouco importa, enfim, que o garoto não tivesse bicicleta porque seus pais não puderam comprá-la. Porque para aprender a andar de bicicleta é preciso uma bicicleta. (Felizmente, os pais de Dani, prevendo a possibilidade de seu filho ser disbiciclético, preferiram não comprar uma bicicleta até consultar um psicólogo.)

Transportando este exemplo para o campo da síndrome de Down, o processo é semelhante. Desde quando a criança é muito pequena, apenas um recém-nascido, é feito um diagnóstico – trissomia do cromossomo 21 – por um médico especialista, e verificado, com uma prova científica, o cariótipo. A partir disso, entramos em um círculo vicioso no qual os problemas justificam o diagnóstico, o qual, por sua vez, é justificado pelos problemas.

Por que a criança não cumprimenta, não diz bom-dia quando chega, nem adeus quando vai embora? “É que ela tem síndrome de Down”. Ah, bom! Achei que era mal-educada.

Por que a criança não se veste sozinha, e sua mãe a veste e despe todos os dias, se já tem oito anos? “É que ela tem síndrome de Down”. Ah, bom! Pensei que não lhe tinham ensinado.

Por que continua a tomar mamadeiras se já tem seis anos? “É que ela tem síndrome de Down”. Ah, bom! Imaginei que era comodismo de seus pais.

Por que a criança não sabe ler? “É que ela tem síndrome de Down”. Ah, bom! Pensei que não lhe haviam ensinado.

Por que não anda de ônibus ? “É que ela tem síndrome de Down”. Ah, bom! Pensei que não lhe permitiam fazer isso.

E, assim, uma lista interminável de supostas dificuldades que, por estarem justificadas pela síndrome de Down, não necessitam de nenhuma intervenção, além da resignação. Todas as suas dificuldades se devem à síndrome de Down.

Podemos estender a qualquer outra deficiência em que o diagnóstico médico ou psicológico possa ser utilizado como desculpa para nos eximirmos de responsabilidades. Se classificamos a criança como disfásica, disléxica, discalcúlica, disgráfica, deficiente visual ou auditiva, mental ou motora, disártrica ou simplesmente disbiciclética, estamos fazendo algo mais do que “colocar um nome” no que pode acontecer com uma criança. Estamos criando expectativas naqueles que a cercam.

Por isso, eu sugiro que antes de comprar uma bicicleta para seu filho ou sua filha, comprove que não sejam disbicicléticos. Não vá que aconteça imediatamente após a compra dar-se conta de que se jogou dinheiro fora.

Emilio Ruiz Rodriguez

Escrito por Rosely Sayão às 16h14
 
 

Conflitos na escola

Li em uma reportagem que Gloria Perez, autora da novela "Caminho das Índias", não se interessa em retratar pessoas reais. Mas retrata situações bem reais, como as do núcleo que se reúne em torno da escola: alunos, seus pais, a professora e a diretora.

Para quem nunca assistiu à novela, resumo essa parte da trama: um grupo de jovens de uma sala se comporta de forma desrespeitosa e até violenta dentro e fora da escola. Eles intimidam colegas e os agridem verbal e fisicamente, destratam a professora, cometem furtos e desrespeitam todas as normas de uma convivência civilizada.

A professora e a diretora se mostram impotentes diante dos acontecimentos, o que contamina todos os colegas da classe. Os pais são continuamente convocados pela escola para ouvir reclamações a respeito do comportamento de seus filhos.

Há pais prepotentes que invadem a sala de aula e aceitam o comportamento do filho e pais submissos que repassam as reclamações da escola aos filhos em forma de ameaça. Enfim, um instantâneo das relações entre pais e escola muito real.Por isso mesmo, serve como pretexto para voltarmos a esse assunto, já que essa parte da novela tem acirrado as relações entre pais e professores.

A escola e os pais dos alunos, de modo geral, têm se estranhado faz um bom tempo. Os motivos são vários e diferentes entre si, mas todos concorrem para promover um grande desgaste em alguns componentes importantes dessa relação.

Restaram, então, a desconfiança mútua e a reclamação. Pais reclamam da conduta da escola, professores reclamam de alunos e de seus pais; pais desconfiam que a escola não cumpre seu papel a contento, professores desconfiam que os pais não educam bem seus filhos.

Sabemos que as escolas poderiam fazer bem mais e melhor do que fazem por seus alunos, mas estão submetidas em demasia aos valores e ideais que a sociedade tem valorizado e, por isso, hesitam na experimentação de novas formas de organização e ensino, não incluem o rigor como parte constituinte de seu trabalho e, principalmente, não sabem como instituir uma autoridade democrática com os alunos, tampouco com os professores. Estes compõem atualmente uma categoria subestimada pela sociedade e que se subestima em sua capacidade de intervir nas situações problemáticas que enfrenta cotidianamente.

Por outro lado, sabemos que a educação familiar está em declínio principalmente porque os pais, sujeitados a valores contemporâneos, notadamente o da manutenção da juventude e o da busca incessante da felicidade, mostram-se incertos quanto à necessidade de estabelecer uma relação de autoridade afetiva com os filhos.

A guerra instalada entre pais e professores por vezes corre solta e ruidosa, mas também pode ocorrer em silêncio, quase em segredo. Pois bem, se queremos bem às novas gerações, precisamos de uma trégua.

Vamos dar férias a esse comportamento belicoso que tem sido estimulado pela trama da novela. Esse tempo é necessário para que a confiança seja (re)estabelecida com reciprocidade e, então, cada escola tente construir com os pais de seus alunos uma relação que renda bons frutos para os mais novos.

 

Escrito por Rosely Sayão às 10h36