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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Mulher, de 56 a 65 anos, Portuguese

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A construção da mulher

Não sei se os pais têm consciência do quanto influenciam os filhos na construção de sua identidade, especialmente a de gênero, ou seja, a ideia do que é ser mulher ou homem atualmente. Hoje, vamos tratar da identidade feminina, já que acabamos de passar pelo Dia Internacional da Mulher.

Antes mesmo que a filha possa aprender qualquer lição educativa, inclusive as que dizem respeito ao significado de ser mulher em nossa sociedade, seus pais já incluem em sua vida inúmeros componentes relacionados. Na maternidade, muitas recebem um laço de fita nos cabelos e roupas bem femininas, sem falar das orelhas furadas para brincos. Pois bem: tudo isso significa, para esse bebê do sexo feminino, seu introito nos rituais de beleza que deverão fazer parte de sua vida.

E é assim mesmo, muitas vezes sem que os pais se deem conta, que começa a ser forjada a identidade da futura mulher.Logo mais, outros colaboradores irão interferir decisivamente nessa construção: a escola e, de forma impactante hoje, os meios de comunicação.

O problema maior da educação de meninas é que todos os estereótipos ainda presentes no papel da mulher são transmitidos de maneira sutil e sedutora. Por mais que já se tenha tratado do assunto, na primeira infância a escolha dos brinquedos para as meninas, por exemplo, reflete a maneira como a sociedade responsabiliza a mulher pelas tarefas domésticas. Enquanto as meninas ganham réplicas de utensílios domésticos, muitas adultas ainda carregam esse estereótipo. Já ouvi, por exemplo, jovens mulheres declararem que seus maridos as ajudam muito nos trabalhos domésticos. Ora, ajudar não é se corresponsabilizar.

A sorte das meninas é que na escola de educação infantil ainda têm mais facilidade para escolher brinquedos e brincadeiras socialmente atribuídas ao outro gênero, mesmo que lá persistam muitos estereótipos e preconceitos de gênero. Aliás, é na escola de educação infantil que podemos testemunhar que a atribuição social pela educação de crianças pequenas é dada às mulheres. É rara a presença de homens nessa função, não é? E ouvi uma queixa interessante de um pai: quando sai com o filho, tem muita dificuldade de achar um fraldário a que tenha acesso: a maioria está no banheiro feminino!

A questão da aparência tem sido um fator demasiadamente importante na construção da identidade feminina. Desde o nascimento, a menina é submetida a um ideal de beleza: o modo como se veste, os acessórios que usa, o corte de cabelo que adota etc. são itens que apontam que a aparência quase se confunde com quem ela é. A anorexia e a bulimia são doenças que mostram a versão exagerada da busca por um padrão de perfeição de beleza e controle do corpo.

A construção da identidade feminina é um processo social que não podemos naturalizar -ou seja, ninguém nasce mulher, se comporta de tal maneira por ser do sexo feminino. A mulher é construída e, nesse mundo em transformação, os pais precisam saber que é deles grande parte dessa função.

 

Escrito por Rosely Sayão às 11h38
 
 

O papel dos avós

Quando posso observar as relações familiares no espaço público, não perco a chance. Aliás, como a distinção entre o público e o privado está bem tênue, vê-se cenas que antes não se via.

Ultimamente, meu olhar tem se dirigido à relação de avós e netos, uma novidade do mundo contemporâneo. Ambos os papéis mudaram muito na atualidade, e tem crescido o número de crianças e jovens que se relacionam cotidianamente com os avós, fato raro décadas atrás.
Por sinal, um fenômeno interessante ocorre concomitantemente: com a diminuição do número de filhos e o aumento da longevidade, temos hoje, com frequência, mais avós do que netos -o que interfere nas relações entre eles.

Afinal: qual o papel dos avós na atualidade?

É expressivo o número de avós, de todas as classes sociais, que assumiram o processo educativo dos netos, junto com a responsabilidade pelo sustento deles ou não. Muitas mulheres deixam o filho com os avós enquanto cumprem sua jornada de trabalho -por razões econômicas ou por escolha-, e isso tem gerado inúmeros conflitos de geração. Outros pais, dedicados em demasia à própria vida, abandonam seus filhos e os deixam com seus pais enquanto se divertem em festas, viagens etc.

Uma questão importante a ressaltar é que, ao assumirem a responsabilidade pelos netos, os avós -notadamente as avós- conseguem manter, de modo sutil ou escancarado, os filhos adultos sob sua dependência. E, como para tornar-se mãe ou pai é decisivo deixar de ocupar o papel de filho/a, isso colabora para que as relações entre as três gerações se tornem mais complexas ainda.

Não podemos esquecer também que muitos pais, hoje, estão muito comprometidos com a parte operacional da formação dos filhos. Boa parte de seu tempo e disponibilidade é dedicada a escolher os cursos e a escola que irão frequentar e ao acompanhamento dos estudos, dos compromissos sociais dos filhos etc.

Tanto empenho tem seu preço: a parte afetiva nas relações com os filhos tem sido bem prejudicada. Em falta, eu diria. E, na busca de um porto seguro afetivo, é muitas vezes nas relações com os avós que crianças e adolescentes têm encontrado o lenitivo necessário quando enfrentam as inevitáveis vicissitudes da vida.

É importante que lembremos que as relações entre avós e netos não são naturais, são construídas. Nossa responsabilidade é grande porque estamos criando uma cultura nesse campo, já que o modelo antigo não faz mais tanto sentido.

A questão que mais nos importa é: que papel a geração intermediária entre avós e netos quer exercer nessa criação?

 

Escrito por Rosely Sayão às 12h17
Castigar é preciso?

Uma leitora do blog enviou uma questão bem interessante. O filho, que no ano passado cursou a primeira série do Ensino Médio, repetiu o ano. Por causa disso, os pais decidiram não dar a ele presente de Natal como castigo. Agora, no aniversário dele, nossa leitora decidiu dar uma roupa que ele queria muito, mas o pai foi contra porque acha que é preciso manter o castigo do filho para que ele leve mais a sério seus estudos. E agora, quem está com a razão?

Interessante notar como nosso conceito de educar está tão aliado à idéia de castigar. O que é o castigo, afinal? Castigar é impor uma punição que provoca sofrimento quando a criança ou o adolescente comete uma transgressão a uma regra ou não faz o que deveria fazer, entre outras situações.

O castigo usado como estratégia educativa é uma prática muito antiga, de séculos atrás. Temos registro de exemplos de castigos corporais, humilhações e retirada de elementos básicos de sobrevivência, como alimentação, por exemplo, infligidos a crianças e jovens na busca de um melhor comportamento.

Vamos pensar nas repercussões do castigo. Em primeiro lugar, o sofrimento conseqüente do castigo pode provocar raiva, vontade de revidar na primeira oportunidade, medo, insegurança, fragilidade. Além disso, o castigo tira a responsabilidade da criança ou do jovem pelo ato cometido e alivia o adulto. Por exemplo: o jovem pode entender que ficar de castigo paga a repetição de ano e os  pais podem lavar as mãos depois de aplicado o castigo. E nada disso combina com o objetivo pretendido, ou seja, o de educar. Por tais motivos, o alcance do castigo é sempre limitado: pode funcionar algumas vezes e, aos poucos, perder a eficácia.

Mas a questão de muitos pais é: o que colocar no lugar do castigo? Bem, primeiro é preciso mudar nossa maneira de pensar a educação. Educar é ensinar como é a vida aos mais novos e formar pessoas éticas, livres, responsáveis, justas, solidárias e autônomas, de modo bem resumido. Então, nada melhor do que mostrar, desde que possível, que cada atitude gera conseqüências, que escolhemos as atitudes que tomamos e que viver em grupo supõe assumir papéis e responsabilidades.

Isso dá muito mais trabalho do que castigar quando ocorrem transgressões ou desautorizações porque exige autoridade dos pais, firmeza e clareza em suas exigências e, principalmente, empatia e vínculo muito estreito com os filhos. Para isso, caros, é preciso uma disponibilidade pessoal intensa para com os filhos e a vida deles, o que anda em falta nos adultos do mundo contemporâneo.

Então, toda vez que formos tentados a castigar os filhos no sentido  de aplicar uma punição ou  privação que provocará sofrimento, devemos nos perguntar se não há uma alternativa mais coerente com o que de fato queremos ensinar a eles.

Escrito por Rosely Sayão às 12h33