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Educação contra acidentes

Do início do ano até agora, colecionei uma série de estatísticas sobre acidentes com crianças publicadas nos jornais. Reuni as que considerei as principais. A maior causa de morte de crianças até 14 anos são os acidentes -destes, 40% são de trânsito. A queda de crianças entre zero e nove anos corresponde a mais da metade das ocorrências infantis nas unidades de emergência do SUS, e 47% delas tiveram como causa desequilíbrio e tropeções. Das crianças que tiveram queimaduras, mais de 90% sofreram o acidente em sua própria casa.

Ao analisar esses números, podemos tirar várias conclusões, mas ressalto duas delas: há muitas crianças sofrendo acidentes em casa e com pouca consciência a respeito de seu corpo.

Vamos observar as crianças no espaço público. Não dá a impressão de que seus calçados são inapropriados e não colaboram para o desenvolvimento harmônico do corpo? Há crianças pequenas com tênis tão grandes que os pés ficam desproporcionais em relação ao corpo. Isso sem falar dos calçados das meninas -já comentei aqui sobre os saltos. Agora, calçados da moda nos pés de garotas que mal sabem caminhar contribuem bastante para que elas tropecem e caiam com frequência maior do que deveriam. Não tenho dúvida de que, se as crianças usassem calçados mais condizentes com sua idade, quedas e tropeções não seriam tão frequentes.

Além dos calçados, temos as mochilas e malas que elas arrastam dentro das escolas, onde, na maioria das vezes, há escadas. Já viu uma criança descendo uma escada com essas malas? A mala provoca desequilíbrio, e eu mesma já vi quedas provocadas por tal motivo.

Mas o que me chama mais a atenção é o fato de os adultos permitirem que crianças corram em locais inadequados, como shoppings, na saída das escolas, nos supermercados etc. Para correr, é preciso atenção aos obstáculos e às outras pessoas; é preciso saber cair e se proteger; é preciso reconhecer locais mais arriscados. E quem lhes ensina tudo isso?

É essa pergunta que me faço quando vejo uma criança de quatro ou cinco anos levar um tombo e, do mesmo modo, quando isso acontece com uma criança de nove ou dez anos. Os maiores deveriam cair menos e de outra maneira, não é? Talvez as aulas de educação física pudessem ajudar com isso.

Quanto aos acidentes domésticos, o aparato de segurança à disposição hoje -protetor de tomadas, travas de fogão, dispositivos que impedem a abertura da porta do carro- podem ajudar a tornar o ambiente mais seguro, mas não substituem o papel educativo de ensinar aos filhos os riscos que todo ambiente apresenta e os cuidados necessários.

Nós, os adultos, somos os maiores responsáveis pela diminuição dos acidentes com crianças. Precisamos, portanto, tomar atitudes práticas para isso. E elas devem ser, em quase sua totalidade, centradas na educação.

 

Escrito por Rosely Sayão às 17h26
Nas entrelinhas das notícias

Vocês leram a notícia publicada a respeito de uma briga entre adolescentes ocorrida em Brasília? Para quem não ficou sabendo, um breve resumo: mais de 30 jovens entre 12 e 17 anos acabaram na Delegacia da Criança e do Adolescente de Brasília depois de participarem de uma briga de rivais. A tal briga foi marcada previamente pela internet e vídeos da pequena batalha travada entre eles foram parar na rede, é claro.

Hoje li, no jornal O Estado de São Paulo, na coluna de Pedro Doria, um comentário muito interessante que tem tudo a ver com a notícia acima. A Universidade de Harvard publicou, em janeiro deste ano, o relatório “Ampliando a Segurança de Crianças & Tecnologia Online”. No relatório eles anunciam que a maior ameaça para os menores online são seus pares, ou seja, outras crianças e adolescentes. Os números da pesquisa são muito interessantes: 45% das crianças pesquisadas já sofreram ameaças públicas ou foram humilhadas na internet e o agressor tem, quase sempre, a mesma idade da vítima e com muita freqüência se conhecem por meio da escola, do clube ou da vizinhança.

No Brasil, soube também pela imprensa de pelo menos um caso em que a Justiça condenou pais cujos filhos têm entre 12 e 13 anos a pagarem indenização por ofensas praticadas em sites de relacionamento.

Fico pensando que a ausência dos adultos permite que se crie uma espécie de “república” de crianças e adolescentes que tem suas próprias leis, justiça, valores e dinâmica. A chamada crueldade das crianças e jovens nada mais é do que o não acesso ao comportamento e à vida civilizada. Aliás, a educação é o processo responsável pela introdução dos mais novos à civilização, não é verdade?

Quando lemos noticias como essa que citei, sempre nos indignamos. Fica bem fácil responsabilizar crianças e jovens pelos comportamentos violentos, incivilizados e até criminosos que praticam. Entretanto, precisamos pensar mais profundamente na questão antes de sair demonizando os mais novos.

O que temos feito para que eles aprendam a viver no coletivo de forma respeitosa e justa? Onde estamos quando essas coisas ocorrem? Por que quase sempre que nossos filhos se envolvem em algum tipo de confusão temos a tendência a procurar outros responsáveis que não os próprios? Quais as maneiras que oferecemos a eles para que, na prática da vida cotidiana deles, consigam vivenciar relacionamentos justos, democráticos e solidários?

O fato é que, para dar conta de todas as responsabilidades e estilo de vida que adotamos sem grandes questionamentos, estamos sempre muito ocupados com nossas próprias vidas para perceber de antemão o que pode acontecer com a vida deles. E aí, dá nisso.

Mais uma vez recomendo, para quem ainda não assistiu ou leu, o filme e/ou o livro de mesmo nome: “O Senhor das Moscas”. Um retrato fiel do que está acontecendo com nossas crianças e jovens.

 

Escrito por Rosely Sayão às 19h12
 
 

Adaptação para pais

Nesta semana, milhares de crianças com menos de cinco anos começaram a frequentar a escola. Muitas estreiam no espaço escolar, mas mesmo as que já o frequentaram por um período podem estranhar a separação dos pais e o afastamento de casa no retorno das férias. Por isso, elas passam por um processo de adaptação.

A reação das crianças nesses dias é bem diversificada: muitas entram na escola e já vão brincar, outras choram, outras ainda se agarram nos pais, sem contar as que se recusam a sair do carro. Mas tudo pode mudar em dias ou semanas: as que entraram sem problemas podem expressar recusa, as que choravam podem entrar sem problema e assim por diante.

É bom saber que tais comportamentos -e a alternância entre eles- são naturais. Afinal, a criança na primeira infância tem sua vida intensamente ligada às pessoas com as quais tem vínculo afetivo e ao espaço de sua casa porque é isso que oferece a segurança necessária para que ela se sinta tranquila.

Ao mesmo tempo, sabemos que as crianças crescem melhor junto a outras crianças. Como hoje as famílias não têm mais o hábito de frequentar com regularidade a casa de outras famílias, as crianças vão para a escola cada vez mais cedo para conviver com seus pares -e isso não é problema, desde que seus pais estejam seguros de sua decisão.

Esse período de adaptação se transformou em um processo complexo e que pouco auxilia a criança pequena. As escolas, cada uma à sua maneira, inventaram uma série de dispositivos para amenizar a mudança para a criança, mas o alvo principal desse processo são os pais. Na família atual, a relação entre pais e filhos é a única que dura até a morte, já que todas as outras relações afetivas são passíveis de dissolução. Isso gerou consequências, como a dedicação afetiva extremada dos pais em relação aos filhos.

Ao levar o filho pequeno para a escola, os pais sentem culpa, angústia, insegurança. E foi por isso que muitas escolas decidiram permitir que eles fiquem com os filhos no início. É para aquietar os pais, não os filhos, que o processo foi inventado.

Para a criança, isso não é bom. Em primeiro lugar, porque a separação fica mais sofrida por durar muito mais tempo, o que dificulta e atrasa a apropriação de seu novo espaço. Em segundo, porque a sala fica com um clima artificial: professoras constrangidas, mães que interferem no espaço, crianças que poderiam ficar mais à vontade e que são aprisionadas pelo olhar da mãe etc.

Se as escolas fossem mais firmes no propósito de ter no aluno seu foco principal, esse período seria menos penoso para todos. Claro que algumas crianças continuarão chorando por um tempo para entrar na escola e algumas mães continuarão resistindo à separação, mas isso sempre ocorreu e ocorrerá.

Enquanto acreditarmos que esse processo é necessário, ele será. Só por isso, e não pela necessidade das crianças. Elas podem reagir diferentemente do que esperamos nessa situação. Basta que tenham oportunidade para tanto.

 

Escrito por Rosely Sayão às 11h14
Nas entrelinhas das notícias

Li uma notícia no jornal de hoje a respeito de uma mulher, de 27 anos, que morreu em uma cirurgia de lipoaspiração. O que me chamou a atenção foi a fala do irmão dela, que transcrevo: “ Fazer a plástica era o sonho da vida dela. Sabe como é, vaidade de mulher não tem limite. E ela não escondia, saía por aí dizendo que tinha guardado o dinheiro e não adiantava a gente falar. Porque ela não precisava, era uma pessoa linda, cheia de vida.”.

Ao ler esse depoimento, fiquei pensativa. Que tempos são estes em que o sonho da vida de tantos jovens pode ser o de pagar uma plástica, o de fazer qualquer coisa na televisão e ser famoso, de participar do BBB, de ter o corpo perfeito, de ganhar muito dinheiro para consumir e exibir, de ser VIP etc.?

A mulher é a mais atingida por tais valores, vale a pena dizer. De vez em quando fazemos parte do reino animal – as cachorras, as preparadas – e outras, do reino vegetal - mulher samambaia, melancia, abóbora e coisas semelhantes. E tudo isso diz respeito a todos nós e aos mais novos, nossos filhos.

Agora, adaptamos nosso corpo às exigências que a sociedade faz: é preciso ter bunda para ficar bem em determinadas vestimentas, peito volumoso e empinado para provocar desejo, barriga invertida para mostrar, esqueleto enxuto para caber na numeração das roupas que as lojas têm disponíveis. E dá-lhe procedimentos cirúrgicos dos mais variados tipos para se adaptar, dietas mirabolantes, remédios e outras coisas mais.  Como disse o irmão da mulher que morreu, a vaidade está sem limites.

O quanto isso interfere na formação da identidade e da auto-imagem de nossas crianças, principalmente das meninas?  Mesmo sem perceber, passamos tais valores na educação que praticamos, no comportamento que adotamos, nas coisas que valorizamos. Nossos filhos estão sujeitos a todo esse tipo de influência, direta ou indireta, e já demonstram como incorporam com facilidade os valores que dizem respeito à supremacia da aparência. Adivinhem se as crianças mais gordas são ou não são, quase sempre, as excluídas na escola?

Então, precisamos tomar muito cuidado em relação a essa cultura da vaidade exagerada quando educamos. O preço a ser pago pode ser muito alto para qualquer um de nós, principalmente para os mais novos, que ainda não sabem como se defender dessa avalanche de imposições sobre a aparência. Quem sabe assim, o sonho da vida de muitos jovens possa ser outro que não o de fazer uma plástica.

 

Escrito por Rosely Sayão às 16h36