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Vigiar e punir

"Tenho 13 anos, e minha mãe vive comentando o que a senhora escreve. Por isso, queria que a senhora falasse que os adultos são estressados e não deveriam ficar tão preocupados com violência e drogas. Deveriam confiar mais nos filhos e nos dar mais liberdade de sair com os amigos sem ficar nos vigiando."

Crianças e adolescentes são assim: simples e diretos quando querem dizer algo. O filho de nossa leitora tocou em uma questão importante das relações entre pais e filhos hoje. Pois bem, vamos falar a respeito dessa nova modalidade de tirania que muitos pais têm exercido com os filhos: o controle.

A vida que vivemos tem provocado sentimentos fortes nos adultos, como o medo de assaltos, seqüestros e violência física, inclusive a sexual. Sempre que ocorre uma tragédia, principalmente quando envolve crianças e jovens, o fato ganha repercussões impressionantes. Não é à toa que a síndrome do pânico atinge milhões de brasileiros de todas as idades.

A convicção que temos de que a ameaça está no ar e o medo de que algo ruim possa acontecer fazem com que tomemos diversas medidas em busca de proteção. Para quem tem filhos que já atingiram a idade de começar a viver em sociedade por conta própria -sem os pais, portanto- o medo fica ainda maior, já que, além da violência, há outros males, como o envolvimento com drogas. Isso faz com que os pais procurem cercar os filhos de cuidados que julgam eficientes e necessários para sua proteção.

Levar e buscar das festas, dar celular e ligar constantemente, ceder a casa para que os filhos vivam ali suas primeiras experiências sexuais etc. Alguns, mais radicais, apelam até para medidas extremas, como utilizar serviços de detetives particulares para saber se o filho está metido em alguma encrenca.

O problema é que tantos cuidados podem gerar efeitos indesejados. O primeiro foi apontado pelo filho de nossa leitora: os adolescentes julgam as atitudes dos pais exageradas e apenas fruto do estresse deles. Isso faz com que eles mesmos desdenhem tantos cuidados e não reconheçam, portanto, as situações de risco. Afinal, elas existem, sim, não são irreais.

Um segundo efeito importante recai sobre a formação dos filhos: tanto controle constrói para eles uma situação confortável, porém arriscada. Como há quem cuide de tudo para eles, não assumem a responsabilidade perante a própria vida e, principalmente, quando precisam escapar, de acordo com seus interesses, da rede de proteção em que estão aprisionados, não conseguem prever os riscos de suas atitudes.

Viver é perigoso, já disse Guimarães Rosa. Só criança vive sem a angústia e o sofrimento de encarar a vida como ela é. Para crescer e amadurecer, é preciso começar a enfrentar por conta própria os perigos da vida. Com controle em demasia, os jovens não têm essa oportunidade.

Mais do que ser controlado, o filho precisa aprender como a vida é e saber quais são os riscos de viver para construir, aos poucos, uma atitude de autocuidado em sua vida.

 

Escrito por Rosely Sayão às 10h16
A programação da TV e a criança

Li uma reportagem no UOL que comenta a ausência de programas de qualidade dedicados às crianças na televisão brasileira. Os que existem são exibidos nos canais de televisão a cabo, que por serem pagos não são acessíveis a todos. 

Quem se lembra dos musicais e programas de variedades dedicados ao público infantil produzidos e exibidos por emissoras de tv na década de 1980?  No endereço http://www.lancelegal.net/especiaisinfantis.htm, quem não conheceu pode ter uma pequena amostra. Cantores consagrados da música popular brasileira participavam desses especiais que, por meio de músicas, contavam uma história.

Depois dos anos 80, as loiras e cia. tomaram conta da programação infantil e as crianças ficaram sem bons programas. Hoje, alguns canais exibem desenhos animados, e só.

Diversas vezes, aqui no blog, internautas comentaram o baixo nível da programação dos canais de televisão. Sabemos que televisão é apenas entretenimento, não é um meio educativo. Mas, atualmente tem sido uma mídia deseducativa.

Neil Postman, autor de "O Desaparecimento da Infância" e de "O Fim da Educação", fez uma análise interessante a respeito da influência das mídias no modo como concebemos a infância. Antes do aparecimento da TV e dos computadores, o meio de a criança ser apresentada ao mundo adulto era pelos livros. Aprender a ler tinha, então, papel fundamental na vida das crianças. Para tanto, ela tinha de se esforçar na escola e conquistar o acesso à leitura.

Hoje, as crianças têm acesso precoce a todo tipo de acontecimento e conhecimento do mundo por meio da TV e das imagens do computador e isso não exige esforço nem oferece conquista alguma. A criança passa a ter uma atitude mais passiva na descoberta do mundo.

Por isso, seria interessante, no mínimo, que a televisão oferecesse ao público infantil uma programação cultural e artística boa, o que sabemos que não acontece. Sempre me pergunto se não podemos fazer nada a respeito. Não sei como poderíamos influenciar a programação das emissoras, mas deve haver um jeito, não acham?


 

Escrito por Rosely Sayão às 13h03
 
 

Comunicação e expressão

Já sabemos faz algum tempo que muitos pais têm conflitos com a escola que seus filhos freqüentam. Durante todo o ano letivo, pais e mães comparecem à escola para reclamar, exigir, propor, confrontar, acusar etc.

Desde que as escolas e os pais decidiram colocar em prática, cada um a seu modo, a idéia de que as primeiras são instituições prestadoras de serviços, e os segundos, seus clientes, a relação entre ambos ficou bem complexa e delicada.

Faz parte das relações democráticas a expressão de conflitos e descontentamentos. Do mesmo modo, a negociação. O problema é que, no relacionamento entre pais e escola, não temos tal tradição. Por isso, muitos equívocos têm sido cometidos pelas duas partes. Vou tratar hoje dos problemas provocados pelos pais, o que não significa que os provocados pelas escolas tenham menor importância, é bom ressaltar.

Para que os filhos se permitam ser educados pela escola que freqüentam, é imprescindível que seus pais confiem na instituição, que deleguem a ela a parte da educação que lhes compete. Trata-se de uma transmissão de autoridade que, no entanto, não precisa nem deve ser cega. Os pais podem observar, à distância e com discrição, o que a escola faz ou deixa de fazer e dialogar com seus representantes a respeito.

Muitos pais realizam isso a contento, mas alguns extrapolam, tenham ou não razão no teor de suas queixas. Neste final de ano letivo, isso tem ocorrido com freqüência.Diversas escolas enfrentam pais irados e raivosos que já chegam gritando, colocando o dedo no nariz de professores, coordenadores e diretores, tendo chiliques e até xingando com palavrões, em geral por causa dos resultados que o filho apresentou durante o ano. Ora, os pais acompanham a vida escolar do filho e só ao final do ano são surpreendidos?

Não vamos discutir os motivos que os pais têm, mas a forma como se expressam, já que os maiores prejudicados são seus próprios filhos. Algumas crianças ficam visivelmente embaraçadas e envergonhadas com o comportamento dos pais na escola. Mas o pior não é isso.

O mais prejudicial é o que as crianças e os adolescentes aprendem com seus pais quando eles se comportam de modo tão pouco civilizado: que não precisam respeitar o espaço escolar nem seus representantes porque são clientes da escola, que pagam pelos serviços prestados e que, portanto, podem exigir o que quiserem e sempre terão razão. Aliás, não é incomum que, quando funcionários de escolas precisam conter comportamentos deles e, portanto, contrariá-los, ouçam esse tipo de frase de alunos: "Meu pai é quem paga seu salário".

Os pais que perdem o controle quando têm motivos para questionar ou contestar a escola perdem junto uma grande possibilidade: a de colaborar para que as instituições aprimorem seu trabalho.

Os pais devem ficar insatisfeitos com a escola para que ela progrida, mas a manifestação dessa insatisfação precisa ser equilibrada, racional e polida. Pelo bem de nossa educação escolar e de todos.


 

Escrito por Rosely Sayão às 10h00
“Cadê meu pai?”

O número de homens que, mesmo tendo se separado da mulher, continua a exercer com responsabilidade o papel de pai cresce a cada dia. Mesmo assim, a quantidade de homens que se separa não apenas da mulher, mas também dos filhos, é ainda muito grande. Temos muitas crianças que crescem sem o pai, sem saber dele, sem ter notícias, portanto sem o direito de ter pai e mãe.

Uma leitora, que tem um filho com quase quatro anos, escreveu dizendo que o garoto não tem contato com o pai desde os dois anos por dois motivos: distância de moradias – a mãe mora na região sudeste e o pai no nordeste – mas principalmente pela falta de interesse de o genitor ter contato com seu filho.

O problema é que o garoto tem perguntado insistentemente a respeito do pai e, além disso, sempre que se encontra com parentes do sexo masculino quer saber se é o pai dele. A mãe não sabe o que responder, por isso nos escreveu. Vamos colaborar com nossa leitora.

A primeira questão que quero levantar é a de que a criança tem o direito à verdade. Claro que não precisamos contar os fatos da mesma maneira que contamos aos adultos já que as crianças, principalmente as pequenas, não têm ainda recursos para lidar com algumas informações. Mas sempre é possível contar o mesmo fato em duas versões: para adultos e para crianças.

No caso de nossa leitora, ela precisa superar a mágoa que deve sentir pelo fato de o ex-marido não se interessar em exercer seu papel de pai a fim de ter a tranqüilidade necessária para contar ao filho, com carinho, que o pai mora longe e que, mesmo gostando dele, se atrapalha com as dificuldades para ter contato com o filho.

É bem provável que a mãe tenha fotografias do pai, mesmo que antigas; dar algumas fotos para a criança é importante para que ela materialize o pai em uma imagem. Afinal, como pensar num pai se a criança não se lembra como ele é?

Conheço algumas mães que conseguiram livrar-se dos impedimentos pessoais que tinham e que contataram o pai de seus filhos para contar a eles a demanda das crianças da presença do pai, mesmo que fosse por telefone. Algumas delas tiveram êxito e, dessa forma, seus filhos passaram a contar com o pai em suas vidas.

É importante que essa questão seja trabalhada logo com os filhos porque, mais cedo ou mais tarde, voltará com mais força. Na adolescência, principalmente, muitos jovens fazem de tudo para ter contato com o pai; conheço dois casos de jovens fugiram de casa em busca do pai e outros em que os filhos acusaram a mãe pela ausência do pai em suas vidas.

Uma coisa é certa: dizer ao filho que o pai não quer saber dele não é uma boa coisa, mesmo que seja um fato constatado pela mãe. Afinal, crescer com a idéia de ser um filho rejeitado não pode ser uma coisa boa para os filhos, não é verdade?

Escrito por Rosely Sayão às 15h24