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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Mulher, de 56 a 65 anos, Portuguese

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“Será o Benedito!”

Quando freqüentei o ensino básico, o ciclo era dividido em três etapas: primário, ginásio e depois curso normal, clássico ou científico. Neste último estágio, o aluno precisava escolher um deles, e escolhi o científico. Nossa! Isso já faz tanto tempo que hoje muita gente estranha o fato de um aluno ter de fazer uma escolha tão cedo, perto dos 14 anos. Na época, isso era normal.

Nos últimos anos do ginásio e no científico, tive um professor de Língua Portuguesa – Benedito de Andrade – que teve influência decisiva em minha vida. Suas aulas eram magnas – todas elas. Ele entrava, começava seu ensino, e todos os alunos ficavam calados diante dele.

Ao contrário do que muitos pensam, naquela época os alunos já eram ruidosos em sala. Muitos professores enfrentavam problemas de disciplina. Ele, não. O conhecimento que tinha e o modo como transmitia sua paixão pelo ensino do português construía, em sala, um grupo de alunos que queriam ouvir.

Ele tinha por princípio não reprovar em uma época em que a reprovação era instrumento de poder disciplinador que muitos professores usavam com bastante freqüência. E sua matéria era – como ainda é – bem complexa de ser ensinada, sabemos todos nós.

Falava sempre corretamente, citava autores de literatura e trechos de livros com a maior intimidade e lia muito para seus alunos. Foi por meio dele que tive contato, por exemplo, com Machado de Assis e Guimarães Rosa. Uma das tarefas que deu aos alunos – não me lembro em que série - foi a de ler “Sagarana”. Eu lia, não entendia, lia novamente e quase desistia. Quando ouvia suas análises e comentários apaixonados em aula, me sentia desafiada a ler o texto com outros olhos. Anos depois, comecei a “ler” de fato o livro. E foi assim que minha paixão pela literatura e pelo cuidado com o uso da nossa língua foi crescendo.

O professor Benedito morreu sem saber que exerceu influência tão grande em minha vida e em minha formação profissional. Vejam que cursei psicologia, cujo instrumento principal de trabalho é a linguagem. Mas ao fazer essa escolha, eu nem sabia disso.

A profissão de mestre é assim mesmo. Por isso é que é preciso muita generosidade para ser professor: seu trabalho só será reconhecido por seus alunos muito mais tarde, quando estes atingem a maturidade. E, nesse momento, os professores dificilmente têm ciência de que foram reconhecidos.

Hoje, eu quis homenagear todos os mestres que influenciaram a vida de alguns alunos, mesmo sem saber. Minha gratidão a todos os professores que afetam ou procuram afetar a vida de seus alunos e que podem nunca nem saber que conseguiram.

 

Escrito por Rosely Sayão às 11h22
O Jogo da Escola

Uma das atividades que mais gosto de fazer é a de dar a palavra às crianças no espaço escolar. Muitas escolas acreditam que fazem isso sempre. Não: o que em geral fazem é tornar os alunos tagarelas, ou seja, permitem e estimulam que seus alunos falem qualquer coisa, continuamente e sem argumentos convincentes e lógicos.

Conversar com uma criança exige da parte do adulto duas posturas: a de escuta – de nada adianta permitir que eles falem e não dialogar com o que dizem – e a de ensino do diálogo, ou seja, ajudar a criança a inserir sua fala no contexto do discurso do outro. Ensinar a falar é também ensinar a ouvir.

Quando as crianças percebem que são levadas a sério pelos adultos que os escutam, dizem coisas muito inteligentes e interessantes que podem, inclusive, ajudá-los a se entenderem melhor e a ver a vida e seus desafios de uma maneira mais infantil e, portanto, mais tranqüila.

Uma colega me contou que, em uma conversa com alunos de primeiro ano no processo de passagem para o segundo – sim, há muitas mudanças e, portanto, os alunos precisam estar cientes de tudo para que possam se apropriar do processo – um aluno disse que o que ouvira na conversa com colegas do segundo ano o deixara preocupado.

É que os colegas contaram que no segundo ano eles têm lição de casa mais frequentemente e que as lições que precisam aprender em aula são muito mais difíceis. Isso sem contar que o período de brincar era bem reduzido em relação ao primeiro ano.

Antes de qualquer fala das professoras envolvidas no processo de passagem, um outro colega deu a melhor explicação possível para a criança nessa situação. Ele disse que passar para o ano seguinte na escola era o mesmo que passar de fase em jogo de videogame. Todos adoraram a explicação e a angústia da expectativa de novas aprendizagens diminuiu bastante.

Vejam que explicação mais inteligente e contextualizada no universo dessas crianças: a cada fase de um jogo de videogame, o jogador tem desafios que, vencidos, permitem que ele passe para uma próxima fase. E o jogador sabe que o grau de dificuldade vai aumentando a cada fase e essa é, justamente, sua motivação.

Não é exatamente assim o jogo da escola? Para passar para o ano seguinte é preciso vencer os desafios do ano corrente. Passar de ano é como passar de fase no jogo: o aluno já está preparado para a dificuldade que está por vir. Dizer que a próxima fase – ou ano escolar - não é mais difícil é, na verdade, desdenhar a capacidade de compreensão que as crianças têm da vida.

Algum adulto daria explicação melhor para essas crianças? Mas isso só aconteceu porque os professores envolvidos no processo com esses alunos tinham total disponibilidade para ouví-los e levá-los, realmente, a sério.

 

Escrito por Rosely Sayão às 22h19
“Achadouros de Infâncias”

No dia das crianças, pensei que a infância é que precisa ganhar presentes. Essa infância, por nós inventada, que tem sido tão maltratada no mundo contemporâneo pelos adultos que estão com tanta pressa de fazer as crianças crescerem.

A infância passa rápido por si mesma, nem é preciso empurrá-la ou puxá-la; e hoje, as crianças que cresceram fizeram outras crianças e estas nem imaginam que seus pais já foram crianças um dia. Que fizeram traquinagens, que desobedeceram aos pais, que levaram broncas e castigos, que foram à escola às vezes com gosto e outras vezes com desgosto, que brincaram com brinquedos da época, sem brinquedos, com brinquedos que inventaram, com brincadeiras de quintal e de rua etc.

Hoje pode ser um bom dia para contar aos filhos um pouco da história dos pais crianças. Encontrar, como Manoel de Barros disse, os “achadouros de infâncias”, texto que reproduzo abaixo que faz parte do livro “Memórias Inventadas – A Infância”. Aliás, vale a pena ler os três livros - pois ele fez o da segunda infância e o da terceira também - para retomar o que de fato é importante nessa fase da vida.

Os filhos vão adorar ouvir as histórias de seus pais. Isso tece uma narrativa que ajuda a criança a dar um sentido de identidade à sua vida, que começou bem antes de ele nascer. Ele precisa saber, à seu modo, que não é o primeiro nem será o último de sua família.

Com a palavra, Manoel de Barros:

                                                                             Achadouros

Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade. Mas o que eu queria dizer sobre o nosso quintal é outra coisa. Aquilo que a negra Pombada, remanescente de escravos do Recife, nos contava. Pombada contava aos meninos de Corumbá sobre achadouros. Que eram buracos que os holandeses, na fuga apressada do Brasil, faziam nos seus quintais para esconder suas moedas de ouro, dentro de grandes baús de couro. Os baús ficavam cheios de moedas dentro daqueles buracos. Mas eu estava a pensar em achadouros de infâncias. Se a gente cavar um buraco ao pé da goiabeira do quintal, lá estará um guri ensaiando subir na goiabeira. Se a gente cavar um buraco ao pé do galinheiro, lá estará um guri tentando agarrar no rabo de uma lagartixa. Sou hoje um caçador de achadouros de infância. Vou meio dementado e enxada às costas a cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos. Hoje encontrei um baú cheio de punhetas.”

Meu desejo é que hoje os adultos sejam arqueólogos da infância e que  comuniquem aos mais novos as suas descobertas.

Um bom dia de contador de histórias para todos!

 

 

Escrito por Rosely Sayão às 11h15

Olho por olho

Uma notícia parece que puxa outra: nos últimos tempos, o tema da violência entre crianças e adolescentes, geralmente ligados entre si pela escola, está em diversas reportagens. Agressões físicas com conseqüências sérias entre grupos ou de um grupo contra um aluno e intimidações das mais variadas estão em maior evidência. E não importa a idade das crianças, tampouco a classe social a que pertencem: a violência está presente em todos os segmentos.

Tal fato exige que foquemos nossa atenção, em primeiro lugar, no mundo adulto. Devemos resistir à tentação de demonizar as gerações mais novas. Se elas se relacionam de tal maneira é porque, primeiramente, vivem em uma sociedade bastante tolerante com a violência e que até a estimula.

Um exemplo: na prática, a maioria dos pais tem boa intenção e ensina aos filhos que não devem fazer uso da violência de nenhum tipo. A não ser, é claro, se forem agredidos. A orientação dada, nesses casos, costuma ser que reajam com violência. Desse modo, o ato violento reativo é incentivado. Mas violência é violência, ativa ou reativa, e sabemos que gera mais violência ainda.

Do mesmo modo, a escola também faz diferença entre as duas modalidades: alunos que praticam um ato violento em primeiro lugar costumam ser penalizados mais duramente do que os que reagem com violência. Como resultado, crianças e jovens criam a idéia de que quem agride é corajoso e quem não revida é covarde.

Parece que esse fenômeno de disseminação de relacionamentos violentos entre os mais novos tem como principal causa a ausência de relações reais entre os adultos e eles. Em nome da liberdade das crianças, de sua autonomia e do exercício de sua criatividade, entre outras coisas, nos retiramos de seu mundo e permitimos a construção de uma "república de crianças e de jovens".

O que não consideramos é que, na ausência da autoridade dos adultos, eles ficam submetidos à ditadura de seus pares ou do grupo em que convivem. E quem conhece crianças e adolescentes sabe que eles são muito mais tirânicos e rígidos do que os adultos. Eles não suportam as diferenças se não aprendem a conviver com elas, por isso excluem e intimidam; seguem a lei do mais forte, por isso agridem; querem de qualquer maneira submeter seus pares a um único ponto de vista. Ficam, portanto -como refere Hannah Arendt-, submetidos à tirania da maioria.

Muitos atos violentos praticados são aceitos como "coisa de criança ou de adolescente". Claro que desavenças sempre existirão, mas é preciso diferenciar a experimentação para aprender a conviver em grupo das relações baseadas em violência descontrolada. E é bom ressaltar que todas as crianças, principalmente na escola, participam desse tipo de relação: tanto as que estão envolvidas diretamente em situações de violência quanto as que observam. Estas últimas também são atingidas diretamente.

Toda essa violência nas relações entre os mais novos talvez seja apenas a maneira que eles têm para mostrar que precisam da autoridade dos adultos para não ficar à mercê de seus próprios caprichos e impulsos e os dos outros.


 

Escrito por Rosely Sayão às 10h54

Estudo do meio

Hélio tem quatro anos e freqüenta uma escola de educação infantil particular cuja mensalidade é menos de R$ 200; João Pedro, 9, estuda em uma escola pública; Mariana, 10, estuda em uma escola privada cuja mensalidade está perto dos R$ 300; os pais de Vitor, 11, pagam R$ 600 pela mensalidade e os de Beatriz e Gustavo, em torno de R$1.500.

Há semelhanças e diferenças entre essas escolas, mas pelo menos uma atividade comum: o estudo do meio, que é coqueluche educacional. Vale a pena refletir sobre essa atividade que interfere de diversas maneiras na vida das famílias.

Esse método de ensino não é uma inovação: na década de 80 já era utilizado, mas foi a partir dos anos 90, quando oficialmente indicado pelos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais), que ganhou maior investimento das escolas e, portanto, maior visibilidade social.

O primeiro problema é que qualquer atividade que envolva a saída dos alunos da escola pode ganhar status de estudo do meio. Os pais precisam saber que um passeio, uma excursão, um acampamento ou mesmo a saída da classe para uma atividade cultural não constituem propriamente estudo do meio.

Para ter tal designação, a saída precisa fazer parte de um processo com metodologia própria, que envolve várias etapas de trabalho com objetivos pedagógicos claramente definidos e integrados tanto ao currículo escolar quanto ao projeto pedagógico da escola.

Um outro problema importante é a terceirização desse serviço. Hoje já existe uma modalidade conhecida como "turismo pedagógico ou educacional", que rende um lucro considerável e que, por exemplo, permite a uma escola que compre um pacote completo, com transporte, monitores especializados em conhecimentos específicos e em recreação, sem que a equipe da escola tenha de se dedicar ao trabalho nem que os alunos sejam co-responsáveis. Aliás, alguns desses locais até oferecem acomodações que permitem aos professores que fiquem sem contato com os alunos. Isso não pode ser chamado de estudo do meio.

Muitas escolas justificam as saídas pela socialização entre os alunos e com os professores. Não: o estudo do meio tem a ver com o ensino do espírito investigativo e metodológico.

Também são problemas importantes o custo da saída e a escolha do local do estudo. Qualquer saída precisa permitir a todos os alunos que participem. Essa é uma questão que interfere não apenas no orçamento familiar mas também na cultura das famílias. Por isso, o ideal seria que as saídas da escola fossem decididas em parceria -já que o estudo é da competência da escola, e o estilo de vida fora do horário escolar é da competência dos pais. E é bom lembrar que meio é qualquer lugar: pode-se estudar a própria escola como meio, seu entorno etc. Não é preciso ir muito longe para isso, inclusive porque as salas de aula são, por excelência, espaços de ensino do espírito pesquisador.

Para finalizar a reflexão, um pouco de Clarice Lispector: "Eu sei de muita coisa que não vi. E vocês também, eu sei.".

 

Escrito por Rosely Sayão às 13h13