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Elogios em excesso

Muitas famílias têm transformado a educação dos filhos em um grande processo de barganha. Vale quase tudo para conseguir que as crianças e os adolescentes obedeçam, esforcem-se, dediquem-se, cumpram com suas obrigações e não façam o que não deve ser feito: oferecer presentes -que, conforme a idade do filho, chegam a ser bem custosos-, dar dinheiro, prometer passeios, elaborar quadros de incentivos inspirados no programa de TV "Supernanny" e, principalmente, elogiar.

O elogio, em especial, virou moeda de troca fácil nesse processo equivocado. O filho fez um desenho? Dá-lhe elogio.Fez a lição, arrumou a cama, estudou, tirou nota boa, tomou banho no horário determinado ou dormiu em sua própria cama? Dá-lhe elogio. Agora, quase tudo o que as crianças fazem virou motivo para elogio.

Os pais acreditam que elogiar o filho ajuda a criança a se ter em boa conta e a enfrentar as novas aprendizagens que surgem a cada dia e, portanto, que se trata de um agente do bom desenvolvimento e crescimento. Na verdade, elogiar em demasia -e é isso o que tem acontecido- atrapalha tal movimento. Por quê?

Em primeiro lugar, porque o elogio está sempre ligado a algum resultado: um comportamento, uma aprendizagem ou a finalização de alguma atividade. O elogio é a apreciação favorável de um produto considerado bom. Só que, para alcançar tal resultado, a criança precisou realizar um processo que exigiu mais ou menos esforço ou persistência, e, para o crescimento, isso é o que importa.

Do jeito que as coisas andam, crianças têm recebido elogios por coisas que não exigiram esforço nenhum. Além disso, é preciso lembrar que nem todo bom processo se converte em bons resultados, não é? Do modo como o elogio tem sido usado, todo o procedimento é ignorado em nome do resultado. A criança aprende que o importante é acertar, e não aprender, e isso não pode ser uma boa coisa. Afinal, para aprender, é preciso reconhecer a ignorância e correr o risco de errar, e quem visa ao elogio não quer correr tal risco.

Em segundo lugar, o elogio freqüente torna a criança quase dependente da aprovação dos pais -do outro, portanto-, e isso impede que se veja, que se auto-avalie e que reconheça o valor do que faz. O elogio em excesso infantiliza. Por sinal, podemos constatar o quão infantilizado está o mundo adulto justamente pela busca do elogio. Muitos adultos, mesmo na vida profissional, têm feito de tudo para ganhar elogios e reclamam quando não os obtêm. Há algo mais infantil? Afinal, do outro precisamos buscar reconhecimento da nossa existência, e não aprovação, e essas duas coisas são bem diferentes entre si.

Finalmente, o elogio não é da ordem do afeto, o eixo fundamental da educação familiar. É para garantir o amor dos pais que a criança se deixa educar. Por isso, muito mais efetivo para a criança é receber um beijo.

Ganhar um afago e perceber com clareza o quanto os pais estão orgulhosos -ou não- são manifestações de afeto que, além de solidificarem as relações amorosas, também funcionam como excelentes recursos educativos. Deixar os elogios para situações especiais só valoriza o seu uso.

 

Escrito por Rosely Sayão às 11h15

Adolescência antecipada

A garotada de dez e 11 anos não se identifica mais como criança. Responsabilidade nossa, que temos tido toda a pressa do mundo para colocar as crianças no mundo adulto.

Conversamos com crianças pequenas e oferecemos explicações como se pudessem entender a complexidade de determinados fatos do mundo adulto e lidar com eles; estabelecemos pequenos contratos (os "combinados") como se elas tivessem o mesmo estatuto do adulto e pudessem cumprir sua parte; fazemos com que freqüentem locais antes exclusivos dos adultos com a desculpa de que precisam conhecer o estilo de vida dos pais; exigimos que façam escolhas como se já soubessem arcar com a renúncia e tivessem autonomia para tanto e, para coroar, chamamos as crianças da idade mencionada de pré-adolescentes.

Bem, isso gera inúmeras conseqüências, e vou tratar de uma bem importante: a entrada precoce das crianças dessa idade no relacionamento erótico-afetivo. Por sinal, uma leitora que é mãe de uma garota de 11 anos constatou que crianças dessa idade -e até de um pouco menos- têm solicitado aos pais permissão para namorar. Eu já percebi também que crianças dessa mesma faixa de idade usam ofensas de caráter erótico para intimidar colegas.

Quando as crianças pedem licença aos pais para namorar, é preciso ouvir o pedido além das palavras pronunciadas. Crianças dessa idade não costumam pedir autorização para transgredir regras, para fazer o que querem, mesmo que escondido. Elas fazem mesmo sabendo que não deveriam. Se pedem, é sinal de que não conseguem dar conta sozinhas e de que precisam do adulto.

A vontade de "namorar" foi plantada de inúmeras formas e elas nem sabem se querem mesmo. É bem provável que não, já que ainda têm outros interesses muito mais pertinentes ao mundo infantil. Mas, do mesmo modo que não têm discernimento para perceber isso, não têm condições de fazer frente à pressão social para que assim se comportem.

Talvez seja exatamente a proibição dos pais o que elas buscam e do que precisam. Afinal, é muito mais fácil responsabilizar o "pai careta" ou a "mãe chata" por qualquer restrição ou diferença.

É preciso também ouvir a idéia que elas têm sobre namoro. Quando uma garota que completaria 11 anos me contou que tinha namorado, perguntei o que faziam juntos. "Fico encostada nele, pego na mão, beijo", disse. Quando perguntei se também conversavam, ela reagiu com um sorriso e um suspiro, que interpretei como "Em que mundo você vive?".

É isto: a idéia que as crianças têm de namoro -construída com nossa permissão- está ligada às sensações corporais apenas, não mais ao diálogo que busca o conhecimento mútuo, tampouco às emoções e ao compromisso.

Como assinalou a leitora, não dá para os adultos encararem essa situação como uma "inocente brincadeira de faz-de-conta". Não nessa idade. Isso ocorre antes dos seis anos, quando as crianças imitam a vida dos adultos.

 

Escrito por Rosely Sayão às 10h29