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Questões de independência

Uma leitora que é educadora profissional conta que observa que muitos pais -mães, em especial- tomam atitudes em relação à vida escolar dos filhos que demonstram excesso de cobertura aos caprichos destes. Concordo com ela, que, bem-humorada, criou um discurso que ela chama de "pela independência das crias" -que não ganha boa repercussão entre os pais. Vamos, então, por meio de exemplos, pensar a respeito dessa boa questão.

Em tempos de Olimpíada, o número de pedidos de pais às escolas para que seus filhos saíssem mais cedo ou entrassem mais tarde para assistir aos jogos foi considerável. Sim, muita gente gosta de assistir às competições, crianças principalmente. O problema é a intervenção dos pais.

A vida escolar é a primeira responsabilidade que as crianças devem enfrentar por conta própria e isso resulta em crescimento. Além de estudar, elas adquirem o que podemos chamar de aprendizados colaterais, como administração do tempo, organização das rotinas, priorização de atividades, renúncias temporárias ao lazer.

Todo aluno tem direito a faltar na escola. Eles sabem disso, os pais também, e as faltas não precisam ser justificadas pelo aluno nem moralizadas pela escola. O aluno pode simplesmente faltar para assistir aos jogos, para namorar, para ficar dormindo, para ir ao médico, para se recuperar de uma gripe, para acompanhar os pais em uma viagem. Os motivos não são importantes, mas, para tanto, o aluno precisa aprender que deve regular suas faltas para poder usá-las quando necessário ou desejado e que precisa arcar com as conseqüências.

Quando os pais interferem e fazem esses pedidos à escola, atrapalham seus filhos no trajeto que precisam realizar para a conquista da autonomia e da responsabilidade porque resolvem, pelos filhos, questões que eles deveriam saber como solucionar -tanto em relação à ausência nas aulas quanto às conseqüências dela.A única coisa que os pais ensinam aos filhos quando agem assim é que fazem tudo para que eles não enfrentem a realidade.

Tenho vários outros exemplos que podem ser analisados à luz desse primeiro: atrasos que os pais assumem como responsabilidade sua, solicitação para que a escola não exija muito da criança por ela estar vulnerável ou sensível, justificativas pela não-realização de trabalhos, recusa em aceitar sanções aplicadas pela escola etc.

Sabemos que cabe aos pais o papel de proteger seus filhos, mas essas atitudes não são protetoras, são infantilizadoras.Como a segunda parte da infância tem como principal característica o crescimento da criança, os pais precisam permitir que seus filhos aproveitem as oportunidades que têm para crescer, e elas estão principalmente relacionadas com a vida escolar nos cinco primeiros anos do ensino fundamental.

Muitos pais ainda acham que, aos oito anos, é cedo para que os filhos aprendam isso, mas vale lembrar que, no mundo atual, eles têm aprendido muitas outras coisas da vida -essas sim, precocemente.Por isso, em vez de poupá-los de seus problemas, os pais precisam encorajá-los a encontrar as melhores soluções, levando em conta principalmente a realidade.


 

Escrito por Rosely Sayão às 19h36
O quadro negro da educação escolar brasileira

A Revista Veja publicou, na semana passada, uma reportagem a respeito da educação brasileira baseada em pesquisa que encomendou à CNT/Sensus. De modo bem resumido: o resultado aponta que o ensino escolar brasileiro é aprovado por professores, pais e alunos tanto da escola pública quanto da privada.

Qual o problema de tal parecer de todos os envolvidos na questão do ensino escolar? É que o resultado das avaliações das quais o alunado brasileiro participa mostra que o conhecimento que eles têm é de baixo, bem baixo nível, comparado ao de alunos de outros países. Só como exemplo: o Brasil está em 52º lugar em ciências e em 53º em matemática em uma lista de 57 países. Isso quer dizer que os melhores alunos brasileiros ficam nas últimas colocações em tais avaliações.

O que os pais podem fazer para ajudar a melhorar esse quadro? Em primeiro lugar, cobrar da escola que seus filhos freqüentam que esta ensine aos seus alunos - e exija a realização diária - os requisitos necessários ao trabalho intelectual. Atenção, concentração, persistência, esforço são, entre outras características, aspectos importantes do aprendizado. Disciplina para e pelo trabalho é o que deve ocorrer na escola.

Quando entro em uma sala de aula e vejo alunos fazendo lições ou assistindo à aula balançando constantemente a carteira, brincando com o material desnecessário que carrega consigo, sentados de qualquer maneira e conversando freneticamente, constato que a disciplina para o trabalho intelectual não faz parte da exigência dos professores. E isso não se pode esperar que o aluno aprenda em casa porque é na escola que ele se inicia nessa função.

Outra coisa que chama muito minha atenção é que, quando o professor faz alguma pergunta a respeito do que está ensinando e os alunos respondem, os argumentos usados por eles são muitas vezes vazios de sentido, a linguagem é rasa e, mesmo assim, os professores aceitam o que os alunos dizem sem observação alguma.

Por outro lado, os pais precisam de distanciamento da escola para ter uma visão crítica do trabalho que ela realiza. Hoje, o mais comum é que os pais desenvolvam uma afetividade pela escola muito estimulada pela proximidade com os profissionais que lá trabalham, que os alunos aprendam a gostar dos professores e, assim, a submissão aos afetos compromete a visão crítica do que lá acontece.

Precisamos e podemos mudar, mesmo que vagarosamente, esse quadro. As novas gerações brasileiras merecem um ensino melhor, praticado com seriedade e o rigor que o conhecimento exige. A hora de brincar na escola é a hora do recreio. Durante as aulas, é hora de trabalho, trabalho e mais trabalho.

Como eu já disse, as crianças não são de cristal: elas agüentam, sim, aprender e estudar sem que o clima da sala de aula seja parecido com o do recreio.

 

 

Escrito por Rosely Sayão às 10h32

Os desafios das novas famílias

Temos uma grande novidade no mundo contemporâneo: as novas famílias, construídas principalmente a partir de separações e novos casamentos, mas também de uniões que dão origem a famílias antes impensadas, como as que têm como matriz a união de um casal homossexual.

Homens e mulheres que um dia se uniram e tiveram filhos e depois estabeleceram novas relações -homossexuais após a primeira ter sido heterossexual, inclusive- criaram novos grupos familiares bem complexos. E as relações entre os integrantes desses grupos diversos têm sido um grande desafio.

Recebo com freqüência mensagens de leitores que falam a respeito dessas dificuldades: o relacionamento com ex-maridos e ex-mulheres dos primeiros casamentos tem sido o tema campeão, em pé de igualdade com a relação com enteados e com filhos, que agora convivem com pais que estabeleceram relações muito diferentes das originais.Além das uniões homossexuais, há os casais com diferenças de idade fora do padrão, ou seja, o homem mais novo que a mulher. Muitas mulheres com filhos adolescentes se uniram a homens bem mais novos, com idade próxima à de seus filhos.

Vale a pena lembrar, em primeiro lugar, que tudo o que estava implícito em uma união estabelecida por um casal agora não pode mais ser considerado como certo: tudo deve e precisa ser explicitado, acordado, pactuado pelas duas pessoas -quem sabe três?- que decidem se unir e compartilhar a vida presente e, se der tudo certo, futura. Trata-se, em suma, de um contrato sem precedentes entre pessoas que pretendem compartilhar a vida. O casamento -ou o relacionamento, como muitos têm chamado- precisa ser reinventado.

Desse modo, temas como fidelidade, respeito, companheirismo, tipo de relação a ser estabelecida com os ascendentes e descendentes -inclusive os da união anterior- precisam ser motivo de conversas, negociações, ajustes e combinações. E é bom saber, nessa hora, que conviver bem não significa, de modo nenhum, viver sem conflitos. Ao contrário: conviver bem supõe aprender a negociar os conflitos que surgem.

Também não têm mais sentido os papéis atribuídos por antecedência, que funcionavam bem nos casamentos anteriores. Como as funções do homem e da mulher se confundem cada vez mais no mundo contemporâneo, as pessoas precisam saber que compartilhar, colaborar, dialogar e compreender são palavras-chave na construção de um relacionamento. Tudo o mais são modelos a serem superados.

Finalmente, é preciso reconhecer que as novas famílias supõem a reunião de, no mínimo, duas famílias, e isso exige a organização de um novo grupo.Estereótipos que temos da relação entre ex-companheiros, de genros e noras com sogros, de enteados com seus respectivos padrastos são, atualmente, apenas chavões a serem revistos com a originalidade que as novas famílias pedem para que confirmem seu importante papel na contemporaneidade.

 

Escrito por Rosely Sayão às 11h02