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Desafio para um final de semana qualquer

Li uma reportagem hoje no UOL Mídia Global (http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lemonde/2008/05/30/ult580u3110.jhtm) muito interessante a respeito de uma experiência realizada na França por uma escola que propôs um desafio a seus alunos: 10 dias sem televisão, internet e videogame. Aliás, tal experiência foi realizada primeiramente em algumas escolas no Canadá.

A meta de sucesso que a escola projetou para o projeto foi de 70%, mas o resultado obtido foi bem além das expectativas: superou a taxa de 90%, segundo o jornal “Le Monde”. Essa escola atende crianças na faixa de idade ente sete e 11 anos, que corresponde aos nossos alunos que freqüentam o primeiro ciclo do ensino fundamental.

O testemunho das mães sobre a experiência foi bem estimulante: disseram que o ambiente em casa ficou mais tranqüilo, que as crianças se dedicaram a outras brincadeiras e também que a convivência familiar foi bem mais intensa nesses dias.

Fiquei pensando que as famílias com filhos dessa idade, ou mesmo menores, poderiam encarar o mesmo desafio em pelo menos um final de semana por mês. Para tanto, seria preciso, primeiramente, coragem. Afinal, nunca se sabe o que pode acontecer, não é mesmo?

Em segundo lugar, seria preciso envolver os filhos - de acordo com a idade deles, é claro - na decisão: incentivar que eles encarem juntos com os pais o desafio, pedir que planejem atividades alternativas e, principalmente, deixar claro que seria uma experiência. Isso é fundamental porque, caso as crianças não consigam resistir à tentação, não devem entender que fracassaram no projeto familiar ou que não são capazes de repetir a tentativa numa próxima vez.

Então: você não se sente atraída/o pelo desafio? Para começar, poderia ser um único dia, por exemplo. Caso decida enfrentar, conte depois para nós como foi a experiência e o saldo dela: no Canadá e na escola da França o saldo foi tão positivo para as crianças, segundo os relatos dos pais, que todos pretendem repetir o projeto. 

Um bom fim de semana a todos, com ou sem as telinhas.

Escrito por Rosely Sayão às 12h46

A guarda compartilhada


Um projeto de lei a respeito da guarda compartilhada foi aprovado pela Câmara dos Deputados e só depende da sanção do presidente para fazer parte do Código Civil. Quer dizer, só depende disso para ganhar o valor de lei, mas para se tornar realidade depende de muitas coisas mais.

A partir dos anos 60, a família entrou em processo de mudança. Está ainda em uma transição que, dizem os estudiosos, não terminou. Entretanto, por maiores que sejam as mudanças que já presenciamos e vivemos, persiste no pensamento de muitos um ideal de modelo familiar já superado.

As conseqüências desse apego a tal ideal surgem, principalmente, quando um casal que tem filhos se separa. Em primeiro lugar, a idéia de que o homem era o responsável pela provisão das necessidades materiais: discussões infindáveis por valores de pensão alimentícia solicitados pelo representante legal da mulher e contestados pelo do homem ocorrem diariamente na Justiça.

O mesmo acontece com a guarda dos filhos: como a mulher foi, no modelo tradicional, a responsável pela educação deles, hoje muitos homens que querem continuar a participar do convívio e da educação dos filhos enfrentam dificuldades, como serem restringidos pelos horários de visitas rigidamente estipulados.

Superar o ideário de família que herdamos e que provoca tantos descompassos após a separação é, entretanto, apenas um dos passos necessários para tornarmos a guarda compartilhada uma realidade.

Vivemos, também, uma época em que é bem difícil para o adulto retardar ou suspender a busca de satisfação de algumas vontades ou impulsos em nome de um bem maior que, no caso, são os filhos. Em muitos confrontos pela guarda das crianças, os pais consideram apenas o próprio bem-estar e a própria realização e, em nome disso, às vezes prejudicam os filhos.

Toda criança tem o direito de crescer em companhia de seus pais. Se o casal se separou, ela não precisa nem deve arcar com a conta de tal decisão. Sua existência exige dos pais, juntos ou separadamente, dedicação plena. Isso significa, pelo menos quando a questão for a vida dos filhos, que cada um dos pais busque se livrar de mágoas e ressentimentos que sempre restam após uma separação e solucionar conflitos por meio de diálogo pacífico.

Em resumo, as pessoas que se separam precisam ter consciência de que irão compartilhar, pelo resto da vida, a coisa mais importante que produziram enquanto estiveram juntos: os filhos. E que, para levar a cabo a missão, precisam exercer a maturidade, condição essencial de quem tem filhos.

Se hoje precisamos de uma lei que torne a guarda compartilhada uma realidade, é porque ainda estamos muito aquém de nossa responsabilidade com os filhos, não é verdade? Em nome das novas gerações, devemos evitar que essa não seja mais uma lei que "não pegue".

 

Escrito por Rosely Sayão às 17h23
Castigo físico

Recebo, diariamente, muitas mensagens de pais preocupados com a educação dos filhos. Pais sempre têm dúvidas, não é verdade? Ao fazer um levantamento a respeito dos assuntos trazidos, deparei-me com algo que tinha passado despercebido: é grande o número de pais que, ao contar as dificuldades educativas que enfrentam, dizem que aplicam algum tipo de castigo físico na tentativa de ensinar o filho. Darei alguns exemplos citados: puxão de orelha, beliscão, empurrão, tapa no rosto, palmadas nas nádegas, cintada, surra.

Alguns dizem que se arrependeram do que fizeram, outros afirmam que fazem sempre e que mesmo assim a criança não se corrige, outros contam que perderam a paciência e por isso bateram. Há também os convictos; estes consideram a palmada um recurso legítimo na educação dos filhos. Como parece que esse fato ocorre com freqüência maior do que imaginamos, vamos refletir a respeito.

O castigo físico em crianças é utilizado há séculos. No livro “A história da criança no Brasil” a autora Mary del Priore afirma que tal prática foi introduzida aqui pelos jesuítas. Entretanto, alguns estudiosos discordam porque consideram que os índios deveriam, sim, castigar os filhos utilizando punições físicas. De qualquer forma, faz parte de nossa cultura no mínimo a aplicação de palmadas para obrigar o filho a corrigir um comportamento.

O assunto é polêmico: nem mesmo psicólogos conseguem chegar a um consenso a esse respeito. Todos são, sem dúvida, contra a violência contra crianças, mas alguns afirmam que há lugar para a palmada na educação dos filhos. Estes, dizem que não pode é haver excesso e que ela nunca deve ser usada em momentos de emoções intensas dos pais. Complicado, não?

Minha posição eu já declarei publicamente muitas vezes: não considero o castigo físico – mesmo a palmada – uma medida educativa. Meu principal argumento é o de que não é possível criar uma pessoa para ser pacífica utilizando meios violentos. E caros: mesmo uma palmada dada por um adulto em uma criança ou adolescente é um ato violento, não é?  No mínimo, abuso de força e de poder.

Além disso, quem usa esse recurso já deve ter constatado, na prática, que ele produz, sim, algum efeito que, entretanto, é efêmero. É por isso, aliás, que a criança que sofre tal tipo de punição nunca apanha uma única vez.

Talvez precisemos mudar o foco da discussão. Será que o aumento do uso de castigos físicos por parte dos pais não tem relação com a impotência do adulto perante tarefa tão árdua e sem receitas quanto a de educar uma criança?  Além disso, precisamos também considerar a cultura da violência que vivemos na atualidade: temos tolerado muitos excessos nesse sentido.

É nosso dever defender as gerações mais novas: é delas a responsabilidade de construir o futuro do mundo. Por isso, precisamos pensar com seriedade nos recursos educativos que usamos hoje.

Escrito por Rosely Sayão às 23h41

Educar para a diversidade

Uma leitora, educadora profissional de uma escola privada, escreveu manifestando preocupação com o fato de muitos pais recusarem o convívio do filho com colegas cujas famílias professam religião diferente da sua. Ela conta que a escola, laica, sempre respeitou alunos que não participavam de festas juninas, autos de Natal e outras comemorações religiosas, mas que, de um tempo para cá, a situação está mais para a intolerância.

O tema pode ser ampliado: muitos pais têm evitado que seus filhos entrem em contato com conceitos, idéias e comportamentos, não só religiosos, porque estes não são aceitos pelas famílias. A máxima de que família e escola devem falar a mesma língua para que a educação seja coerente ganha contornos perigosos dessa forma.

Sabemos que os iguais procuram proximidade, e é seguindo tal princípio que clubes formam seu quadro de associados, que torcidas se constituem, que tribos aparecem, que surgem bairros e sociedades. Afinal, o elo que liga pessoas diferentes entre si, mas com algo parecido ou igual, é a base de todos os agrupamentos humanos. É também o que fornece e mantém a identidade das pessoas.

A família é o agrupamento que dá a identidade primeira para os mais novos, e o sobrenome familiar aponta para a origem de cada um. Em tempos de multiplicidade de referências socioculturais, a educação familiar ganha importância principalmente para garantir referências e valores sólidos. Entretanto, as referências se constituem apenas em um norte. Não podem se transformar no único caminho a ser seguido. Afinal, a liberdade deve ser meta prioritária em todo tipo de educação.

É na escola que os mais novos entram em contato com a diversidade sociocultural existente. É a escola a responsável por iniciar o processo de separação das crianças dos pais. Tal afastamento é necessário para que a autonomia seja conquistada, para que a criança possa dar seus próprios passos e, mais tarde, conviver em qualquer lugar, com qualquer tipo de pessoa e de qualquer maneira. Aliás, tal afastamento também propicia o livre acesso ao conhecimento e, logo, à formação do espírito crítico. Em casa, as crianças aprendem a acreditar em algumas idéias; na escola, aprendem a conhecê-las.

Quando os pais proíbem ou dificultam o acesso dos filhos a idéias e hábitos diferentes dos seus, buscam inseri-lo em um grupo homogêneo. Ora, nada mais autoritário e arriscado, pois isso possibilita que se crie a idéia de propriedade da verdade e, consequentemente, da intolerância e do desrespeito. Aliás, temos vivido esse problema: o outro tem sido considerado um estranho e olhado com desconfiança. Tal atitude compromete a vida pública e temos sentido isso na pele.

Manter os filhos apenas "dentro da família" não deixa de ser um ato incestuoso, já que impossibilita as trocas laterais. E não queremos aprisionar nossos filhos, não é? Ao contrário, queremos que sejam pessoas livres, autônomas, conscientes do que significa ser cidadão, podendo, desse modo, construir um mundo melhor.


 

Escrito por Rosely Sayão às 13h53
O preconceito racial na escola

Uma amiga, que trabalha em escola particular, contou-me um fato que considerei importante. O filho, de seis anos e que cursa o primeiro ano do ensino fundamental, disse a ela que não queria mais ser negro. Quando a mãe perguntou o motivo, ele imediatamente respondeu que, sendo o único aluno negro na escola, era diferente de todos os outros e isso o incomodava.

Basta um olhar para constatar que as escolas particulares recebem poucos alunos negros. Mas, a questão vai além: parece-me que poucas tratam com cuidado as questões do preconceito racial, ainda presente em pleno século XXI. Algumas escolas particulares não têm um único aluno negro, mas isso não é motivo para não tratar da questão, não é verdade? Afinal, esse é um tema de nossa sociedade e não é compreensível que a educação para a cidadania não contemple esse item nos trabalhos escolares.

Sugeri a essa amiga a leitura, para o filho, de um conto de Mario de Andrade chamado “Será o Benedito”, lançado recentemente pela editora Cosac Naif. Os livros dessa editora são muito bem cuidados e esse, em especial, apresenta ilustrações muito interessantes. De forma bem resumida, o conto apresenta a relação de estreita camaradagem entre duas pessoas muito diferentes: um homem branco da cidade e um garoto negro do campo.

Ela leu para o filho e as conversas que a história rendeu entre ambos foram muito boas. Ela teve a idéia, então, de sugerir a leitura para alguns professores da escola. Assim, sem grandes pretensões, pelo menos alguns deles irão criar para seus alunos a oportunidade de trabalhar, por meio do conhecimento, o preconceito racial.

Crianças usam com freqüência características da aparência dos colegas para humilhar e ofender. Desse modo, palavras como “baleia”, “cabeça de fogo”, “zarolho”, entre outras, são usadas como xingamento. A criança ainda não tem consciência das conseqüências que essa atitude pode provocar.

Isso exige da parte dos professores um trabalho cuidadoso de formação dos alunos, inclusive moral.  A escola que seu filho freqüenta trabalha o tema do preconceito racial? De que maneiras? Quais as estratégias utilizadas? O tema é abordado transversalmente? O conhecimento de que dispomos a respeito é valorizado e trabalhado com os alunos?
Essas são perguntas bem pertinentes que os pais podem fazer às escolas. Afinal, se queremos um mundo menos violento e intolerante, precisamos ensinar aos mais novos o respeito às diferenças e a defesa intransigente da justiça.

Semana passada, os jornais trouxeram muitas notícias a respeito da situação dos negros do Brasil na atualidade por conta da data comemorativa de 13 de maio. Será que as escolas fizeram o mesmo? Pergunte ao seu filho se alguma atividade importante relacionada ao fato foi proposta e estabeleça com ele um diálogo a respeito; fatos do cotidiano sempre permitem isso.

O filho dessa amiga, por exemplo, observou que a maioria dos adultos e crianças que ficam nas esquinas pedindo esmola é negra e pediu explicações sobre sua observação. Se ouvirmos bem o que as crianças dizem, percebemos que elas pedem recursos para ler e interpretar melhor o mundo. Será que atendemos a esse pedido?

Escrito por Rosely Sayão às 10h44