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Sobre o andamento da vida escolar dos filhos

“Tenho um filho de seis anos, nascido em agosto de 2001. Ele está no 2º ano e acho que está com muita dificuldade escolar. Gostaria de saber qual atitude tomar: retornar para o 1º ano, ou fazer novamente o 2º ano? Você acha que devo mudar de escola para ele não se sentir mal perante os amigos por voltar ao 1º ano?”

Escolhi esta mensagem de uma internauta porque ela chegou ao mesmo tempo em que outros pais me trouxeram questões bem semelhantes. Entre todas, levantei dois pontos em comum: as crianças têm até seis anos e as escolas delegaram a decisão aos pais. Por isso, vamos pensar a respeito.

Primeiro, vamos considerar a Educação Infantil. Que história é essa de passar a criança do G4 – denominação que muitas escolas usam para o grupo de alunos de quatro anos – para o G5 ou reter? E olhem que os argumentos usados são vários: ele será o mais novo ou mais velho, mais maduro ou imaturo da turma etc.

Gente, isso é pura insanidade porque mostra um modo de pensar a educação infantil como se fosse uma preparação para o ensino fundamental. Não é.

Na educação infantil não deve haver outra preocupação do que a de oferecer às crianças oportunidades e materiais para que brinquem e aprendam com as brincadeiras. Aprendam o quê? Não sabemos, não controlamos, não importa. De modo resumido: elas  aprendem um pouco sobre a vida, as relações com seus pares, com outros adultos que não os da família, as normas de convivência num espaço comum etc.

Além disso, qualquer criança pode mudar rapidamente num curto espaço de tempo nessa idade: o garotinho que parece um bebê, em menos de um mês pode se transformar num moleque, por exemplo. O contrário também vale: uma criança madura pode passar a ter comportamentos aparentemente já superados. Esse desenvolvimento não linear é característica dessa idade.

Para falar bem a verdade, depois dos três anos e antes dos seis, todas as crianças poderiam freqüentar a mesma turma. O mesmo pode-se dizer a respeito de antes dos três anos. Ou seja: não deveria existir essa “seriação” na educação infantil.

Agora, não é demais que a escola delegue aos pais a decisão de reter, voltar ou adiantar a vida escolar do aluno? Essa responsabilidade deve ser dela já que é a escola que se relaciona com o aluno. Os pais se relacionam com os filhos e, por mais difícil que seja aceitar isso quando falamos a respeito de crianças, é preciso reconhecer: somos diferentes quando ocupamos papéis diferentes.

Como o filho de nossa leitora está em pleno processo de alfabetização – não sei se a nomenclatura que ela usa considera a duração de oito ou nove anos no ensino fundamental – é bom ter paciência e encorajar o filho nos estudos. Muitas crianças se alfabetizam em três meses, outras em oito, e o processo pode durar até doais anos, o que é aceitável.

Par finalizar nossa reflexão, uma frase de Guimarães Rosa que está em “Grande Sertão: Veredas”:

“...mire, veja: o mais importante do mundo é isto; que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou.”

Escrito por Rosely Sayão às 23h07

De olho no pódio

Os Jogos Olímpicos se aproximam e, por meio da imprensa, já temos notícias de atletas em fase final de preparação para alcançar medalhas, subir no pódio, quebrar recordes. Isso me fez lembrar de que, sempre que assisto a alguma competição esportiva, reconheço que esse é o lugar legítimo e adequado da competição.

Ao considerar nosso modo de vida atual, faço uma analogia: transformamos a vida em uma olimpíada permanente. A competição transpôs a fronteira do ramo esportivo e se instalou no nosso cotidiano.

Não é à toa que muitos esportistas ou treinadores bem-sucedidos são chamados para dar palestras em empresas. Afinal, eles são os maiores especialistas em competição, não é? Do mesmo modo, os atletas que triunfam são escolhidos para ser garotos-propaganda de muitas empresas, das quais poucas produzem artigos ligados ao ramo esportivo. "Use nosso produto e você será um vencedor!" é a mensagem.

Hoje, exigem-se um preparo técnico acurado e um treinamento contínuo, tanto na vida profissional quanto na pessoal. E não se trata apenas de conhecer e estudar seu ramo de atividade ou de se cuidar, e sim de se empenhar em estratégias que permitam, ou pelo menos prometam, sair na frente e chegar em primeiro lugar ou, pelo menos, entre os primeiros.

Competimos contra tudo e todos. Contra o tempo -e ainda acreditamos ser possível ganhar dele. Contra nossa constituição física, contra nossos pares, contra nossa vida coletiva, contra qualquer outro que se coloque à nossa frente em qualquer situação. Iniciamos nossos filhos precocemente nessa competição acirrada e acreditamos que tal iniciativa é absolutamente necessária para a sua sobrevivência no futuro. Não valorizamos mais a aprendizagem do jogo que é a vida desde a largada, e sim seu resultado, que só pode ser um: ganhar.

As escolas se apropriaram desse anseio dos pais e incrementam ainda mais a concorrência entre seus alunos. Os anunciados rankings de escolas baseados nos mais diferentes exames, os primeiros lugares conquistados nos vestibulares e as avaliações dos alunos, sempre comparativas, são exemplos dessa apropriação da competição pelo espaço escolar.

O sucesso, hoje, é definido principalmente pela competição, o que faz com que o processo de identificação com o outro ocorra de modo negativo. Ser melhor do que o outro, ganhar do outro ou então se resignar a ser inferior a ele. Desse modo, fica mais fácil entender o motivo de o outro ser quase sempre percebido como ameaça.

É preciso saber que essa olimpíada permanente tem seu preço. Sabemos o custo que os atletas pagam na busca da superação: contusões sérias, cirurgias precoces, interrupção da vida profissional muito cedo. Isso sem falar das conseqüências emocionais e sociais quando eles enfrentam a derrota ou saem do pódio. Arcamos com conseqüências análogas em nossas vidas quando transformadas nessa competição sem trégua: tédio, depressão, estresse, agressividade descontrolada, pânico etc.

 

Escrito por Rosely Sayão às 00h22
Pagamento de tarefas domésticas

Uma leitora contou que assistiu ao programa “Fantástico” do último domingo e foi ao ar uma reportagem a respeito de pagamento de tarefas domésticas aos filhos como uma estratégia para a agora chamada “educação financeira”. Ela quer saber minha opinião a respeito. Então, vamos lá.

Logo de início, quero esclarecer que minha posição é totalmente contrária a esse tipo de estratégia, e vou explicar os motivos.

As crianças precisam aprender, na prática, que fazem parte de um grupo – o familiar – e que isso significa que elas têm um lugar nesse grupo e que, portanto, devem contribuir para sua manutenção e dinâmica. É no fato de pertencer a uma família – o primeiro grupo social de sua vida – que a criança aprende a conviver, a cooperar, a respeitar, a dar valor ao grupo e não apenas a si. Do mesmo modo, aprende a cuidar de si e dos outros e a se comunicar com eficiência. Chamamos esse processo de socialização.

Pois bem: o fato de pertencer a uma família e participar ativamente de sua vida faz com que a criança perceba que isso acarreta em direitos e deveres de todos para com todos, não é verdade? Os pais têm seus deveres para com os filhos e a manutenção familiar quase que integralmente quando a criança é pequena, mas à medida que ela cresce eles devem passar a ela seus deveres também. Entre estes, está a contribuição com as tarefas domésticas para que a vida de todos flua melhor.

Claro que isso só pode ocorrer quando a criança passa a ter condições para tanto. Por exemplo: os menores de seis anos não podem ser responsabilizados pela organização de nada, inclusive de seus brinquedos. Para que aprendam a cooperar, eles devem ser chamados pelo adulto a ajudar na tarefa. Já a partir dos seis, mais ou menos, a equação deve ser invertida: a criança deve ser responsabilizada pela tarefa, mas precisa contar com a ajuda do adulto. É a partir dos 11, 12 anos, mais ou menos, que o filho pode fazer tudo que aprendeu antes sem a ajuda dos adultos, mas ainda com sua tutela, ou seja, orientação, cobrança etc.

Quando pagamos pelas tarefas que os filhos deveriam fazer como dever, a mensagem que passamos é a de que eles não têm obrigação de contribuir com a família e, portanto, só assumirão essa responsabilidade por interesse pessoal. Fica excluída a idéia de família como um grupo de pessoas interdependentes, não é?

Além disso, tal atitude por parte dos pais leva também o filho a valorizar mais os bens materiais do que as relações interpessoais.
 
Outras coisas, além dessas, são ensinadas aos filhos ao se usar tal estratégia, mas por hoje ficaremos com essas. Esperarei as contribuições de vocês para, se for o caso, prosseguir com essa análise.

Que a semana seja boa para todos nós.


 

Escrito por Rosely Sayão às 13h04

A violência mora ao lado

Vivemos na cultura da violência, e tal fato afeta profundamente a formação dos mais novos. Todos os pais tomam medidas que miram à segurança dos filhos e transmitem, nas entrelinhas, lições nem sempre benéficas sobre a vida em comum. Muitos, por exemplo, não permitem que os filhos andem ou usem transporte público até a escola. Do mesmo modo, só deixam que eles freqüentem locais que consideram seguros, como clubes, festas em casa de colegas, shoppings etc.

O que os mais novos aprendem com isso? Que as pessoas que freqüentam esses locais são ou ameaçadoras, no caso dos impedimentos, ou amigáveis, no caso das autorizações. Pois um acontecimento que envolveu um grupo de adolescentes de classe média é exemplar para mostrar os equívocos cometidos com boas intenções -como quase sempre, é claro.

Um grupo de amigos, todos por volta dos 14 anos, encontrou-se num shopping de uma região nobre da cidade. Muitos pais autorizam que seus filhos façam tal programa por achar que lá eles estão seguros. Por quê? Porque os shoppings têm um serviço de segurança e porque os freqüentadores costumam ter o mesmo estilo de vida, pois pertencem ao mesmo grupo social.

Grande engano.

Em certo momento, o grupo foi abordado por outro grupo composto por jovens um pouco mais velhos. No confronto público, garotas e garotos foram humilhados, agredidos moral e fisicamente e obrigados a fazer coisas que não queriam.

O confronto tinha o objetivo de criar uma hierarquia social pelo uso da violência, ou seja, identificar quais eram os fortes e os fracos entre os que compartilhavam o mesmo espaço público. E atenção para um detalhe sério: muitos adultos estavam no entorno e nenhum deles tomou uma única atitude.

Que reflexões esse lamentável caso pode provocar? De largada, que a violência está tão banalizada que nem sempre percebemos que ela está instalada também no grupo social que freqüentamos e inclusive em nosso próprio comportamento. É a isso que chamamos cultura da violência, e cada um de nós tem suas responsabilidades em relação a ela.

Precisamos considerar, na educação familiar e na escolar, a importância da valorização da paz. Aliás, educar para a cidadania e para a paz são expressões muito utilizadas por pais e por educadores profissionais, mas carecem de sentido na prática.

Se hoje temos crianças e jovens que praticam violências cotidianamente é porque temos falhado nesse tipo de educação. A educação para a cidadania começa com alguns valores: os de justiça, solidariedade e respeito; a negociação pacífica de conflitos também deve ter lugar de realce. A escola do seu filho contempla, na prática cotidiana, essas questões? E na família, como agimos em relação a elas? Precisamos lembrar que é participando da vida familiar e escolar que os mais novos apreendem os princípios que norteiam nossa prática de vida.

E é por isso que repetem, a seu modo, certos comportamentos aprendidos ou não contidos.


 

Escrito por Rosely Sayão às 13h41