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O Mundo Adulto em Miniatura

Li um artigo do Sérgio Dávila na Revista da Folha de 06/04 e que está publicado no blog - http://sergiodavila.blog.uol.com.br/ - que me levou a fazer algumas associações interessantes. No artigo, ele conta a tendência de, nos EUA, crianças serem acusadas de assédio sexual.

Cada vez mais, percebemos esse movimento, creio que global, de o mundo adulto tratar as questões da infância à sua moda. Isso significa tratar a criança como se ela fosse a miniatura do adulto.

Quais seriam as causas dessa tendência? Certamente devem ser várias, mas destaco uma delas, que nos interessa em nossas reflexões: a ocupação exagerada do adulto consigo mesmo e com seu mundo. Então, se a criança exige muito do adulto, a melhor maneira de evitar tal trabalho sem dúvida é fazer com que ela cresça rapidamente. E assim temos feito.

Aqui no Brasil, ainda não tenho conhecimento de casos em que crianças são acusadas formalmente de assédio sexual. Mas, conheço muitos professores que pensam de modo muito parecido quando crianças se tocam, se exploram mutuamente, procuram ver os genitais dos colegas etc.

Sei também de casos que ocorrem em escolas – como brigas, por exemplo - e que acabam na polícia. E não estou me referindo aos jovens que freqüentam o segundo ciclo do ensino fundamental ou mesmo o ensino médio e sim a crianças do primeiro ciclo do fundamental, portanto com menos de 10 anos. Quer dizer: no lugar da educação, colocamos a polícia. No lugar da dedicação, colocamos a omissão.

Essas são apenas algumas amostras das conseqüências que podemos ter ao tratar crianças como se elas tivessem todos os recursos que os adultos têm – e que muitas vezes não têm – como autonomia, autocontrole, domínio de seus impulsos socialmente inaceitáveis etc.

Recomendo, para quem ainda não teve a oportunidade de conhecer, o livro “O Senhor das Moscas” ou o filme nele baseado, com o mesmo nome. Ele é magistral ao mostrar o que ocorre com crianças que convivem sem a intervenção dos adultos, ou o que ocorre no mundo adulto quando este se encontra infantilizado.

Aliás, tenho pensado muito nisso também: será que tratamos as crianças como adultos porque queremos o lugar de criança para nós?

 

Escrito por Rosely Sayão às 12h03

Tragédias na mídia

Nas últimas semanas, temos sido bombardeados, por todas as mídias, por notícias que revelam violências contra crianças praticadas possivelmente por adultos próximos a elas. É uma criança torturada aqui, outra ali, outra que morre lá e assim por diante. E não podemos esquecer que as crianças, hoje, têm acesso a todos os veículos de comunicação e recebem essas informações.

Que sentidos elas dão a esses fatos? Tomemos dois exemplos que chegaram a mim. Uma criança, de oito anos, perguntou à mãe se o pai poderia matá-la quando ficasse muito bravo. Outra, um pouco mais nova, perguntou se iria ficar de mãos amarradas quando fosse ao castigo. Certamente, muitos leitores devem ter passado por experiências semelhantes com seus filhos e seus alunos.

As crianças estão angustiadas com tais notícias porque identificam nelas que os adultos próximos, ao invés de de protetores, podem ser ameaçadores. Justamente aqueles em quem elas depositam a maior confiança se revelam, nas notícias, suspeitos de agir de modo contrário. E agora?

Agora, mais uma parte da infância de nossas crianças fica comprometida, fato cada vez mais banal. Mas será que não se pode fazer nada? Sim, podemos e devemos fazer algo por elas, que, sozinhas, não conseguem entender e expressar toda a angústia que as invade.

A maioria das escolas costuma ignorar o fato de que seus alunos sabem dessas notícias e continuam seus trabalhos como se nada de excepcional ocorresse. Pois todas elas têm recursos para, de alguma maneira, tratar dessas questões. É um bom momento, por exemplo, para oferecer aos alunos, nas aulas de expressão artística, estratégias para dar forma ao que eles imaginam, sentem e pensam sobre tais fatos.

O simples fato de colocar de modo simbólico sentimentos e angústias já aponta pistas sobre outras formas de trabalhar o tema. Depois, é importante que se fale a respeito, sem psicologismos nem interpretações leigas, para que, coletivamente, eles se sintam acolhidos em suas preocupações e aprendam sobre os direitos das crianças e dos adolescentes e os valores sociais da justiça e da responsabilidade com o bem comum.

Para os pais, esse é um bom momento para oferecer aos filhos mais segurança em relação aos vínculos familiares e dar maior relevância aos valores morais e éticos. É muito importante, por exemplo, afirmar que a família ama e respeita a vida, que nenhuma violência deve ser aceita pelos integrantes do grupo familiar, que casos como os noticiados são exceções -apesar de tanto alarde-, que os impulsos agressivos podem ser controlados e, também, estabelecer um diálogo a respeito das opiniões dos pais e dos filhos sobre esses fatos.

Todas as tragédias servem para nos fazer refletir sobre a humanidade e o nosso cotidiano. Por isso, é importante que os adultos pensem a respeito das pequenas violências, simbólicas ou reais, que o mundo adulto comete contra os mais novos. Afinal: nossas posições demonstram que somos a fim deles ou que estamos mais para ser o fim deles?


 

Escrito por Rosely Sayão às 13h21
Cuidados com a saúde dos filhos adolescentes

“Tenho 14 anos e faço 15 este ano; comecei a me envolver com mulheres a partir dos 12,13 anos e transei a primeira vez com 12 anos, sendo que a mulher tinha 21. Depois disso, demorou um tempo até eu me envolver com a mesma mulher. Não transei com mais nenhuma mulher e só fiquei me masturbando e algumas pessoas falam que o peito cresce quando o homem se masturba. E é o que está acontecendo: meu peito está igual a um peito de garota  e eu estou muito preocupado com isso, pois sou alvo de chacotas. Peço a vocês que me ajudem, por favor: preciso saber se isso tem algum tipo de tratamento e qual tipo de médico devo consultar. Isso me constrange muito, pois não posso tirar a camisa perto de meus colegas, não posso ir a clubes ou freqüentar praia por causa de meus peitos tão grandes.”

Já comentei com vocês que muitos adolescentes freqüentam o nosso blog e enviam perguntas. A mensagem acima me chamou muito a atenção e decidi comentá-la porque isso pode ajudar nosso jovem leitor e os pais que têm filhos adolescentes.

Primeiro, é importante saber que a primeira experiência sexual vem ocorrendo cada vez mais cedo. Isso deve servir de alerta aos pais, já que conheço muitos que não acreditam que o filho ou a filha, nessa idade, possa ter esse tipo de vivência. Temos a tendência a achar que isso só acontece com os filhos dos outros, não é verdade?

E por que os pais precisam saber disso? Para tomar ciência de que esse fato demanda mais cuidados, mais orientações e mais conversas com os filhos, e não apenas sobre a sexualidade, mas também sobre afetos, comprometimento e respeito consigo mesmo e com os outros. É preciso considerar que este nosso tempo demanda uma educação afetiva também. Falaremos disso em outra oportunidade.

Hoje, quero ressaltar o sofrimento dos jovens com as rápidas mudanças do corpo que ocorrem nessa idade. Vejam que o acesso à informação não basta: certamente nosso jovem leitor teria a possibilidade de encontrar facilmente – inclusive na internet – a explicação de que o crescimento das mamas nos meninos não tem relação alguma com a masturbação. Acontece que ele precisa é de alguém que respeite como autoridade no assunto e, nesse caso, uma consulta com um médico especializado ajudaria muito.

Quando nossos filhos nascem, temos o hábito de levá-lo ao médico pediatra com regularidade para checar e aplicar as vacinas necessárias, acompanhar o desenvolvimento do organismo e suas adaptações etc. Pois o adolescente precisa do mesmo e isso é importante inclusive para que ele passe a assumir o cuidado com a própria saúde, que chamamos de autocuidado.

Como o desenvolvimento nessa fase da vida é peculiar, há uma especialidade da medicina dedicada ao atendimento dos adolescentes chamada hebiatria. Muita gente ainda não conhece essa especialidade e leva os filhos adolescentes ao pediatra ou a um clínico geral de adultos. O jovem pode ficar pouco à vontade ao se consultar com um médico cuja especialidade é o atendimento de crianças, não é verdade? Por isso, levar o filho logo no início da puberdade – o que tem ocorrido perto dos 11 anos – a um hebiatra e deixar que os dois se entendam sozinhos pode ser uma boa atitude dos pais já que colabora para o bem-estar dos filhos e também no processo da conquista de autonomia deles.

Farei, em breve, uma entrevista com um hebiatra para que os pais conheçam melhor esse ramo da medicina.

PS: a área de tecnologia do UOL já está verificando o problema que vocês relatam. Espero que seja resolvido brevemente!

 

Escrito por Rosely Sayão às 09h43
A sociedade do espetáculo

"BEM-VINDA à nossa comunidade!". Essa saudação me foi dirigida logo na porta de entrada da Paróquia Nossa Senhora da Candelária por uma senhora que trajava uma camiseta que a identificava como integrante do grupo deapoio da igreja.

Às 19h, o local já estava lotado de pessoas vestidas com simplicidade, muitas com camiseta com a foto de Isabella. Mal consegui dar dois passos para entrar e assistir à missa de sétimo dia dedicada a Isabella e outras cinco pessoas. O ar estava abafado apesar de, lá fora, estar frio. Fiquei na porta.

Perguntei à senhora que me recebera se ela conhecia a maioria das pessoas que lá chegara. Ela respondeu que não, que cerca de metade delas freqüenta a igreja, mas que, com o anúncio da missa pela TV, muitos vizinhos haviam ido para lá para, quem sabe, "ter a chance de aparecer nos canais de TV que estão aí" -jornalistas de rádio, emissoras de TV e da imprensa estavam lá em peso.

O padre começa a missa pontualmente, não sem antes exigir que todos da mídia se concentrassem no local reservado. Pelo lado de fora da igreja, cheguei à frente. De lá, vi o altar repleto com crianças que brincavam, corriam, conversavam. Pais as fotografavam.

Passei a sentir um mal-estar. Olhava para o público e não identificava expressões visíveis de dor, sofrimento, indignação, espanto. Foi mais resignação o que vi estampado nos rostos presentes. Alguns choram silenciosamente. Os demais cantam, batem palmas, oram.

A comunhão ocorre enquanto uma jornalista escova os cabelos e ensaia a entrada que fará ao vivo. Cerca de oito metros atrás dela está a mãe de Isabella, logo na primeira fila. Terminada a comunhão, a repórter celebra com a "câmara-woman" o êxito de sua participação no noticiário da emissora.

Assim que o padre termina a missa, todos os jornalistas com suas câmaras, microfones, telefones celulares ligados e luzes fortes correm e rodeiam a mãe de Isabella. De longe, me coloco no lugar dela, aprisionada pela sociedade do espetáculo a qualquer custo, e me entristeço.

Saio carregando meu mal-estar, minha tristeza e a idéia de que o sofrimento de nossa gente é tamanho que talvez nem seja possível sofrer mais quando ocorre uma tragédia. Tempos desumanos e de barbárie este que vivemos, não?

PS: Fui à missa a pedido da Folha para escrever este depoimento, que foi publicado hoje no caderno Cotidiano.

 

Escrito por Rosely Sayão às 11h41

Comunicação com os filhos

Um fenômeno bem interessante tem ocorrido nas relações entre pais e filhos. Trata-se da dificuldade que muitos pais experimentam para conversar com os filhos sobre alguns fatos da vida deles -fenômeno que ocorre principalmente a partir da adolescência.

Primeiro, vamos entender como essa comunicação ocorre no início da vida das crianças. Alguns pais conversam com seus filhos pequenos como se eles já fossem adultos. Isso significa ignorar que eles têm uma visão especial do mundo, que é fantástica e imaginativa. A fala dos adultos, racional e objetiva, é mais um fator a arrancar a infância das crianças.
 
Assim, muitas crianças pequenas são obrigadas a enfrentar conversas cheias de detalhes do universo adulto que não entendem ou entendem de modo muito peculiar. Só para exemplificar: pais que se separam, cheios de boas intenções, tentam explicar os motivos do rompimento e terminam por expor detalhes do relacionamento que a criança não deveria saber. Um garoto de quatro anos, ao ouvir uma história de fadas, comentou que o pai não morava mais com a mãe porque este havia sido enfeitiçado por uma bruxa e era prisioneiro dela. Esse é o mundo infantil, é assim que a criança tenta entender o que ocorre à sua volta.

Bem, os filhos crescem e, aos poucos, passam a se relacionar com o mundo como adultos. É uma aprendizagem, por isso precisam da orientação dos pais. É aí que a coisa pega, porque muitos pais criam um conflito: deixam que os filhos tenham vida de gente grande, mas se comunicam com eles como se eles fossem crianças.

Vejamos alguns exemplos. Uma mãe soube, pela amiga da filha, que ela havia experimentado maconha e não teve coragem de abordar o assunto com a garota. Outra mãe constatou que o filho trazia da escola objetos que não eram dele e optou por levar o menino, de 13 anos, para um tratamento psicológico porque não conseguiu falar com ele sobre o tema. Um casal viu, num site de relacionamentos, que o filho se referia às mulheres de modo preconceituoso e ofensivo, mas preferiu não dizer nada ao filho.

Nos casos citados, os pais ficaram melindrados para conversar com os filhos. E, em todos eles, os adolescentes já tinham condições de enfrentar um diálogo franco e arcar com as conseqüências de seus atos.

Aliás, todos eles precisavam da orientação dos pais, não é? Os filhos têm o direito de saber o que os pais sabem sobre a vida deles e também o de ouvir a opinião dos pais sobre o que fazem e como vivem. Só tendo uma relação transparente com seus responsáveis eles aprenderão a agir da mesma maneira na própria vida. Afinal, o que se opõe à conversa franca e aberta com o maior interessado, que é quem toma determinada atitude, é a fofoca, não é?


 

Escrito por Rosely Sayão às 11h51