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Criança precisa de oportunidades para brincar

“Meu filho tem dois anos e meio e não fala, chora para tudo, ao levá-lo no parquinho ele não quer saber de aprender a ficar nos brinquedos, não sobe em triciclos, etc. Eu acho que ele fica muito tempo na frente da TV. Seria o caso de colocá-lo na escolinha? Já marquei uma consulta em um médico para saber se há problemas.”

Uma freqüentadora aqui do blog enviou a questão acima que merece nossa colaboração.

Bem, a primeira coisa que ela nos diz é que sabe que o filho passa muito tempo vendo TV, o que pode atrapalhar a vida da criança. Não podemos deixar de reconhecer que a televisão é hipnótica para a criançada e faz com que elas passem horas e horas sem querer fazer outra coisa.  Vale lembrar que a criança brasileira é uma das que mais horas de televisão assiste, não é?

Então, a primeira coisa a fazer é tirar esse recurso dele. Como ele já está bastante acostumado, talvez seja melhor tirar aos poucos, ou seja, limitar o tempo da TV ligada um tanto por vez. Mas, como o comportamento humano é imprevisível, não custa tentar tirar de uma vez só e ver o que acontece.

Por que será que o garoto não quer brincar? Arrisco alguns palpites: porque ele não sabe e aprender é angustiante; porque aprendeu a viver passivamente e brincar requer atitude, ação, decisão; porque isso ainda não faz parte do mundo dele, ele não reconhece o prazer e a satisfação que provoca.

Então, o que nossa leitora deve fazer é oferecer mais oportunidades para que ele brinque em casa, ambiente que ele conhece como aconchegante e seguro antes de partir para os brinquedos do parque. Oferecer oportunidade para brincar é simples e nem requer brinquedos. Aliás, melhor não ter brinquedo com função e forma já estruturadas: água em balde ou bacia e vários vasilhames de tamanhos diferentes, barro, tampas de panela, enfim, quaisquer objetos que não ofereçam risco para uma criança dessa idade.

É assim que a criança coloca em ato sua imaginação e inventividade e amplia seus horizontes e sua relação com o mundo: brincando.

Quanto ao fato de chorar e não falar é importante que as mães saibam que esse tipo de comportamento é um recurso que a criança aprende nessa idade, ou seja, de alguma maneira o choro dele provoca as reações que ele demanda, então chorar passa a ser um bom negócio, não é verdade?

Criança pequena exige muita paciência dos pais e dos adultos que com ele convivem e para isso é preciso ser incansável, sensível e ter muita disponibilidade interna. Por isso, toda a força para nossa colega deste espaço virtual.

PS: não sei se vocês exploraram o portal de curtas que indiquei abaixo. Vale a pena porque tem muita coisa boa. Há, por exemplo, um curta chamado “A velha a fiar”, que é uma canção chamada acumulativa porque a cada estrofe um elemento novo é adicionado. O vídeo é feito em preto e branco – ótimo para criança pequena – e tem uma estética que não retrata nossa realidade urbana, o que em geral chama muito a atenção da criançada. Recomendo para nossa leitora e seu filho.

Escrito por Rosely Sayão às 17h59

Sugestão para o Fim de Semana

Alguém falou a respeito de trabalho infantil e esse não é um assunto simples de se entender no mundo atual. Para começo de conversa, é preciso buscar compreender o que significa ser criança no mundo contemporâneo.

Para tanto, recomendo um Curta-Metragem ótimo, o "A Invenção da Infância", da diretora Liliana Sulzbach, que permite excelente reflexão a esse respeito. O link para assistir é:

http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=672

Bom fim de semana a todos!


 

Categoria: Filmes e Livros
Escrito por Rosely Sayão às 15h29

Princípios e valores

Uma mãe quer saber se deve ou não permitir que sua filha, de nove anos, viaje com a família de uma colega num fim de semana. Ela diz que a garota nunca fez isso antes e que ela considera precoce esse passeio mais longo sem a família, mas que está em dúvida porque muitas crianças da mesma idade já fazem isso. Outra leitora indaga a melhor idade para colocar o filho, de cinco anos, em aulas de outro idioma e conta que ela mesma, fluente em inglês, começou a estudar depois dos 12 anos, mas que agora percebe que a criançada já começa bem mais cedo.

Um pai diz que o filho de 15 anos leva a namorada para dormir em casa e que ele fica constrangido com a situação, mas acredita que, se impedir, vai se afastar do filho. Finalmente, um outro leitor afirma que quer ensinar valores aos filhos, mas, ao mesmo tempo, considerando o clima competitivo de nosso tempo, quer saber como ensinar que há momentos em que é preciso abrir mão desses valores para não ser ingênuo.

O mundo contemporâneo tornou a educação uma tarefa muito mais complexa. Até o final da década de 50, a maioria não enfrentava questões como as citadas e tampouco tinha de tomar diariamente decisões sobre o tipo de educação a praticar com os filhos. A educação era uma só, os rumos faziam parte de um grande consenso social e assim caminhavam os pais, sem grandes conflitos. Vale dizer que pais e filhos sofriam muito mais, já que eram tão diferentes e tinham de se ajustar a um rumo comum.

Hoje, os pais ganharam a liberdade da escolha sobre como educar seus filhos e, por outro lado, assumiram também uma responsabilidade muito maior por eles. Afinal, cada escolha feita produz efeitos significativos na vida dos filhos, já que estes estão em formação.

Vale refletir a respeito das dúvidas dos pais. À primeira vista, todas parecem questões práticas sobre como agir. Mas cada uma delas guarda em si conteúdos bem mais amplos, que tratam de moral, ética, conceito de infância, limites entre privacidade e convívio social e relação entre pais e filhos.

E talvez esse seja o nó da questão da educação contemporânea que os pais podem desatar ou, ao menos, afrouxar: ao educar os filhos, precisam ter clareza de alguns princípios dos quais não abrem mão e, a partir desse norte, tomar as decisões sem se importar tanto com as decisões dos outros pais. Afinal, já que temos a oportunidade hoje de ter a riqueza da diversidade em educação, há que se aprender a conviver com ela, não?

Pensando assim, a mãe cuja filha pede para viajar sem a família precisa é pensar no conceito de infância que quer garantir para a filha, tanto quanto a mãe que se preocupa com o ensino de línguas; o pai que se sente constrangido com a intimidade do filho em casa precisa considerar como colaborar para fazer a passagem do filho para a maturidade e, finalmente, o que se preocupa com os valores precisa refletir se quer dar uma educação moral de ocasião ao filho ou se quer mesmo é ensinar que os valores fazem parte de um ideal de vida e que, portanto, exigem fidelidade.

"O que quero ensinar aos meus filhos, priorizar na educação deles?" Essa é a questão que os pais devem se fazer quando enfrentam situações que demandam decisões. Afinal: de festas, namoros, aprendizados diversos etc. eles terão muitas chances para desfrutar, mas da educação familiar, só enquanto estiverem sob a tutela dos pais. E esse tempo é curto, acreditem.


 

Escrito por Rosely Sayão às 10h57
Com açúcar e com afeto

A Diana, ao comentar o post anterior, escreveu: “Cozinhar não é a minha especialidade e confesso que, às vezes, opto por ir a algum restaurante nos fins de semana. Não tenho nenhuma criatividade na arte culinária. Será que alguém pode me ajudar?”.

Quem leu minha biografia aqui no blog constatou minha paixão pela cozinha. Mas entendo muito bem quem não tem afinidade com o ato de cozinhar porque, por muito tempo, eu não a tive também. Aprendi a cozinhar por necessidade de sobrevivência quando deixei de morar na casa de meus pais para cursar a faculdade. E não foi amor à primeira vista não: só muito mais tarde é que aprendi a gostar. Foi amor cultivado. Sabem a partir de quando? Depois que meus filhos nasceram. E vou contar a associação que fiz então entre cozinhar e educar.

Eu já era psicóloga quando tive meus filhos e constatei, na prática, que educá-los era algo que eu não sabia, mesmo conhecendo psicologia e educação. Fui aprendendo na prática e com a experiência. Uma noite, ao chegar exausta do trabalho e ter de administrar a convivência entre eles e o preparo do jantar, tive a idéia de envolvê-los na função apenas como entretenimento e distração para eles. E ao observar a curiosidade e deles com a atividade e o gosto em comer algo feito pela mãe – e que eu nem considerei tão gostoso, devo confessar – fiquei emocionada.

À noite, depois que eles foram dormir, lamentei não ter talento para arte culinária porque senti muita vontade de fazer coisas mais gostosas para eles. Eu acreditava que, para cozinhar bem, era necessário um dom especial e muito conhecimento especializado. Foi nessa hora que associei a arte de cozinhar com a de educar. Pensei que, se todo mundo podia se transformar em mãe e pai e educar bem seus filhos sem nenhuma experiência anterior nem curso, o mesmo poderia acontecer com o ato de cozinhar. E tratei, então de me aventurar e de experimentar na cozinha da mesma maneira que estava fazendo na educação.

Diana: assista, com seus filhos, ao filme “Ratatouille”, se ainda não o fez, e aprenda com ele uma lição: “todo mundo pode cozinhar”, assim como todo mundo pode educar bem seus filhos. E lembre-se que para cozinhar, tanto quanto para educar, é preciso ser generoso – gastamos muito de nosso tempo com o outro –, corajoso – enfrentamos frequentemente situações difíceis e críticas que dão medo -, paciente, persistente e tenaz - estamos sempre sob pressão nessas atividades.  Ah: e principalmente saber que exercemos um trabalho árduo em que podemos errar e que teremos de refazer todo santo dia, de outro modo.

Como é possível se apaixonar por atividades desse tipo, que exigem muito compromisso e disponibilidade pessoal? Como eu não sei, mas que é possível, eu sei que é. Coragem e boa sorte – que, aliás, ajuda muito em ambas as atividades - à Diana que, neste post, representa muitos outros internautas e amigos virtuais.


 

Escrito por Rosely Sayão às 22h07

Sabor de infância

Recentemente, li um artigo do chef Massimo Bottura -que trabalha e reside em Módena, Itália- em que ele diz que, para criar seus pratos, recorre ao banco de memórias dos sabores de sua infância. Ele afirma que as novidades da comida de vanguarda ainda não são para todos e que a melhor atitude para permitir sua apreciação é despertar a curiosidade das pessoas desde a infância. E, diz ele, nisso os jardins-de-infância de Módena são um exemplo, já que oferecem um menu variado de comida italiana e internacional aos alunos.

Essa região da Itália, chamada Emilia-Romagna, é rica não só em gastronomia, mas também em educação. É em Reggio Emília, cidade vizinha a Módena, que está o que é tido como o melhor projeto em educação infantil do mundo.

Estive lá e me deliciei com a preparação do almoço das crianças. Elas mesmas colocam a mesa, tuteladas pelos adultos, é claro. E sabem preparar a mesa até para as situações mais formais. Na hora do almoço, divertem-se, compartilham, experimentam quase tudo sem fazer drama. É que alimentação, como disse o chef italiano, "não é matemática, é emoção".

Já acompanhei a hora do lanche na educação infantil em várias escolas de São Paulo. As lancheiras estão sempre recheadas de produtos industrializados. A quantidade de crianças que leva um lanche preparado carinhosamente em casa é mínima. E não me refiro aqui à questão nutricional, e sim ao aconchego que pode significar a alimentação para a criança.

É a mãe que dá o melhor alimento ao filho quando ele nasce: o leite materno. E, quando o bebê é alimentado, não é só a fome do estômago que é saciada: é também a de carinho. É assim que nasce a sensação de prazer, e não só a de satisfação de uma necessidade, a alimentar.

É esse o modelo que poderia ser mantido à medida que a criança cresce, mas parece que, no mundo atual, a alimentação se transformou em consumo apenas ou, então, em questão nutricional. E dá-lhe comida balanceada ou industrializada!

Não vale dizer que hoje os pais não têm tempo para preparar o lanche do filho, já que essa tarefa demanda um mínimo de tempo, mas muito de dedicação. E é nessas situações simples que os pais podem expressar sua afetividade. Preparar um lanche inusitado ou um almoço acompanhados pelos filhos são situações que vão construir a memória de sabores e afetos da criança. Essa mesma memória que o chef italiano usa para criar seus pratos.

Muitos pais que preferem ir a restaurantes com os filhos nos fins de semana o fazem por considerarem trabalhoso fazer comida em casa. E não é trabalhoso ir ao restaurante? Certamente é. Envolver os filhos nas delícias da transformação de alimentos em comida gostosa para ser compartilhada é simples e fácil: basta ter coragem e disponibilidade. O resultado é visível: as crianças ficam bem mais tranqüilas e felizes.

Gastronomia e educação têm muito em comum: ambas exigem paciência e persistência, dedicação e disponibilidade, rigor, atenção aos detalhes e respeito à tradição, trazendo-a ao tempo presente.

 

Escrito por Rosely Sayão às 11h53
Direito de conviver com os pais

“Olá! Tenho 22 anos e um bebê de oito meses. Trabalho durante o dia e faço faculdade à noite. Tenho pouco tempo durante a semana com meu bebê, mas isso ainda não é problema. O que me deixa confusa é o seguinte: não tenho um bom relacionamento com o pai do meu filho. Sei que ele não será uma boa influência para ele. Mas, ao mesmo tempo, sei que não posso impedir o contato deles. O que eu faço, como devo agir?”

Escolhi esta mensagem para comentar porque tem sido cada vez mais freqüente essa idéia, para algumas mães, de que o convívio com o pai poderia ser prejudicial para a criança. Os motivos que as mães levantam são os mais variados possíveis para usar essa argumentação, e vou citar alguns: o de que o pai não tem paciência, que não presta atenção ao filho, que é preconceituoso com alguns assuntos, que ingere bebida alcoólica, usa linguagem chula, é agressivo etc.

Bem, antes de tudo vamos lembrar que são bem raros os casos em que é desaconselhável o convívio estreito entre pais e filhos. Tais casos são bem graves e quase sempre terminam na justiça, o que, evidentemente, não é o caso nem dessa nossa leitora nem da maioria das mães que assim pensam.

De certa maneira, todos nós podemos não ser boa influência para os filhos já que humanos, somos cheios de defeitos, manias, cacoetes. E as crianças sabem enxergar como ninguém esses nossos traços. Mas, podemos ser, nesses aspectos, modelos de contra-exemplo, não é mesmo? Afinal, no decorrer da vida as crianças encontrarão, pelo caminho, pessoas com muitas características negativas e precisarão ter aprendido a se relacionar com elas sem se destruírem com isso.

Toda criança tem o direito de conhecer os pais, saber sua origem e de conviver com eles, sejam estes poços de virtudes ou de defeitos. Isso é mais importante do que ficar protegido dessas pessoas com suas características. Aliás, como gosto de afirmar, a ausência de palavras ou de pessoas que poderiam estar presentes prejudica mais a criança do que o convívio com elas, mesmo que isso provoque certo sofrimento.

Tive a oportunidade de acompanhar por um período várias mães que pensavam como essa nossa leitora e, após algumas conversas, elas chegaram à conclusão de que a idéia de afastar o filho do pai tinha muito mais a ver com a relação com o ex-parceiro do que, de fato, com o pai da criança. E, mesmo reconhecendo os aspectos negativos da relação do filho com o pai, não interferiram mais no processo e isso permitiu que ficassem mais em paz consigo mesmas e, portanto, com os filhos também.


 

Escrito por Rosely Sayão às 11h02