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Filhos: propriedade privada?

Duas notícias ligadas à educação escolar dos filhos chamaram atenção nas últimas semanas. Na primeira, foi divulgado que um casal responde a dois processos na justiça por praticar com os filhos o método chamado "escola em casa", conhecido em vários países, principalmente nos EUA, mas proibido no Brasil. A segunda informou que um garoto de apenas oito anos passou no vestibular de um curso universitário.

Em ambos os casos, os pais lutam pelo que consideram um direito. Os primeiros querem continuar com a educação escolar dos filhos em casa, já que, do ponto de vista deles, o resultado tem sido excelente. O que eles consideram prova disso é o fato de os filhos de 13 e 14 anos terem sido aprovados em exame vestibular com excelente classificação. Os segundos lutam para que o filho possa freqüentar o curso em que foi aprovado, situação negada pela instituição universitária.

A primeira questão que essas notícias levantam é sobre a função da escola. Pelo jeito, os pais não estão muito confiantes em delegar a essa instituição a educação dos filhos. Aliás, parece mesmo que o trabalho da escola ficou reduzido ao ensino do conhecimento necessário para ser aprovado no vestibular, e alguns pais acreditam que fazem isso melhor do que a escola. Mas será só isso o que a escola deve proporcionar?

A criança deve freqüentar a escola por vários motivos. Um deles é que ela precisa, para se tornar um sujeito livre e autônomo, libertar-se da família. A ligação amorosa entre pais e filhos precisa terminar em separação para ser considerada exitosa, e a escola é a instituição que faz melhor a transição da família para o mundo, como diz de maneira especialmente feliz a pensadora Hannah Arendt.

Deixar de pertencer só a um mundo em que as relações se originam na rede privada de convivência e passar a integrar um grupo maior, diverso e impessoal faz parte do aprendizado da cidadania. Respeito, justiça e solidariedade são valores que se aprendem na escola.

Em seu livro "O Valor de Educar", Fernando Savater afirma: "O sistema democrático tem de se ocupar do ensino obrigatório dos neófitos para assegurar a continuidade e a viabilidade de suas liberdades; isto é, por instinto de conservação. Educamos em defesa própria. Seus pais queiram ou não? Pois sim, queiram ou não. Os filhos não são propriedades dos pais, nem simples objetos para que estes satisfaçam suas veleidades, por mais amorosas que sejam, ou realizem experiências irrestritas... A criança vai à escola para se pôr em contato com o saber de sua época, não para ver confirmadas as opiniões de sua família".

A citação nos leva ao segundo ponto que as notícias levantam: muitos pais têm educado os filhos como se fossem sua propriedade. Não são: eles são os representantes de nosso futuro e dizem respeito a todos nós. Estamos todos implicados com fatos que levam crianças a serem impedidas de viver a infância até o fim e com atitudes que buscam evitar que elas enfrentem as dificuldades, os aprendizados e as frustrações que a vida escolar impõe.


 

Escrito por Rosely Sayão às 11h42
Viagem de formatura

Alguns internautas solicitaram abordar o tema das viagens de formatura. Apesar de, como observou uma leitora, eu já ter escrito sobre o assunto, vamos analisar sob outra perspectiva hoje.

Ante de tudo quero fazer um alerta aos pais e escolas: algumas – eu realmente não sei se algumas ou muitas – agências de turismo, que coordenam e organizam essas viagens, têm agido de modo nada adequado com os adolescentes. Algumas procuram saber quem são os alunos representantes ou líderes de sala e os aliciam – tanto no sentido de seduzir quanto no de oferecer suborno -  para que façam o trabalho de convencer os colegas a querer o passeio.

Os recursos que elas oferecem são, pelo menos os que chegaram ao meu conhecimento: dar brindes de todos os tipos, oferecer a viagem de graça para quem consegue  convencer certa quantidade de colegas a se inscreverem para a viagem, dar presentes e mordomias chamadas VIPs etc.  Quando não dão esse passo, os agentes esperam os alunos na saída da aula e chegam com um discurso pra lá de persuasivo e sedutor. Vamos falar a verdade: fica bem difícil confiar filhos a agências que agem dessa maneira com os jovens, não é verdade?

Outra coisa: os monitores são muito jovens. Quase tão jovens quanto os próprios estudantes. Segundo um funcionário de uma das agências, isso é muito bom porque eles têm energia suficiente para acompanhar a moçada que adora virar a noite acordada. Com monitores tão novos os estudantes ficam bem à vontade e quase sem contenção alguma para seus impulsos e tentações.

Agora, vamos pensar na viagem em si como comemoração do fim de um ciclo. Festejar a finalização de uma etapa nos estudos é bem interessante, quase um rito de passagem: despedida de pessoas que conviveram por vários anos, confraternização com professores, comemoração com a família que tanto colaborou nesse trajeto etc. Mas a viagem não promove nada disso: é uma festa apenas para os colegas. Que, por sinal, vão para a viagem a fim de farrear. E só.

Sabemos que os ritos de passagem são cerimônias que ajudam no crescimento e amadurecimento de jovens que vencem etapas na vida porque apontam o que está por vir e facilitam a transição. As viagens, do modo como têm sido programadas, parece que colaboram para que os estudantes só vejam o que acabou e queiram se esbaldar nisso. Está mais para despedida de solteiro, que faz o homem desfrutar sem medida tudo o que está a renunciar, não é mesmo?

Creio que essas viagens só fazem sucesso porque nossa sociedade simplesmente aboliu os ritos de passagem tão úteis aos mais novos. Talvez seja este um bom momento para repensarmos nosso papel nessa questão. 

Escrito por Rosely Sayão às 10h21

"Bullying" e incivilidade

O "bullying" não é um fenômeno moderno, mas hoje os pais estão bem preocupados porque parece que ele se alastrou nos locais onde há grupos de crianças e jovens, principalmente na escola. Todos têm receio de que o filho seja alvo de humilhação, exclusão ou brincadeiras de mau gosto por parte dos colegas, para citar exemplos da prática, mas poucos são os que se preocupam em preparar o filho para que ele não seja autor dessas atividades.

Quando pensamos no "bullying", logo consideramos os atos violentos e agressivos, mas é raro que os consideremos como atos de incivilidade. Vamos, então, refletir a respeito desse fenômeno sob essa ótica.

Por que é que mesmo os adultos que nunca foram vítimas de atos de violência, como assalto ou furto, sentem uma grande sensação de insegurança nos espaços públicos? Simples: porque eles sentem que nesses locais tudo pode acontecer. A vida em comunidade está comprometida, e cada um faz o que julga o melhor para si sem considerar o bem comum.

Outro dia, vi uma cena que exemplifica bem essa situação. Em uma farmácia repleta de clientes, só dois caixas funcionavam, o que causou uma fila imensa. Em dado momento, um terceiro caixa abriu e o atendente chamou o próximo cliente. O que aconteceu? Várias pessoas que estavam no fim da fila e outras que aguardavam ainda a sua vez correram para serem atendidas. Apenas uma jovem mulher reagiu e disse que estavam todos com pressa e aguardando a sua vez. Ela se tornou alvo de ironias e ainda ouviu um homem dizer que "a vida é dos mais espertos".

Essa cena permite uma conclusão: a de que ser um cidadão responsável e respeitoso promove desvantagens. É esse clima que, de um modo geral, reina entre crianças e jovens: o de que ser um bom garoto ou aluno correto não é um bem em si. Além disso, as crianças e os jovens também convivem com essa sensação de insegurança de que, na escola, tudo pode acontecer. Muitos criam estratégias para evitar serem vistos como frágeis e se tornarem alvo de zombarias. Tais estratégias podem se transformar em atos de incivilidade.

A convivência promove conflitos variados e é preciso saber negociá-los com estratégias respeitosas e civilizadas. Muitos pais ensinam seus filhos a negociarem conflitos de modo pacífico e polido, mas muitos não o fazem. É preciso estar atento a esse detalhe. Aliás, costumo dizer que é nos detalhes que a educação acontece. Faz parte também do trabalho da escola esse ensinamento.

Aprender a não cometer atos de incivilidade diminuiria muito o "bullying". Para tanto, não se pode abandonar crianças ou jovens à própria sorte: é preciso a presença educativa e reguladora dos adultos. Isso vale, principalmente, nos horários escolares em que o fenômeno mais ocorre: na entrada, na saída e no recreio.

Escrito por Rosely Sayão às 10h13
Os pais são a bússola dos filhos

“Tenho uma filha de cinco anos e muitas dúvidas quanto à sua educação. Por exemplo: ela está doida por essas sandálias de salto e eu sou terminantemente contra. Então, quando ela me pede e eu digo não explicando o motivo, ela questiona dizendo que a amiguinha tem. Eu explico que ela não é a amiguinha e que, quando chegar a idade certa, eu comprarei para ela. Algumas amigas dizem que sou radical. Apesar de não estar disposta a mudar minha conduta, confesso que fico preocupada: será que eu realmente não estou sendo radical? A mesma coisa acontece quando a proíbo de ver novelas de televisão e ela me diz que só sei dizer não para ela. Como saber se estamos no caminho certo?”

Escolhi a mensagem acima de uma leitora do blog para refletir por conter questões que frequentemente os pais enfrentam. Uma delas é justamente se perguntarem se não estarão sendo radicais em sua atitude educativa. Essa pergunta em geral surge pelos mesmos motivos de nossa leitora: pela reação dos filhos ou de amigos e conhecidos. Então, vamos pensar a esse respeito.

 De largada precisamos reconhecer que tanto a resposta “sim” quanto a “não” dadas às demandas dos filhos são radicais e excludentes e que não dar resposta alguma é abandonar a responsabilidade do papel educativo. Por isso, talvez não seja uma boa escolha refletir sob essa ótica. Pode ser bem mais interessante os pais pensarem em buscar coerência para analisar as atitudes educativas que tomam.

Vejamos os exemplos de nossa leitora: as sandálias de salto e as novelas não são adequadas a uma criança com cinco anos. O salto atrapalha bastante o desenvolvimento motor e a postura, segundo os médicos especialistas, além de aproximar a infância da idade adulta. As novelas contêm uma narrativa adulta, que muitas vezes pesa sobre a criança que ainda não sabe lidar com determinados assuntos, entre outras coisas. Assim, há uma coerência nas respostas que ela dá à filha: ela não quer queimar a etapa infantil da garota, o que considero bastante salutar.

Agora vamos tomar a última questão de nossa leitora: como saber se estamos no caminho certo quando tomamos uma atitude educativa? Bem, só há caminho certo se há um norte, correto? Então, os pais precisam escolher o seu norte, ou seja, os valores, princípios e virtudes dos quais não abrem mão. A partir dessas escolhas, fica mais fácil para eles avaliarem as atitudes que tomam, ou seja, saber se estão a orientar os filhos para o norte.

Por último, creio ser importante ressaltar uma questão: a educação que damos aos nossos filhos é a herança mais importante que deixaremos a eles. Entretanto, vocês sabem o que os filhos fazem com a herança que recebem dos pais quando chegam à maturidade: usam da maneira que julgam melhor para si. A isso damos o nome de liberdade de escolha.

Portanto, senhores pais, mesmo que vocês tomem uma atitude errada no presente, os filhos terão a oportunidade de corrigir no futuro. Afinal, apostamos neles, ou não?

Escrito por Rosely Sayão às 15h21