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Hora de ir à escola

"Qual é a melhor idade para colocar a criança pequena na escola? Será que meu filho já está preparado para essa atividade? Passar pelo conhecido sofrimento dos primeiros dias não será prejudicial para uma criança tão pequena? Será que a decisão que tomei foi a mais acertada para ela?"

Essas são algumas das muitas perguntas que devem acompanhar o sono ou a insônia de muitos pais que têm filhos com menos de três anos nesta época do ano. Como seria bom para eles se tivéssemos respostas para todas as questões. Mas eles sabem que não há certezas nem respostas certas para suas dúvidas. Mesmo assim, é possível refletir a respeito delas.
 
Já houve um tempo em que muitos profissionais, principalmente da área da saúde mental, não hesitariam em dizer que a melhor idade para a criança ser matriculada na escola seria em torno dos três anos. Aliás, até hoje alguns pesquisadores mantêm tal convicção. O que amparava esse princípio era a crença de que a criança, até os três anos, precisaria apenas do amor dos pais e de cuidados exclusivos para se desenvolver.Além disso, o aconchego de sua casa e a presença afetiva de pelo menos um parente seriam condições reconfortantes e estruturantes para o início da vida.

Sabemos que, com o atual avanço das ciências, é difícil encontrar consensos, mesmo no conhecimento sistematizado. Por isso, hoje não é simples afirmar o mesmo que décadas atrás -nem o contrário. Em resumo: não temos dados que garantam que, para o bom e saudável desenvolvimento da criança, o melhor seja que ela fique dentro ou fora da escola nos três primeiros anos de vida.

Isso quer dizer que são os pais que precisam analisar o contexto da vida familiar para fazer uma escolha criteriosa. O essencial é que os motivos da escolha tenham como referência a criança, e não os próprios pais. Mas o mais importante é que, tomada a decisão de forma sensata e consciente, os pais se sintam seguros dela.

Se há um fator que pode atrapalhar a ida da criança à escola na primeira infância é a ansiedade dos pais. Ela é passada para a criança, que percebe que algo não está bem, e isso gera conseqüências em seu humor e em sua possibilidade de desfrutar da nova situação e de desenvolver todo o seu potencial.

É sempre bom ressaltar que a criança sente tudo o que ocorre à sua volta. Claro que ela não consegue nomear os motivos do que sente, mas reage a eles. Desse modo, quando a criança vai para a escola e chora desesperadamente por muito tempo, ela expressa, quase sempre, a emoção ou a resistência que a mãe tem para deixar o filho.

É por isso que muitas escolas construíram um período inicial chamado de adaptação. Nesse espaço de tempo, a escola convida a mãe ou um responsável pela criança para acompanhar mais de perto sua iniciação no espaço escolar. Essa estratégia permite que os pais estabeleçam um vínculo de confiança mais sólido com a escola, porque observam de perto os cuidados que os profissionais têm com as crianças e as atividades que elas realizam e, desse modo, ficam mais seguras com sua decisão. Mãe segura resulta em criança tranqüila e livre para uma boa despedida, não é?

Quando uma criança resiste desesperadamente e com todas as suas forças a ficar na escola, o mais provável é que seus pais não estejam preparados para deixá-la, e não que ela não esteja pronta para esse período de separação.

Se pudermos tirar alguma conclusão a esse respeito, ela é simples: criança menor de três anos pode se desenvolver bem na escola, em casa ou com parentes. O que importa é que ela seja bem-cuidada, que o ambiente seja rico em afetos positivos e que seus pais tenham confiança nas pessoas que a acompanham.

 

Escrito por Rosely Sayão às 17h14
Fantasia de carnaval

Vocês tiveram a oportunidade de ler notícias nos jornais a respeito do sucesso que o personagem “Capitão Nascimento” do filme Tropa de Elite tem feito entre as crianças? Pois é: para o carnaval, é uma das fantasias em tamanho infantil que mais tem vendido - vejam só! -, isso sem falar dos gritos de guerra já bem usados por elas.

E dá para entender o motivo desse sucesso entre a criançada: o personagem passou a ter estatuto de herói para muitos adultos. Já vi vários deles – um andava pela cidade com o filho – vestindo camisetas com estampas relacionadas ao filme ou ao personagem e usando os jargões linguísticos que se tornaram mais populares; entre os jovens, então, nem se fala!

Vários pais me disseram que permitiram – alguns até estimularam – que filhos com menos de 14 anos assistissem ao filme. Quando questionei essa posição, eles contemporizaram: uma das mães me disse, inclusive, que a violência mostrada não afetara o filho, com nove anos, e que ele tinha achado bem legal o filme. Não duvido: afinal, criança ainda não tem discernimento para diferenciar o que é certo do que é errado.

Em situações como essas penso que nós, os adultos, enlouquecemos e estamos levando os mais novos junto nessa loucura. Como é que tornamos popular entre as crianças um personagem violento como esse e permitimos que nossos filhos cultuem certos comportamentos?

Não penso que isso aumenta a violência necessariamente, mas que a banaliza, disso não tenho dúvida alguma. Se de fato quisermos um mundo melhor para nossos filhos precisamos dar ao mundo pessoas melhores. Isso se consegue pela educação.

A violência, tão temida e criticada por nós, precisa ser combatida com coerência e indignação sempre, concordam? E isso precisa ser ensinado aos mais novos. Agora, se damos a eles fantasia de Capitão Nascimento, estamos ensinando o oposto. Desse jeito, logo compraremos os bonecos do personagem para dar de presente às crianças. Não duvido que ele já exista ou que esteja nos planos das indústrias de brinquedos porque, certamente, será um bom negócio...

PS: Passei um tempo sem postar porque estava “em reforma”. Tive vontade de mudar a linguagem do blog e, para isso, precisei estudar, pesquisar e rascunhar bastante. As reações de vocês me ajudarão a completar o trabalho e a melhorar nosso espaço.

Escrito por Rosely Sayão às 14h02

Brigas entre irmãos

Irmãos brigam, disputam, rivalizam, competem e se estranham com freqüência e as relações entre eles são, para muitos pais, motivos de preocupação. Parece que hoje, mais do que nunca, os pais querem fazer de tudo para que os filhos se dêem bem.

Dá para entender os motivos desses pais que almejam que seus filhos se amem e sejam companheiros. No contexto em que vivemos, com laços afetivos tão frágeis, a aliança entre irmãos parece ser a única que promete durar por toda a vida -e poderia ser, portanto, antídoto contra a solidão.

Por esse motivo, sempre que os irmãos brigam, os pais padecem. Eles esperam que, desde sempre, os filhos compartilhem tudo, cedam a vez com tranqüilidade, sejam solidários. Acontece que nada disso é natural -tudo precisa ser experimentado e aprendido.

Não é fácil para uma criança repartir, com os irmãos, o amor e a atenção de seus pais. Quando nasce, o bebê tem dedicação quase integral dos pais e logo percebe o quanto isso é bom. Ser o centro da vida dos pais é muito prazeroso e leva a um sentimento de posse. E perceber que é preciso compartilhar esse lugar com outros na mesma condição já não é tão bom. É por isso que, entre irmãos, sempre há ciúme e outras emoções hostis que levam a brigas, que são normais e saudáveis.

Nem sempre os pais aceitam e enfrentam tal fato com tranqüilidade. Hoje é muito mais comum os pais interferirem precocemente nessas desavenças. Mas é bom saber que isso pode ser um problema. Em primeiro lugar, porque interferir sem tomar partido é bem difícil, não é verdade? Em segundo lugar, porque o objeto da briga é, quase sempre, irrelevante e banal. O que está em jogo é mesmo o ciúme entre os irmãos, e isso sinaliza uma única coisa: que ambos amam seus pais e desejam ter o amor deles exclusivamente para si. Em terceiro lugar, porque as reações dos pais diante das brigas podem provocar o oposto do que eles gostariam: ressentimentos entre os irmãos.

Isso não significa que os pais devam se abster de qualquer interferência. Eles precisam, sim, intervir, sempre que a briga se tornar violenta -em palavras ou em atos. Os pais precisam é ensinar aos filhos que eles devem se respeitar. O amor fraterno pode surgir depois dessa aprendizagem.

A ação dos pais que observam as brigas entre seus filhos e só intervêm quando eles perdem o controle e o respeito possibilita que os mais novos aprendam que é possível expressar os conflitos sem medo de destruir o outro. Eles aprendem também a buscar saídas para seus enfrentamentos, ou seja, a negociar, a ceder e a conhecer seus próprios limites e os do outro. Isso não deixa de ser uma educação afetiva.

Para tanto, os pais precisam não se desesperar com as brigas, porque isso pode apontar que os irmãos são perigosos um para o outro. E isso pode colaborar para que, de fato, eles assim se tornem. O mais importante para os pais é que eles saibam que a relação entre os filhos pode mudar a qualquer momento e que as brigas fazem barulho, mas são intercaladas por bons momentos de convivência.


 

Escrito por Rosely Sayão às 13h50

Quem fala mais alto

Será que temos diminuído nossa capacidade auditiva? Parece que a cada dia precisamos falar mais alto. Não é de se estranhar, já que a poluição sonora dos centros urbanos é cada vez pior e o nosso cotidiano é lotado de barulhos: lojas, bares e restaurantes tocam música em volume alto, e tudo isso faz com que falemos cada vez mais alto.

Como se não bastasse a dificuldade em ter vida privada -hoje quase tudo é público-, até nossas conversas ao telefone vazam para todos os lados porque falamos ao celular em lugares barulhentos e isso nos obriga a aumentar o tom de voz. Resultado: a gritaria é geral, e participamos como observadores de brigas conjugais, de discussões profissionais e até das broncas nos filhos.

As crianças têm aprendido conosco a falar bem alto. Estudos já foram feitos em diversas escolas para medir a intensidade do som. Mesmo sem a voz dos alunos, o ruído é alto demais e colabora para a perda da atenção e da concentração. É que não temos tradição em nosso país de cuidar da acústica escolar: os pisos e as paredes não são elaborados com materiais de isolamento acústico.

Com os alunos dentro, o ruído aumenta. No recreio, algumas escolas que fizeram medições constataram um nível de decibéis considerado prejudicial à saúde. É que nessa hora, ao barulho do entorno escolar, soma-se a gritaria do alunado. Em sala de aula, os professores elevam o tom de voz para serem ouvidos, os alunos os imitam, e quase ninguém mais fala: todos gritam. Em uma pesquisa feita com alunos, mais da metade considera existir uma única saída que permita ouvir a aula toda: sentar-se próximo ao professor. Isso significa que muitos alunos nem sequer ouvem o que o professor diz.

Em casa, muitos pais confundem seriedade ou firmeza com aumentar o volume da voz. Mas não é preciso subir os decibéis para ser obedecido ou levado a sério por crianças e jovens. Aliás, eles podem aprender a falar mais baixo, a regular o volume da voz de acordo com as situações e, principalmente, a ouvir e respeitar as pessoas com quem se relacionam. E, para tanto, é preciso que tenham bons exemplos.

Criamos um falso conceito: o de que a criança fala alto naturalmente e que isso é um sinal de que vive bem sua infância. Muitos adultos consideram que ensinar a criança a falar mais baixo é reprimir sua espontaneidade.

Conheço uma professora de educação infantil que se esforça para ensinar seus alunos a se comunicarem em um tom de voz suave. Claro que ela consegue, com muito esforço e depois de um tempo de convivência com os alunos. Mas muitas de suas colegas consideram sua sala "muito reprimida".

Na verdade, ensinar a criança a falar em tom suave e audível faz parte do ensino da comunicação verbal e é um fator importante do processo de socialização. Para chegar a isso, precisamos colocar em ação nossa capacidade de auto-regulação do tom de voz. Afinal: vamos ajudar o mundo a ser menos barulhento ou vamos continuar a agir como se só fossem ouvidos os que falam mais alto?

Escrito por Rosely Sayão às 12h22