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Papai Noel existe?

A mãe de uma garota com quase seis anos quer saber quando deve dizer à filha que Papai Noel não existe. Outra leitora, que não comemora o Natal por motivos religiosos, pergunta se os filhos -com menos de cinco anos- sofrem com essa diferença, já que até na escola o assunto do momento é a expectativa com a data. Outra quer saber se deve pedir aos familiares que não dêem brinquedos eletrônicos aos filhos, já que ela não os considera adequados. Pois bem: vamos pensar a respeito de questões que afligem tantos pais nesta época.

O primeiro ponto a se levar em conta é que a primeira infância, que dura aproximadamente seis anos, é um período vivido de modo mágico. A imaginação nessa fase é fantasiosa, o mundo real tem menor peso do que o mundo do faz-de-conta e a relação com a vida é totalmente lúdica. É por isso que as figuras míticas fazem sucesso entre crianças dessa idade.

A passagem de uma fase para a outra não é repentina: é com suavidade que a criança se despede da primeira infância para entrar na vida marcada pelos signos do mundo adulto. Deixar de acreditar em Papai Noel é só um sinal que ela dá de seu crescimento, e ela própria anuncia aos pais a hora certa para ter suas suspeitas confirmadas. A filha de nossa leitora, por exemplo, disse: "Mãe, Papai Noel não existe, mas a fada dos dentes existe, não é?" O que a criança pede aos pais é simples: o acompanhamento do ritmo em que trilham essa passagem. Para tanto, basta os adultos ouvirem os filhos com atenção. Eles dão as dicas.

O segundo ponto a se considerar é que, para os filhos, as referências que os pais lhes dão com segurança e coerência é que valem. Assim, as crianças cujas famílias não comemoram o Natal até podem enfrentar frustrações, mas essas vivências fazem parte da formação de sua identidade. Aliás, reconhecer as diferenças e vivê-las é um passo importante para a criança aprender a se respeitar como é e a respeitar os outros.

Finalmente, vamos pensar sobre os presentes. Será que os pais devem chegar ao ponto de controlar o que as crianças ganham? Alguns, como nossa leitora, têm a intenção clara de, ao restringir eletrônicos, garantir um estilo de vida infantil aos filhos. Outros, como um que solicitou que não dessem roupas, querem evitar que estes se decepcionem com o que ganham.

O fato é que é no cotidiano de convívio com os filhos que os pais precisam tomar suas providências e passar seus valores. Assim, se os filhos ganham algo que os pais não consideram adequado e não querem que ele use definitiva ou temporariamente, basta comunicar a decisão, que pode ser a de guardar o objeto até o momento em que julguem que o filho possa usar.

Quanto aos brinquedos, temos dado importância exagerada a eles. É preciso considerar que eles servem apenas de suporte para as brincadeiras, e que estas sim é que importam.

As atitudes dos pais frente a tais situações são simples e sensatas, mas costumam gerar protestos dos filhos. Normal: afinal, educar supõe mesmo desagradar aos mais novos, lembram-se disso?

 

Escrito por Rosely Sayão às 08h51
Presente X Encomenda

Os comentários a respeito das cartas para Papai Noel me fizeram lembrar várias situações que quero compartilhar com vocês.

Se há uma coisa que aprendo continuamente no meu contato com pais - e aqui  tenho muitas oportunidades para isso - é o fato de que existem mil e uma possibilidades diferentes de se educar os filhos, mesmo que as referências sejam as mesmas e as intenções também. Outra coisa que aprendo sempre com eles é que não se esgotam as possibilidades de se superar situações banalizadas, transformá-las e criar em cima delas. As cartas para o Papai Noel são um bom exemplo.

Hoje, escrever cartas para Papai Noel - ou apenas acreditar nessa figura -transformou-se em uma demanda de consumo, em exigência de presentes etc. A mãe de uma garota contou que a filha escreveu que queria tal brinquedo, de tal marca, tal cor etc. A questão, então, é: deixar de lado esse costume - tradição, na verdade - ou ceder ao seu novo formato? Alguns pais decidiram transformá-la e conseguiram dar um novo significado a ela.

Uma mãe, por exemplo, disse aos filhos - os que ainda não escreviam deveriam formular a idéia e pedir para a mãe escrever - que não era educado pedir o que ganhar e que, por isso, os filhos deveriam contar ao Papai Noel, na carta, quem eles eram, como eram, para que ele, conhecendo-os melhor, pudesse escolher o presente que considerasse bom para eles.

Achei linda a maneira de essa mãe conduzir a questão. Ela proporcionou aos filhos uma oportunidade excelente do exercício da comunicação e de autoconhecimento e, além disso, ainda ensinou como se relacionar com as pessoas sem o viés do interesse material.

Outra mãe inventou uma história original: disse aos filhos que Papai Noel adorava resolver enigmas, por isso eles deveriam escrever as pistas do que gostariam de ganhar para que ele decifrasse. Essa mãe também possibilitou aos filhos a oportunidade de pensar simbolicamente e a de formular problemas em vez de resolvê-los. Sensacional!

Mas, o que essas mães conseguiram foi o que muitos de vocês escreveram aqui: construir para os filhos a espera pela surpresa. Lembram-se do ditado popular que diz que "O melhor da festa é esperar por ela"?

Pois é: quando a criança diz aos pais - mediada ou não pela figura de Papai Noel - o que espera ganhar, ela perde a oportunidade de ganhar um presente. Ela apenas espera chegar sua encomenda.

Vamos convir: esperar ganhar um presente - mesmo com a possibilidade de ficar desapontado com ele - é bem melhor do que esperar uma encomenda, não é?

 

Escrito por Rosely Sayão às 18h52
“Clima de Natal”

Precisei ir ao shopping de meu bairro para resolver rapidamente uma questão. Sempre que posso evito ir a esses centros comerciais nesta época porque a confusão é grande demais, do estacionamento às lojas; tomar um cafezinho, atividade tão simples, transforma-se em uma epopéia.

Bem: ao passar em frente à maior loja de venda de brinquedos constatei que estava lotada. Decidi entrar para observar um pouco o clima. Vocês se lembram que sou voyeur da vida pública? Pois não resisto a essas tentações.

Primeira coisa que notei: o tal “clima de Natal” que todos falam nesta época, mas parece que ninguém sabe de fato o que seja, certamente passou longe dessa loja. Pessoas se atropelando, vendedores irritados e com pouca educação, crianças berrando, correndo e derrubando brinquedos, mães gritando com os filhos e pais emburrados. Foi isso que senti em relação ao clima reinante.

Segundo ponto que observei: os brinquedos não são mais brinquedos. Eles deveriam ser objetos que permitissem às crianças realizar algum tipo de brincadeira. Agora, eles são a própria brincadeira! Gente, vi bonecas que mais parecem clones de bebês do que bonecas. Agora elas reconhecem a voz da “mãe”, reclamam de cólica, choram e fazem manha, fazem xixi etc. Pode? Desse jeito, não há lugar para o faz-de-conta da criança: é tudo real.

Mas foi uma cena entre mãe e filha o que mais me chamou a atenção. Pelo que entendi, elas estavam lá – a garota deveria ter pouco menos de seis anos – para comprar o presente de Natal da filha. Esta poderia escolher um brinquedo, mas não conseguiu. Foi essa cena que testemunhei: a garota chorosa e a mãe brava travaram um diálogo.

Mãe: Eu deixei de fazer coisa que precisava para vir comprar seu presente e você nem consegue escolher?

Filha: Quero ir embora.

Mãe: E quer ficar sem seu presente de Natal?

Filha: Quero ir embora.

Mãe: Enroscou o disco?  Vai até a prateleira e me mostra o que você quer. É muito difícil fazer isso?

Filha: (gritando): Quero ir embora, eu nem queria vir aqui. Eu odeio você.

Nesse momento me afastei porque percebi que a cena iria passar do drama à tragédia e, destas, prefiro as gregas.

Esse foi o “clima de Natal” que pude observar nesse dia, nessa loja.  Creio que só um dos envolvidos fez a festa nesse dia: a loja que vende brinquedos.

Realmente, alguns pais não têm a mínima idéia do que seja uma criança e, por isso, não conseguem respeitar essa etapa da vida. Levar uma criança com menos de seis anos para escolher um – um! – brinquedo entre milhares, é uma tortura!

 

Escrito por Rosely Sayão às 12h27

O teste da transferência

Quando um aluno precisa se transferir de escola, qualquer que seja o motivo, ele deve passar por avaliação antes de ter sua matrícula aprovada pela nova escola? E essa avaliação pode ter o caráter seletivo e, portanto, excludente? Essa atitude, tomada pela escola, não é discriminatória?

Essas questões foram levantadas por uma leitora indignada que, por motivo de mudança de domicílio, procurou vaga para 2008 em escolas privadas de São Paulo e enfrentou, em quase todas, essa situação. São muitas famílias nessa posição: alguns pais decidem pela mudança em busca do que consideram um ensino melhor para o filho, outros porque ficaram insatisfeitos com a escola que o filho freqüentou neste ano, outros porque consideraram legítima a solicitação do filho para trocar de escola etc. E, de forma velada ou escancarada, quase todas as escolas praticam seleção nesse momento. E os pais se submetem. Por quê?

Os motivos das escolas para justificar esse procedimento são inúmeros. E nossa leitora tem razão: muitos alunos são preteridos. Ora porque são julgados em desnível em relação ao currículo da escola, ora porque não tiveram boa produção no teste, ora porque não conseguiram classificação para o número de vagas disponíveis etc.

Não importa o motivo, o fato é que alguns alunos são aceitos em algumas escolas e em outras, não. Como eles apreendem o fato? Que "passaram" no teste desta ou daquela escola e que não "passaram" em outras, tal e qual é encarado o resultado do vestibular.

Muitas escolas privadas trabalham com a idéia de um determinado perfil de aluno, ou seja, querem ensinar apenas alunos cujas características se encaixam no aspirado pela instituição. Essas escolas não são boas para qualquer aluno -como deveriam ser todas as escolas. Mesmo assim, muitos pais gostariam de ter seu filho lá.

O que eles não consideram é que, a qualquer momento, o filho pode mudar seu perfil de aluno, tanto no aproveitamento quanto no comportamento, e que isso é muito salutar no desenvolvimento de crianças e jovens. Aliás, essa é a melhor hora de os mais novos experimentarem ser deste ou daquele jeito no exercício de um papel social. E, se a escola rejeita trabalhar com alguns tipos de aluno, seu filho também poderá ser rejeitado no momento em que mudar.

Sabemos também que as escolas, principalmente as privadas, evitam enfrentar situações difíceis. Os alunos que não caminham como o esperado, tanto no aprendizado quanto na convivência, são chamados de "alunos-problema" porque desafiam a escola e o trabalho que ela pratica. Na seleção de início de ano, as escolas tentam vislumbrar quais deles poderiam ser colocados nesse diagnóstico a fim de evitá-los, é claro. O curioso é que são justamente esses os alunos que mais precisam da escola, não é verdade?

Em resumo: os testes para os alunos em transferência de escola só atendem a um único interesse: o das escolas. Mas por que é que os pais se submetem aos caprichos dessas escolas? Boa pergunta, não é?


 

Escrito por Rosely Sayão às 18h42
Crianças que beijam na boca

A mãe de uma garota de nove anos está muito preocupada porque a filha contou a ela que já beijou na boca e que fica com garotos nas festas de aniversário que freqüenta. Essa mãe disse que sua maior preocupação é que, se nessa idade isso já ocorre, ela imagina o que pode acontecer logo mais.

A postura dessa mãe, bem intencionada e comprometida com a educação dos filhos, revela uma sensação cada vez mais comum em mães e pais: a impotência perante os acontecimentos da vida dos filhos e o comportamento deles. Parece mesmo que tudo o que acontece é quase uma fatalidade, não é verdade?

Essa é uma ilusão criada pelo contexto sócio-cultural em que vivemos. Os educadores podem – e devem, pois essa é sua tarefa – interferir nos acontecimentos, mudar o rumo das situações que surgem, pensar criticamente a respeito do estilo de vida atual para melhorar, com a educação dos filhos e alunos, o mundo em que vivemos. O que ocorre com a filha de nossa leitora é comum nos dias atuais e é fruto de vários fatores. Vamos pensar em alguns deles.

O primeiro, que considero determinante na mudança de comportamento de crianças com mais de oito anos, é a idéia de que elas não são mais crianças e sim pré-adolescentes. Vejam só: criança não namora,não fica e muito menos beija na boca, as festas que freqüentam são infantis e elas não vão a essas comemorações sem os pais ou outro adulto responsável. Já se pensarmos que são pré-adolescentes, elaboramos festas com música e danças para adolescentes, permitimos que saiam sem adultos responsáveis e achamos natural que paquerem, fiquem e até mesmo namorem.

Por outro lado, temos também o conceito de socialização em jogo: hoje acreditamos que nossos filhos precisam ficar enturmados com os colegas, fazer os programas que eles fazem, estar por dentro dos costumes dos colegas e amigos etc. porque pensamos que eles não podem ser excluídos do grupo. Muito perigosa essas atitude porque dessa maneira os filhos não conseguem vislumbrar quem são, como a família pensa, do que gostam e o que é certo e errado para ele. Simplesmente vão na onda, como dizem. Mas, socialização não é isso!

Precisamos lembrar que a educação que praticamos com os filhos é a  maior chance que eles têm de aprender a “ler” o mundo criticamente para saber como interferir  e se situar nele e fazer suas escolhas.

Nossa leitora tem razão: se aos nove eles beijam e ficam, aos 13, 14, já têm um bom caminho trilhado para a prática sexual adulta e todas as suas conseqüências. Qual o nosso papel nessa história? Segurar essas crianças na infância enquanto são crianças. Nada melhor do que terminar bem essa fase para entrar bem na outra que se aproxima.

PS: peço desculpas pela ausência prolongada.

Escrito por Rosely Sayão às 13h13