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O mundo pela janela

Vivemos em uma sociedade dominada pela imagem. Gastamos muito tempo assistindo, passivamente, a imagens que "criam" um outro mundo. Quem não conhece a "Família Doriana"?
A questão é que temos identificado tais imagens com a realidade. Substituímos a aprendizagem da vida como ela é pelas narrativas que as imagens oferecidas pela mídia constroem. Uma pergunta faz sentido: quais imagens do mundo público são acessíveis às crianças?

Vamos considerar que os filhos da classe média não transitam mais pelos espaços públicos: as ruas são só trajetos que separam a casa da escola, do clube, do shopping etc. É do carro que as crianças vêem as imagens do espaço que é -ou deveria ser- de todos.

Isso significa que os limites da visão que elas têm são determinados pelas janelas do carro -limites, aliás, semelhantes à tela de um aparelho televisor. Deve ser assim que as crianças vêem o mundo: como espectadores que, à moda da TV interativa, de vez em quando interferem na programação pressionando um botão ou como personagens de tramas e enredos. Com a nova lei que cria regras para o uso de insulfilm nos carros, a visibilidade permitida para os vidros traseiros passou a ser de 28%. Ou seja: a partir de agora, a visão de mundo que as crianças terão será, além de retangular, sombria.

Não parece cena de filme? De modo parecido ao uso dos efeitos especiais, um mundo escuro e cheio de sombras se ilumina quando essas crianças entram em cena. É verdade: é apenas nos locais que freqüentam que elas enxergam o mundo diretamente, sem uma película que modifique sua luminosidade. Isso permite que elas criem a ilusão de que só seus ambientes são seguros e acolhedores. A visão do mundo público que essas crianças podem produzir é bem compatível com a de uma imagem ameaçadora.

Assim, o outro, o estranho que transita por esse espaço e que nunca está no mesmo local que elas, transforma-se em um personagem do outro lado da trama. O mundo bom é o que elas vivem. O mundo ruim é o que elas vêem.

Ao mesmo tempo, ver o mundo pela janela do carro permite que a criança o associe à idéia de videogame. A mãe de um garoto com menos de seis anos contou um fato que ilustra bem essa possibilidade. Ao buscar o filho na escola, junto a outros colegas, teve de frear bruscamente para não atropelar uma senhora idosa que atravessou a rua sem perceber o carro.
 
A reação das crianças deixou essa mãe perplexa: disseram como seria legal se a velhinha fosse atropelada. Por quê? Provavelmente porque, para as crianças, o fato teve mais relação com desenhos animados -em que os personagens passam por pequenas tragédias e continuam vivos- e com videogames -em que a atenção é focada na ação de destruir os obstáculos para ganhar o jogo- do que com a vida pública.

Imagens que permitem a construção de uma visão distorcida do outro, do mundo público e da realidade é o que temos ofertado aos mais novos. O que resultará disso?


 

Escrito por Rosely Sayão às 19h39

Educação por dinheiro

Um leitor, certa vez, contestou meu costume de repetir à exaustão que considero o ato de educar tarefa bastante árdua. Pediatra, ele disse que esse conceito poderia deixar pais e professores intimidados com sua função educativa e, dessa maneira, inibir ainda mais suas já tímidas atuações. Devo dizer que dialoguei com essa oposição por muito tempo.

Será que apontar um trabalho como árduo poderia fazer as pessoas desistirem dele em vez de o tomarem como desafio? Ainda não me convenci de que não é produtivo dizer aos pais e professores que educar é tarefa árdua, pois ela o é. Podemos constatar, entretanto, que os educadores, de um modo geral, não acreditam que os mais novos possam criar um desafio frente a exigências rigorosas.

Foi nisso que pensei quando li recentemente uma notícia sobre alunos de uma faculdade paulista que receberam a promessa de um prêmio econômico em troca do comparecimento e de boas notas no Enade. Não fiquei muito espantada com o fato, para falar a verdade. Já faz tempo que tenho conhecimento da oferta de pequenos prêmios a universitários em troca de sua dedicação aos estudos. Uma professora, por exemplo, contou que leva bombom de chocolate para dar aos alunos que fizerem os exercícios propostos em aula; outra tem levado pastilhas aos alunos que ficam com sono e dormem durante a exibição de vídeos da matéria que leciona. Por que a oferta de prêmio em dinheiro seria diferente disso?

O fato é que essa prática pode evidenciar que não estamos convencidos de que os mais novos queiram, possam e devam empregar altas doses de esforço e energia a não ser em algo que lhes dê prazer imediato. Não temos convicção de que eles possam descobrir algum prazer no trajeto da empreitada. Não admitimos que eles tenham condição para tanto.

Pode ser que a adoção dessa prática nada tenha a ver com crianças e jovens, mas com os próprios educadores. Talvez eles não acreditem na potência do ato educativo, não confiem em sua capacidade de mediar positivamente a relação de quem aprende com a aprendizagem, não se vejam capazes de provocar desafios.

De qualquer modo, deixamos de exigir dos mais novos e passamos a querer comprar suas atitudes. Pais e professores fazem o mesmo, com filhos e alunos de todas as idades, não apenas os universitários. Vamos fazer uma breve retrospectiva: pais cujos filhos estão próximos do exame vestibular oferecem prêmios -não raro um carro ou uma viagem ao exterior- para que eles se dediquem aos estudos e entrem numa boa faculdade. Filhos menores sempre podem ganhar um dinheirinho ou um presente para dar conta de obrigações familiares e/ou domésticas, como levar o cachorro para passear ou arrumar a cama. Crianças na primeira infância recebem prêmios por "bom comportamento" etc.

Há uma semana falamos sobre atos entre crianças que, no mundo adulto, chamamos de corrupção. Nesse caso, fazem falta a educação e o acompanhamento. Hoje, tratamos de adultos que corrompem os mais novos com ofertas materiais em troca de determinação, dedicação e esforço. Seria falta de quê, neste caso?

Escrito por Rosely Sayão às 11h20

Corrupção entre crianças

A vida das crianças a partir de oito anos não tem sido fácil em vários aspectos. Para começar, elas não sabem se são crianças ou não. Muitas, quando passam dos sete, se chamam "pré-adolescentes" e exigem serem tratadas como tal.

Os adultos -em nome sabe-se lá de quê- obedecem: enchem a vida das crianças de ícones de seu próprio mundo. Assim, elas freqüentam festas com músicas de adultos, dançam e se vestem como eles -e esses são pequenos exemplos que, no entender de muitos educadores, significam colocar as crianças em "socialização". Nessa fase, elas deveriam dirigir todo seu potencial e esforço para a aprendizagem escolar, o que significa passar a ler e a compreender os signos do mundo adulto, mas estão internamente muito ocupadas com outras questões que o contexto atual lhes impôs, como a hiperexcitação sexual.

Essas crianças têm contato direto com o ainda incompreensível mundo adulto desde muito cedo e observam que ele é todo envolvido em questões de dinheiro, consumo e negócios. Desse modo, procuram arremedar os adultos e tentam utilizar o estilo observado: introduzem as transações com dinheiro em suas vidas e agem como se pensassem com cabeça de gente grande. É aí que tem surgido um problema de grande complexidade.

Precisamos nos lembrar de que, nessa idade, as crianças ainda são bastante egoístas, ou seja, tratam os outros de acordo com seus interesses momentâneos e com sua conveniência. O outro é visto como um objeto de uso descartável, já que a criança ainda não o percebe como um ser distinto dela, com quem deverá aprender a conviver de modo respeitoso e ético.

Para chegar a esse ponto, a criança precisará aprender a se conter, a reprimir seus interesses puramente egoístas e direcioná-los a favor de sua convivência com os pares e a se colocar na teia das relações sociais. Como o processo educativo não tem sido manejado de modo responsável, as crianças têm usado umas às outras sem pudor nenhum e têm tentado comprar (com dinheiro real) atitudes e favores de seus pares.

Não devemos nos esquecer de que os canais de comunicação sempre trazem notícias destacadas a respeito de envolvimentos de alguns políticos com corrupção, dinheiro e poder. Talvez não nos tenhamos dado conta de que as crianças, tão atentas, são informadas dessas possibilidades, mas não têm ainda discernimento para saber o que é certo e o que é errado, o que devem e o que não devem fazer.

Se pais e professores acompanharem mais de perto as relações que as crianças dessa idade têm construído, terão a oportunidade de observar no mundo infantil questões que, na vida adulta, chamamos de corrupção, fofoca maldosa, abuso de poder, comércio de informações privilegiadas etc.

Mas não podemos avaliar de forma adulta esses comportamentos das crianças: não se trata de desvio de caráter, maldade, imoralidade ou coisa que o valha. Trata-se de um abandono educativo, como sempre tenho insistido.

Escrito por Rosely Sayão às 23h38