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A relação dos pais com questões da primeira infância

“Gostaria de uma ajuda em relação ao meu filho: ele tem três anos e meio, mas não consegue sair da fralda para o cocô. Já conversei com uma psicóloga e com a escola onde ele estuda e elas me pediram paciência, que de uma hora para outra ele deixaria de usá-la. Porém, conversando com uma amiga cuja mãe é psicóloga, ela me pediu para procurar ajuda de um profissional para que isso não cause problemas futuros. Não sei por onde correr: tenho pena da situação por ele, mas ao mesmo tempo já estou estressada com isso, pois acaba se tornando um pouco inconveniente. Gostaria de uma indicação do que fazer, ou mesmo alguma leitura que possa me ajudar”.

A mensagem de nossa leitora mostra a angústia que muitos pais vivem quando os filhos não respondem como esperavam às atitudes que tomam ou mesmo quando não apresentam um desenvolvimento de acordo com o esperado. Vale lembrar que o esperado gira em torno da média, ou seja, de um dado estatístico. Vamos, então, tratar dessa questão.

Nos primeiros anos de vida da criança, o sistema nervoso central ainda está em desenvolvimento e só fica concluído em torno dos dois anos, dois anos e meio. É, portanto, a partir dessa idade que a criança fica apta a ser continente, ou seja, a controlar o xixi e o cocô.

Os grandes problemas da atualidade é que temos muita pressa que as crianças cresçam e interpretamos quase tudo à luz da normalidade ou patologia. Assim, não conseguimos tratar com a descontração necessária questões naturais da primeira infância, como a continência e a alimentação, só para citar dois exemplos que costumam provocar problemas e ansiedade nos pais.

Quando a criança pequena não é continuamente interpelada a aprender a se comportar logo como adulto, a fazer o xixi e o cocô no lugar socialmente marcado para isso, a se alimentar nos horários dos adultos, com a variedade dos adultos e da maneira deles, isso pode ocorrer com a maior naturalidade, na hora certa para eles. Mas, para que isso ocorra, os pais precisam ter paciência para ensinar sem exigir, sem se exasperar, sem entrar em confronto com os filhos. Se questões como a continência e a alimentação não forem problemas para os pais, não serão  problema para as crianças.

Quando a situação já se tornou um problema para os pais e os filhos – parece ser o caso de nossa internauta – a atitude mais sensata é, em primeiro lugar, deixar de focar tal questão na vida do filho. A mãe precisa se aliviar, deixar de considerar o fato como possível foco de problemas futuros e tomar uma atitude mais descontraída, ou seja, apontar ao filho que ele já pode fazer diferente, apenas isso. Aos poucos, quando ele perceber que seu comportamento não provoca reações intensas nos pais, se sentirá livre para colocar em ato o potencial que já apresenta.

Em resumo: ele precisa perceber que fazer cocô no banheiro é algo que beneficia apenas ele, ninguém mais, e que não fazer provoca desconforto apenas nele, em ninguém mais.

Escrito por Rosely Sayão às 12h24

Iniciação adolescente

Ana (nome fictício) é uma garota de 16 anos que, como outros jovens, lê meus textos na internet. De início, fiquei curiosa. Afinal, são textos dirigidos a adultos, principalmente pais, para provocar reflexão sobre a prática educativa. Lendo os comentários que deixam em meu blog, percebo que eles buscam interlocutores maduros para conversar a respeito de suas aflições e, principalmente, do relacionamento com os pais e os estudos. Certa vez, li num texto de Françoise Dolto, psicanalista francesa que se dedicou ao estudo da saúde mental de crianças e jovens, que eles precisam conversar com adultos que não sejam seus cúmplices nem seus juízes -e penso que eles sentem falta desse tipo de interlocução.

Ana diz, em relação aos pais, que se sente aprisionada em uma gaiola invisível e que tem um conflito: viver sua própria vida, de acordo com o que pensa e é, ou agradar aos pais e viver e ser como eles gostariam. É na adolescência que os filhos nascem para o mundo adulto, quando entram num tipo de vida cheia de mistérios, contradições, crueldades e injustiças, mas também com muitas seduções e promessas. E é na família que eles ensaiam seus primeiros passos.

Nessa iniciação eles buscam encontrar o seu lugar, e isso muitas vezes significa recusar o que os pais gostariam para eles e fazer oposição. Mas não tem sido fácil viver esses conflitos na família contemporânea. A gaiola invisível de que Ana fala pode ser o amor dos pais, manifestado de maneira inusitada. Como o vínculo entre pais e filhos é o único que, no momento, dá garantia de resistir até que a morte os separe, parece que os adultos estão apostando todas as suas fichas nele.

Os pais querem o melhor para os filhos, mas idealizam tanto que têm dificuldades para enxergar quem, de fato, os filhos são. Características deles são transformadas em defeitos, anseios são considerados inadequados, busca de privacidade é entendida como afastamento. Permitir que os filhos se afirmem como são sem abdicar dos valores familiares -pelo menos enquanto vivem no mesmo ambiente-, respeitar e se fazer respeitar, falar e ouvir com discernimento e tentar manter a relação comunitária na família são posições muitas vezes difíceis para os pais, mas ajudam o jovem a se situar no grupo familiar e fora dele também.
 
Os jovens -como Ana- têm reclamado da chantagem emocional dos pais. Nem sempre eles se dão conta do que fazem, já que, em geral, ela se expressa com sutilezas e é marcada por atitudes amorosas e boas intenções. Mas é paralisante para os jovens, que se sentem responsáveis pelo bem-estar ou mal-estar dos pais e enfrentam com maiores dificuldades o compromisso consigo mesmos. Os pais precisam ser realistas: o destino dos filhos é viver a própria vida, e a adolescência é a prova material de que tal processo já está em curso.


 

Escrito por Rosely Sayão às 22h43
O funcionamento escolar

Um leitor cuja filha tem 12 anos tem uma pergunta a respeito da atitude que a escola tomou com a garota. Ele diz que ela não gosta de estudar e que no segundo trimestre ficou em três recuperações. Ele passou todo o feriado de setembro estudando com a filha, que se esforçou bastante.

No dia marcado, a menina não conseguiu fazer a prova porque não havia feito a inscrição que a escola exige. O pai considera um absurdo esse impedimento e pergunta se tal atitude do colégio é educativa ou traumática. Vamos refletir sobre a questão trazida por nosso leitor.

O primeiro diz respeito às normas das escolas. Estas, assim como as leis que regem a convivência social e a vida em comum, não devem existir por capricho de um dirigente ou de um grupo de pessoas. Elas existem para permitir que a instituição seja organizada de modo a regular o convívio entre tantas pessoas diferentes e para proteger o coletivo de injustiças e riscos desnecessários. Por isso, é importante que as normas sejam respeitadas pelos pais e compreendidas pelos alunos.

O maior problema é que as escolas não entendem que faz parte de seu trabalho educativo o acompanhamento sistemático dos alunos nas suas relações com as normas que devem atender. Vamos tomar um exemplo: o uso de uniforme.

A escola que decide pelo uso de uniforme precisa planejar e colocar em prática uma série de atitudes.  A primeira é comunicar o fato aos alunos e suas devidas justificativas  – educativas, é claro – e também as conseqüências que terão de arcar os alunos que não cumprirem a norma. Só não vale impedir que o aluno que não esteja uniformizado assista às aulas, certo?

Vale, por exemplo, deixar alguns uniformes na secretaria e fazer o aluno vestir e, depois, trazer de volta limpo. Esse é apenas um exemplo, não se esqueçam. Há uma infinidade de atitudes educativas que a escola pode criar para assegurar boas condições de aprendizado para os alunos a respeito da importância de atenderem as normas de funcionamento escolar.

Desse modo, seria educativo lembrar aos alunos que ficaram para recuperação a exigência de fazer a inscrição. E lembrar, em educação, não se restringe a falar; acompanhar o aluno, solicitar a comprovação de sua inscrição antes do dia marcado etc. fazem parte das ações educativas.

Neste momento, é bom lembrar que escolas que pretendem instituir uma educação democrática precisam aprender a ouvir os alunos e a ensiná-los como encaminhar institucionalmente suas reivindicações. Criar assembléias de classes, por exemplo, é uma ótima decisão.

Por outro lado, perder a prova mesmo tendo estudado não é traumático para os alunos. No máximo, frustrante e revelador de que o mundo nem sempre é justo. Aprender a enfrentar as frustrações e os obstáculos que se encontra pela vida são aspectos que fazem parte da formação de cada pessoa.

 

Escrito por Rosely Sayão às 19h57
Falta cultura de separação *

A separação conjugal já faz parte da vida da família contemporânea seja como fato, seja como possibilidade. A questão é: como o fenômeno, que se tornou freqüente, atinge a vida dos filhos? Nas décadas de 1960 e 70, estudos científicos a respeito do impacto da separação dos pais na vida de crianças e adolescentes concluíram que os prejuízos à sua formação eram intensos e sérios.

Pesquisas mais recentes passaram a questionar tal certeza, mostrando que, depois de um tempo de sofrimento e adaptação, os filhos conseguem reorganizar suas vidas, alcançam um novo equilíbrio e continuam a se desenvolver e a viver com todo o potencial em ação. Mas de nada servem essas evidências se a maioria ainda acredita que essa possibilidade é mínima, como revela a pesquisa do Datafolha.

Parece que as mudanças sociais antecedem as pessoais. A chegada do divórcio permitiu que casais se separassem sem ter de enfrentar os preconceitos usuais da sociedade, e tal fato mudou radicalmente a situação a ser enfrentada pelos filhos. Entretanto, parece que ainda não demos sentido a essa nova realidade, já que insistimos em manter a idéia de que a formação da criança ficará prejudicada.

Falta dar um passo decisivo e deixar de considerar a separação em si prejudicial, inclusive porque a maioria das pessoas não está disposta a abdicar dessa possibilidade. A questão que agora se coloca é a de aprender a se separar – ainda estamos em fase de construção de uma cultura a esse respeito. A maneira como os pais se separam; como passam a se relacionar com o ex-cônjuge e com os filhos; a forma como comunicam a decisão a eles e a continuidade do exercício responsável do papel parental são fatores decisivos, capazes tanto de provocar prejuízos à formação das crianças como de ajudar a reduzir os danos resultantes da separação.

Embora a situação seja difícil para os adultos envolvidos, é preciso usar todos os recursos que a maturidade possibilita para poupar os filhos, o máximo possível, de vivências mais conflituosas e dolorosas do que a que já vivem. Afinal, não foram os filhos que decidiram casar, gerar descendentes e depois dissolver a união. Como muitos costumam dizer aos pais na adolescência, eles não pediram para nascer: foram desejados.

*Texto publicado na revista especial sobre Família, na Folha de São Paulo, em 07/10/2007

 

Escrito por Rosely Sayão às 11h32

O estresse dos pais

Outro dia, um pai apontou uma questão bem interessante. Ele assinalou o estresse dos adultos com os filhos e no exercício da autoridade educativa que lhes cabe.

É verdade: os pais, atualmente, se estressam muito por causa dos filhos. Aliás, boa parte desse estresse diz respeito à maneira como são vivenciados os papéis de pai e mãe -muito mais do que ao comportamento dos filhos. E, em geral, são estes que costumam receber todos os créditos do estado permanente de tensão em que vivem os adultos responsáveis por eles.
Vamos, só para reflexão, partir da premissa de que não são os filhos os únicos responsáveis pelo estresse dos pais. Para tanto, precisamos deixar de considerar que as crianças e os adolescentes de hoje sejam mais exigentes e críticos e tenham menos limites e menor tendência a acatar a autoridade. Vamos refazer a pergunta: por que os pais são tão estressados?

Primeiramente, porque, de acordo com a cultura a que estamos submetidos, vive-se muito mais para si do que para os outros. E os filhos são alguns desses outros: são próximos, estão ali por desejo dos pais, mas ainda assim continuam na condição de outros. E são outros que exigem bastante de seus responsáveis, mesmo que não sejam crianças com demandas infindas.
Sabemos que as crianças não nascem sabendo obedecer e que durante todo o processo educativo vão provocar as autoridades, transgredir e tentar burlar as regras. Sabemos também que, enquanto não assumem a própria vida, é comum que deixem os deveres para os responsáveis por eles. Por isso é preciso lembrar aos filhos do banho, da escovação de dentes, da lição de casa etc. E essas tarefas atrapalham a vida dos adultos que querem viver para si.

Além disso, vivemos numa sociedade que tem como ideal a manutenção da juventude eterna, o que leva à busca da aparência jovem e a um estilo de vida característico. E, vamos convir, é difícil conciliar juventude com a maturidade necessária para aplicar paciência e persistência no trato com os filhos.

Finalmente, precisamos reconhecer que o amor dos pais é sempre marcado pela idealização. Hoje, os pais planejam os filhos que querem e imaginam que serão extremamente felizes. Mas a felicidade só poderá ser contabilizada após o árduo trabalho educativo -e é aí que a coisa encrenca. Os pais anseiam pela felicidade imediata, pela satisfação no presente, e, como nem sempre os filhos proporcionam esses momentos, o que sobra é o estresse.

Se quem tem filhos, por mais espevitados que sejam, entender que não residem só neles os motivos de seu estresse, conseguirá ter mais paciência, mais firmeza para ocupar o lugar de autoridade e, desse modo, diminuir a pressão e até tornar o processo educativo e a convivência com os filhos algo mais equilibrado, mais tranqüilo e mais efetivo.

Criança não precisa ser barulhenta, desobedecer sempre, ser agitada; criança pode ser tranqüila. Aliás, essa é a melhor condição para elas viverem plenamente a infância.

Escrito por Rosely Sayão às 09h05