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Envelhecimento Invisível

Semanas atrás, um garoto com idade em torno dos seis anos fez uma pergunta que expressou a leitura que ele faz sobre o envelhecimento. Ele chegou até mim e perguntou: "Você é bisavó de quem aqui da sala?" Eu estava na escola que ele freqüenta participando, como observadora, das atividades de sua turma. Perguntei por que ele achava que eu era bisavó de algum colega, e ele respondeu, sem hesitar: "Só bisavós têm cabelos brancos".


Deixei de colorir meus cabelos há mais ou menos um ano. Foi uma decisão que tomei ao perceber que tingia meus cabelos automaticamente, sem pensar, sem escolher. Por isso, decidi deixá-los na cor natural -grisalhos- para, depois de experimentar, fazer minha escolha. E, devo dizer, tem sido bem difícil ter cabelos brancos nesta época.

Esse sinal tão visível do envelhecimento progressivo e inexorável incomoda: são poucos os adultos que não me interpelam a respeito. "Você tem alergia a tinta?", "parabéns, você é uma pessoa muito corajosa!", "você é bem ousada" ou "você implantou marca-passo?" são algumas das frases que tenho de enfrentar com muita freqüência. O que elas revelam? Que os sinais do envelhecimento precisam ser ocultados e, quando não o são, é preciso ter um motivo muito importante para tal. De minha parte, gostaria imensamente que meus cabelos brancos expressassem apenas o que, de fato, são: os sinais de minha herança genética e do envelhecimento. Mas, nos dias atuais, isso parece ser uma missão impossível.

E a pergunta do garoto, o que pode revelar? Em primeiro lugar, que temos ofertado aos mais novos uma visão de mundo em que o envelhecimento é tão desmoralizado que precisou ser banido de cena. Para o garoto, todos os adultos são jovens. Só são velhos os muito velhos, como os que se tornaram bisavôs e bisavós, e essa passagem acontece repentinamente. Aliás, a ocorrência desse fenômeno tem sido bem mais comum, já que a expectativa de vida aumentou consideravelmente nas últimas décadas. Conviver com a quarta geração já não é uma dádiva para poucos, e sim uma possibilidade real para muitos.

A eliminação das evidências aparentes do envelhecimento gradual, com o uso de todo o arsenal produzido para tanto, pode transmitir a falsa idéia aos mais novos de que podemos manipular e controlar o passar do tempo ou de que a juventude é eterna. Essa concepção certamente afeta, de alguma maneira, o desenvolvimento deles. Já não temos constatado um prolongamento da adolescência e da juventude, um pouco caso com os cuidados com a saúde e com a vida por parte dos jovens e, do mesmo modo, uma falta de respeito geral em relação aos velhos? E tudo isso ocorre, entre outros motivos, porque são poucos os que não deixam de considerar como certo o fato de que eles mesmos irão envelhecer.

É: o fato de o processo natural e inevitável do envelhecimento ter se tornado um fenômeno invisível não afeta apenas os adultos que já o enfrentam; afeta também, e principalmente, os mais novos. Afinal, que mundo é esse que apresentamos aos que nos sucederão?


 

Escrito por Rosely Sayão às 14h17
As novas tecnologias e o controle dos filhos

Estamos trocando a educação para a liberdade responsável e para a autonomia pelos recursos tecnológicos mais avançados. O caminho é muito sedutor porque bem mais simples e com custos bem menores.

Os pais, preocupados com a segurança dos filhos – ah, o que não temos feito em nome desse item! – acabam consumindo, sem grandes reflexões, as idéias mais absurdas. Como essa, por exemplo, do controle da localização dos filhos pelo celular ou outra, a de poder observar – espiar, melhor definindo - o filho no espaço escolar pela Net.

Ora, ora! Quem diria que a geração pós Segunda Guerra, que lutou pela democracia e pela liberdade, que bradou contra a tutela da família, chegasse a esse ponto com os próprios filhos? “Ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”...?

Bem, o fato é que o princípio contido nesse tipo oferta é simples: para uma situação difícil, como a inevitável saída dos filhos para o mundo, que provoca temores e sofrimentos nos pais, uma saída simples, rápida e eficiente.

Eficiente para acalmar as aflições dos pais, só isso. Eficiente, ainda, para provocar efeitos colaterais dos mais indesejáveis e outros riscos. Esses são recursos que deveriam ser marcados com tarja preta, portanto. Vejamos.

Em primeiro lugar, se há quem controle a vida do jovem, por que haveria ele de se responsabilizar pelo autocontrole? Mais fácil deixar para os pais essa tarefa difícil já que eles assim o desejam. Em segundo, há a dificuldade da construção da privacidade. E sem privacidade, não há intimidade.

E há mais, ainda: se os pais não acreditam que o filho seja capaz de avaliar situações de risco, de se proteger, de caminhar com as próprias pernas, por que ele mesmo acreditaria?

Pensando bem, é uma bobagem preocupar-se com isso. Os jovens sempre constroem respostas inteligentes para propostas medíocres. Eles encontrarão, facilmente, muitos modos de burlar tais dispositivos, caso queiram. Não são eles os melhores no uso das novas tecnologias?

 

Escrito por Rosely Sayão às 14h00
Mães X Pais

Os médicos obstetras estão cada vez mais acostumados com a presença do pai na hora do parto. Estes estão participando desde o nascimento da vida dos filhos e ampliam, cada dia um pouco mais, tal participação. Não se contentam mais em fazer apenas figuração.

Eles querem, de fato, interferir nos rumos da vida dos filhos, inclusive e principalmente, da educação. E isso – vejam só que coisa mais interessante - tem gerado muitas reclamações por parte de algumas mães. Não é contraditório que, o que antes era motivo de reclamação pela ausência, agora o seja pela presença?

E do que reclamam as mães? Da dificuldade de educar em conjunto. Elas, que por muito tempo tiveram de tomar todas as decisões – mesmo as mais difíceis – sobre quais atitudes tomar com os filhos e arcar também sozinhas com tamanha responsabilidade, agora não sabem bem como fazer para compartilhar a tarefa com o pai de seus filhos.

A mãe não quer deixar o filho sair sozinho ainda, mas o pai acha que já está mais do que na hora de ele aprender a se virar no mundo; o pai quer levar a filha para a escola de carro todos os dias, mas a mãe quer que ela aprenda a usar transporte coletivo. Quando em conflito com os filhos, a mãe quer conversar e tudo acaba na maior discussão e o pai acha que isso se resolve mesmo é sem muita conversa para evitar a gritaria final.

Esses são alguns exemplos enviados por pais e mães que querem saber como sair dessa encrenca. E numa coisa eles têm razão: é encrenca mesmo o que vivem já que os filhos, em geral bem espertos, logo descobrem as discordâncias entre os pais e sempre dão um jeito de, de acordo com seus interesses, capitalizarem para si algum tipo de vantagem.

 Muita gente acha que os pais precisam agir do mesmo modo com o filho para que a educação funcione. Mas é bom saber que não é preciso unificar opiniões e ações. A educação do filho até pode ser enriquecida quando os pais pensam de modo diferente. Afinal, num mundo tão pleno de diversidade, experimentar já em casa as diferenças e saber conviver com elas só pode ser positivo.

A única coisa que os pais precisam saber é que, em alguns aspectos cruciais, eles precisam negociar e tirar um consenso. E aí é que reside a dificuldade. Afinal, administrar conflitos não tem sido tarefa simples num mundo individualista.

Indico a leitura do artigo de hoje, na Folha de São Paulo, do Marcelo Coelho. Vem bem a calhar nesta discussão.

 

Escrito por Rosely Sayão às 11h12

Do inquérito ao diálogo

Os pais querem saber de tudo da vida dos filhos, principalmente o que se passa com eles na escola. Quando vão buscá-los ou à noite, quando se encontram, é o momento do inquérito: "Como foi na escola hoje?"; "O que fez na hora do recreio?"; "O que aprendeu?", "Quem são seus amigos?" etc. Nessa hora, o que incomoda mesmo os pais, em geral, são as respostas evasivas e monossilábicas que recebem dos filhos, como "normal" ou "tudo bem".

Essa ânsia de saber tudo o que ocorre com o filho, principalmente no espaço escolar, tem suas razões. Vivemos na era do controle, e o aparelho de telefone celular nas mãos de crianças é um sinal emblemático desse anseio paterno. Mas, no final das contas, creio que esse recurso faz com que os pais é que acabem controlados pelos filhos.
Tão importante quanto esse fato é a relação de perda dos filhos que os pais experimentam quando os levam para a escola.

Esta representa o mundo para os mais novos, como bem diz Hannah Arendt e, portanto, representa também para os pais o início da trajetória que os separará dos filhos. E, numa época de laços afetivos tão efêmeros, os pais se ressentem dessa perda. Saber de tudo o que se passa com eles é, em certa medida, uma maneira de resistir ao afastamento.
Curioso é tentar integrar a essa última idéia os resultados de uma pesquisa feita pela Ipsos Public Affairs, comentados numa reportagem da Folha no último dia 12. Surpresa: a pesquisa constata que os pais têm mais prazer de assistir à TV do que de passear ou brincar com os filhos.

Como podemos entender essa contradição? Afinal, os pais querem os filhos bem perto, mas não sabem o que fazer quando estão com eles!

É que, ao tentarem controlar a vida dos filhos para terem a sensação de estarem próximos a eles, os pais se esqueceram de como se relacionar de modo humanizado com eles. Os pais da atualidade sabem muito bem xeretar a vida dos filhos, mas não sabem como interagir com eles.
Quando o interrogatório com o filho não funciona, e costuma mesmo não funcionar, apelam para a mesma estratégia com os colegas e amigos dos filhos. Também na busca por pistas informativas, vasculham o computador, os diários, ouvem conversas telefônicas etc.

Outro dia ouvi um depoimento simples de um pai sobre como conseguiu ter da filha mais do que respostas lacônicas. Contou ele que, cansado de perguntar sobre a escola e não ter respostas, decidiu entabular com ela uma conversa. Dispôs-se a contar a respeito de seu dia, de seu trabalho, das dificuldades e dos bons momentos que vivenciara.

A partir de então, não precisou mais perguntar sobre a escola: no diálogo e espontaneamente, a filha passou a falar das vivências escolares significativas para ela.
O que esse pai descobriu, longe de ser uma estratégia para ter as informações que queria, foi uma forma de interagir com a filha, de se colocar na relação, de dialogar e de colocá-la num lugar privilegiado: o de autora de sua narrativa, e não o de mera respondente de perguntas. Talvez muitos pais prefiram ver TV ou fazer questionários aos filhos porque estas são atividades que não exigem interação.

 

Escrito por Rosely Sayão às 18h22
Dilemas de pais

Um casal que tem um filho de dois anos está num dilema: marcaram, para o final do ano, uma viagem ao exterior com duração de 20 dias. Não planejam levar o filho que ficará com as avós queridas, alternadamente, durante esse período.

Depois de tudo organizado, veio a reflexão: será que a viagem trará sofrimento ao filho, poderá causar infelicidade ou algum problema? Será que podem ir sem remorso ou culpas sabendo que o máximo que pode ocorrer é serem recebidos com frieza pelo filho no retorno? Ou será que tomaram uma decisão irresponsável e imatura e o melhor seria abortar a tão sonhada viagem? Imersos nessas dúvidas, pediram ajuda na reflexão. Vamos lá, já que essa situação é muito comum nos dias atuais.

Em primeiro lugar quero ressaltar que dilema é isso mesmo: uma situação que exige uma escolha entre duas possibilidades contraditórias e qualquer uma delas resultará em alguma insatisfação. Os pais que se envolvem em dilemas no percurso da vida com os filhos costumam ser os mais reflexivos, os que mais pensam a respeito da educação que praticam e nos filhos.

Vamos considerar as possíveis conseqüências de um afastamento longo – 20 dias para uma criança pequena é bastante tempo – dos pais. A criança sofrerá inicialmente, é claro, mas poderá esquecer-se logo da situação e envolver-se com seu novo contexto. É preciso lembrar que na primeira fase da infância a criança vive no presente apenas, e o que se afasta dela deixa de existir. Quem tem filhos sabe que uma das primeiras brincadeiras que eles curtem é o esconde-esconde e que a maneira que eles têm para se esconder é fechar os olhos ou colocar um pano na cabeça. É isso: se ele não vê, acredita não ser visto, não estar no local. Assim será no caso de viagens dos pais.

Mas é possível também que a criança sofra com a ausência e adoeça. Nessa idade, o sofrimento e/ou conflito psíquico frequentemente é somatizado. Um casal que fez uma viagem muito semelhante ao de nossos internautas teve de abortar no meio o passeio justamente por esse motivo: uma semana após a saída, a avó ligou desesperada com a doença da neta.

Em relação a problemas futuros causados por esse afastamento, é bem improvável que isso ocorra. Mas, a conclusão que se pode tirar é de que o comportamento da criança no período em que os pais viajam é imprevisível: pode dar tudo certo, ou nem tudo.

Do lado dos pais, é bem compreensível o anseio por uma viagem desse tipo. Afinal, além de dos benefícios do passeio há a possibilidade de reatualizar os vínculos, de namorar, de ter momentos de intimidade a dois. Vamos convir: com filhos pequenos, isso é bem difícil.

Ao final de nossa reflexão, o casal vai se encontrar frente ao mesmo dilema inicial. A vida, depois da chegada dos filhos, é assim mesmo: um eterno escolher, sem garantia alguma de que a escolha feita foi a melhor. Mas, depois de feita, ela deve ser assumida sem culpas ou remorsos. Os pais precisam exercitar o nem um pouco simples ato de renunciar à possibilidade rejeitada.

Caso decidam por viajar, que seja com tranqüilidade e disposição para enfrentar os imprevistos que possam ocorrer; se decidirem por ficar, que seja compreendido como um adiamento temporário de um sonho, apenas isso. O mais importante para o filho é a segurança que os pais manifestam com suas escolhas.

Boa sorte ao casal.

Escrito por Rosely Sayão às 12h03