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do Blog da Rosely Sayão
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Dilemas de pais
Um casal que tem um filho de dois anos está num dilema: marcaram, para o final do ano, uma viagem ao exterior com duração de 20 dias. Não planejam levar o filho que ficará com as avós queridas, alternadamente, durante esse período. Depois de tudo organizado, veio a reflexão: será que a viagem trará sofrimento ao filho, poderá causar infelicidade ou algum problema? Será que podem ir sem remorso ou culpas sabendo que o máximo que pode ocorrer é serem recebidos com frieza pelo filho no retorno? Ou será que tomaram uma decisão irresponsável e imatura e o melhor seria abortar a tão sonhada viagem? Imersos nessas dúvidas, pediram ajuda na reflexão. Vamos lá, já que essa situação é muito comum nos dias atuais. Em primeiro lugar quero ressaltar que dilema é isso mesmo: uma situação que exige uma escolha entre duas possibilidades contraditórias e qualquer uma delas resultará em alguma insatisfação. Os pais que se envolvem em dilemas no percurso da vida com os filhos costumam ser os mais reflexivos, os que mais pensam a respeito da educação que praticam e nos filhos. Vamos considerar as possíveis conseqüências de um afastamento longo – 20 dias para uma criança pequena é bastante tempo – dos pais. A criança sofrerá inicialmente, é claro, mas poderá esquecer-se logo da situação e envolver-se com seu novo contexto. É preciso lembrar que na primeira fase da infância a criança vive no presente apenas, e o que se afasta dela deixa de existir. Quem tem filhos sabe que uma das primeiras brincadeiras que eles curtem é o esconde-esconde e que a maneira que eles têm para se esconder é fechar os olhos ou colocar um pano na cabeça. É isso: se ele não vê, acredita não ser visto, não estar no local. Assim será no caso de viagens dos pais. Mas é possível também que a criança sofra com a ausência e adoeça. Nessa idade, o sofrimento e/ou conflito psíquico frequentemente é somatizado. Um casal que fez uma viagem muito semelhante ao de nossos internautas teve de abortar no meio o passeio justamente por esse motivo: uma semana após a saída, a avó ligou desesperada com a doença da neta. Em relação a problemas futuros causados por esse afastamento, é bem improvável que isso ocorra. Mas, a conclusão que se pode tirar é de que o comportamento da criança no período em que os pais viajam é imprevisível: pode dar tudo certo, ou nem tudo. Do lado dos pais, é bem compreensível o anseio por uma viagem desse tipo. Afinal, além de dos benefícios do passeio há a possibilidade de reatualizar os vínculos, de namorar, de ter momentos de intimidade a dois. Vamos convir: com filhos pequenos, isso é bem difícil. Ao final de nossa reflexão, o casal vai se encontrar frente ao mesmo dilema inicial. A vida, depois da chegada dos filhos, é assim mesmo: um eterno escolher, sem garantia alguma de que a escolha feita foi a melhor. Mas, depois de feita, ela deve ser assumida sem culpas ou remorsos. Os pais precisam exercitar o nem um pouco simples ato de renunciar à possibilidade rejeitada. Caso decidam por viajar, que seja com tranqüilidade e disposição para enfrentar os imprevistos que possam ocorrer; se decidirem por ficar, que seja compreendido como um adiamento temporário de um sonho, apenas isso. O mais importante para o filho é a segurança que os pais manifestam com suas escolhas. Boa sorte ao casal.
Escrito por Rosely Sayão às 12h03
![]() Os pais e a adolescência dos filhos
Uma internauta enviou uma questão bem interessante. Com uma filha de 14 anos, ela está enfrentando os revezes da adolescência: conta que a filha se recusa a qualquer convivência familiar, vê muito poucos os amigos fora da escola e não tem ânimo para nada, nem para passear. Além disso, toma poucos banhos, o seu quarto é um horror e seu desempenho escolar vive de altos e baixos. Essa mãe conta que sempre foi presente na vida da filha, educou-a bem durante a infância e agora tem a impressão de que tudo o que fez ficou perdido no passado, que não resultou em nada. Tenho visto muitos pais de adolescentes com essa mesma sensação: de sentirem o árduo trabalho educativo exercitado durante anos ir por água abaixo. É preciso mudar essa interpretação para que os pais encontrem forças para continuar sua tarefa até o término dela. No período da adolescência, o filho passa por uma verdadeira metamorfose. O corpo, que lhe era tão familiar e também conhecido dos pais, passa a ser um desconhecido que muda a cada dia, e não do modo esperado e/ou idealizado. É como se fosse a metamorfose da borboleta às avessas: é esta que se transforma em lagarta. Esse é um dos motivos que colabora com o descuido corporal e da saúde que tantos jovens experimentam nesse período: como cuidar de um corpo que ele não conhece, não entende, não sente que é seu, como expor socialmente esse corpo? Com tantas mudanças no corpo, muda radicalmente a relação do filho com ele mesmo e com o mundo: já não sabe o que lhe importa, quais suas prioridades, qual sua identidade. Trata-se de um período em que o filho coloca em xeque o amor de seus pais – se ele mudou tanto e precisa se afastar para construir sua própria vida, será que continua sendo um integrante importante daquele grupo? Neste momento, cabe uma reflexão dos pais sobre a própria vida. O que fizemos com a herança educativa que recebemos? Nós nos apropriamos dela, não é verdade? Isso significa que muito do que aprendemos com nossos pais incorporamos, algumas coisas transformamos e outras, ainda, rejeitamos. Pois é exatamente no início desse processo que o jovem se encontra. Só que, de modo desajeitado, recusa tudo que veio dos pais porque ainda não sabe discriminar o que tem a ver com ele daquilo que não tem. É nessa hora que os pais precisam lembrar ao filho quem ele é no sentido familiar. Os valores ensinados precisam ser reafirmados, o autocuidado, em todos os aspectos, precisa ser relembrado e a tutela exercida com firmeza cedendo espaço, de modo paulatino, à negociação e à autonomia. Vou dar alguns exemplos: banho diário e higiene dental continuam sendo atos obrigatórios. Para tanto, os precisam usar toda sua autoridade: não deixar o filho ir dormir sem tomar banho. Ele irá resistir, fazer cara feia, ameaçar, burlar (deixar o chuveiro aberto um tempo sem se banhar) etc. Nada disso deve assustar ou demover os pais de sua tarefa. Aos poucos, o filho aceita a idéia que se trata de um bem para ele e não para os pais. Reunião e convivência familiar? Os pais devem exigir o que consideram o mínimo, pois precisam entender que o filho precisa de momentos de solidão ou com os amigos. Ele está trocando de turma, afinal. Exigir um mínimo não significa obrigar que ele faça isso de bom grado: basta que esteja presente. Aos poucos – quem sabe? – poderá apreciar esses momentos. E é assim, com os pais reafirmando a educação que deram, mas aceitando que o filho seja diferente deles ou do que sonharam, é que a tarefa educativa pode ser finalizada. Tudo o que o filho adolescente não pode é ser abandonados pelos pais nesse difícil e excitante trajeto de sua vida. Recomendo que assistam ao filme “Aos treze”: é uma grande fonte de reflexões, compreensões e identificações para os pais que atravessam esse período.
Escrito por Rosely Sayão às 14h57
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