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A educação pela brincadeira

Ao andarmos pelas cidades, cruzamos com várias crianças pequenas, com menos de seis anos, acompanhadas de adultos ou apenas de crianças pouco maiores. Elas pedem esmola, vendem doces, lixas, flores etc. São as nossas crianças que realizam trabalho infantil.

Há também um número expressivo de crianças dessa idade que ficam em casa, muitas vezes sem adultos, por falta de vagas suficientes nas instituições públicas de educação infantil. E, finalmente, há as que freqüentam a escola de educação infantil, quase sempre por meio período no dia.

Será que existe algo em comum entre crianças com vidas tão diferentes? Sim: muitas delas não têm espaço e tempo para brincar. As primeiras porque já têm responsabilidade de gente grande: precisam produzir renda para a família. As do segundo grupo porque passam horas em frente à TV. E as do terceiro porque, quando estão em casa, também vêem TV: pesquisas mostram que as crianças brasileiras passam de quatro a cinco horas por dia assistindo à televisão. Ah, mas estas últimas têm um espaço e um tempo certos dedicados à brincadeira quando vão à escola, certo?

Errado. Em geral, nem a escola permite que as crianças brinquem no período em que lá ficam. E vários motivos contribuem para isso. Em primeiro lugar, construímos um problema sério para a educação infantil: os professores não são valorizados e são colocados em patamar inferior ao dos demais docentes. Os pais precisam saber que os professores que lecionam no ensino médio ganham mais do que os que ensinam no segundo ciclo do fundamental, que, por sua vez, recebem salários maiores do que os que trabalham no primeiro ciclo. Os que se dedicam à educação infantil constituem a classe D nas camadas sociais criadas na escola, independentemente da formação, da experiência e da excelência na realização do trabalho. O salário é apenas um sinal do que se espera desses professores.

Nos países em que a educação é tratada com seriedade, os professores dos mais novos têm de ter sólida formação -e não só metodológica e técnica mas também cultural.
Com a política que adotamos, criamos uma ligação muito estreita entre o trabalho desses professores e o doméstico. Não é à toa que, principalmente nesse ciclo, as professoras são chamadas de "tia".

Para tentar dar um ar mais profissional a esse trabalho, muitas escolas decidiram investir no ensino de conteúdo, realizando uma caricatura do ensino fundamental. Isso acaba por abolir o espaço para o lúdico. Chegamos ao ponto de termos crianças com três ou quatro anos que precisam aprender a escrever e que levam lição para ser feita em casa! Pelos pais, evidentemente.

Aliás, só estes podem ajudar a mudar tal quadro: Exigindo que as políticas públicas e as escolas privadas valorizem o profissional de educação infantil, teremos chances de oferecer às crianças profissionais qualificados capazes de acompanhá-las na descoberta de si e do mundo pela brincadeira.

 

Escrito por Rosely Sayão às 22h40
Bullying

“Gostaria que falasse um pouco sobre bullying. Minha filha tem 11 anos e está sofrendo com o descaso dos colegas e sentindo-se acuada, humilhada e perseguida. Como devo ajudá-la? Aonde buscar ajuda? Como questionar a escola?”

A correspondência da leitora chama a atenção para um fenômeno que não é novo nas relações entre crianças e jovens. O que é novo é o nome, a intensidade e a abordagem. Vamos, então, pensar no assunto.

Costumamos dizer que crianças e jovens são cruéis, não é? Maltratam animais e colegas, dizem frases agressivas e ofensivas às pessoas, perseguem seus pares mais frágeis etc. E sentem prazer nisso. Na verdade, tal crueldade é apenas sinal de que estão, ainda, em processo de aprendizagem para conviverem com respeito com os outros. É que eles são muito centrados em si, no prazer que sentem, no que pensam e acham das coisas e é por isso que precisam sempre da presença de adultos responsáveis para tutelar sua vida em grupo.

Já sabemos que os adultos estão em retirada desse campo, ou seja, estão mais ocupados consigo e sem paciência e disponibilidade para o processo educativo. Por isso, comportamentos de crianças e jovens desse tipo, que precisariam de contenção e de intervenção, se multiplicam exatamente pela ausência dos adultos.

Podem constatar: o fenômeno do bullying ocorre nas escolas principalmente nos períodos em que não há professor por perto: na hora da entrada e da saída e no recreio. Ocorre que esses são os períodos privilegiados para se educar.

Mas, optamos por deixar os alunos nesses momentos nas mãos de seguranças, monitores, auxiliares e outros trabalhadores que não têm preparo para a intervenção educativa. Só podia dar no que tem dado mesmo: o comportamento dos alunos tem estado descontrolado, desrespeitoso e extremamente competitivo.

Além disso, as escolas não realizam um trabalho consistente de educação pela e para a paz. De vez em quando fazem um acontecimento ou outro, mas educação só tem efetividade se for um processo diário e contínuo. Respeito, justiça e solidariedade são valores que se ensinam na prática diária no espaço escolar.

Precisamos cobrar da escola uma atitude mais consistente nessa questão. Uma criança de 11 anos – caso da filha de nossa leitora – não tem condições de fazer frente sozinha a esse movimento. Precisa pedir ajuda mas, como em geral os colegas ameaçam caso isso ocorra, são os pais que devem conversar com a escola, de preferência com o filho junto. É do local em que isso ocorre que deve surgir a ajuda.

Com a própria filha, nossa leitora pode encorajá-la a pedir ajuda de um educador sempre que necessário. Além disso, precisamos considerar que nossos filhos não são apenas vítimas do bullying: são também os praticantes dele. Por isso, ensinar a se colocar no lugar do outro é uma atitude sempre importante.

Como o tema é complexo, voltaremos a ele outras vezes. 


PS: bully é uma palavra da língua inglesa que significa valentão, provocador, tirânico. Não temos para o termo bullying uma palavra correspondente na língua portuguesa, por isso temos usado o termo em inglês. 


 

Escrito por Rosely Sayão às 11h17

Os pais e a escola sob medida

Uma leitora enviou correspondência em que comenta as reuniões de pais nas escolas. Disse que vai a todas e que sai horrorizada porque alguns pais se acham no direito de cobrar da instituição escolar atitudes educativas que ela considera dever da família. Outro leitor contou que ouviu pais se manifestarem totalmente contrários às posições da escola e que não entende como eles podem manter o filho na mesma. Já é hora, portanto, de avançarmos na reflexão da delicada relação escola-família.

Esses nossos leitores, muito sagazes, constataram que há um grande número de pais, notadamente entre os que matriculam os filhos em instituição particular, que acreditam poder exigir uma escola sob medida para seus filhos.

Isso leva a pedidos ou exigências dos mais absurdos, como a troca de turma para o filho estar com amigos, troca de professor de sala ou de disciplina, maior ou menor quantidade de lição a ser feita em casa etc. Isso sem falar da relação pouco respeitosa que os pais mantêm com as regras de funcionamento da escola, tais como horário de chegada e de saída, datas e prazos, uso de uniforme, uso de telefone celular etc.

Por que tais solicitações são absurdas? Porque a escola é o lugar de transição entre família e mundo em que os alunos aprendem, entre outras coisas, a viver sem escolher. Essa é uma das características da vida pública: não escolhemos os colegas com quem iremos trabalhar, as pessoas que estarão ao nosso lado no trânsito, as datas para pagar contas e tributos e as leis que temos de respeitar.

Precisamos nos lembrar sempre de que a escola tem o dever de preparar os mais novos para a cidadania. Por isso, demandas dos pais que privilegiam o âmbito privado não fazem sentido algum quando consideramos esse exercício que os filhos devem fazer ao freqüentar a escola.
Esse aprendizado também tem sido dificultado pelo constatado declínio do trabalho educativo das famílias. Os alunos chegam à escola muitas vezes sem o processo básico de educação em curso. Mas, ao contrário do que muitos professores pensam, isso se deve pouco ao descaso ou à ausência dos pais e mais à nossa cultura que "juveniliza" os adultos. É que os jovens -não me refiro à idade cronológica- têm dificuldades de estabelecer relações educativas com os filhos.

Tal fato tem gerado muitas reclamações por parte da escola, porque os mestres, tanto quanto os pais, também estão submetidos a essa cultura. Uma coisa é certa: pais e professores têm objetivos comuns e precisam constantemente recordar que é a educação dos mais novos o foco de sua tarefa educativa. A maioria dos conflitos entre eles não considera esse ponto, e sim anseios próprios de cada um deles.

Enquanto tivermos pais aflitos com o que consideram sofrimento dos filhos na escola e em busca de soluções fáceis e escolas mais comprometidas com novas metodologias e com a busca de determinados perfis de alunos em vez de com o uso do rigor e da exigência para alcançar um ensino de qualidade, a relação entre ambos será, necessariamente, conflituosa e desastrosa. Quem perde são os mais novos, que deveriam nortear todo nosso trabalho.

Escrito por Rosely Sayão às 00h23
Educação, Arte e Cultura

Estive em Florianópolis em um congresso sobre criança e cidadania e me lembrei de um fato que vi lá ao ler os comentários a respeito das influências da televisão na formação de nossas crianças.

Entre uma palestra e outra, um grupo de alunos de terceiro ano de uma escola municipal de ensino fundamental apresentou, acompanhado de sua professora, um número musical. Eles cantaram canções regionais e da MPB e apresentaram um número de sons obtidos com objetos – no caso, um copo de plástico – e o corpo.

Observei muito atentamente a apresentação. Os alunos estavam muito concentrados, focados exclusivamente em seu trabalho. Nem ligaram para a imensa platéia, formada por mais de 500 adultos.

Para crianças dessa idade não é fácil coordenar movimentos diferentes do próprio corpo com o do colega mais a manipulação, num determinado ritmo, de objetos, por isso a professora teve de usar muito rigor e exigir bastante de seus alunos para ensiná-los. Claro que alguns cometeram erros, mas isso foi irrelevante frente ao aprendizado que tiveram.

Considerei o trabalho da professora – bem jovem, por sinal – que estava por trás daquela apresentação e fiquei comovida. Ela não se rendeu ao apelo fácil e sedutor de ensaiar as crianças usando uma música já conhecida delas, dessas que as rádios e canais de tv tocam à exaustão e que, além de não serem próprias para crianças, não ensinam nada sobre nossa cultura e a arte.

Pensei também em como muitas escolas e pais cedem irrefletidamente a esse massacre que a mídia faz para que crianças e jovens consumam apenas determinados tipos de músicas. Lembrei-me também que há, em nosso país, uma infinidade de trabalhos musicais de qualidade dirigidos ao público infantil, que poucos pais e escolas usam. Um desses trabalhos – é só um exemplo – está no vídeo abaixo. É do grupo “Palavra Cantada” (www.palavracantada.com.br/ ) e foi apresentado na TV Cultura.

Se quisermos de fato uma educação de qualidade para nossos filhos e alunos, precisamos transmitir a eles um patrimônio artístico-cultural de qualidade e que dialogue com o criativo universo infantil. Vamos encarar esse desafio?

Escrito por Rosely Sayão às 13h51

Educação pela TV

Uma leitora enviou um comentário a respeito dos roteiros das novelas. De forma resumida, ela diz que um tema onipresente são as tentativas de personagens centrais das tramas de prejudicar pessoas com quem convivem a fim de obter o que desejam. Esse não é um ótimo pretexto para pensarmos a respeito das influências da televisão na educação dos mais jovens? É inegável que a televisão produz efeitos importantes no comportamento de crianças e de jovens. Mas, em vez de demonizar o veículo, vamos pensar na amplitude desses efeitos para compreendermos melhor nossa tarefa de educadores.

Em primeiro lugar, precisamos reconhecer que tornamos a televisão um objeto indispensável na vida das crianças. Nós, que evitamos a todo e qualquer custo fazer imposições aos filhos, não titubeamos em tornar obrigatória a convivência deles com a programação da TV. Acreditamos que não haja escolha nessa questão, não é? Pois é bom ter clareza de que é uma escolha ter TV em casa ou não.

Mas julgamos que não ter é deixar os filhos em um mundo à parte, fora da realidade social e isolado dos colegas. Uma mãe que contou a um grupo de amigas que não tem televisão em casa causou perplexidade. Ou seja: os pais nem consideram mais a possibilidade de uma vida sem esse recurso. Esclarecido esse ponto inicial, podemos pensar em outro aspecto: como se dava a entrada dos mais novos no mundo adulto antes da presença da televisão como modo, talvez principal, de distração e de entretenimento em casa? De forma gradual e, principalmente, por narrativas e ensinamentos dos adultos e dos livros.

Cabia aos pais a tarefa de socializar os filhos, ou seja, prepará-los positivamente para a convivência social. Isso significava ensinar os bons modos, o respeito aos mais velhos, o cuidado com os mais novos, o uso delicado da linguagem, a obediência aos adultos, a discriminação entre o que é bom e o que não é, a solidariedade, o valor da verdade, as virtudes etc. Assim, o processo de formação já se encontrava em franco desenvolvimento quando os mais novos entravam em contato com características, digamos, menos nobres da humanidade. O mundo adulto já podia, portanto, ser julgado de acordo com as referências recebidas.

Hoje, a televisão introduz as crianças nos aspectos sórdidos do mundo adulto sem dó nem piedade. Desde cedo, antes de sua formação ter se tornado consistente, elas descobrem que pessoas usam a esperteza para se dar bem, que alguns políticos mentem e prevaricam, que o uso da virulência nas relações interpessoais é cada vez mais freqüente, que a busca do lucro é desmedida etc. E é assim, indefesos e sem condições de julgamento crítico, que os mais novos são socializados.

Isso só mostra a complexidade da tarefa dos educadores. Os adultos não podem ficar, como os mais novos, seduzidos e hipnotizados diante da televisão; precisam ser críticos e partilhar essa visão com os mais novos. Se a educação que a TV pratica é marcante, a nossa precisa ser mais.


 

Escrito por Rosely Sayão às 11h15