UOL Estilo UOL Estilo





BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Mulher, de 56 a 65 anos, Portuguese

Quem é Rosely Sayão

e-mail
Dúvida
Neste blog Na Web

 Visitas  
 
Coragem para crescer

“Gostaria de ajuda para resolver um problema com a minha filha de seis anos que está com medo de dormir sozinha. Ela tem dormido na minha cama, mas mesmo assim quer ficar segurando na minha mão e diz que não gosta de dormir. Estou preocupada porque ela chora muito e realmente tem muito medo, mas não posso deixar que ela durma só apertando minha mão. Gostaria de uma orientação pois já tentei acalmá-la e não consegui.”

A correspondência da freqüentadora do nosso blog – o blog não é meu, é nosso – nos permite pensar numa transição importante da vida das crianças: a da primeira parte da infância para a segunda.

Essa passagem – que ocorre mais ou menos aos seis anos – gera uma crise. Toda passagem na vida gera crises, independentemente da idade. Nessa fase, a criança sente que está deixando de ser uma criancinha e pressente que tal fato a colocará um pouco mais implicada com a própria vida: começará a dar os passos com suas próprias pernas. Essa situação gera uma grande insegurança e cada criança reage a essa sensação de um modo.

É comum as crianças reagirem como a filha de nossa leitora: o medo de dormir sozinho revela apenas o grande desejo de se manter próximos aos pais. É, portanto, apenas um sinal de resistência ao crescimento.

Só que as crianças são educadas para crescerem e não para permanecerem infantis, não é verdade? Aliás, elas crescerão de qualquer maneira, por isso a atitude educativa de apoio é fundamental. Portanto, a atitude dos pais nesses momentos de crise são estruturantes.

Por que algumas crianças nessa fase têm medo de dormir? Porque é nesse momento que a criança fica mais distante dos pais e totalmente separada deles – e não falo apenas fisicamente. Deve ser esse o motivo de a filha de nossa leitora querer dormir segurando a mão dela: para garantir a não separação.

Com qual atitude se enfrenta o medo? Com coragem. Nessa etapa da vida, os filhos precisam que os pais os encorajem a crescer, e não apenas na hora de dormir. À medida que a criança percebe que os pais confiam no potencial dela, que acreditam que ela tem condições de enfrentar as situações que o crescimento trará, sua angústia pouco a pouco se aquieta.

Na prática, nossa leitora terá de fazer uma transição na hora de a filha ir dormir: ir com ela, sentar-se ao lado até que ela comece a relaxar ou a adormecer – a criança precisa saber como os pais irão agir - contar uma história, dizer palavras carinhosas e encorajadoras e garantir que, caso ela precise, a mãe estará no quarto próximo. Isso pode durar dias, semanas, mas devagar os pais precisam se afastar até que a criança consiga dormir sozinha.

Muitos pais já passaram por essa fase e conseguiram soluções criativas. Quem tiver passado pela experiência pode colaborar com nossa leitora contando como foi.

 

Escrito por Rosely Sayão às 11h27

O que há nas mochilas

No ato de observar os mais novos, distanciados das nossas decisões em relação a eles, é que podemos apreender o resultado das ações que tomamos, principalmente as que visam a construção do futuro, ou seja, as educativas. E, às vezes, essa observação nos mostra que cometemos equívocos.

Pois é a reflexão entre o que miramos -nosso objetivo- e o que conseguimos promover -o resultado- que possibilita a correção de rumos e a troca de estratégias para que nos aproximemos mais do pretendido. Considerando esse ponto de vista, vamos pensar hoje em uma questão bem trivial: o material que os alunos levam para a escola e como o levam.

Deveríamos parar em frente a uma escola para constatar: o tamanho das mochilas é descomunal. E o fenômeno não é recente, tanto que vários profissionais já avisaram que crianças podem sofrer prejuízos por carregar peso. Frente a essa informação, a solução pareceu lógica: trocar pastas e bolsas por malas com rodinhas e mochilas enormes. O interessante é que não paramos para pensar na necessidade de tanto material.

Pedi para a mãe de um garoto de seis anos me mostrar a mochila dele, que não era das maiores. Primeira surpresa: ela vinha com uma lancheira. A mochila enorme não reservava espaço para o lanche. Abri a mochila e tive a segunda surpresa: dentro, apenas uma roupa e uma agenda. Abri a agenda: já no reinício dos trabalhos escolares, apenas meia dúzia de comunicações entre professora e mãe. Uma agenda digna de um adulto nas mãos de uma criança serve para quê?

Perguntei as razões da mãe para mandar uma troca de roupa, e ela contou que essa é uma solicitação da escola. Uma criança não pode ficar suja por algumas horas? Por que uma mochila tão grande? "Porque todos os alunos têm", disse a mãe. E tem mais: alunos dessa idade que fazem natação na escola, por exemplo, além da roupa de banho, levam roupão, touca e outras tranqueiras. Ou seja: ir para a escola equivale a uma viagem ou a uma ida ao clube.
 
As mochilas dos mais velhos também contêm as indefectíveis agendas -conseguimos burocratizar a vida escolar de nossos alunos!- e livros didáticos, apostilas, mais livros didáticos e apostilas, um caderno para cada disciplina, folhas avulsas etc. A pergunta que precisamos fazer é: avaliamos o ensino por quilo? Parece.

Voltemos ao eixo de nossa reflexão: o que procuramos atingir com o material escolar e o que de fato conseguimos? Pelo jeito, cometemos alguns equívocos nessa questão.

 

Escrito por Rosely Sayão às 00h10
A dificuldade de diálogo com os mais novos

A Vivi fez um comentário que me deu vontade de retomar o tema do último post – a falta de comunicação -, agora centrado nas relações entre pais e filhos. A filha dela teve toda a razão no comentário que fez: muitos educadores não ouvem o que os filhos ou alunos falam quando conversam com eles. Mas, o mais importante, é que eles não se dão conta de que esse fato ocorre.

Por que será? Conseguimos ter algumas pistas quando pensamos na cultura de nosso mundo. Como já disse aqui várias vezes, privilegiamos a juventude eterna, ou seja, os adultos passaram a querer ocupar o lugar de jovem para sempre. Isso faz com que subestimemos as crianças e os jovens de fato. Nada mais lógico: se os levássemos a sério, eles logo ocupariam nosso lugar.

Essa questão, associada ao modo individualista de viver, provoca a absoluta ausência de diálogo: estamos sempre em solilóquio. Conversamos com nossas inquietações, com as imagens que fazemos dos mais novos, com nossas angústias e com nossos pensamentos. Quando nos dispomos a estabelecer uma troca verbal com os filhos ou alunos, nem percebemos que não levamos a sério o que eles dizem. Vou dar um exemplo que testemunhei.

Uma educadora ficou sabendo que um parente querido e próximo de uma aluna estava muito doente. É bom ressaltar que muitas pessoas sabiam do fato, ou seja, era um acontecimento que havia se tornado público. Preocupada com a aluna, chamou-a para saber se ela estava bem.

Quando a garota chegou até ela, a educadora lhe disse que queria saber como ela estava. A menina, com aproximadamente nove anos, perguntou o motivo da pergunta. A resposta da educadora foi a expressão de como tem sido difícil para os adultos o estabelecimento de um diálogo verdadeiro com os mais novos. Ela respondeu: “Por nada, eu só queria saber se você está bem”. Aí está: a pergunta da garota foi ignorada, não foi considerada e, portanto, ela  não foi reconhecida. E devo dizer que essa educadora é muito dedicada. Ela nem percebeu o que fez.

Como estamos muito submetidos à cultura em que vivemos é preciso praticar a auto-observação o tempo todo para nos tornarmos educadores reflexivos. Assim é que poderemos reconhecer filhos e alunos e construir um relacionamento verdadeiro com eles. 

Escrito por Rosely Sayão às 12h03

Falta de comunicação

Nos últimos dias, algumas infelizes declarações de pessoas públicas provocaram revolta em muita gente, e com razão. Mas não é de hoje que temos tratado muito mal a nossa forma de comunicação. Estamos nos tornando incomunicáveis, arrisco dizer, a maior parte do tempo. Às vezes, tenho a sensação de que passamos a usar palavras, frases, discursos e (des)informações apenas para preencher um vazio ou cumprir uma obrigação. É por isso que muita gente se acha no direito de dizer qualquer coisa sem compromisso, sem se sentir obrigado a honrar o que disse ou a respeitar seus interlocutores, fisicamente presentes ou não. Mais uma evidência de nossa cultura de desdém ao outro.

Na noite do trágico acidente aéreo recente, muitas famílias ansiosas ou dramaticamente esperançosas cobravam da companhia aérea a lista de passageiros que haviam embarcado na aeronave. Qual a resposta? Que a lista só seria divulgada após a comunicação pessoal da empresa com as famílias dos passageiros. Parecia uma atitude séria e respeitosa, não? No entanto, no início da madrugada, a lista foi divulgada pelos meios de comunicação, e foi dessa maneira que muitas famílias constataram o que já sabiam ou temiam.

Esse é apenas um exemplo de como nossa comunicação anda mal e deixa claro que temos considerado apenas quem emite a mensagem e ignorado a outra via, ou seja, o destinatário. Tomemos alguns outros casos. Quem já passou pela experiência de tentar obter uma informação com algum serviço de atendimento ao consumidor, de suporte de informática ou coisa semelhante sabe o quanto é difícil estabelecer um diálogo com esses atendentes. Na verdade, muitas vezes as respostas são verdadeiros disparates. Isso quando não somos obrigados a ouvir explicações vazias que não passam de bobagens.

E vejam que vivemos em um tempo em que a comunicação parece ter uma importância enorme. É por isso que contamos com profissionais especializados em preparar as pessoas para que se comuniquem com eficiência. O problema é que o desprezo com que tratamos o outro gera apenas discursos recheados de "nonsense" e vazios de reconhecimento.

Essa nossa dificuldade em estabelecer um diálogo em que o outro não seja subestimado ou menosprezado se mostra também nas conversas que temos com filhos e alunos. Pais e professores precisam lembrar sempre que palavra dita é palavra empenhada. Além disso, precisam estar atentos ao que os mais novos dizem.

Eles têm denunciado que não levam muito a sério o que dizemos. Por quê? Porque muitas vezes dizemos qualquer coisa só para marcar presença; porque, igualmente, não os levamos a sério; porque deixamos que falem bobagens e as consideramos; porque não nos empenhamos na construção de uma comunicação verdadeira. Esta é uma boa hora para se tomar algumas decisões. Cultivar o apreço pelo outro, a consideração por palavras plenas de sentido e o respeito pelos interlocutores são algumas delas.

Escrito por Rosely Sayão às 20h47
Quando o filho tropeça nas palavras

A mãe de um garotinho que tem quase três anos escreveu-me aflita. Ela está preocupada porque o filho, segundo ela, demorou para começar a falar e agora está gaguejando bastante. Como ela está grávida do segundo filho, pensou na possibilidade de essa ser uma maneira de ele manifestar ciúme e ter a atenção dos pais.

Nos tempos atuais, muitos pais observam atentamente o desenvolvimento do filho para constatar se segue o padrão considerado normal. Nunca falamos tanto em normalidade quando o que está em questão é o desenvolvimento infantil. Temos tabelas indicativas para o início da fala, para o crescimento, o alcance de um caminhar desenvolto, a destreza manual etc.

Um dos problemas que criamos ao tentar comparar o desenvolvimento de uma criança a essas tabelas é que passamos a pensar em atraso ou em precocidade. Mas, o que ocorre é que essas tabelas dizem respeito a médias estatísticas. Além disso, o sujeito tomado como objeto da ciência é anônimo e fictício. Essas tabelas ou suas idéias aproximadas precisam ser levadas em consideração com muito cuidado quando consideramos uma criança com nome, família e um contexto de vida.

Vamos tomar como exemplo algumas crianças que demoram para começar a se expressar pela linguagem falada. Entretanto, a maioria delas se expressa por outros tipos de linguagem, como a gestual, por exemplo. Conheço muitos casos de crianças que não falavam porque não precisavam falar: alguém falava por elas. Quando demandadas, passaram logo a utilizar o recurso que já tinham potencialmente.

Vamos pensar um pouco agora sobre o comportamento de gaguejar na idade do filho de nossa leitora. Muitas crianças passam por essa fase de gaguejar perto dos três anos e superam sozinhas, meses depois, sem que seja preciso preocupar-se com isso e muito menos realizar algum tipo de intervenção. Mas, o que é uma fase passageira, provocada pela dificuldade de articulação que nessa idade as crianças têm, pode se prolongar em virtude das reações que os adultos – pais, principalmente, ou professores - manifestam.

Uma criança não gagueja porque quer: esse é um ato involuntário, por isso é difícil afirmar que seja um modo de chamar a atenção. Pode – isso sim – ser uma maneira de manifestar uma dificuldade qualquer, mas aí é preciso acompanhar de perto a criança para buscar entender essa manifestação.

Se seu filho passa por essa fase, não se mostre desconfortável quando ele gagueja e não peça para ele ter calma: quem precisa de paciência para não completar a frase ou a palavra que ele tenta dizer são os pais. Também de nada serve pedir para ele respirar e recomeçar: isso só o atrapalha.

Nessa hora os pais precisam bom senso para aguardar um pouco e só pensar em procurar ajuda profissional após, pelo menos, seis meses de manifestação do comportamento sem mudança alguma.

 

Escrito por Rosely Sayão às 15h20