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Quando o filho tropeça nas palavras

A mãe de um garotinho que tem quase três anos escreveu-me aflita. Ela está preocupada porque o filho, segundo ela, demorou para começar a falar e agora está gaguejando bastante. Como ela está grávida do segundo filho, pensou na possibilidade de essa ser uma maneira de ele manifestar ciúme e ter a atenção dos pais.

Nos tempos atuais, muitos pais observam atentamente o desenvolvimento do filho para constatar se segue o padrão considerado normal. Nunca falamos tanto em normalidade quando o que está em questão é o desenvolvimento infantil. Temos tabelas indicativas para o início da fala, para o crescimento, o alcance de um caminhar desenvolto, a destreza manual etc.

Um dos problemas que criamos ao tentar comparar o desenvolvimento de uma criança a essas tabelas é que passamos a pensar em atraso ou em precocidade. Mas, o que ocorre é que essas tabelas dizem respeito a médias estatísticas. Além disso, o sujeito tomado como objeto da ciência é anônimo e fictício. Essas tabelas ou suas idéias aproximadas precisam ser levadas em consideração com muito cuidado quando consideramos uma criança com nome, família e um contexto de vida.

Vamos tomar como exemplo algumas crianças que demoram para começar a se expressar pela linguagem falada. Entretanto, a maioria delas se expressa por outros tipos de linguagem, como a gestual, por exemplo. Conheço muitos casos de crianças que não falavam porque não precisavam falar: alguém falava por elas. Quando demandadas, passaram logo a utilizar o recurso que já tinham potencialmente.

Vamos pensar um pouco agora sobre o comportamento de gaguejar na idade do filho de nossa leitora. Muitas crianças passam por essa fase de gaguejar perto dos três anos e superam sozinhas, meses depois, sem que seja preciso preocupar-se com isso e muito menos realizar algum tipo de intervenção. Mas, o que é uma fase passageira, provocada pela dificuldade de articulação que nessa idade as crianças têm, pode se prolongar em virtude das reações que os adultos – pais, principalmente, ou professores - manifestam.

Uma criança não gagueja porque quer: esse é um ato involuntário, por isso é difícil afirmar que seja um modo de chamar a atenção. Pode – isso sim – ser uma maneira de manifestar uma dificuldade qualquer, mas aí é preciso acompanhar de perto a criança para buscar entender essa manifestação.

Se seu filho passa por essa fase, não se mostre desconfortável quando ele gagueja e não peça para ele ter calma: quem precisa de paciência para não completar a frase ou a palavra que ele tenta dizer são os pais. Também de nada serve pedir para ele respirar e recomeçar: isso só o atrapalha.

Nessa hora os pais precisam bom senso para aguardar um pouco e só pensar em procurar ajuda profissional após, pelo menos, seis meses de manifestação do comportamento sem mudança alguma.

 

Escrito por Rosely Sayão às 15h20
Em busca da maturidade

Fazer faculdade, morar sem os pais e bem longe das vistas e do controle deles pode parecer a chance de ganhar a tão sonhada liberdade. Foi exatamente assim que sentiu a jovem que me contou um pouco dessa sua experiência de estudar fora.

A primeira sensação que ela teve foi de independência ao perceber que não tinha mais de dar satisfações de seu cotidiano a ninguém.  Afinal, professor de faculdade não costuma “pegar no pé” de seus alunos como os de ensino médio e de educação fundamental. Além disso, sem os pais por perto ela teria liberdade de ir e vir a qualquer hora para qualquer lugar, de escolher fazer ou não fazer as coisas, de comparecer ou não às aulas etc.

“Foi a melhor coisa da minha vida perceber que eu tinha, finalmente, a oportunidade de fazer o que eu quisesse”, disse ela. Mas, essa sensação durou pouco e custou muito. Logo depois das primeiras avaliações no curso ela se deu conta de que precisava comemorar menos e se comprometer mais com horários, estudos e freqüência nas aulas se quisesse se desenvolver e aprender o que tinha se proposto.

Ela ainda queria, sim, desfrutar de toda a diversão disponível, descobrir uma vida nova, mas queria também fazer bem o seu curso. Entendeu que tinha de dosar as coisas. Ponto para ela e, provavelmente, para a boa formação que teve já que levou apenas um semestre para chegar a essa conclusão enquanto muitos jovens passam anos nessa situação rodando em círculos.

“Se liberdade não é fazer apenas o que se quer, é o que, então?”, perguntou ela. Talvez seja saber escolher, saber renunciar, saber dosar, não é? Ou talvez seja conseguir  maturidade para saber avaliar bem no contexto três elementos distintos: “eu quero”, “eu posso” e “eu devo”. E mais: para ser livre é preciso descobrir que a liberdade tem um custo.

Ela disse que começou a tentar arcar com o custo de sua autonomia e liberdade a partir do segundo semestre de seu curso e que continua na batalha. Não é fácil acordar na hora quando podia permanecer na cama, fazer trabalho e estudar quando podia estar na balada ou descansar em vez de varar a noite na internet conversando com as amigas, entre tantas outras coisas, sem que ninguém lhe diga que é o que ela deve fazer.

E tem sido assim que essa corajosa jovem tem feito sua travessia para a maturidade: falhando muitas vezes e aprendendo com seus erros, fazendo escolhas algumas vezes equivocadas, outras acertadamente, buscando aprender a se cuidar e a se controlar e dando muito valor às palavras de alguns adultos que ela respeita. Os pais, por exemplo.

“Ainda falta muito para eu aprender a ser gente grande”, disse ela ao final de nosso encontro. Pois eu diria que ela já achou o rumo, agora é uma questão de esforço, dedicação e perseverança.

O relato dela me fez pensar que vale a pena (no mais exato sentido da expressão) todo o nosso trabalho na educação das novas gerações.

 

Escrito por Rosely Sayão às 19h30