UOL Estilo UOL Estilo





BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Mulher, de 56 a 65 anos, Portuguese

Quem é Rosely Sayão

e-mail
Dúvida
Neste blog Na Web

 Visitas  
 
Em busca da maturidade

Fazer faculdade, morar sem os pais e bem longe das vistas e do controle deles pode parecer a chance de ganhar a tão sonhada liberdade. Foi exatamente assim que sentiu a jovem que me contou um pouco dessa sua experiência de estudar fora.

A primeira sensação que ela teve foi de independência ao perceber que não tinha mais de dar satisfações de seu cotidiano a ninguém.  Afinal, professor de faculdade não costuma “pegar no pé” de seus alunos como os de ensino médio e de educação fundamental. Além disso, sem os pais por perto ela teria liberdade de ir e vir a qualquer hora para qualquer lugar, de escolher fazer ou não fazer as coisas, de comparecer ou não às aulas etc.

“Foi a melhor coisa da minha vida perceber que eu tinha, finalmente, a oportunidade de fazer o que eu quisesse”, disse ela. Mas, essa sensação durou pouco e custou muito. Logo depois das primeiras avaliações no curso ela se deu conta de que precisava comemorar menos e se comprometer mais com horários, estudos e freqüência nas aulas se quisesse se desenvolver e aprender o que tinha se proposto.

Ela ainda queria, sim, desfrutar de toda a diversão disponível, descobrir uma vida nova, mas queria também fazer bem o seu curso. Entendeu que tinha de dosar as coisas. Ponto para ela e, provavelmente, para a boa formação que teve já que levou apenas um semestre para chegar a essa conclusão enquanto muitos jovens passam anos nessa situação rodando em círculos.

“Se liberdade não é fazer apenas o que se quer, é o que, então?”, perguntou ela. Talvez seja saber escolher, saber renunciar, saber dosar, não é? Ou talvez seja conseguir  maturidade para saber avaliar bem no contexto três elementos distintos: “eu quero”, “eu posso” e “eu devo”. E mais: para ser livre é preciso descobrir que a liberdade tem um custo.

Ela disse que começou a tentar arcar com o custo de sua autonomia e liberdade a partir do segundo semestre de seu curso e que continua na batalha. Não é fácil acordar na hora quando podia permanecer na cama, fazer trabalho e estudar quando podia estar na balada ou descansar em vez de varar a noite na internet conversando com as amigas, entre tantas outras coisas, sem que ninguém lhe diga que é o que ela deve fazer.

E tem sido assim que essa corajosa jovem tem feito sua travessia para a maturidade: falhando muitas vezes e aprendendo com seus erros, fazendo escolhas algumas vezes equivocadas, outras acertadamente, buscando aprender a se cuidar e a se controlar e dando muito valor às palavras de alguns adultos que ela respeita. Os pais, por exemplo.

“Ainda falta muito para eu aprender a ser gente grande”, disse ela ao final de nosso encontro. Pois eu diria que ela já achou o rumo, agora é uma questão de esforço, dedicação e perseverança.

O relato dela me fez pensar que vale a pena (no mais exato sentido da expressão) todo o nosso trabalho na educação das novas gerações.

 

Escrito por Rosely Sayão às 19h30

A mulher das revistas

Que mulher consegue se encaixar no perfil de leitoras traçado pelas revistas femininas? Para tentar apreender que mulher é essa -a quem as revistas destinam seus trabalhos-, por dois meses acompanhei as edições de várias delas.

A primeira coisa que percebi é que essa mulher precisa lidar com uma grande contradição, já que a mesma edição que fala exaustivamente de dietas e faz apologia do corpo magro também oferece receitas ma-ra-vi-lho-sas de delícias engordativas. Em resumo: as revistas colocam suas leitoras num círculo vicioso porque estimulam o apetite e, ao mesmo tempo, afirmam que é preciso emagrecer. Uma mesma edição, por exemplo, dá uma receita de macarrão com creme de leite e fala sobre uma dieta de alimentos crus. Mas que coisa, não?

Outra característica que salta aos olhos já na capa das revistas é que as mulheres devem apreciar os números que revelam grandes quantidades -menos na balança, é claro. Sempre há chamadas que apontam 365 maneiras de se vestir bem para uma entrevista de emprego ou para seduzir um homem, 68 dicas para se manter sempre jovem, 43 idéias para renovar o visual, 87 cortes de cabelo, 13 formas de superar as crises no relacionamento amoroso etc.

Ah! Além disso, as mulheres devem ser práticas, realistas e bem objetivas. O que há de oferta de guias práticos, passo-a-passo e check-list dos mais variados assuntos, inclusive relacionamento familiar, é uma coisa incrível. As revistas imaginam que as mulheres querem saber como viver porque não querem perder tempo pensando na questão, e essa idéia certamente foi inspirada em publicações estadunidenses que usam e abusam do "how to do" que por lá faz sucesso.

Na mesma linha da objetividade, há os testes, que proliferam nessas revistas. Teste para a mulher descobrir se conhece os homens, se é ciumenta, se mostra segurança, se está pronta para um relacionamento, se dá tudo de si para subir na vida, se sabe poupar, se é isso ou aquilo. Influência dos tempos em que a psicologia cultuava os testes e resultados? Pode ser.
 
Mas a imagem da mulher como um ser que passa a maior parte de seu tempo pensando em sexo, em como seduzir, em como ser e parecer sensual, em como dar e ter prazer, em como superar "a outra" de seu par na cama e coisas desse tipo é o que mais evidencia a idéia estereotipada e desgastada de mulher que norteia essas publicações. As revistas transpiram sexo, e assim o é porque certamente acreditam que assim são ou devem ser as mulheres.

Portanto, nas linhas e nas entrelinhas, o que as revistas apontam é que a mulher é narcisista por excelência e que toda a vida dela tem a ver com gente famosa, decoração, moda e beleza, corpo malhado, dietas, lazer, profissão, sexo, sexo, sexo e relacionamento amoroso e familiar no sentido mais vulgar que podemos ter disso.

Para essas revistas, a mulher não se angustia com a vida como ela é, não tem dúvidas existenciais, sofre porque não sabe como viver sem sofrer, não fica inquieta ou perplexa com seu tempo, não tem conflitos, não persegue utopias, não tem senso crítico e tampouco inteligência. É: de modo geral, a conclusão a que chego é que a maioria dessas revistas não respeita a inteligência de suas leitoras.

Escrito por Rosely Sayão às 11h31
A experiência de viver longe dos pais

Conversei com uma jovem que está cursando faculdade em uma cidade do interior paulista e, por isso, compartilha a moradia com mais quatro colegas. Perguntei como tem sido essa experiência e ouvi um relato muito interessante.

Em primeiro lugar ela contou o quanto tem sido difícil a convivência entre pessoas aparentemente semelhantes, mas que na intimidade se revelaram muito diferentes. As meninas foram colegas de ensino médio e se tornaram amigas, por isso decidiram compartilhar uma casa. Acreditaram que já se conheciam e que, por isso, tudo daria certo. Não consideraram que, como diziam os antigos, “é preciso comer um quilo de sal junto com outra pessoa para começar a conhecê-la”.

O problema é que o cotidiano é mesmo árduo e quem tem filhos sabe muito bem disso. Pequenos detalhes que custam tempo e dedicação fazem muita diferença na vida prática, não é mesmo? Elas ainda não conseguiram resolver essa questão: a casa em que moram fica permanentemente desorganizada e claro que isso influencia a organização social entre elas e a mental de cada uma. A jovem com quem conversei disse que há dias em que acorda prometendo a si mesma que não irá colaborar com a bagunça, mas depois de poucas horas desiste porque pensa que é uma grande perda de tempo dedicar-se à organização doméstica.

O testemunho dela revela uma faceta do pensamento contemporâneo: acreditamos que o tempo é valioso e por isso deve ser empregado sempre em coisas que consideramos “grandiosas” e/ou prazerosas. A rotina nos massacra porque pensamos que ela não tem importância alguma. Mas é preciso maturidade para descobrir que algumas coisas precisam ser feitas todos os dias – algumas vezes mais de uma vez ao dia – para que a vida flua com harmonia. Isso me faz lembrar da letra da música “Cotidiano”, de Chico Buarque: mesmo no desespero, é preciso calar alguns impulsos porque há uma vida a se levar.

Outra questão da convivência entre elas é a dificuldade do diálogo: quando se estranham ou quando conflitam, não sabem dialogar. Acabam brigando porque uma quer convencer a outra de que tem a razão. Pois essa é outra característica importante da cultura em que vivemos: buscamos, quase sempre, pontos de identificação com o que ouvimos, lemos ou vemos e, a partir disso, concordamos ou discordamos. Trata-se quase sempre de uma luta e não de diálogo. Dialogar é conversar com as idéias diferentes e negociar com elas. Quem discorda ou concorda permanece sempre do mesmo jeito em que já se encontrava.

Por último, a jovem falou bastante a respeito da liberdade, mas essa é uma história longa que fica para o próximo post.

 

Escrito por Rosely Sayão às 14h15

Quinze minutos para os filhos

Ter filhos exige tempo, dedicação, investimento, paciência e esforço. E a falta de tempo para estar com os filhos preocupa muitas mães e pais. Uma delas escreveu perguntando como demonstrar interesse pelas atividades dos filhos se trabalha o dia todo e, quando chega, eles já estão se preparando para dormir, o que não permite que tenha, portanto, a chance de participar das brincadeiras deles e acompanhar as descobertas que fazem.

 É: parece que a cada ano que passa temos menos tempo para a família. Em geral, o trabalho dos pais tem exigido dedicação intensa e, além disso, ainda há o trânsito a enfrentar, a casa para administrar, as compras para fazer, a tensão e o cansaço que chegam quase ao limite do suportável. Será que tem de ser assim mesmo? Creio que pode ser diferente, caso os pais priorizem certos períodos de seu tempo para a convivência com o filho.

 Quem é que já tentou falar com determinada pessoa, no horário de trabalho, e não teve de ligar em outro momento porque ela estava em uma reunião ou fazendo alguma atividade que não permitia interrupção? Quase todo mundo. Mas quem é que já teve de esperar para tratar de um assunto com alguém porque a pessoa estava se dedicando aos filhos? Pouca gente. Ouvi um pai dizer, certa vez, comentando justamente o que lhe acontecia quando chegava em casa à noite, depois do trabalho, que nessa hora tudo o que ele queria era paz, enquanto que tudo o que os filhos queriam eram pais. Pois é, isso nos faz pensar que, talvez, a falta de tempo para os filhos não seja resultado apenas do acúmulo de tarefas, mas também de falta de prioridade.

 Quinze minutos de convivência com o filho são muito mais importantes, tanto para a educação quanto para o afeto, do que meio dia juntos sem o foco estar dirigido ao relacionamento entre eles. O problema, hoje, é que esses quinze minutos não têm recebido a atenção necessária de muitos pais.

 Quantas vezes, no pouco tempo que passam com os filhos, os pais escutam o que eles falam sem ouvir, respondendo apenas com um "hã-hã"? Quantas vezes, nesses quinze minutos, os pais se dirigem ao filho sem ao menos olhar para o rosto dele? Quantas vezes, nesses quinze minutos, os pais não atendem mil telefonemas, muitas vezes para falar de trabalho?

 Tem mais: muitos pais abrem mão de colocar limites e de ser firme com as regras estabelecidas para os filhos nesse período de quinze minutos porque acreditam que essa atitude prejudica a qualidade do pouco tempo que passam com eles. Ao contrário! Já que os pais têm pouco tempo, precisam aproveitá-lo para dirigir o processo educativo dos filhos. Não é se passando por "bonzinho" que se constrói um tempo de qualidade com o filho!

 E no fim de semana? Será que os pais se lembram de dedicar pelo menos uma parte do tempo que têm disponível para acompanhar o filho em atividades do interesse dele? E ao ver televisão ou na hora do jantar, por exemplo, dirigem-se a ele e buscam seus comentários? Ao conversar a respeito da escola e dos estudos, lembram-se de reconhecer os avanços que ele conseguiu, de fazer perguntas específicas que demonstrem estar a par dos acontecimentos?

 Esses são apenas alguns exemplos que mostram o quanto pode passar despercebidos dos pais momentos que poderiam ser dedicados à convivência com os filhos, mas que ficam perdidos por causa do cansaço, do estresse, das atividades múltiplas que os pais têm de realizar. Seria bom aprender a respeitar esses quinze minutos.

PS: Agradeço as manifestações de solidariedade e de compreensão. Não é nada grave, apesar de muito dolorido: uma crise de problema na coluna lombar. Estou quase boa, mas enquanto ainda não posso ficar sentada por muito tempo, coloco esta coluna já publicada na Folha. Abraços a todos.

 

Escrito por Rosely Sayão às 13h16

Redução de danos

Temos usado e abusado da expressão "qualidade de vida". O que me incomoda é perceber que tal conceito tem sido difundido, amplamente explorado e absorvido por muitos de modo egoísta e míope.

Ao darmos uma rápida olhada em reportagens nos diferentes veículos de comunicação e nas idéias que concebemos a esse respeito, percebemos logo que qualidade de vida parece ter relação exclusiva com o objetivo de buscar o bem para si. E, como se não bastasse essa limitação, ainda há mais: buscar o bem para si parece incluir apenas a saúde física devidamente enquadrada na ideologia das ciências biológicas em voga e em preceitos higienistas considerados politicamente corretos na atualidade.

Isso só contribui para que o conceito original seja desvirtuado. A saúde mental, por exemplo, seria mera resultante da correta administração da saúde física. E a vida das relações interpessoais? Quase não é considerada. Resultado? Para ter qualidade de vida, é preciso perseguir uma meta inatingível para a maioria de nós, humanos mortais, e ignorar que somos seres interdependentes que vivem em grupo.

Para começar, a idéia de corpo nessa concepção tem sido cada vez mais desumanizada e submetida aos padrões de beleza atuais, mesmo que sutilmente. Como conseqüência, as de nutrição, de autocuidado, de beleza etc. giram em torno desse centro. Como disse Nina Horta recentemente em sua coluna, fala-se muito de comer isso ou aquilo para garantir a saúde nutricional, mas nada do prazer de comer e do sentido de comunhão que as refeições têm. Ora, ao fazer uma refeição, eu não quero somente ingerir vitaminas e sais minerais e deixar de ingerir gorduras. Quero ter prazer socialmente compartilhado, isso sim.

O sofrimento e a dor -e não apenas os físicos- não têm lugar em tal ponto de vista, assim como as imperfeições. A não ser, é claro, que eles sejam condições da busca da saúde e do corpo idealizados que se deve almejar. Assim, qualquer um pode reclamar de dores após realizar exercícios físicos porque essa condição será prezada por significar busca de superação do corpo, por exemplo, mas não pode manifestar falta de vontade ou de motivação para realizar tais exercícios porque essa atitude será condenada.

Li recentemente uma reportagem em que um especialista em bem-estar e qualidade de vida afirmou que caminhar não deve ser considerado prática física, e sim obrigação. Pois, se levarmos a sério o conceito de qualidade de vida, obrigação seria buscar uma vida digna e isso só se encontra ao procurar o bem não apenas para si, mas para o outro também. Afinal, somos porque pertencemos, não é verdade?

De que adianta viver mais se não podemos exibir as marcas da velhice? De que adianta investir pesadamente na saúde física pessoal se, ao ignorarmos o bem-estar coletivo, ficamos impedidos de desfrutar da vida em comum? De que adianta fazer de tudo para manter a saúde física se as relações afetivas -notadamente com os filhos- não são carinhosamente priorizadas? De que adianta ter uma carreira profissional exitosa se não sobra tempo para a vida pessoal? De que adianta lazer sem ócio?

Talvez pudéssemos nos beneficiar muito mais do conceito de qualidade de vida se o entendêssemos como um objetivo virtuoso e não como um investimento que se mostra idealizado, individualista e consumista. Talvez até pudéssemos trocar a expressão "qualidade de vida" por "dignidade de vida". Faz muito mais sentido nos tempos atuais, não? Aliás, como parece fazer muito mais sentido no presente a expressão "prática de redução de danos" do que "busca de qualidade de vida".

Escrito por Rosely Sayão às 10h37
Pausa forçada

Peço desculpas pela pausa forçada na atualização do blog: estou em repouso em função de um problema físico. Espero voltar ainda no final desta semana.

Abraços a todos.


 

Escrito por Rosely Sayão às 10h28