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Castigo e impunidade

Que consideramos a impunidade um grande mal é fato; que creditamos a ela uma boa parte dos problemas de violência, também. Pensando nisso, como os pais ensinam aos filhos que seus atos produzem conseqüências?

Uma educadora me contou um fato interessante: um aluno cometeu uma transgressão e recebeu uma penalidade. No dia seguinte, o pai foi solicitar uma conversa com a orientadora. Quando isso ocorre, os educadores sabem o que esperar porque muitos pais não aceitam que o filho arque com as conseqüências de seus atos no espaço escolar ou não concordam com a sanção, que costumam achar severa demais.

Pois, para o espanto dessa educadora, o que o pai queria era manifestar apoio à atitude da escola para que o filho tivesse a oportunidade de aprender que os atos têm conseqüências. Vale dizer que o pai estava bastante sensibilizado com o tema por causa das notícias sobre comportamentos violentos praticados por jovens. Este é, portanto, um bom momento para refletir sobre o castigo.

De largada, vamos pensar a respeito do castigo corporal, amplamente usado por pais de todas as classes sociais. Ele costuma parecer eficaz porque produz efeitos imediatos, ou seja, o filho deixa de fazer o que não deve ou faz o que deve rapidamente. Mas tal efeito é efêmero, como os próprios pais podem constatar. Além disso, o castigo físico tem mais a ver com o humor dos pais ou com seu descontrole do que com o comportamento do filho. De qualquer forma, um castigo corporal é uma violência física contra os mais novos e, portanto, não pode ser educativo.

As punições exageradas e as que são aplicadas e não honradas pelos pais também ocorrem com muita freqüência. Um garoto que não fez a lição de casa antes de a mãe voltar do trabalho não pode assistir a seu programa de TV favorito por três dias. Muita coisa, não? Uma adolescente que não cumpriu o horário de retorno de uma festa foi proibida de ir à próxima, mas tanto reclamou e fez cara feia que ganhou dos pais a permissão.

Afinal, o castigo deve ser usado na educação e funciona? A resposta é sim para as duas perguntas. O castigo consistente pode ser uma boa estratégia para fazer frente às transgressões cometidas pelos filhos e para responsabilizá-los pelo que fazem. Para isso, é preciso que os pais, antes de aplicar uma punição, tenham uma atitude educativa firme e coerente.
 
Castigo em criança pequena não faz muito sentido. A contenção -que já é uma sanção- usada para que o filho deixe de fazer algo que não deve e a tutela constante para que faça o que deve já são atitudes suficientes. Colocar a criança pequena para "pensar" não se sustenta, já que ela nem sequer tem autonomia para tanto. Os pais de filhos nessa idade devem ter muita paciência e disponibilidade: não podem ficar bravos sempre que eles não se comportam de acordo com as normas nem podem achar graça nisso.

Para os maiores de seis anos, o castigo é educativo desde que precedido de regras claras e justificadas. A repetição das orientações, independentemente de elas serem ou não seguidas, não revela autoridade. E é bom lembrar que o castigo aponta sempre o que não deve ser feito. Por isso, é insuficiente como estratégia educativa, já que queremos que os mais novos aprendam o que deve ser feito, o que é bom, o que é certo.

Tanto as atitudes educativas quanto a aplicação de castigos exigem que os pais usem bem a autoridade e as palavras dirigidas aos filhos, conversem praticando o olho-no-olho, escutem os filhos de maneira interessada e sejam coerentes.

Escrito por Rosely Sayão às 23h17

"Entre o passado e o futuro"

Há muita memória da vida guardada com os velhos. Paradoxalmente, a memória se perde com o avançar da idade e na presença de algumas doenças, como o mal de Alzheimer. Como uma criança pode entender o que é a memória e aprender a se relacionar com os velhos ou com um familiar que é acometido por Alzheimer?

Quem tem filhos em férias que não irão viajar pode oferecer a eles a possibilidade de um outro tipo de viagem: a que a literatura possibilita. "Para Não Esquecer", de Hervé Jaouen, indicado para os maiores de 12 anos, e "Guilherme Augusto Araújo Fernandes", de Mem Fox, indicado inclusive para os menores, são livros que tratam com delicadeza e sensibilidade desse tema. 

Para Não Esquecer
Autor: Hervé Jaouen
Editora: Companhia das Letras

Guilherme Augusto Araújo Fernandes
Autor: Mem Fox
Editora: Brinque-Book

 

Categoria: Filmes e Livros
Escrito por Rosely Sayão às 22h05

CRIANÇAS SEM ADULTOS

O que acontece com as crianças quando elas ficam sozinhas, apenas com seus pares, e têm de viver sem a tutela firme dos adultos? Ficam abandonadas à própria sorte, submetidas aos impulsos agressivos e destrutivos que não controlam porque ainda não foram civilizadas. Mesmo quando estabelecem regras para possibilitar a convivência, elas não conseguem se responsabilizar por elas. São crianças, afinal.

O livro "O Senhor das Moscas", de William Golding, e o filme inspirado homônimo que resulta dele são obras que retratam metaforicamente o estilo de vida que adotamos no mundo contemporâneo. Crianças e jovens têm de se virar como podem, já que os adultos estão ocupados demais com a própria vida. É ler ou assistir (ou ambos) para sentir compaixão e entender melhor o drama que tem sido a vida dos mais novos.

O Senhor das Moscas
Autor: William Golding
Editora: Nova Fronteira

O Senhor das Moscas
Direção: Harry Hook

Categoria: Filmes e Livros
Escrito por Rosely Sayão às 23h16
Bebês mentirosos

Vivemos numa época de transição de paradigmas e esse fato influencia inclusive as disciplinas do conhecimento e a produção científica: nunca tivemos tantas teorias contraditórias entre si e tantas conjecturas aparentemente sustentadas por dados de pesquisas. Podemos constatar isso nas teorias que norteiam as práticas em educação, por exemplo, tanto as parentais quanto as profissionais.

Li uma reportagem curiosa que tem provocado muita polêmica. A psicóloga britânica Vasudevi Reddy, da Universidade de Portsmouth, realizou um estudo sobre o comportamento do choro em bebês e, em uma entrevista a respeito das conclusões de seu trabalho, declarou: “Chorar de mentirinha é uma das primeiras formas de enganação a surgir, e os bebês usam isso para ter atenção mesmo quando nada está errado. É fácil de ver, porque eles pausam enquanto esperam para ver se a mãe está respondendo, logo antes de voltarem a chorar. Isso demonstra que eles são claramente capazes de distingüir que o que estão fazendo terá um efeito. É a mesma coisa essencialmente que os adultos fazem quando mentem, mas nos adultos o ato vem mais carregado moralmente”, disse ela a um jornal inglês. A conclusão que ela tirou do estudo realizado, portanto, é a de que os bebês começam a mentir a partir dos seis meses!

Vamos começar pelo dicionário. No Houaiss, a mentira é definida como um engano, uma fraude, uma afirmação contrária à verdade a fim de induzir a erro. Aqui no blog, o professor Yves, na entrevista sobre mentira, declarou: “Tecnicamente falando, ela (a mentira) consiste em dizer, intencionalmente, algo que se sabe não ser verdadeiro. A mentira se distingue, portanto, do erro e da ilusão."

Sabemos que o fato de nossa cultura privilegiar a juventude transformou a idéia que temos a respeito das diversas fases da vida: a fronteiras entre infância, adolescência e idade adulta são muito tênues atualmente: tais etapas quase se misturam. Na verdade, o anseio de todos hoje é o de ser jovem, desde a criança pequena até o adulto maduro. A interpretação feita no estudo mencionado está submetida a essa cultura.

Sabemos também que o choro do bebê é a única forma que ele tem para interagir com as pessoas que o cercam e expressar o que sente. Ele chora por sentir fome, frio ou calor, quando quer carinho, colo, a presença da mãe ou ouvir o som de sua voz, quando se angustia, quando tem sofrimento psíquico, por manha pura etc. Afirmar que o bebê engana a mãe quando chora é considerar que o choro só é legítimo para manifestar dor física, fome etc., não é verdade? Por que não seria para manifestar algo psíquico, como o desejo, por exemplo?

A leitura que fazemos do mundo, em todos os aspectos, tem como ponto de partida as concepções que temos como pano de fundo. Por isso, sempre que formos interpretar o comportamento de filhos ou alunos é bom refletir a respeito das idéias que construímos sobre a infância, a adolescência e suas relações com o mundo adulto.


 

Escrito por Rosely Sayão às 12h20

Jovens protegidos

Já comentei que os pais podem deixar de se preocupar com o malfadado vestibular porque a oferta de vagas no ensino universitário tem sido maior do que a demanda. Agora, a preocupação avançou para um pouco além dessa etapa: como o filho irá se comportar na faculdade a fim de conseguir concluir o curso que escolheu.

Aliás, escolher um curso tem sido um problema para esses jovens, já que programas de orientação vocacional -mesmo os mais competentes- não têm sido suficientes para que eles escolham com convicção. Por isso, já temos até desenvolvido a hipótese de que escolher um curso nessa idade talvez seja precoce. Por conta dessa conjectura, muitos pais estimulam o filho a retardar a decisão para não exigir demais dele.

Não é tão difícil os jovens distinguirem alguns interesses para que consigam visualizar um curso a fazer. O mais difícil, parece, é mesmo renunciar a tantas opções e possibilidades de futuro e, assim, restringir a vida ou a liberdade -imaginam eles. Pois é, renunciar exige mesmo maturidade e coragem, e os jovens têm chegado à idade quase adulta bem imaturos e infantilizados. Não aprenderam sequer o significado da palavra liberdade, o que é absolutamente necessário para desfrutá-la.

Constatamos esse fenômeno em várias situações, inclusive ao ler as palavras do pai de um dos jovens -de 19 anos- que agrediram uma mulher no Rio de Janeiro. Ele se referiu ao filho e aos amigos envolvidos como "crianças", lembram?

O fato é que muitos professores universitários já não sabem mais o que fazer diante dessa criançada, que chega ao curso de graduação com comportamento digno de alunos de curso fundamental. Eles precisam de tutela (e assim a demandam) para tudo, menos para transgredir e testar os limites da instituição, claro.

Os pais, por sua vez, ficam perdidos quando os filhos expressam insatisfação com alguns professores ou com algumas disciplinas que são obrigados a cursar ou com a exigência e o rigor da nova empreitada e passam a abandonar as obrigações e a desejar mudar de curso e fazer novo vestibular, entre outras possibilidades.

E não vamos cair na tentação de pensar que a juventude atual -estamos nos referindo especialmente à classe média- é inconseqüente, irresponsável, não tem limites, só quer desafiar etc. Mais responsável é a atitude de reconhecer que, talvez, eles não tenham estado em boas mãos no período de sua formação, por mais difícil que isso seja. Vamos nos colocar em causa nessa questão.

Já faz tempo que estamos comprometidos com nossa jovialidade e isso tem respingado na maneira como educamos os mais novos. A questão é que, por conta dessa nossa jovialidade, não temos conjugado contenção e rigor, por exemplo, com busca de prazer e satisfação. Queremos tudo no presente imediato. Isso resulta na desvalorização da obstinação e da tenacidade, entre outras coisas.

Do mesmo modo, temos escolhido proteger os mais novos de atitudes que exigem concentração e conexão com a realidade e temos elogiado o resultado em vez do esforço. Conseguimos, sem pretender, fazer com que os jovens acreditem que quase tudo o que fazemos bem é resultado mais de inspiração e sorte do que de transpiração e perseverança.

Muitos jovens conseguem usar a coragem que têm potencialmente para praticar um esporte radical, para transgredir leis que existem para protegê-los -basta lembrar o número de mortes de jovens entre 19 e 25 anos no trânsito-, para desafiar normas da convivência civil e para competir e tentar ser o melhor. Entretanto, não sabem dedicar a mesma coragem para se relacionarem com a diferença, para ir até o final de uma atividade iniciada por mais maçante que seja, para aprender o que não sabem, para controlar impulsos imediatistas e para renunciar quando devem fazer escolhas, por exemplo.

Pelo jeito, colocamos nossos jovens em maus lençóis.

 

Escrito por Rosely Sayão às 23h31
Curso de Férias para crianças pequenas

Muitos pais de crianças menores de cinco anos ficam na maior dúvida no período em que os professores entram em férias e a escola oferece o chamado “curso de férias” no mês de julho. A dúvida é a respeito do que seria melhor para a criança: ficar em casa só com a babá ou a empregada já que os pais não estão em férias nesse período ou continuar a freqüentar a escola.

Uma leitora que se encontra nessa situação, propensa a colocar o filho de três anos no curso de férias, contou que sente pena ao imaginar o filho o dia todo em casa, sem ter o que fazer e sem companhia. Vamos, então, tentar entender essa questão.

É importante para a criança pequena o fato de ter um lugar que reconheça como o de sua família. E esse ter é mais do que saber que a casa está lá: é apreender o significado disso e, a partir dele, construir outros como segurança, aconchego, permanência e pertença, só para citar alguns importantes. E é só vivenciando o estar em casa que a criança apreende e constrói tantos significados.

Além disso, a criança pequena também precisa aprender a ficar consigo mesma, ou seja, a se ouvir, entender suas vontades, ficar um tempo sem fazer nada – isso não é problemático –, inventar o que fazer ou se entreter brincando sozinha tendo como companhia apenas sua imaginação. Isso é fundamental para que ela se prepare para estar e brincar com outras crianças.

A dúvida desses pais, portanto, não tem fundamento do ponto de vista da vida saudável da criança, mas tem se pensarmos na cultura do mundo contemporâneo. Não acreditamos, por exemplo, que a criança pequena seja capaz de se divertir sozinha, muito menos que possa gostar disso. E mais: deixar o filho pequeno em casa soa como abandono mais do que qualquer outra coisa, não é verdade?

Pois a criança merece esse período de descanso da escola e sua agitação, da presença dos colegas, das atividades e dos materiais lá oferecidos, das brincadeiras programadas etc. Ela merece, sim, tentar saber o que quer e o que gosta apenas se relacionando consigo mesma, com sua casa e com o que aprendeu na escola. Dessa maneira, as férias serão dias de maturação, de aprendizagem e de crescimento também.

Escrito por Rosely Sayão às 14h41