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A violência nas escolas - Entrevista

A Iara tem razão: de quando em quando somos assaltados por uma série de notícias sobre violência no espaço escolar. Em geral, elas surgem imediatamente após algumas notícias sobre fatos violentos que ocorreram na sociedade e que chamaram a atenção da população. Por que será?

Para nos ajudar a refletir a esse respeito fiz uma rápida entrevista com o professor Julio Groppa Aquino. O professor Julio tem pós-doutorado em educação, é docente da Faculdade de Educação da USP e autor de vários livros dirigidos, principalmente, aos profissionais que trabalham no espaço escolar.


Rosely Sayão: Julio: recentemente soubemos pelos veículos de comunicação que um grupo de jovens agrediu uma mulher no Rio de Janeiro e, em seguida, uma série de outras notícias sobre fatos violentos têm sido publicadas, principalmente algumas que ocorrem no espaço escolar e em que as vítimas são professores. Desde então, todos os dias somos bombardeados com reportagens desse tipo. A violência escolar de alunos contra professores explodiu de repente?

Julio Groppa Aquino: É claro que não estamos presenciando um surto esporádico de violência escolar. Digamos que se trata de um fenômeno crônico e bem menos alarmante do que a mídia faz crer. No entanto, ele é apresentado bombasticamente e de modo sazonal à população. Sempre em meados e finais de semestres letivos, isso reaparece na mídia. Seja por falta de notícias "elevadas", seja porque esse tipo de notícia "vende bem", o fato é que somos expostos a uma abordagem quase sempre sensacionalista desse tipo de fenômeno, abordagem que se vale, no final das contas, de uma espécie de disseminação do caos. Contra a juventude, é claro. Ou seja, os jovens atuais seriam responsáveis pela derrocada do mundo. Com isso, nos ausentamos todos de nossa parcela de responsabilidade com a construção deste mundo que aí está.

RS: Muitos professores se sentem vítimas dos alunos - inclusive dos mais novos - e da ausência da educação familiar. Qual sua análise a esse respeito?

Julio Groppa Aquino: Trata-se de uma visão cômoda e, em certo sentido, míope dos dilemas sobre educar hoje, a qual é amplificada na abordagem sensacionalista da mídia. É cômoda porque é uma resposta demonizadora ao desencaixe histórico que a instituição escola vem sofrendo - em igual medida às outras instituições sociais (incluídas as famílias). É míope porque, em vez de colocar a sociedade contemporânea e seus revezes no foco das discussões, elege o alunado como responsável exclusivo por esse desencaixe. Os alunos, por si próprios, não são artífices de nada. Suas condutas são resultado do tipo de relação que estabelecemos com eles nas salas de aula. A bem da verdade, eles são o espelho do tipo de educação que estamos levando a cabo nas escolas. Quanto à educação familiar, creio que se trata de uma temática sobre a qual os profissionais da educação deveriam se silenciar por completo, já que é algo fora de sua alçada. Um silêncio solene seria mais que bem-vindo.

RS: Isso significa que a escola tem sua parcela de responsabilidade nessas situações? E é possível, numa sociedade violenta, que a escola consiga escapar totalmente desse clima?

Julio Groppa Aquino: Não sei se a escola tem um papel redentor mediante uma sociedade violenta. Talvez não. O que sei é que seu papel não precisaria ser fomentador de uma sociedade violenta. Isso se pensarmos que há uma violência que é produzida no cotidiano escolar - a violência da exclusão branda, aquela que vaticina a impossibilidade mesma de educar, segundo a qual determinados alunos (quando não a maioria deles) não é capaz nem digna de aprender aquilo que já sabemos. Assim, se abandonarmos o sonho de que a educação pode "desbrutalizar" os homens, talvez seja melhor fechar todas as escolas ou destruir seus muros e transformá-las em parques abertos. Parques temáticos, talvez. Eis aqui uma idéia tão absurda quanto instigante. Quem sabe, no futuro, isso faça mais sentido do que hoje.

 

Categoria: Entrevista
Escrito por Rosely Sayão às 13h52

Mudança de escola

Nesta época do ano ocorre um movimento migratório de alunos entre as escolas privadas. Tal fato se deve ao anseio desesperado dos alunos -principalmente dos que cursam os últimos anos do ensino fundamental ou o ensino médio- ou à análise pelos pais da vida escolar dos filhos. Não vamos considerar as "expulsões brancas", ou seja, o pedido das escolas para que os pais transfiram determinados alunos.

Quando são os filhos a solicitar a troca, os argumentos são decisivos para que os pais aceitem a proposta: dificuldades de relacionamento com os colegas, com os professores e até com algumas disciplinas, vontade de acompanhar os amigos ou melhores possibilidades de aproveitamento escolar. Quando são os pais que determinam a mudança, o que almejam é o êxito escolar -que pode significar a busca por uma escola mais exigente ou a possibilidade de o filho ser aprovado. Será que essa mudança pode ser benéfica aos alunos?

A primeira situação que quero levantar diz respeito à atuação das escolas. Muitas chamam os pais e, de modo direto ou indireto, apontam a possibilidade de o aluno ser reprovado -ou retido, como preferem dizer agora- no final do ano. Essa atitude é um contra-senso. As escolas ignoram que apenas meio trajeto foi percorrido e que, portanto, há outro tanto a ser trabalhado neste ano letivo. Quando não vêem possibilidades de melhoria é porque não pretendem fazer nada pelos alunos que não conseguiram render e não têm esperança no próprio trabalho.

Algumas escolas esperam fazer com que os pais se sintam pressionados e façam algo para que os filhos estudem mais. Mas isso pode ter o efeito oposto: os pais podem realmente pressionar o filho, mas de forma negativa. Sei de casos de pais que forçaram os filhos a estudar nas férias e tiraram a viagem planejada. Ora, sabemos que isso não contribui para uma visão positiva da relação com a escola, não é?

Quando uma escola afirma, no meio do período, que o aluno tem poucas chances de aprender caso não mude radicalmente, ela já traçou seu destino. Uma pena tal atitude: mostra que as escolas procuram trabalhar com determinado perfil de aluno -aquele que não precisa tanto do trabalho da escola para se desenvolver.

E quando são os alunos que pedem para mudar? Se o motivo é alguma dificuldade, de relacionamento ou de aprendizagem, os pais devem encorajar o filho a encarar os problemas. Nenhum obstáculo da vida escolar é insuperável, e os alunos precisam aprender a agir quando se defrontam com eles. Finalmente, se os pais decidiram pela mudança porque perderam a confiança na escola, o melhor é mesmo realizar a transferência. Sem confiança, os pais não conseguem delegar à escola a educação do filho.

Mudar de escola no meio do período letivo não é problema para o aluno: com o apoio firme da nova escola, ele pode construir rapidamente novas relações e se adaptar à instituição. O que pode ser problema são os motivos que levam à mudança. Por isso, os pais precisam analisar com cuidado a situação a fim de tomarem a decisão que seja mais favorável ao crescimento do filho -e não a que proporcione facilidades a ele.

 

Escrito por Rosely Sayão às 17h55
Reflexões em tempos de espancamento

Talvez a palavra ética nunca tenha freqüentado tanto o vocabulário dos brasileiros quanto nos últimos anos. Todos falam a respeito da importância da ética na política, nas ciências, na atuação dos profissionais de todas as áreas, na televisão etc. Até na escola a ética tem presença garantida. Pelo menos assim está escrito nos Parâmetros Curriculares Nacionais, nos quais ela é contemplada como um tema transversal e valorizada por meio de quatro conceitos fundamentais: o respeito mútuo, a justiça, o diálogo e a solidariedade.

A ética é a matéria que nos faz refletir a respeito do que fazemos na vida e com a vida. E já que estamos vivos, temos a obrigação moral de fazer com que a vida mereça ser vivida, que seja digna. Como a vida é feita de relações, viver com dignidade implica em dar valor ao que é humano, em aceitar e respeitar o outro, em vê-lo como um semelhante e não como um desigual.

Um animal não se comporta com ética. Ele age por instinto, isto é, sem ter consciência do que faz. Uma cobra pica porque sente sua sobrevivência ameaçada quando percebe que algo – ou alguém – invade seu espaço. Ela pica porque tem de picar, ela não tem escolha. Já os seres humanos têm a liberdade de escolher como vão reagir frente aos acontecimentos da vida. E, pelo jeito que o mundo está, parece que não temos escolhido o melhor. Na verdade, até parece que conceitos como respeito mútuo, justiça, diálogo e solidariedade fazem parte de uma peça de ficção quando nos deparamos com o cotidiano social, com a vida como ela é.

Tomemos a escola e seu dia-a-dia como uma representação do que acontece na sociedade. Em geral, só temos reclamações a fazer com os fatos que nela acontecem. Lamentamos a falta de respeito dos alunos para com seus professores e vice-versa; o sistema de ensino e de avaliação estimula muito mais o comportamento competitivo do que o solidário; dizemos que não há diálogo entre as pessoas que frequentam o espaço escolar e que falta justiça nas relações que se estabelecem com alunos e professores. E o que fazemos nós - cada um de nós - para que se viva melhor na escola, na sociedade?

Pois é exatamente disso de que trata a ética: de como viver bem, de como viver o melhor possível e de como colaborar para que a vida na escola eem sociedade seja melhor. Ou, pelo menos, como fazer para não piorar as coisas, o que muitas vezes já não é pouco. Que a escola – tanto quanto a sociedade - sempre terá defeitos, é preciso reconhecer. Mas não é assim mesmo que os seres humanos são, cheios de imperfeições? Mesmo assim, é possível tentar viver bem, consigo mesmo e com os outros.

Quando, na escola, aprende-se a aceitar e a respeitar o outro com suas diferenças, se exercita a liberdade responsável e a convivência com justiça e se busca o entendimento pelo diálogo aprende-se a dar valor ao que é humano. É assim que se aprende a viver com dignidade, é assim que se aprende a defender nossos próprios valores, é assim que se exercita a cidadania e se prepara para ser um cidadão.

O mundo bem que está precisado de um toque de bem-viver.

Escrito por Rosely Sayão às 22h27