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De geração em geração

Quem tiver a chance de observar a hora do recreio de uma escola em que os alunos levam o lanche de casa perceberá um fato bem interessante: as merendas das crianças de famílias diferentes são muito parecidas e variam apenas de um dia para o outro. Se considerarmos as roupas, constataremos o mesmo fenômeno: elas se vestem de modo muito semelhante. O mesmo vale para cortes de cabelo, músicas que sabem cantar, histórias que conhecem e tipo de linguagem que usam.

Numa época em que a mídia tem tanta força, não são estranhas tais ocorrências. Mas elas nos permitem ir além e construir conjecturas sobre o processo por que passa a cultura familiar: parece que ela vai se esvaindo e perdendo sua força.

Hoje é legítimo se perguntar o que diferencia os integrantes -sobretudo os mais novos- de famílias com sobrenomes diferentes. Quais as diferenças entre fazer parte dessa ou daquela família? Quais as características de uma família e de seus costumes em relação às outras, segundo a ótica dos filhos? Quais os elos -além dos de parentesco- entre um grupo familiar e suas famílias de origem?

A família, sistema social responsável por transmitir a seus membros a primeira matriz de identidade e de pertencimento, parece que passou a acreditar que tal transmissão ocorre por osmose. A história familiar -sua memória, sua organização e seu patrimônio cultural- tem sido relegada ao esquecimento por fundadores de novas famílias. Por que será?
Uma hipótese possível é que, em um mundo admiravelmente novo a cada dia, as tradições familiares (talvez se possa dizer o mesmo de qualquer tradição), quando não são simplesmente esquecidas, são consideradas ultrapassadas, autoritárias, rançosas. Perderam mais do que o valor: perderam o lugar.

Outra hipótese é que, sendo a família um local de grandes conflitos, o melhor a fazer seria tentar colocar o passado entre parênteses para criar uma nova família. Seria uma tentativa de começar do zero, como gosta de dizer um amigo, para tentar anular antigos problemas. O fato é que os fundadores das novas famílias quase não encontram motivos para repetir e transmitir a seus filhos as receitas tradicionais, os ritos das férias ou dos fins de semana, as rotinas de organização, os costumes na relação com parentes e amigos, os valores construídos por gerações. Afinal, por que passar uma manhã toda de domingo preparando um almoço familiar tradicional se é bem mais simples ir a um restaurante, pedir uma refeição entregue em domicílio ou comprar semipronto? Por que recontar aos filhos histórias que habitaram a própria infância se os tempos são tão diferentes e as crianças também? Por que narrar as peripécias de parentes que os mais novos não conhecem? Por que levar os filhos a participar de rituais religiosos que a família preza?

Quando a memória histórica de um grupo familiar não é mantida, quando suas tradições não são transmitidas aos filhos, não são apenas fatos e estilos de vida que não são preservados. Toda uma matriz de identidade daquele grupo, que tem a função de deixar marcas de identificação nas novas gerações, é ignorada.

Parece que os grupos familiares passaram por um processo de pasteurização. Será que não estamos submetidos a um modo de viver totalitário, que, como disfarce, aceita famílias de diferentes configurações, mas não aceita diferenças nessa aparente diversidade? Precisamos pensar nisso, pois pode ser que estejamos criando uma geração sem herança cultural, sem identidade familiar e com ascendência desconhecida.

 

Escrito por Rosely Sayão às 00h02
Os pais e o namoro dos filhos

No programa “Momento Família” desta semana, uma internauta enviou uma pergunta bem interessante. Ela queria saber se deveria permitir que a filha – de 24 anos – fosse dormir na casa do namorado. O namoro dos filhos faz muitos pais pirarem – só para usar uma expressão dos jovens.

Pais de crianças bem pequenas – menores de seis anos – vivem fazendo referência ao namorado/a dos filhos e alguns chegaram até a enviar presente ontem, conforme várias professoras de Educação Infantil me contaram. Sabemos que a criança gosta de brincar de “faz-de-conta que sou grande”: ora é médico, ora é vendedor, ora se veste com as roupas dos pais etc. Esse é um modo lúdico de aprender sobre o mundo adulto e de lidar com suas angústias a respeito. Se os pais não encaram a brincadeira de médico com seriedade, por que o fazem quando a questão é a brincadeira do namoro?

Já quando a criança está na no final da segunda infância – em geral aos nove, 10 anos -  muitos pais já começam a pressionar os filhos – meninos, principalmente – para que se interessem pelo sexo oposto e, quando são as próprias crianças que mostram o interesse, os pais não se ocupam de conter esse movimento porque consideram essa uma atitude normal. Afinal, namoro é coisa de criança? Claro que não.

Na adolescência, época em que o namoro pode se transformar em fato da vida real, os pais têm dificuldade em compreender que esse é um sinal do início da separação entre eles: é a época decisiva de construção da privacidade na vida dos filhos, principalmente em relação aos pais, e de caminhar com firmeza rumo à autonomia. Esse é o momento em que os pais deveriam agir no sentido de cuidar para que o filho esteja atento aos princípios e valores familiares, tão somente. E, claro, continuar na tutela, pois o adolescente ainda age em função de seus impulsos e caprichos, sem considerar o futuro e as consequências.

Mas, ocorre que muitos pais de adolescentes embarcam junto com os filhos no namoro deles: estabelecem vínculos íntimos com o par amoroso do filho e, às vezes, até com a família de origem, vivem querendo saber do desenvolvimento do namoro etc. Apesar de as intenções dos pais serem as melhores possíveis, essa atitude pode atrapalhar o filho em seu trajeto rumo à autonomia.

Finalmente, terminada a adolescência – depois dos 20 anos, mais ou menos – mesmo quando os filhos continuam a compartilhar a moradia com os pais, o assunto namoro é exclusivamente deles. É neste momento que voltamos à pergunta da internauta colocada no início do texto. Uma jovem de 24 anos deve ter de saber e poder tomar suas decisões e não pode depender da autorização dos pais para isso, mesmo na questão namoro, sexualidade etc. Os pais precisam aprender a se relacionar com filhos adultos, mesmo quando estes continuam dependentes financeiramente deles, morando na mesma casa ou coisa semelhante.

Por mais sedutor, aconchegante, amoroso e protetor que pareça ser, permanecer na tutela dos filhos após a adolescência deles não é um bem para a vida deles: é um grande problema de conseqüências imprevisíveis.


PS: Estou com problemas de conexão, por isso não consegui blogar antes.

Escrito por Rosely Sayão às 11h44

A menina que batia o pé

Quando Ana nasceu, foi uma alegria que só vendo. Seus pais planejavam sua chegada há anos. Casaram-se e viviam em lua-de-mel, fortalecendo a relação e a carreira profissional, construindo uma base financeira sólida e divertindo-se -adoravam sair e viajar.

O sonho de ter um filho ficava cada dia mais próximo e parecia ser a realização da união. Por isso, Aninha sempre teve de tudo, desde o primeiro dia fora da barriga da mãe. Aos dois anos, ela aprendeu uma coisa muito importante: para conseguir o que queria, tinha de fazer uma coisa simples e até gostosa -bater o pé.

Se Aninha queria comer biscoito na hora do almoço e os pais queriam que ela comesse comida, ela não titubeava: batia logo o pé e, como mágica, ganhava a gostosura. Se tinha vontade de dormir bem no meinho dos pais na cama deles, bastava bater o pé e dormia gostoso naquele lugar que achava tão aconchegante. E assim agia quando não queria ir para a escola, quando queria colocar o vestido que adorava e quando não queria beijar a vovó, por exemplo.

"Essa menina tem mesmo personalidade", dizia o pai, todo orgulhoso, quando Aninha batia o pé, fosse pelo que fosse.

"Ela é precoce, sabe muito bem o que quer desde pequena", comentava a mãe enquanto pensava, com prazer, que Aninha tinha a quem puxar.

Aninha cresceu batendo o pé e, quando tinha perto de nove anos, foi chamada pela mãe para uma conversa séria. Em tom grave, ela anunciou: "Seu pai e eu nos separamos e, de agora em diante, somos só nós duas aqui em casa. Por isso, você tem de colaborar e bater menos o pé".
Aninha achou normal: muitos colegas já viviam essa situação e não foi novidade nem problema passar a ser filha de pais separados. Mas o que veio a seguir transtornou sua vida.

O pai quase não a procurava, para começar. "Se o bom de ser filha de pais separados é ter duas casas e passar o fim de semana fazendo programas legais só com o pai, que graça tinha viver assim?", pensava Aninha. Mais: Aninha passou a ouvir a mãe reclamar do pai. Se pedia uma mochila nova, tinha como resposta que o pai pagava uma pensão que não dava para nada.
Quando se arrumava para esperar o pai, a mãe avisava que não ficasse muito ansiosa porque o pai podia se esquecer do passeio porque era um irresponsável e egoísta etc.

Quando tinha sorte e se encontrava com o pai, acontecia o mesmo: ouvia-o dizer que a mãe era uma chata que se achava dona da verdade e que era por causa dela que ele não via a filha mais vezes.

O fato é que, sem perceber, Aninha deixou de bater o pé e passou a bater a cabeça. Não na parede -que ela não gostava de se machucar. Não conseguia prestar atenção nas aulas, brigava com a melhor amiga, só tinha vontade de fazer coisas que aborreciam a mãe e chorava escondido, às vezes por saudades do tempo em que tinha pai e mãe, às vezes por sentir ódio dos dois. Aninha ficou, agora sem querer, bem no meinho dos pais, lugar que descobriu ser nada aconchegante.

Mas ela tinha a sorte de ter uma tia legal, que lhe disse uma coisa que Aninha achou a mais importante que já ouviu: "Sempre que sua mãe ou seu pai começarem a falar mal um do outro, você diz que você não tem nada a ver com essa conversa e bate o pé até eles pararem".
Deu certo. Afinal, os pais sempre a atenderam quando ela batia o pé. E foi assim que Aninha deixou de bater a cabeça: voltando a bater o pé. Agora não mais por capricho, mas para conseguir aquilo de que mais precisava: deixar de ser a mira das armas usadas por seus pais para atirarem um no outro. E, claro: a presença não belicosa dos dois em sua vida.

 

Escrito por Rosely Sayão às 17h31
A travessia final para a autonomia

O relacionamento com os adolescentes é especial para pais e filhos. Trata-se de uma travessia para ambos: os pais precisam saber que começam a trilhar o caminho de perderem o filho e o filho se prepara para assumir o comando da própria vida. Não é fácil esse trajeto, mas é imprescindível que ocorra com o mínimo de incidentes. E a direção desse processo está nas mãos dos pais.

No início da adolescência o filho deixa de ser criança e, ao dar esse passo, começa a manifestar rejeição pelos pais e por tudo o que eles prezam O motivo? É que eles representam justamente aquilo que o jovem irá perder. Tal rejeição pode se expressar de várias maneiras, mas é principalmente no embate e no confronto que o adolescente deixa claro a sua rebeldia.

Isso exige que os pais se armem de muita paciência e se mantenham firmes em suas convicções e valores, por mais que pareça ser essa uma batalha perdida. Não é. Todo o trabalho educativo realizado até então precisa ser reafirmado. Assim, o filho ganha mais segurança e auto-estima ao saber que, mesmo contrariando os pais, mesmo pensando bem diferente deles, ainda é visto como integrante importante da família.

Entretanto, é necessário que, pouco a pouco, o vínculo de dependência existente até o momento passe a ser desconstruído. Os pais precisam passar o bastão da corrida da vida ao filho, e isso não se faz de uma hora para outra. É passo-a-passo que os pais levam o filho a assumir as responsabilidades que eram deles até então.

Cada família faz as suas escolhas de como realizar essa passagem, mas ela não pode ser repentina – delegar ao filho muita coisa de uma só vez sem tutela alguma – nem se estender em demasia porque, afinal, o filho precisa se tornar autônomo antes de terminar a adolescência. E é nesse passo-a-passo que o filho irá mostrar a seus pais como administra as responsabilidades que lhe são passadas. Assim é com o cumprimento dos horários, por exemplo. Se o jovem não cumpre os horários combinados ou impostos, sinal de que ainda não está pronto para ser autônomo, sinal de que ainda precisa do comando mais vigoroso dos pais.

O que os pais não podem, de modo algum, é desistir em meio a essa jornada. Que não é fácil, não é, mas que é preciso ir até o fim, isso é inegável. E o que espera pais e filhos ao final desse processo? A separação.

A relação entre pais e filhos é a única relação amorosa que só dá certo se termina em separação.  E não se trata de uma separação física, necessariamente, mas separação de vidas. Ao final do processo educativo, os pais deverão ter formado uma pessoa livre para ser e viver como pode, como quer e como acha  que deve ser e viver.

 

Escrito por Rosely Sayão às 11h32
Miniaturas de mulheres

O canal de tv por assinatura Cartoon Network realizou uma pesquisa em seu site com crianças entre seis e 12 anos; além deles, entrevistou também mães e professoras de crianças da mesma idade. Um dos resultados chamou muito minha atenção, principalmente por ter relações com nosso assunto anterior, os preconceitos de gênero e sua influência na educação de meninas e de meninos.

Os resultados apontaram que videogame é o principal tema da conversa entre os entrevistados de sexo masculino, com 49% da preferência. Em segundo lugar vem cinema (38%), seguido por internet e televisão, quase empatados com 31% e 30% respectivamente. As meninas preferem falar sobre meninos (34%), coisas da escola (30%), música (27%) e roupas (26%).

O que esses resultados podem indicar? O que me ocorre em primeiro lugar é que, mesmo sem perceber, estamos permitindo que os meninos permaneçam na infância por mais tempo do que as meninas, não é verdade? Afinal, o interesse pelo sexo oposto é um sinal da chegada – ou pelo menos da aproximação – da adolescência, época em que a experimentação das relações afetivas e físicas com os pares é um dos acontecimentos mais importantes.

Não dá para pensar que faz parte da natureza dos meninos interessarem-se mais por jogos competitivos, tecnologia e brincadeiras do que por meninas nessa idade e que é natural que as meninas se interessem mais precocemente pelos meninos e se preocupem com a aparência, por exemplo. Isso é fruto das pressões do meio em que vivem.

Vamos tomar um só exemplo: as roupas disponíveis no mercado para crianças com até 12 anos. Quem tem filhas sabe a dificuldade que é manter a menina com aparência de criança: calçados com saltos, roupas justas, curtas e sensuais é o que mais se encontra. Já deixar o filho com cara de moleque, isso é bem mais fácil. Aliás, esse tipo de roupa é oferecido até em tamanhos que vestem homens adultos.

Numa época em que a expectativa de vida vai além dos 70 anos, abortar o fim da infância das meninas é um desatino: elas terão muito tempo pela frente para vivenciar a vida adulta.

O segundo ponto que a pesquisa me faz pensar é exatamente a respeito dos preconceitos de gênero na educação: temos ensinado coisas bem diferentes para meninos e meninas considerando as respostas que eles deram nas entrevistas, não é mesmo? Precisamos rever nossa prática educativa nesse aspecto e o tipo de relação que estabelecemos com meninas e meninos, com urgência.

 

Escrito por Rosely Sayão às 23h38

Preconceito de gênero

Não acompanho esporte nenhum por pura falta de gosto. Conheço os mais populares no Brasil e, de vez em quando, assisto a um ou outro jogo pela televisão e só. Mas, ultimamente, acompanho com verdadeiro interesse o episódio ocorrido com a bandeirinha Ana Paula Oliveira. Pelo que li, ela errou na arbitragem de um jogo de futebol importante, e isso rendeu penalidade e mil e um comentários.

Minha atenção foi fisgada pelo fato de o erro dela ter estimulado muitos comentários machistas, ou seja, formulados apenas pelo fato de ela ser uma mulher que exerce uma atividade dominada pela presença masculina. E não foram apenas os diretamente envolvidos que emitiram tais comentários: em blogs de esporte, muitos textos dos internautas também estão impregnados de machismo.

Talvez esse seja um bom momento para pensarmos a respeito de aspectos da educação que não relevamos, principalmente em relação aos meninos.

Como a sociedade se concebeu centrada no homem, não nos damos conta de que desenvolvemos relações bem diferentes com os meninos e com as meninas. Pais com filhos dos dois sexos perceberão que fazem diferenças. Essas diferenças podem ocorrer, por exemplo, quando são enfatizadas características que eles esperam ver mais desenvolvidas nas meninas e outras nos meninos.

Já passamos do tempo em que tratar meninas e meninos de modo igual era considerado solução para os preconceitos. Não podemos negar as diferenças nem o modo já estabelecido de pensar. Precisamos construir a consciência crítica dos preconceitos e ensinar, sobretudo, o respeito dos meninos -futuros homens- pelas meninas, mulheres de amanhã.

Quem trabalha em escola sabe o quanto os meninos desrespeitam as meninas em comentários e brincadeiras. Claro que eles fazem isso entre eles também, mas, quando o alvo são as meninas, o conteúdo ofensivo é, em geral, fruto do preconceito de gênero. E as escolas não costumam levar a sério a questão -são raras as que discutem sistematicamente os estereótipos de gênero.

Um hábito chama a atenção: as meninas são educadas para demonstrar carinho, sensibilidade, receptividade e simpatia, como se fossem atributos essencialmente femininos. Creio que muitos consideram que deve ser assim, mas isso é fruto da passagem, de geração em geração, do preconceito de gênero.

A sociedade tem se transformado tão intensa e rapidamente que não sabemos mais o que é ser homem e o que é ser mulher: a (re)construção desses papéis sociais está em plena fase de transição. Mesmo assim persiste nosso sexismo, por isso as ocorrências em torno do evento com Ana Paula Oliveira devem servir de alerta para os que educam as próximas gerações. É preciso também ensinar aos meninos que respeitem as meninas, mesmo e principalmente nas situações de conflito e na crítica dos erros cometidos por elas. Assim, teremos a chance de que as próximas gerações enfrentem menos preconceitos contra as mulheres e que as diferenças de gênero possam ser encaradas como valor em vez de serem julgadas.

 

Escrito por Rosely Sayão às 09h57