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Princípios e Regras

Achei bem interessante a leitura que alguns internautas fizeram do texto em que falo a respeito de princípios e de regras. Parece que princípios, no entendimento deles, são conceitos que só podem ser passados por palavras ou palestras, como disse um deles. Não: eles devem ser ensinados por atos junto com as palavras e são eles que originam as regras.. Já as regras que não são relacionadas a princípios, logo elas perdem sua importância e eficácia para as crianças e adolescentes.

Claro que crianças, principalmente as pequenas, precisam de regras. Aliás, todos nós precisamos de algumas delas. Mas, se elas não estiverem vinculadas a princípios e à autoridade de quem as estabelece, serão respeitadas por pouco tempo e não serão encaradas como um valor.

Além disso, sabemos que se há regras, há transgressão, não é mesmo? Tanto que, em qualquer tipo de jogo esportivo em que há regras, as penalidades para as faltas – transgressões – que possam ser cometidas já são previamente elaboradas. E mais: sabemos que tanto as transgressões quanto as penalidades fazem parte do jogo. Por que seria diferente no “jogo da educação” ou, no “jogo da vida”?

Vamos tomar como exemplo o princípio do respeito. Cada família irá estabelecer algumas regras baseadas nesse principio para que a convivência entre todos possa ocorrer com consideração. Exemplos: não pode bater no irmão (regra), não pode falar determinados palavrões aos pais (regras) etc. Se, desde cedo, os pais explicam que a existência de tais regras está ligada ao respeito e, mais importante, façam com que o filho as obedeça, a criança vai, aos poucos, internalizar o princípio e aprender a se comportar de acordo com a moral da família e, mais tarde, da sociedade. Já se as regras não são relacionadas ao princípio que as rege, logo se tornam vazias e limitadas.

Outro exemplo é o do cuidado consigo mesmo. Regras como hora para dormir, banho diário, escovação dos dentes etc. são todas relacionadas a esse princípio. Se elas não forem associadas ao auto-cuidado, na adolescência não terão consistência.
 
A escola é um ótimo exemplo de como as regras a serem cumpridas pelos alunos não são ligadas aos princípios e, assim, estimulam a transgressão. Os alunos precisam respeitar os horários, por exemplo. Será que eles sabem – ou seja, foi explicado e continuamente contratado – que o motivo é que uma atividade coletiva não pode ocorrer se cada pessoa chega num horário diferente, ou seja, que o que rege a escola é o princípio da coletividade? Em geral, isso não acontece: os alunos sabem apenas que há regra para horário, para usar uniforme etc.

Educar desde cedo com base em princípios visa à construção da autonomia; educar na base de regras produz infantilização. Conclusão: precisamos mais dos princípios do que das regras.

Escrito por Rosely Sayão às 11h09

A maturidade dos vestibulandos

Dia do Vestibulando. Não é incrível que haja uma data para lembrar uma situação tão efêmera? O estudante que se prepara para prestar o vestibular gasta nisso um ano, no máximo dois -quando ele insiste em cursar determinada faculdade e não um curso. Damos valor a isso: há grife inclusive na faculdade. Não sei se podemos considerar que há cursos de graduação muito melhores que outros; talvez o mais sensato seja reconhecer que há cursos muito piores que outros.

Conversei com alguns vestibulandos para entender como passam por esse período. Quase não encontrei consensos. Há vestibulandos que levam essa fase "numa boa", como dizem.
Estudam o necessário para passar, contando com a sorte, e não abrem mão de sua vida pessoal -continuam a namorar, passear e viver como antes.

Esses alunos têm em comum certa maturidade: têm a primeira escolha (a faculdade ou curso que desejariam freqüentar) e várias alternativas. Pelo jeito, não se sentirão humilhados nem diminuídos se tiverem de optar por elas. Um deles expressou o que considerei maturidade numa frase: "A gente passa no que pode, nem sempre no que quer". Mas é preciso lembrar que todos eles se importam com o exame e se dedicam -uns mais, outros menos.

Um outro grupo é o dos indecisos: eles estão patinando na escolha da profissão, ou melhor, do curso. Já mudaram de opinião várias vezes e parece que buscam garantias de vida no futuro próximo. Eles têm muitas perguntas sobre a vida e quase não têm interlocutores -alguns freqüentam programas de orientação vocacional, mas não ficam satisfeitos com o resultado e contam com a benevolência dos pais nessa indecisão. Por sinal, muitos adultos consideram precoce a escolha da profissão nessa idade. Isso não é uma aposta na imaturidade dos jovens e na imobilidade da vida profissional?

Um grupo que me chamou a atenção foi o dos jovens que se sentem pressionados. Eles nem sempre conseguem localizar de onde vem a pressão: pode vir dos pais (nem sempre direta), pode vir de seus pares, pode vir da sociedade. O fato é que a pressão já está internalizada e, mesmo que não seja clara, eles sempre irão enxergá-la e sofrer.
A ansiedade é a maior conseqüência dessa pressão e colabora para que esses adolescentes fiquem quase paralisados frente à missão que têm: estudam e não rendem, fracassam por antecipação e se culpam por isso.

Por último, há jovens que não sabem por que são vestibulandos. Eles parecem não encontrar sentido nos estudos e prestarão vestibular porque acham o fato inevitável. O mais sério é que desdenham o futuro e não imaginam que o que fazem no tempo presente é uma construção do que viverão logo mais.

O que mais me impressionou nas conversas com os vestibulandos foi a solidão e o abandono em que vivem, mesmo que não reconheçam tais situações. Fizemos com que acreditassem que passar no vestibular seria uma coisa importantíssima na vida deles, mas aprender a viver -e prestar vestibular é só um detalhe nesse aprendizado- tem muito mais valor. Para isso, a presença educativa e dedicada dos adultos -não infantilizadora- ainda é imprescindível, por mais que os jovens a queiram dispensar.

 

Escrito por Rosely Sayão às 22h38
Super Nanny funciona?

Uma leitora conta que leu um artigo meu na Folha em que eu analisei o programa “Super Nanny”, que passa em sua versão original no canal pago GNT e tem versão brasileira no canal aberto SBT. Ela argumenta que assiste ao programa e usa muitos dos conselhos dados com os filhos e – o mais importante - que eles funcionam. Por isso, ela quer saber por que é que eu critiquei o conteúdo do programa e mais: se o meu trabalho não é semelhante.

Eu nunca assisti à versão brasileira, mas imagino que ela deve seguir os mesmos padrões do programa original. Então, vou me basear neste último para fazer minhas observações.

A primeira coisa que quero dizer é que, de fato, muitas das recomendações praticadas pelos pais das crianças descontroladas, devidamente orientados pela Supernanny, funcionam. E o que significa funcionar no contexto do programa? Fazer com que as crianças deixem de se comportar de modo inadequado e passem a ter atitudes mais obedientes.

Como é o programa instituído pela Supernanny para dar conta dos problemas dos pais com os filhos? Em primeiro lugar, ela instala uma organização regrada na vida da família. A rotina da casa é escrita em um painel, passo-a-passo e com horários determinados, e os pais devem procurar cumprir cada etapa. Em segundo, ela cria regras que os pais devem aplicar na relação com os filhos. Assim, se um filho obedece ganha uma estrela, por exemplo, num cartaz, se desobedece ou não cumpre algo deixa de ter acesso a um brinquedo por um período etc.

Claro que, se os pais aplicam corretamente as regras, elas funcionam. Mas, funcionam da mesma maneira no adestramento de animais, por exemplo. O que significa isso? Que os filhos aprendem a obedecer às regras estabelecidas na base da recompensa-punição. Essa é uma visão, em minha opinião, muito simplista da educação, do papel dos pais e da criança ou mesmo do adolescente.

Agora, quero comentar a respeito da equivalência que a leitora viu entre meu trabalho e esse tipo de programa. Creio que a grande diferença é que, em primeiro lugar, eu não trabalho com regras e sim com princípios. E por quê? Porque considero que regras são recursos infantilizadores e restritos a determinadas situações enquanto os princípios norteiam todas as atitudes tomadas pelos pais em relação aos filhos e à vida.

Em segundo lugar, a proposta de meu trabalho, como vocês já perceberam, é colocar temas da educação e do contexto em que vivemos em discussão por considerar – reitero – que pensar a educação praticada é mais importante do que agir. Agir sem pensar é típico de criança e de adolescente; é reagir e não agir. Mesmo quando agimos na urgência – e com filhos e alunos isso é inevitável –, se pensamos sempre nos princípios que queremos que norteiem a educação que praticamos, a atitude tomada de imediato não será simples reação.

Por último: o programa Supernanny apresenta, nas entrelinhas, uma visão da qual eu discordo radicalmente: a de que os pais não são competentes para educar os filhos. Creio que as dificuldades maiores dos pais na atualidade são duas: assumir a autoridade necessária ao exercício do papel e saber separar os universos infantil e adolescente do mundo adulto. Mas, isso não ocorre apenas com os pais e sim com todos os adultos já que são traços da cultura contemporânea.

 

Escrito por Rosely Sayão às 12h59
Quando termina a adolescência?

Um leitor enviou uma questão bem instigante nos dias atuais. Ele quer saber em que idade termina a adolescência. Quem ousa responder? Creio que não sabemos mais nem quando essa fase da vida começa, tampouco quando termina!

A adolescência tinha época certa para começar até um tempo atrás: junto com a puberdade, época das grandes mudanças físicas. E terminar também: era quando o adolescente, finalmente, assumia total responsabilidade pela vida e tornava-se, portanto, adulto. E agora? Agora as crianças já começam a se comportar como adolescentes muito tempo antes de a puberdade se manifestar e continuam se comportando e vivendo assim por muito mais tempo. Mas essa fase tem de terminar perto dos 20 anos.

O objetivo mais importante da educação é a busca da autonomia e não se pode perder de vista esse rumo. Assim, ensinar uma criança pequena a se calçar sozinha, por exemplo, é apenas uma parte do processo educativo que supõe que, assim que possível, ela caminhe com seus próprios passos. É claro que isso não acontece de uma hora para outra, mas em etapas. Mas há de chegar o dia em que ela deve escolher os sapatos que irá vestir, comprá-los com dinheiro fruto de seu trabalho, usá-los para andar por onde quiser, e mais: terá de se responsabilizar pelas escolhas que fez. Isso é ser adulto.

Qual a diferença entre o adulto e o adolescente? Justamente essa: o adolescente ainda está a caminho de ter autonomia sobre sua vida. Os pais, mesmo que à distância e discretamente, ainda tutelam os passos do filho adolescente, e não sem razão. É que, para estes, ainda é prioritário e natural pensar primeiro no tempo presente, no prazer, na diversão, e só depois - às vezes tarde demais - nas conseqüências que suas atitudes e comportamentos podem provocar.

É difícil tornar-se responsável por tudo? Sem dúvida, e os adultos sabem muito bem disso. Mas há ganhos importantes: o da liberdade possível e o da autonomia, por exemplo.

Hoje, muitos pais agem de modo confuso em nome da educação para a autonomia. Garotas e garotos de 12 a 15 anos são liberados para freqüentarem festas noturnas, quase sem limites de horários e sem adultos por perto, mas não são exigidos a darem conta sozinhos da responsabilidade com a vida escolar, por exemplo.

Situações desse tipo não faltam numa sociedade que trata seus cidadãos de modo infantilizado e os faz acreditar – e muitos acreditam – que isso é feito para o bem-estar deles. Por isso, é bom que pais e educadores pensem com carinho na educação que praticam: para que crianças e adolescentes atinjam a vida adulta é preciso que sejam tratados de modo coerente e sejam responsabilizados, pouco a pouco, por aquilo que são capazes de arcar.

Escrito por Rosely Sayão às 12h26

Viver e conviver em grupo

Muitos leitores reagiram ao tema sobre o agir coletivo. Para a maioria, a questão para quem se preocupa com o bem comum é saber como incentivar tal atitude ou como educar filhos ou alunos para que saibam que pertencem a um grupo e dêem prioridade a esse lugar. Vamos, pois, pensar a esse respeito.

A família tem mudado muito nas últimas décadas não apenas em sua configuração mas também, e principalmente, em seu estilo de viver. É preciso reconhecer que o individualismo do nosso tempo influencia decisivamente essas mudanças, e nem sempre os pais percebem os efeitos dessa atitude em seu próprio comportamento educativo. O fato é que eles têm contribuído para que os filhos permaneçam cada vez mais centrados em si, já que a família encontra dificuldades para se tratar como grupo: o pronome nós parece ter perdido força.

Outro dia assisti a uma cena em um filme que considerei um belo exemplo. Um garoto de uns sete anos roubara um salame de uma padaria. Quando o pai chegou em casa e foi alertado pela mãe do ocorrido, obrigou o filho a devolver o alimento. Só depois o pai perguntou o motivo de sua atitude e obteve como resposta a preocupação de não ter o que comer. A frase do pai nesse momento é maravilhosa: "Seja qual for a situação, nós não roubamos". Essa frase guarda grandes lições.

A primeira: a família é um grupo que tem tradições, e todos os seus integrantes devem respeitá-las. É isso que permite que a família continue sendo um grupo de pertencimento. As lições passadas pelos pais aos filhos ensinam que eles têm responsabilidades por serem representantes desse grupo.

A segunda: estamos sempre associados a outras pessoas, seja de modo livre ou não. Por isso, ao tratar qualquer questão, é preciso considerar os que fazem parte desse grupo e não apenas os próprios interesses. No caso da família, tal associação não ocorre livremente: os filhos estão ligados aos pais sem escolha. Mesmo assim, fazem parte desse grupo e devem aprender a honrar essa relação. Os pais, entretanto, têm colaborado pouco para que os filhos vejam que a família é um grupo. É mais fácil a criança se perceber como centro de uma reunião de pessoas, e é desse modo que fica estagnada na relação egocêntrica com a vida.

Na escola também tem sido difícil oferecer oportunidades para que possa florescer a relação dos mais novos com o coletivo e com a criação do bem comum. Afinal, nesse ambiente o aluno poderia aprender a integrar os outros em sua vida e a se ver como membro de um coletivo.Não podemos deixar de reconhecer que há intenção nesse sentido: os trabalhos em grupo, por exemplo, são cada vez mais freqüentes. Mas os alunos precisam aprender a agir como integrantes de grupo na realização das tarefas, e isso pode significar se contrariar pelo bem do grupo, o que não é fácil.

Na juventude, eles buscam se agregar com mais solidez a grupos, mas como estão só com pares, acabam como cegos conduzidos por cegos na difícil aprendizagem de escapar do domínio dos outros sem deixar de estar associado a eles.

 

Escrito por Rosely Sayão às 09h38
A guerra das garotas com o corpo

A notícia está em todos os jornais: a Secretaria de Estado da Saúde realizou uma pesquisa no ambulatório de Ginecologia da Adolescente do Hospital das Clínicas com garotas entre 12 e 20 anos usuárias do serviço. Alguns dos resultados do estudo: 67% das adolescentes pesquisadas estão insatisfeitas com o corpo, 37% sentem vergonha de seu físico e 75% deixam de fazer pelo menos uma refeição ao dia em busca do emagrecimento.

A frase de uma garota aponta o quanto a aparência é priorizada em detrimento da saúde: “Nem me preocupo com os métodos, o importante é a felicidade que a magreza traz”. Recentemente, ao buscar na internet um artigo sobre felicidade, deparei-me com uma frase semelhante dita por uma artista de tv: “Felicidade é terminar o dia com o mesmo peso que acordei”.

Já faz tempo que o padrão de corpo imposto pela sociedade como bonito é o magro, muito magro e com poucas curvas. Entretanto, são poucas as mulheres que conseguem atingir tal padrão já que, principalmente em nosso país, a constituição física das mulheres é bem diferente. Para ter o corpo das modelos e, ao mesmo tempo, saúde, é preciso uma carga genética que permita isso.

Mas, nossas garotas insistem em atingir o padrão imposto – e na maioria das vezes inatingível - porque acreditam que só assim terão uma boa auto-imagem e boas relações sociais por terem um corpo perfeito. Isso é uma loucura. O pior: a responsabilidade é muito mais nossa do que dessas jovens.

Vamos reconhecer: no universo das mulheres adultas, muitas provavelmente mães de adolescentes, um tema freqüentemente abordado é a preocupação com o peso, tanto em conversas como em comportamentos. Basta dar uma olhada na oferta de sites, revistas e programas de tv a respeito de dietas para termos uma idéia da demanda que há sobre o assunto. Acredito ser mais comum mães de garotas conversarem com as filhas sobre a relação da alimentação com o peso do que com a saúde.

A adolescência é uma etapa encantadora da vida; vamos permitir que as garotas passem boa parte dela ocupadas com o peso? Precisamos introduzir – e por que não impor? - outros valores na vida delas, não é verdade?  E o primeiro passo talvez seja ouvi-las para dialogar com suas angustias nessa fase da vida tão cheia de insatisfações e inseguranças com a própria imagem.

Escrito por Rosely Sayão às 22h42