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Filhos precisam de pais potentes

A mãe de um garoto de 10 anos, ao contar a dificuldade que enfrenta para fazer o filho dormir em seu quarto e os meios que tem utilizado para tentar resolver a questão, falou duas frases que têm sido formuladas cada vez mais por pais. A primeira foi “eu não sei mais o que fazer” e  a outra “eu já tentei tudo”. Vamos pensar sobre o alcance e o significado dessas frases.

Uma das coisas que sabemos é que educar é tarefa árdua que exige potência da parte de quem educa, quer dizer, condições para se fazer obedecer e exercer autoridade e, sobretudo, capacidade para criar, agir e produzir. Além disso, sabemos também que as crianças, principalmente as pequenas, estabelecem uma comunicação tão direta com as pessoas com quem interagem com freqüência e intimidade – pais e professores – que logo percebem se há ou não convicção e firmeza em suas atitudes e/ou falas.

 Quando os pais dão alguma ordem mas não acreditam que irão ser obedecidos pelos filhos, estes logo percebem que há espaço para a transgressão. Do mesmo modo, quando os pais se sentem impotentes ou fracos para enfrentar a rebeldia ou a teimosia dos filhos, estes se sentem fortalecidos na desobediência e passam a acreditar que nada e ninguém podem detê-los. E isso não faz bem a ele.

Quando os pais dizem – mesmo que não diretamente ao filho -  que não sabem mais o que fazer, demonstram atitude de fragilidade no exercício de seu papel, e isso provoca na criança ou no adolescente a sensação de abandono: eles sentem como se os pais tivessem desistido dele.

Sempre há o que fazer e nunca os pais já tentaram de tudo para encontrar alguma solução para as dificuldades que enfrentam ao educar os filhos. O problema é que, em geral, os pais repetem a mesma atitude tomada anteriormente e que já sabem que não irá funcionar.

É por isso que o mais importante para quem educa é pensar a respeito do que foi feito e do que pode ser feito, e não agir. Quando os pais estão a sós, conversando entre si ou com seus botões, é a hora de refletir a respeito das atitudes educativas que foram tomadas no dia com os filhos, reconhecer as que não deram certo ou foram impulsivas e equivocadas e criar novas possibilidades. 

Não querer repetir o mesmo erro cometido é uma das maiores qualidade que os pais podem ter na busca de uma boa educação. Jamais abandonar o posto ou desistir de sua função é outra. Para tanto é preciso, principalmente, coragem.

Escrito por Rosely Sayão às 23h12

Tempo e falta de tempo

Cada vez mais ouço pessoas reclamarem do tempo ou da falta de tempo para conseguir dar conta de todas as responsabilidades e realizar as aspirações diárias e projetadas para curto e médio prazos. Parecemos os coelhos brancos do país de Alice, sempre atrasados e a dizer "É tarde, é tarde!". Talvez não seja o tempo. Pode ser excesso de atividades distribuídas no tempo disponível, por exemplo. Queremos fazer de tudo e não nos contentamos mais em fazer um pouco de tudo: queremos muito de tudo.

Trabalho, por exemplo, não ocorre mais só no local de trabalho. Não há mais horário de trabalho, principalmente com o advento do telefone celular. Qualquer hora é hora para resolver algo, responder a uma dúvida, fazer uma indagação, gravar um memorando, marcar uma reunião, ter uma idéia, checar a correspondência eletrônica profissional. Parece mesmo que tudo é urgente. Aliás, a expressão "é para ontem" é cada vez mais usada no campo profissional. Ironia que aponta o paradoxo que vivemos em relação ao tempo: afinal, o que era para ontem já está atrasado ou não pode mais ser realizado, não é?

Do mesmo modo, as relações familiares, principalmente a com os filhos, não ocorrem apenas no lar ou quando pais estão reunidos com os rebentos: o mesmo telefone móvel leva os filhos com os pais a todos os lugares e, assim, todo o tempo fica dividido com eles. Nas casas de espetáculos, por exemplo, todos ouvem um aviso para que desliguem o celular. Muitos optam por deixá-lo no modo silencioso: assim não perturbam o ambiente, mas, ao mesmo tempo, não perdem um chamado que, garantem os que são pais, pode ser dos filhos. Isso sem falar das constantes ligações dos filhos quando os pais estão no trabalho.

Talvez não seja o tempo escasso nosso problema, mas a dificuldade de administrá-lo. Não tem sido fácil, por exemplo, diferenciar o que é urgente do que é importante, tanto na vida profissional quanto na pessoal. E tem mais: não raramente desconhecemos o nosso próprio ritmo. E quem não tem intimidade com seu ritmo na vida aceita assumir mais -ou menos- coisas do que poderia realizar num determinado espaço de tempo. E será que temos colaborado para que os mais novos aprendam a conhecer o seu ritmo e a administrar o seu tempo?

Pelo jeito, a resposta é um sonoro e forte não! Na escola, por exemplo, os alunos aprendem muito pouco a esse respeito. Eles devem fazer suas atividades e aprender no tempo determinado pelo modo de funcionamento da escola, pela duração das aulas ou pelo comando do professor. Em geral, os alunos saem da escola -inclusive a de terceiro grau- sem saber efetivamente avaliar o tempo que precisam para realizar bem um projeto.

De modo similar, os pais costumam impor aos filhos a sua própria noção de ritmo para usar o tempo disponível. Desse modo, muitos filhos são caracterizados como rápidos ou lerdos de acordo com a velocidade dos pais para comer, para falar, para tomar banho etc. Ajudar o filho a aprender a administrar seu tempo não é cobrar que façam as coisas mais rapidamente e sim exigir que realizem as obrigações do dia sem ficar sem tempo para se dedicar ao que gostam e querem fazer. Agora, lotar o tempo dos filhos com atividades é uma péssima maneira de ajudá-los a se apropriarem de seu tempo e de seu ritmo.

Pais e escolas têm imposto o uso de agenda como estratégia para ensinar aos mais novos a administração do tempo. Ora, esse recurso só funciona para quem já aprendeu a se organizar no tempo por conhecer bem seu ritmo e ser capaz de distinguir prioridades, o que não é o caso crianças e adolescentes e, muitas vezes, nem de adultos, não é verdade?

Escrito por Rosely Sayão às 19h09
“Amar se aprende amando”

Outro dia, ouvi uma entrevista dada por uma adolescente de 14 anos a uma repórter a respeito do dia do beijo. E eu nem sabia que existia uma data reservada a isso. O que me impressionou foram as respostas que a garota deu: sem a menor cerimônia, ela disse que em sua lista de garotos beijados já constavam 57 deles. Aos 14 anos, vejam só. E mais: ela garantiu que não se tratavam de “selinhos” e sim de beijo de língua mesmo.

Quando a repórter perguntou se por acaso ela já havia beijado mais de um garoto na mesma noite ela, de pronto, disse que sim. O número campeão dela era sete na mesma festa até então, segundo informou, e da maioria dos garotos beijados ela não sabia sequer o nome.

Lembrei-me desse episódio ao assistir a um filme despretensioso mas muito bem feito chamado “Abc do amor”. Trata-se da história de um garoto de quase 11 anos que se apaixona por uma colega e que, como narrador, conta a história de seu primeiro amor. Pode parecer apenas um filme romântico, mas é possível superar essa primeira impressão. O enredo serve para mostrar o intervalo de tempo – cronologicamente curto, mas muito intenso na vivência - na vida do garoto em que ocorre a passagem da infância para a adolescência por meio do rito do amor.

A entrevista dada pela garota de 14 anos me ocorreu ao assistir a esse filme ao mesmo tempo em que me veio à lembrança um verso de um poema de Carlos Drummond de Andrade que diz “... O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar”. Aliás, o título do post de hoje é de um livro desse grande poeta.

Talvez hoje, em que o contato físico e as expressões da sexualidade se transformaram em mais um item de consumo, o grande desafio dos pais na formação dos filhos seja mostrar o valor do cultivo dos sentimentos e das emoções e o compromisso pessoal que isso acarreta. Educar na atualidade é uma arte cada vez mais complexa, não é verdade?

 PS: tenho refletido muito a respeito das virtudes em decorrências das discussões aqui no blog. Logo estarei pronta para escrever a respeito delas, ok?

Escrito por Rosely Sayão às 12h46
A experiência de um pai que decidiu agir coletivamente

Recebi correspondência de um pai que decidiu agir coletivamente e ensinar o filho a fazer o mesmo. A experiência dele está dando tão certo que decidi compartilhar com vocês. Quem sabe a idéia dele possa ser multiplicada ou, pelo menos, servir de inspiração aos internatutas que freqüentam constantemente o blog e se preocupam com os rumos da vida de todos.

Vejam que experiência maravilhosa ele contou. O filho, que está na oitava série de uma escola pública, tem bom aproveitamento escolar porque ele e a mulher consideram importante exigir isso. Pois bem: acontece que, na sala dele, há colegas que sequer sabem fazer uma conta simples de multiplicar sem usar os dedos, por exemplo. E, segundo esse pai, os professores não conseguem melhorar o quadro tampouco os pais desses alunos.  Foi pensando nesse problema que ele teve uma idéia e decidiu colocar em prática.

Chamou o filho e delegou a ele a responsabilidade de convidar alguns desses colegas que apresentavam baixo rendimento na aprendizagem e comportamento indisciplinado na sala para formar um grupo de estudos escolares. Ele disse ao filho que, como ele havia aprendido muita coisa, tinha a obrigação de compartilhar isso com os colegas. Então, o grupo passou a se reunir por duas horas, diariamente, na casa desse generoso e responsável pai, sempre com a supervisão, mesmo que à distância, dele ou da mulher.

Os resultados não demoraram a aparecer, para surpresa inclusive dos pais em questão. Os garotos passaram a entregar os trabalhos nos prazos estabelecidos pelos professores e a fazer pesquisa não apenas na internet, mas também em livros e até na biblioteca. O filho, por sua vez, passou a estudar mais para conseguir ensinar melhor aos colegas e, assim, cresceu muito na relação com o conhecimento.

Esse pai e essa mãe perceberam que os garotos são inteligentes e conseguem produzir, que só precisavam mesmo era de um incentivo como esse para colocarem o potencial que têm em ação. Mas, o mais importante, é que assumiram que os problemas da coletividade são de todos nós e não apenas dos outros.

Belíssima lição de cidadania! Esse casal conseguiu sair da reclamação para produzir transformação. Pode parecer uma ação pequena, mas não é. O alcance dela será grande, principalmente no futuro, a meta da educação.

Que esse exemplo sirva de lição e incentivo a todos nós.

Escrito por Rosely Sayão às 12h26

Agir coletivamente

Na sala de professores de um colégio, na hora do intervalo, os mestres conversam sobre os alunos de uma turma. Na verdade, eles reclamam: o grupo é agitado, disperso, não respeita os prazos para a entrega dos trabalhos, não cumpre com os deveres de casa, são desrespeitosos na convivência barulhenta que travam entre si e com os educadores etc.

Um professor afirma que decidiu tomar providências extremas: conversou com o coordenador do ciclo e vai passar a enviar os alunos que considera os "cabeças" da desorganização da sala para uma conversa e, possivelmente, uma exemplar punição. Outro diz que decidiu apertar os alunos no conteúdo e endurecer nas provas. Uma professora, mais tranqüila, informa que consegue ter a atenção deles e que, nos momentos de agitação, tenta acalmá-los com uma atividade diferente. Um colega reage com ironia e, assim que esta sai da sala, comenta que a aula dela é a mais barulhenta do corredor.

Cada mestre busca uma saída para enfrentar o caos da sala de aula, mas cada um deles pensa e age solitariamente: nenhuma proposta de ação coletiva e solidária é considerada. Uma outra cena, parecida em sua estrutura com essa primeira, ocorre diariamente nas ruas da cidade: num cruzamento em que o trânsito pára por minutos, um grupo aproveita para assaltar carros. Os assaltantes têm tempo até para escolher as vítimas, e quase todos os que estão presos nos veículos sabem o que está para acontecer.

Por alguns instantes, aqueles carros e seus condutores formam um grupo, mas, novamente, a resposta que têm é individualizada: um assegura que as portas estão trancadas, outro se tranqüiliza porque está num carro blindado e todos ficam impotentes, torcendo apenas para que o trânsito flua. Não passa pela cabeça de ninguém uma reação coletiva. Numa conversa com uma amiga, ela se perguntava se, no recente massacre ocorrido em uma universidade dos Estados Unidos, não teria sido possível salvar algumas vidas se professores e alunos tivessem tentado uma ação coletiva. Talvez sim, talvez não, mas o fato é que não pensamos nessa possibilidade simplesmente porque cada indivíduo se responsabiliza só por gerenciar a própria vida.

É: em tempos de individualismo, quem não pensa só em si pode se transformar em herói em raras situações -caso do professor que protegeu alunos no massacre citado e de alguns trabalhadores que devolveram dinheiro encontrado no espaço público- ou, mais freqüentemente, em ameaça, já que muitos sentem que quem busca proteger o bem comum fere a liberdade individual. Um grupo de pais que conheço fez uma campanha pelo respeito às leis do trânsito nos arredores da escola dos filhos. Foram muito mal recebidos pelos pais que param em fila dupla e estacionam em local proibido. Cada um julga ter um bom motivo pessoal para agir assim.

O problema é que, ao vivermos na lei do "cada um por si". deixamos de ter o sentimento de pertença, esquecemos que somos interdependentes e perdemos a noção de que buscar o bem comum resulta em benefícios para cada indivíduo.

 

Escrito por Rosely Sayão às 14h05
Auto-estima dos filhos

Já faz um tempo que os pais preocupam-se com a questão da auto-estima dos filhos. Eles elogiam, eles incentivam, eles fazem de tudo para colaborar com o filho nesse item já que ter uma boa auto-estima é condição para viver bem. Entretanto, frequentemente os pais têm produzido um efeito bem diferente. Esse tema foi motivo de uma boa reportagem no jornal espanhol “El Pais” e, na semana passada, eu havia colocado o link aqui. Mas, como a matéria é conteúdo exclusivo para assinantes UOL e não pode ser reproduzida, vou comentá-la hoje. Os assinantes podem ler o texto na íntegra em: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/elpais/2007/04/27/ult581u2083.jhtm

O que vem a ser auto-estima? De um modo geral, é o valor que a pessoa se dá. O problema é que, quando a criança se valoriza em detrimento do valor que dá ao outro, a buscada auto-estima se transforma em arrogância e tirania.

Na matéria citada, profissionais foram procurados para ajudar a estabelecer a diferença entre auto-estima e arrogância. "Auto-estima é o que cada pessoa sente por si mesma. Seu julgamento geral sobre si mesma, na medida em que sua própria pessoa lhe agrada. Auto-estima elevada não consiste em uma presunção ruidosa. É, sobretudo, um respeito silencioso por si mesmo, a sensação do próprio valor. Quando alguém a sente no fundo de seu ser, alegra-se por ser quem é. A presunção, em troca, não passa de uma capa delgada que cobre a falta de auto-estima. Aquele cuja auto-estima é elevada não perde tempo em impressionar os demais: sabe que tem valor", diz Dorothy Corkille.

Já a psicanalista Isabel Menéndez afirma: "Entende-se por auto-estima que a criança tenha uma percepção de si mesma como alguém valioso e querido, especialmente pelos pais. Ela é construída quando os adultos acompanham a criança no crescimento, impondo-lhe limites, quer dizer, educando-a e formando sua personalidade.”. Lurdes Cestero, psicóloga clínica, acrescenta: "Auto-estima é a capacidade de estar bem consigo mesmo e com o entorno, em um sentido profundo, íntimo". "Às vezes se confunde auto-estima com egolatria. A egolatria é uma estima inflada, baseada em ouvir 'você é maravilhoso'.”

Talvez, um dos motivos desse novo costume de os pais declararem constantemente o amor aos filhos tenha relação com a busca de uma boa auto-estima para os rebentos. Por sinal, no último texto eu não julguei errada tal conduta: apenas analisei um de seus aspectos.

De fato: a criança que sente que é amada por seus pais se valoriza, mas é preciso lembrar que o amor dos pais não é feito só de palavras. “Não basta dizer cem vezes à criança "eu a amo" se o espelho do olhar, da expressão, o discurso não-falado, o que nunca engana, diz outra coisa. Para sentir-se completamente bem por dentro, as crianças precisam de experiências vitais que provem que elas são valiosas e dignas de serem amadas", diz Corkille na matéria.

Considero a declaração de amor dos pais aos filhos algo extremamente valioso em sua formação, mas essa declaração nem sempre é feita por meio de palavras. Afinal, dizer “eu te amo” é simples. O complexo é manifestar isso na convivência, seja com filhos, seja com companheiros, não é verdade?

PS: Não responder aos comentários dos internautas de modo individualizado é apenas um modo de administrar o blog. Escolhi responder de modo coletivo, por meio dos posts, e creio que fica explicitado que dialogo sempre com os comentários postados.

Escrito por Rosely Sayão às 11h50